Repulsa ao sexo

Este é o penúltimo texto escrito pela psicanalista antes de ser demitida do jornal O Estado de S. Paulo. Porém, trata de um tema mais atual do que nunca: o aborto

Vinicius Canhoto

Por Maria Rita Kehl 15 de outubro de 2010 às 11:14h 

Entre os três candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células–tronco.

Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.

Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.

O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CCNBB, o Ministro Paulo Vannucci precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.

O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século XVII.

A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isto. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.

A ambigüidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause…), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o Papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.

Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que agüentar as conseqüências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

Da carta aos banqueiros à carta às parteiras

Por Vinicius Canhoto*

“A violência que existe contra todas as meninas e mulheres”

Renato Russo IN: Clarisse

 

Será que eu sou medieval? Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova Idade Média. Na mídia da novidade média

Cazuza IN: Medieval

 

            As últimas querelas e calúnias políticas me obrigaram, por decepção e angústia, a sair do silêncio de leitor e recorrer ao barulhento trabalho de autor. A carta pública assinada ontem pela candidata Dilma Roussef em que se compromete a não interferir pessoalmente, enquanto membro do executivo, nas questões religiosas e aborto, me lembrou a carta “ao povo brasileiro” assinada por Lula às vésperas da eleição de 2002. Em ambos episódios, essas cartas vieram para atenuar o temor criado pela mídia e pelos adversários políticos diretos. Ambas as cartas foram recados conservadores que, apesar de todo floreio e estilo de escrita, poderiam se resumir à simples expressão: “Nada vai ser mudado”. Daí surge a pergunta: o que motiva ambas as cartas e o que as difere?

            A primeira carta foi um compromisso que Lula assumiu de não alterar as regras e a forma de fazer economia na época. Por conta disso, muitos (inclusive eu) a chamam de “carta aos banqueiros”, pois o temor de uma “radicalização” na política econômica vinha sendo alimentado tanto pela imprensa partidária (em todos os sentidos da palavra), quanto pelo bloco PSDB/PFL. Nesta carta, Lula, por conta do contexto criado, vestiu a capa (ou será cartola?) do conservadorismo econômico para evitar a terceira derrota na eleição.

            A segunda carta, por mais irônico que pareça, é ainda mais conservadora e regressiva. Ao modo da primeira, esta carta diz: “Nada vai ser mudado”. Porém o que motiva e difere esta segunda carta da primeira é a religião e o aborto. O tema nivelou a campanha por baixo. Pouco importa quem privatizou mais, quem privatizou menos, quem desenvolveu mais o país, quem desenvolveu menos, quem melhorou educação, saúde, quem criou programas sociais ou qualquer outro tema mais abrangente. Esta campanha está sendo pautada pela calúnia, pela difamação, por aquilo que ficou famoso por Goebbels: “Invente uma mentira, repita-a mil vezes e ela se torna verdade”. Para desmentir uma invenção da Mônica Serra de que a candidata do PT “é a favor de matar criancinhas”, Dilma Roussef se viu levada a escrever aquilo que eu chamo de “carta às parteiras” para não dizer “carta às aborteiras”. Isso para tentar estancar a rede de boataria pela internet, pelos altares, pelos palcos, pelos púlpitos, pelos panfletos, pelo boca-a-boca de que a candidata é a favor de “matar criancinhas”.

Campanha subterrânea e anônima endossada pela imprensa partidária e tudo mais. E o pior que isso é tanto de um lado, quanto de outro. Da ala “dilmista” também surgem (em menor escala) histórias de abortos assumidos e não assumidos publicamente do lado tucano.

            O que move esta questão e a segunda carta, para mim, é pior que a primeira. Se a primeira mandava um recado nas entrelinhas: “OK, a farra financeira continua!”; esta segunda diz: “OK, sigamos com chás, comprimidos, e agulhas de tricô”. Pois demagogia a parte, como todos sabem (e se não sabem deveriam saber) quem tem dinheiro faz aborto em clínicas clandestinas, porém seguras, sem o menor risco para a mulher. E quem recorre aos outros expedientes? Mulheres pobres que não têm (e aqui não vamos entrar nos méritos, para isso recomendo o texto da Maria Rita Kehl, intitulado Repulsa ao Sexo, também publicado nesta seção) condições de assumir uma gravidez e se aventurarem em processos desesperados de interrupção de gravidez que muitas vezes resultam em mortalidade feminina. Particularmente, sou a favor de qualquer liberdade individual e descriminalização de atos referente ao próprio corpo. Isso vale para a mulher que quer abortar, para indivíduo que quer se drogar, para o suicida. Estas questões não deveriam passar pelo crivo do Estado. As religiões podem até debater esta questão, porém cabe a cada um, de acordo com seu critério, seja ele religioso, econômico, cultural, decidir o que é melhor para si. E no contexto de campanha, este tema vir à tona revela apenas o empobrecimento e o vale-tudo que se tornou o debate político atual.

            Para não dizer que não falei em literatura deixo como tema leitura o poema A infanticida Maria Farrar, do Brecht, que passei anos a fio procurando depois que eu o ouvi no teatro; para conhecê-lo, visite a seção Literários, deste Blog.

*Vinicius Canhoto é escritor e publica o Blog Inferno Riscado a Giz, dedicado à literatura.

Mulher de Serra abortou, diz aluna.

Relutei até o momento em postar qualquer texto referente ao cínico debate sobre o aborto, tema usado como forma de enfraquecer a candidatura de Dilma Roussef. Mas deixou de ser cínico pra ser hipocrisia elevado à máxima potência, pois o casal 45, que acusa Dilma de defender o aborto (é uma pena que Dilma não bancou o debate!!!) está sendo agora acusado por uma ex-aluna de Monica Serra de ter feito aborto. Os textos a seguir foram extraídos do sítio do jornalista Paulo Henrique Amorim (http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/10/16/mulher-de-serra-abortou-diz-aluna-ele-passou-trator-por-cima-da-mulher/):

A coreógrafa Sheila Ribeiro contou que sua professora Monica Serra, mulher do José Serra, contou a alunas que fez um aborto quando o casal morava no Chile.

José Serra introduziu a calhordice do aborto nesta campanha – na opinião de Ciro Gomes.

Não era nenhuma novidade, porque, segundo o mesmo Ciro, Serra é capaz de passar com um trator por cima da cabeça da mãe, se for necessário.

Era necessário: ser Presidente a qualquer custo.

E foi o que ele fez, agora, ao levantar a bandeira do aborto: passou com o trator por cima da própria mulher.

Monica Serra parece ter concordado.

Ela foi à Baixada Fluminense, no Rio, pedir para não votar na Dilma, porque ela defenderia a morte de criancinhas num aborto.

A Dilma atacou Serra no debate da Band por causa disso, mas o Serra não defendeu a mulher.

Agora, se entende por que.

O Conversa Afiada por vários dias se recusou a publicar a reportagem da publicação Correio do Brasil, por não conseguir confirmá-la.

Ontem à noite, o Conversa Afiada recebeu cópia de uma troca de e-mails em que a aluna de Monica Serra, Sheila Ribeiro, explicava a um jornalista que queria entrevistá-la por que  fez a denuncia:
 

Gente, é MUITO SIMPLES

 Vi do sofá o debate dos presidenciáveis.

Me surpreendi pq nem sabia de polêmica nenhuma sobre aborto (não estava acompanhando).

Postei minha reflexão no FB baseada nas minhas experiências e no meu susto.

Desde então, acham que

1- sou do PSDB: “armação contra a Dilma”;

2-  sou do PT: “boato contra o Serra”.

 Não tem “boato”, teve um RELATO.

 Eu não estou fazendo campanha de ninguém e muito menos ganhei $$ pra ser uma cidadã comum e colocar uma opinião indignada no FB. Voto na Dilma, pq prefiro um Brasil feliz com auto-estima e o Serra, para mim, representa um retrocesso espiritual.

 O que ninguém vê, é que pode existir no Brasil, uma simples cidadã, que não é ligada à ninguém e que exerce a cidadania emitindo suas opiniões e experiências.

 Como na França, na Argentina, as pessoas FALAM… o Brasil não vive na repressão.

 Quando uma pessoa é um personagem público, como a Mônica Serra,  ela REPRESENTA muitas coisas, inclusive posição ética. Me assustei com o debate. Se eu visse o Nelson Mandela na TV, sendo racista.. me assustaria e escreveria igual.

 Essa é a política cidadã que quero participar em meu país.

 Agora, eu preciso continuar a viver minha vida.

Dei uma entrevista ao “correio do brasil” onde falo da minha postagem no FB e o que eu tinha a dizer, já está muito bem escrito lá.

 Um abraço,
Leia, a seguir, o que publicou o Correio do Brasil”:

Sábado, 16 de Outubro de 2010


 Ano XI – Número 3941

“Monica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor”, afirma ex-aluna da mulher de presidenciável 

13/10/2010 12:39,  Por Redação, do Rio de Janeiro e São Paulo

 O desempenho do presidenciável tucano, José Serra, no debate do último domingo pela TV Bandeirantes, foi a gota d’água para uma eleitora brasileira. O silêncio do candidato diante da reclamação formulada pela adversária, Dilma Rousseff (PT) – de que fora acusada pela mulher dele, a ex-bailarina e psicoterapeuta Sylvia Monica Allende Serra, de “matar criancinhas” –, causou indignação em Sheila Canevacci Ribeiro, a ponto de levá-la até sua página em uma rede social, onde escreveu um desabafo que tende a abalar o argumento do postulante ao Palácio do Planalto acerca do tema que divide o país, no segundo turno das eleições. A coreógrafa Sheila Ribeiro relata, em um depoimento emocionado, que a ex-professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Monica Serra relatou às alunas da turma de 1992, em sala de aula, que foi levada a fazer um aborto “no quarto mês de gravidez”.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, na noite desta segunda-feira, Sheila deixa claro que não era partidária de Dilma ou de Serra no primeiro turno: “Votei no Plínio (de Arruda Sampaio)”, declara. Da mesma forma, esclarece ser apenas uma eleitora, com cidadania brasileira e canadense, que repudiou o ambiente de hipocrisia conduzido pelo candidato da aliança de direita, ao criminalizar um procedimento cirúrgico a que milhões de brasileiras são levadas a realizar em algum momento da vida. Sheila, durante a entrevista, lembra que no Canadá este é um serviço prestado em clínicas e hospitais do Estado, como forma de evitar a morte das mulheres que precisam recorrer à medida “drástica e contundente”, como fez questão de frisar.

No texto, intitulado “Respeitemos a dor de Mônica Serra”, Sheila Ribeiro repete a pergunta de Dilma, que ficou sem resposta:

– Se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Leia o texto, na íntegra:

“Respeitemos a dor de Mônica Serra

“Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

“Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem (domingo), fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

“Achei impressionante que o candidato Serra evita tocar no assunto da descriminalização do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor.

“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de quatro meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o Estado.

“Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

“Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido seja eleito presidente?

“Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito à dor calada de Mônica Serra,

“VOTO DILMA”, registra, em letras maiúsculas, no texto publicado em sua página no Facebook, nesta segunda-feira, às 10h24.

Reflexão

Diante da imediata repercussão de suas palavras, Sheila acrescentou em sua página um comentário no qual afirma ser favorável “à privacidade das pessoas”.

“Inclusive da minha. Quando uma pessoa é um personagem público, ela representa muitas coisas. Escrevi uma reflexão, depois de assistir a um debate televisivo onde a figura simbólica de Mõnica Serra surgiu. Ali uma incongruência: a pessoa que lutou na ditadura e que foi vítima de repressão como mulher (com evento trágico naquele caso, pois que nem sempre o aborto é trágico quando é legalizado e normalizado) versus a mulher que luta contra a descriminalização do aborto com as frases clássicas do “estão matando as criancinhas”. Quem a Mônica Serra estaria escolhendo ser enquanto pessoa simbólica? Se é que tem escolha – foi minha pergunta.

“Muitas pessoas públicas servem-se de suas histórias como bandeiras pelos direitos humanos ou, ainda, ficam quietas quando não querem usá-las. Por isso escrevi ‘respeitemos a dor’. Para mim é: respeitemos que muita gente já lutou pra que o voto existisse e que para que cada um pudesse votar, inclusive nulo; muita monica-serra-pessoa já sofreu no Brasil e em outros países na repressão para que outras mulheres pudessem escolher o que fazer com seus corpos e muitas monicas-serras simbólicas já impediram que o aborto fosse descriminalizado.

“Muitas pessoas já foram lapidadas em praça pública por adultério e muitas outras lutaram pra que a sexualidade de cada um seja algo de direito. A minha questão é: uma pessoa que é lapidada em praça pública não faz campanha pela lapidação, então respeitemos sua dor, algo está errado. Se uma pessoa pública conta em público que foi lapidada, que foi vítima, que foi torturada, que sofreu, por motivos de repressão, esse assunto deve ser respeitadíssimo.

“Vinte por cento da população fazem abortos e esses 20% tem o direito absoluto de ter sua privacidade, no entanto quando decidem mostrar-se publicamente não entendo que estes assimilem-se ao repressor”, acrescentou a ex-aluna de Monica Serra, que teria relatado a experiência, traumática, às alunas da turma de 1992.

Exílio e ditadura

Sheila diz ainda, em seu depoimento, que “muitas pessoas querem ‘explicações” para o fato de ela declarar, publicamente, o que a ex-professora disse às suas alunas na Unicamp.

“Eu sou apenas uma pessoa, uma mulher, uma cidadã que viu um debate e que se assustou, se indignou e colocou seu ponto de vista na internet. Ao ver Dilma dizendo que Mônica falou algo sobre ‘matar criancinhas’, duvidei.

“Duvidei porque fui sua aluna e compartilhei do que ela contou, publicamente (que havia feito um aborto), em sala de aula. Eu me disse que uma pessoa que divide sua dor sobre o aborto, sobre o exílio e sobre a ditadura, não diria nunca uma atrocidade dessas, mesmo sendo da oposição. Essa afirmação de ‘criancinhas assassinadas’ é do nível do ‘comunista come criancinha’. A Mônica Serra é mais classe do que isso (e, aliás, gosto muito dela, apesar do Serra não ser meu candidato).

“Por isso, deixei claro o meu posicionamento que o aborto não pode ser considerado um crime – como não é na Itália, na França e em outros países. Nesse sentido não quero ser usada como uma ‘denunciadora de um ‘delito’. Ao contrário, estou relembrando na internet, aos meus amigos de FB (Facebook), que o aborto é uma questão complexa que envolve a todos e que, como nos países decentes, não pode ser considerado um crime – mas deve ser enfrentado como assunto de saúde.

“O Brasil tem muitos assuntos a serem tratados, vamos tratá-los com o carinho e com a delicadeza que merece.

“Agora volto ao meu trabalho”, conclui Sheila o seu relato na página da rede social.

Sem resposta

Diante da afirmativa da ex-aluna de Sylvia Monica Serra, o Correio do Brasil procurou pelo candidato, no Twitter, às 23h57:

“@joseserra_ Sr. candidato Serra. Recebemos a informação de que Dnª Monica Serra teria feito um aborto. O sr. tem como repercutir isso?”

Da mesma forma, foi encaminhado um e-mail à assessoria de imprensa e, posteriormente, um contato telefônico com o comitê de Serra, em São Paulo. Até o fechamento desta matéria, às 1239h desta quarta-feira, porém, não houve qualquer resposta à pergunta. O candidato, a exemplo do debate com a candidata petista, novamente optou pelo silêncio.

O delegado, o palhaço, a laranja e o dono da moral

Por Marcelo Siqueira

Em julho, quando a campanha eleitoral mal tinha entrado em campo, afirmei que o delegado federal Protógenes Queiroz (http://blogdoprotogenes.com.br/), que havia se candidatado para deputado federal, seria um dos mais bem votados do Brasil; ou isso, ou poderíamos pedir as contas e fechar o país – e nem poderíamos dizer ao último que saísse que apagasse as luzes, que estas estariam já apagadas por falta de saldo moral.

Pois bem, Protógenes foi eleito, mas, não passou nem perto do mais bem votado! Deixemos pelo menos as chaves na porta e os dedos no interruptor, porque cada ano que passa a coisa fica mais feia. Porém, antes acompanhemos o trabalho do Protógenes, que só está começando…

Desta vez, o folclore eleitoral elevou aos cumes políticos a figura do palhaço Tiririca, que tinha como mote o “pior do que tá não fica” e que, com toda a sinceridade, deixou bem claro a que veio: “quero ajudar os mais ‘necessitado’, inclusive a minha família” (ai!!!).

O candidato mais bem votado nessas eleições também declarou que não sabe o que faz um deputado federal. Ora, mas Tiririca não está sozinho nesse desconhecimento, porque foi o mesmo que disse o ilustre desconhecido Índio da Costa, quando, indagado sobre ser candidato a vice de Serra, afirmou: “Não tenho a menor ideia de nada”!

Pior do que tá não fica?

Olha só o caso do Distrito Federal: o Joaquim Roriz desistiu da candidatura pra evitar ser punido pela Lei da Ficha Limpa, porque até papel higiênico usado é mais limpo do que a ficha dele, e ele deve saber bem disso, senão pegaria emprestado o óleo de peroba do Maluf e continuava na disputa. Então ele coloca a própria mulher como candidata – uma senhora que mal sabe articular uma palavra após a outra, que aparece do nada, vindo de lugar nenhum e indo pra lugar algum, que a todas as respostas sobre seu projeto de governo só sabe responder que terá uma equipe de governo bem capacitada pra resolver isso, pra resolver aquilo (quem será que vai comandar essa equipe de governo, hein, hein, hein?!)… E ainda a laranja vai pro segundo turno!!!

Pior do que tá não fica… Ou será que fica?

Porque agora tem o segundo turno pra presidente e a dulpa Serra-Índio ataca como se fosse a dona da moral, a santíssima trindade em pessoa (nesse caso, formada pelo Ilustre Desconhecido, pelo Zé Pedágio e pela TFP –  aquela mesma que apoiou o golpe militar e a ditadura no Brasil, e agora se anuncia como a guardiã da democracia! Sei, sei…).

Deu na Folha On Line nesta quinta-feira, 07 de outubro, que Serra promete debater valores na campanha, numa sórdida insinuação de que sua adversária seria imoral e ele, Serra, o defensor da moral e dos bons costumes.

O “bom” Serra (que, segundo suas próprias palavras: “não estou prometendo, estou dizendo o que vou fazer”), tão digno de confiança que assina embaixo do que diz, assim como assinou e registrou em cartório um documento se comprometendo a, caso fosse eleito prefeito de São Paulo, cumprir o mandato até o final e não deixar o cargo para disputar outro cargo eletivo!…

O “próbrio” Serra que esqueceu o que escreveu, esqueceu o que assinou, esqueceu o que prometeu e esqueceu o que disse que NÃO ia fazer… E fez! E assim como não completou o mandato como prefeito, não completou o mandato como governador. E esse é o defensor da moral, dos valores, da palavra de honra, que não precisa nem dizer a que vem, porque suas ações falam claramente: pra ter poder, poder… e mais poder! Ele tem sede de poder…

O “digno” Serra da máfia dos sanguessugas, das privatizações, do Pior Salário do Brasil, da educação falida, da favela de estúdio, do metrô que afundou, dos pedágios exorbitantes, do governo refém do crime organizado (dos comandos e dos colarinhos brancos)!…

O dono da moral, José Serra – veja na FSP de 04 de agosto de 2010, página C14 -, é o autor desta pérola, verdadeira mostra do cinismo tucano, ao se referir ao seu parceiro candidato a vice-presidente: “[Índio] Tem uma namorada e, me disse por telefone, “não tenho amantes“. Eu até disse: também não precisa exagerar. O que tem que ser é uma coisa discreta“.

“Uma coisa discreta”…

Imagine uma conversa hipotética entre dois Zés, o do Panetone e o Alagão: O Alagão pergunta ao do Panetone: “E aí, meu futuro vice, tá tudo certinho no seu governo, nada que possa virar um escândalo?…” E o do Panetone responde: “Fica tranquilo, que aqui a ficha tá limpa!” Daí o Zé Alagão responde: “Também não precisa exagerar. O que tem que ser é uma coisa discreta”… 

O fim dessa história fictícia nós podemos inventar também: o Zé do Panetone não era nada discreto – foi flagrado recebendo propina, foi preso e perdeu o mandato de governador – e o Alagão teve que trocar de vice).

Pior do que tá não fica? FICA!!!