Categoria: Contos, crônicas, poesias & afins
Alba
Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
do leste — o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.
*
[Geir Campos]
Tanto a escrever…
Tanto a escrever, mas não posso. Ideias pululam zombeteiras e precisam aguardar que eu tenha tempo para registrá-las. Por enquanto, nada de escrever. No entanto, fica aqui uma dica de leitura: Revista Caros Amigos, edição especial sobre Educação, publicada agora em junho.
Quem vai colocar o guizo no pescoço do gato?…
Eu me pergunto até que ponto a direita não se manteve no poder no governo Lula… Os banqueiros continuaram lucrando seus trilhões, as universidades privadas continuaram recebendo recursos públicos, as privatizações mantiveram seu curso, e as terceirizações também, inclusive através das ongs de todos os tipos e matizes, que recebem zilhões para fazer exatamente o que o poder público poderia fazer com menos custo, mais eficiência e mais qualidade.
Não sou a favor do quanto pior melhor, e reconheço que muita gente saiu da pobreza extrema… e isso é bom, claro!
Porém, no capitalismo não importa muito quem governa, importa é quem domina, porque quem domina é que tem o poder, não é mesmo? E, no capitalismo, quem domina é o capital, especulativo e/ou produtivo.
E nesta tal luta institucional quem tem botado o guizo no pescoço do gato continua sendo o capital, seja lá em Brasília, em Sto. André ou em SBC…
Perguntas de um operário que lê
Quem construiu Tebas, a das
sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que
transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras
tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus
obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os
seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu?
Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha
palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em
que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus
escravos.
O jovem Alexandre conquistou
as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um
cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de
Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete
anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma
vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande
homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas
perguntas
[Bertolt Brecht]
A Suposta Existência
Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?
O interior do apartamente desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?
Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos – e algum dia
o serão?
Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?
Concretitude das coisas: falácia
de olhar enganador, ouvido falso, mão que brinca de pegar o não
e pegando concede-lhe
a ilusão da forma
e, ilusão maior, a de sentido?
Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-se
e fruir peripécias de passagem?
Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.
A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.
[Carlos Drummond de Andrade, In_A Paixão Medida]
Avisos encontrados em uma paróquia…
São avisos fixados nas portas de igrejas, escritos com muito boa vontade e má redação… Divirtam-se!!!
AVISO AOS PAROQUIANOS
Para todos os que tenham filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.
AVISO AOS PAROQUIANOS
Quinta-feira que vem, às cinco da tarde, haverá uma reunião do grupo de mães. Todas as senhoras que desejem formar parte das mães, devem dirigir-se ao escritório do pároco.
AVISO AOS PAROQUIANOS
Interessados em participar do grupo de planejamento familiar, entrem pela porta de trás.
AVISO AOS PAROQUIANOS
Na sexta-feira às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.
AVISO AOS PAROQUIANOS
Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam os seus maridos!
AVISO AOS PAROQUIANOS
Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.
AVISO AOS PAROQUIANOS
O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.
AVISO AOS PAROQUIANOS
O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia..
AVISO AOS PAROQUIANOS
O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, vamos tentar derrotar o Cristo Rei!
AVISO AOS PAROQUIANOS
O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui a comida.
AVISO AOS PAROQUIANOS
Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem que sejam lembrados.
Mundo Cão S.A
Assistindo jornal mundo cão pra lembrar que as desgraças alheias são sempre as piores…
Beleza triste
Não te rendas jamais
| Procura acrescentar um côvado à tua altura. Que o mundo está à míngua de valores e um homem de estatura justifica a existência de um milhão de pigmeus a navegar na rota previsível entre a impostura e a mesquinhez dos filisteus. Ergue-te desse oceano que dócil se derrama sobre a areia e busca as profundezas, o tumulto do sangue a irromper na veia contra os diques do cinismo e os rochedos de torpezas que as nações antepõem a seus rebeldes. Não te rendas jamais, nunca te entregues, foge das redes, expande teu destino. E caso fiques tão só que nem mesmo um cão venha te lamber a mão, atira-te contra as escarpas de tua angústia e explode em grito, em raiva, em pranto. Porque desse teu gesto há de nascer o Espanto. |
[Eduardo Alves da Costa]

