Chegava sempre cansada, emagrecida pelos dez meses de professorado”*

Por Anderson Esteves, do Blog: http://anderesteves.wordpress.com/

A consciência moral de um professor, edificada com subjacência na representação de uma sociedade democrática e justa, dissolve-se sob a atual falta de democracia e de justiça. Tais são a degradação e a subserviência do professor sob os monopólios que controlam a educação que ele perdeu o controle da própria aula que leciona, uma vez que as avaliações (semanal, mensal, bimestral, final…) e as tarefas são diárias e ininterruptas como na indústria, não programadas por quem executa o que foi estabelecido aprioristicamente. O profissional que o Iluminismo sonhou como educador da autonomia vive sob a heteronomia: a divisão do trabalho que responsabilizou e agenciou a educação para um profissional específico, e isentou de responsabilidade outras pessoas e instituições, redundou em uma rua de mão única em direção à falência da educação burguesa – o responsável pela educação foi captado em meio à barbárie e, assim, esta se propagou. Quanto mais escolas a civilização industrial empreende, mais se barbariza. Ocorre com o professor o mesmo que Marx considerou ter ocorrido com o trabalhador sob a época da implantação da grande indústria: frente à máquina, o antigo trabalhador da manufatura, do artesanato e do trabalho a domicílio perdeu a autonomia e se tornou obsoleto por conta do barateamento da mercadoria à medida que a parte de trabalho pago foi encurtada. Na grande indústria, a força motriz e a transmissão que fazem mover a máquina tornam possível a “exploração mecanizada”(1) à medida que os instrumentos manuseados pelo trabalhador são ferramentas de um mecanismo em que há cooperação de muitas máquinas de espécies idênticas (um motor que oferece força para vários teares funcionarem ao mesmo tempo, por exemplo) e um sistema de máquinas (o objeto percorre diversos processos parciais e conexos por máquinas-ferramentas de espécies diferentes, mas complementares umas às outras e servidoras de matérias-primas à máquina seguinte, constituindo um “grande autômato”[2] ) – das máquinas-ferramentas em cooperação ou em sistema que Marx considerou ter partido a “revolução industrial” (3) . Na indústria educacional, os estudantes, do chão da escola-indústria, executam sua parte na linha de produção e os professores documentam todo o processo em seus diários, corrigem e corrigem sem corrigirem nada, são impotentes para consertarem seja o que for, e o grande autômato exige a “entrega da nota” em uma data pré-estabelecida da mesma forma que uma esteira entrega uma peça, que uma emissora entrega um programa aos espectadores – o professor sob a indústria educacional é caracterizado como uma máquina-ferramenta heterônoma, não como um artesão autônomo. Não é gratuito que, na grande indústria, a produção seja em série e, na indústria educacional, o processo de ensino-aprendizagem seja organizado em séries (nove no ensino fundamental; três, no médio): o denominador comum de ambas é a produção em massa, sendo que e a indústria educacional pensa cada série como um mecanismo de cooperação de máquinas idênticas ou como um sistema de máquinas cuja tarefa é entregar a matéria-prima (reificação) da série seguinte – trata-se da industrialização do ideário liberal de universalização/mediocrização de saberes importantes à reprodução de capital. Diante da máquina-ferramenta e do autômato, Marx argumentou que o trabalhador precisa aprender, desde cedo, o movimento contínuo e ininterrupto da produção. A prova de que o processo é a adaptação do trabalhador ao maquinário é a possibilidade do pessoal ser trocado, diariamente, em turnos de trabalho para que a produção não pare . Para o professor, as novas tecnologias e a colonização da socialização primária pela secundária sobrecarregaram-no de atividades que, anteriormente, pertenciam a outros âmbitos da escola-indústria e à instituição familiar: ao assumir funções anteriormente pertencentes à direção, à coordenação, à secretaria, à recepção e mesmo dar conta de questões higiênicas, comportamentais (jovens e adultos, inclusive), psíquicas e patológicas dos estudantes, ele sofre com a intensificação da mais valia relativa, uma vez que foi reificado como máquina-ferramenta provedora de forma e de conteúdo do sistema informatizado e administrado sob a “exploração mecanizada”. Do fordismo à acumulação flexível, a dominação sobre o professor aumentou à medida que ele foi controlado pela reengenharia da administração em rede que o faz trabalhar de qualquer lugar, graças às novas tecnologias, e que os nichos de mercado que são alvo da escola-indústria obrigam a mudança de sua estrutura interna o tempo todo.Como servo da indústria educacional, ocorre com o professor o que José Américo de Almeida descreveu ocorrer com o brejeiro sob a bagaceira que degrada o corpo e o espírito, ambos vivem com a “resignada submissão às necessidades de cada dia não (…) para ganhar a vida: (…), (mas,) apenas, para não perdê-la”(4) , dada a parca remuneração que recebem .

* QUEIROZ, Raquel. O quinze.

(1) MARX, Karl. O capital.

(2) Ibidem, p.

(3) Ibidem, p.

(4) ALMEIDA, José Américo de. A bagaceira.

Redundâncias

“Após trocar ofensas com um jornalista durante a entrevista coletiva após a vitória por 3 a 1 sobre a Costa do Marfim , o técnico Dunga escapou de uma possível punição. A Fifa, por meio de seu porta voz, Pekka Odriozola, anunciou que não há nenhuma prova para abrir processo contra o treinador”. (http://www.espbr.com/noticias/dunga-escapa-punicao-ofensas-jornalista-22-junho-2010-03-08)

Subiu a subida com o fôlego sem ar. Chamaram-lhe de volta e desceu correndo a descida irregular. Olhou com os olhos marejados, suando um suor frio e molhado… Rezou uma reza que sabia desde pequeno, quando era criança. Pensou no quanto a persistência de vencer na vida persiste ainda agora em que ele próprio, já idoso, envelheceu. Orgulhoso, gritara em voz alta: “Sou um vitorioso vencedor!”. Abriu o portão e entrou dentro de casa. Sentou-se no sofá e abriu com as mãos o jornal no caderno de esportes. Ficou contente pela alegria de saber que o técnico da seleção não seria punido pelos xingamentos com que xingou o juíz porque este expulsara pra fora do campo o jogador que bateu com um soco no adversário do outro time. A reportagem dizia: “O comandante da Seleção Brasileira poderia ter sido enquadrado no artigo 57 do Código Disciplinar da Fifa. Nele consta que qualquer pessoa que ofenda alguém de forma ofensiva, corre o risco de sofrer sanções”.

M.S. (continua…)

A Hóspede

Não precisas bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
 
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
 
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram a relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
 
Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a  cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
 
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha – e esquece.
 
                  [Guilherme de Almeida]

Transcendental

lua nova no céu
as estrelas rompem a escuridão da noite
o pensamento transborda em algum lugar
 
não conheço, não sei onde alcançar
o inexistente sexto sentido
busca em vão
vão me dizer
 

percebo tudo isso, mas pouco menos…

                                               [M.S., em 07/03/1999]

É preciso não esquecer nada

cecília meirelles É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

                                                       [Cecília Meireles]

Nosso Tempo

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

[Carlos Drummond de Andrade]

***

Não deixa de ser irônico constatar que esse pema é tão atual…

Em São Paulo, militância LGBT vai às ruas pedir aprovação de lei que torna crime a homofobia

Por Rodrigo Cruz, da Revista Caros Amigos.

Paiinel da MarchaDiversidade. Uma característica da qual o Brasil se orgulha, mas que na prática, ainda não é respeitada, e, sobretudo, garantida, pelo chamado Estado de direito. Estamos falando de um País que possui mais de 200 paradas gays, entre elas a maior do mundo (São Paulo), é sede da maior associação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais (LGBT) da América Latina (a ABGLT), mas que, contraditoriamente, jamais aprovou em sua esfera legislativa uma única medida a favor de sua população homossexual. O pior de tudo: o Brasil é o país líder em assassinatos de homossexuais no mundo – em média um a cada dois dias, segundo dados da ONG Grupo Gay da Bahia (GGB).

Para se ter uma idéia, em 2009, foram 198 assassinatos documentados. Em 2010, foram mais de 250 assassinatos. Ainda segundo o GGB, proporção de vítimas geralmente é de 70% de gays, 27% de travestis e 3% de lésbicas. Os números, porém, podem ser maiores do que se imagina. Devido à total ausência de estatísticas oficiais sobre crimes de ódio contra lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais, a falta de recursos da polícia para identificar casos deste tipo e certo receio por parte das testemunhas em denunciar situações de violência, o cálculo ainda está longe de ser exato.

O Grupo Gay da Bahia realiza o levantamento há 30 anos, baseado em casos divulgados pela imprensa nacional e regional. Já exigiu inúmeras vezes que o Ministério da Justiça e as Secretarias Estaduais de Direitos Humanos assumam o compromisso de coletar os dados. Nunca obteve sucesso.

É com o intuito de pressionar o poder público para a aprovação do Projeto de Lei 122/2006 (que torna crime atos homofóbicos), sensibilizar a sociedade para a questão do preconceito contra as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero e principalmente, pedir o fim da violência homofóbica, que militantes da causa LGBT, mobilizados a partir de uma comunidade virtual no Facebook, irão marchar no próximo dia 19, da Praça do Ciclista, rumo a Av. Paulista nº 777, em São Paulo. O local ficou conhecido depois que, em novembro do ano passado, quatro jovens de classe média atingiram um rapaz com uma lâmpada fluorescente na cabeça. O motivo? Acreditavam que a vítima era homossexual.

O episódio, no entanto, representa apenas a ponta de uma enorme teia de violência (muitas outras agressões ocorreram posteriormente em São Paulo, inclusive de homens contra mulheres homossexuais). Causa revolta que alguém seja agredido por ser homossexual em plena Av. Paulista, conhecida justamente por receber a maior parada gay do mundo, mas a homofobia é ainda pior nas capitais mais distantes do eixo sul-sudeste, no interior do país, nas pequenas cidades aonde a imprensa não chega e aonde o preconceito sequer é questionado.

Tal qual o machismo, a homofobia está presente no cotidiano dos brasileiros, e se engana quem pensa que ela atinge somente os homossexuais. Se você é heterossexual, mas simplesmente não se enquadra nos ditos padrões de comportamento do homem (ou da mulher) “tradicional”, então provavelmente você já foi, ou será, vítima de homofobia. Trata-se, sobretudo, de um preconceito de gênero.

É por isso que, além de exigir a aprovação do PLC 122, instrumento jurídico capaz de garantir a integridade física e moral de lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais, é preciso informar e conscientizar a sociedade. Para a marcha do dia 19, os organizadores preparam panfletos que explicam os reais objetivos do projeto de lei e desmistificam a idéia, amplamente difundida por setores fundamentalistas, de que o projeto impede a liberdade de expressão e culto das igrejas, já que para elas, a homossexualidade é considerada um pecado. O argumento, que pode ser contestado por qualquer um que tenha acesso ao texto integral do PLC, tem sido utilizado insistentemente pela bancada evangélica do Senado para barrar sua aprovação. Enquanto isso, milhares morrem em segredo.

O assunto também tomou conta do segundo turno das eleições presidenciais do ano passado, quando os candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) utilizaram o debate fundamentalista para ganhar parte do eleitorado evangélico, órfão da então candidata Marina Silva (PV) derrotada no primeiro turno. Dilma e Serra tiveram reuniões a portas fechadas com lideranças religiosas e a atual Presidente da República chegou a redigir uma carta a estes setores esclarecendo suas opiniões sobre o aborto e a PLC 122. Na época, a ABGLT lançou um manifesto direcionado aos candidatos, pedindo a manutenção de um debate livre de concepções religiosas.

Unidos contra a homofobia

Logo após os ataques na Av. Paulista, o militantes LGBT organizaram uma série de manifestações, que culminaram na criação de uma Frente Paulista Contra a Homofobia, que reúne grupos LGBT, ONG’s, representantes da sociedade civil, de outros movimentos pelos direitos humanos e também de órgãos públicos, com o intuito de enfrentar a crescente onda de homofobia no Estado. Além de apoiar a marcha do dia 19, a Frente pretende criar um observatório capaz de mapear a violência contra a população LGBT em São Paulo.

Rodrigo Cruz é jornalista e integrante do Coletivo LGBT 28 de Junho

 

SERVIÇO:

Marcha Contra a Homofobia

Data: 19 de fevereiro de 2011

Local: Praça do Ciclista, Av. Paulista esquina com a Av. da Consolação

Horário: Concentração às 15h

Itinerário: O grupo sai em marcha da Praça do Ciclista e segue em direção ao edifício 777 da Av. Paulista

Cidade Prevista

Drummond estilizadoGuardei-me para a epopéia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto do Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na vila oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casa sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
mas ele será um dia
o país de todo homem.

Carlos Drummond de Andrade
(extraído de “A Rosa do Povo” – 1943/1945)

À maneira de dizer

revolução francesa Falávamos da fome, da nossa fome, da nossa vontade de viver e ultrapassar limites, nos transpor e sobrepor tudo o que pensávamos ser, tudo o que odiávamos em nós; sim, porque nos odiávamos mais do que ao mundo. Nos fazíamos mal mais do que aos outros. E apenas nos alimentávamos de uma esperança ilusória (irrisória), uma ânsia de um porvir jamais realizado.

Quando amaldiçoávamos os acontecimentos que escapavam de nossas mãos, amaldiçoávamos, na verdade e sem saber, a nossa própria condição e insuficiência diante de tudo, a nossa incompreensão dos fatos, mas nunca a arrogância com que tentávamos seduzir e conquistar atenções, ou nossa pretensão ao nos considerar imprescindíveis à luta – ou ao que considerávamos luta.

O mundo agora não é o mesmo porque mudamos a cara e o endereço; insistimos em usar os trajes de combate, porém alteramos as estratégias: tomamos fôlego antes de gritar ou correr, nos preocupamos com as sobras que temos a perder.

Em que nos tornamos, afinal?

Os amigos… Cada qual foi para um canto e às vezes ouvimos vozes de um passado recente, ou menos recente.

Em que pensávamos quando projetávamos nosso corpo à frente de batalhas quixotescas?

Guardamos as impressões do que éramos e cultivamos imagens que nunca foram as nossas, mas não guardamos o que pensamos nem verdadeiramente o que sentimos.

Éramos o que poderíamos ser, somente. Chovia ou fazia sol estávamos lá, ou não estávamos. De qualquer maneira, não éramos coisas, nem objetos de uma análise distorcida por uma mente alienada. Não servíamos a ninguém a não ser as nossas ansiedades. Ou fugíamos dela tentando parecer úteis, cada um com seu motivo ou escape – jamais teremos certeza, nem de nós mesmos.

Primeiro, aprendemos a dissimular a dor e a alegria; depois, fragorosamente derrotados, aprendemos a dissimular as palavras, contorcê-las para desfigurar as intenções mais recônditas abrigadas em um labirinto indevassável.

Jamais fomos o que éramos. Estes que não somos, somos nós.

[M.S., 29 de novembro de 2007]

Testemunho da Morte de Marcelo Siqueira

“Herberto Helder escreveu um livro para me avisar que Marcelo morreu aos vinte e nove anos – desta vez e só desta vez – Não chorei Só lamentei ele ter morrido antes de ter lido e vivido a Idade da Razão” (…)[CENSURADO] (extraído de Vinicius Canhoto – Cadáver Esquisito

Não o interroguem em sua cama de madeira em seu confortável ou não ataúde de um metro e sessenta e cinco por dois palmos de largura que será descido a sete palmos da superfície e sobre o solo serão acrescidas algumas violetas e por que não uma orquídea rara ou comum de qualquer cor escolhida aleatoriamente conforme a disponibilidade do mercado e a disponibilidade do bolso Não indaguem ao corpo a inútil questão que permanecerá agora e para sempre e até na hora de nossa morte amém impassivelmente sem resposta Não supliquem aos céus qualquer alívio para a profunda dor nem roguem lenitivos artificiais laboratoriais medicinais ou mesmo ilegais Não o aguardem em sonho pois o profeta foi soterrado com a crise da idade prematuramente avançada seu vício e sua linguagem o corromperam até os ossos e pouco deixou ao verme que primeiro corroeu as entranhas do velho bruxo

Há qualquer coisa de sereno em seu rosto eu vejo não não há a serenidade está estampada sim mas no olhar de quem a atribui à matéria sem vida que um dia foi esse que a morte o apossou antes mesmo que a súbita passagem e o último suspiro Eu o vi há poucos dias fone nos ouvidos chamei-o mas ele não pode escutar atravessou a avenida e em seu semblante não se notava nenhum vestígio da fatalidade apenas a seriedade ou a dissimulação inexplicável que a vida lhe imprimiu Não espere de mim um sorriso a todo instante escutei de seus lábios recitando uma poeta andreense como se fosse ela mesma silabando em seus ouvidos entonação por entonação quando então ele completou não sei de dele mesmo que a proximidade da morte amplia o sentido da vida Todavia não perguntem a inevitável pergunta que assombra os mortos de sobrecasaca os mortos de drummond e o próprio drummond antes que pudessem se fazer tais porque após as palavras cessaram em sua boca quanto mais as razões

Não peçam ao seu biógrafo particular e não autorizado explicações quando insistente e irritantemente proferir sua sentença maior e prestidigitadora marcelo morreu todos choraram menos eu porque todos os crimes deixam de existir no exato instante póstumo em que são cometidos permanecendo apenas seus efeitos suas causas perdem o motivo de ser tão logo se executem Eu o vi em suas duas em suas quatro horas diárias rascunhando cartas que jamais seriam digitadas lendo os mesmos livros com a impaciência de quem resolve passatempos com a impaciência de quem aguarda o tempo passar com a impaciência de quem pragueja contra o tempo que passa e a vida que se esvai quanto mais se vive e a vida que se esvai quanto menos se deseja viver Mas marcelo morreu o culpado não fui eu mas marcelo morreu e todos choraram menos eu repete aquele que descobriu que escrever sobre si mesmo é matar-se a contagotas assim como fez kafka não com a carta ao seu pai mas com todas as suas outras e quanto mais se lê mais suicídio comete e jamais se saberá quem foi kafka canhoto molière joyce ou todos os veríssimos e quem mais quer que sejamos talvez a consciência desse fato fez com que márquez não relesse suas histórias buendía compulsivo refizesse os pingentes e a louca costurasse anos a fio a mortalha de seu pai que era verdadeiramente a mortalha de si mesma enquanto à essa época e em outros tempos marx desencravava os furúnculos de suas nádegas socialistas ao som da nona sinfonia

Agora irmãos vamos dar as mãos não não dêem porque a morte é um elemento de coesão somente nestes míseros momentos o que se verá e ouvirá pelas costas além das piadas é a maldição ao frio ou ao calor excessivos ou à chuva inconveniente ou ao cheiro de clorofórmio ou ao cheiro das flores em coroa que se impregnarão por dias e dias em nossas narinas menos da de marcelo que morreu aos vinte e nove anos de idade e todos calam todos calam todos calam e só Eu canto Eu lembro quando ele chegou tão jovem para nossa idade avançada e no entanto um pouco que seja nos rejuvenesceu com seus velhos sonhos lembramos da metamorfose que o transformou não num bicho mas num animal vago e sonolento lembro da luta interior que ele narrava como uma saga indescritível de suas derrotas insaciáveis agora ei-lo aí sem eira nem beira porém com o destino mais certo do que os nossos incertos fados que temos a cumprir mais certo do que os incertos fardos que temos a carregar e passar adiante

Não não o finjam com o seu caro terno de linho jamais comprado porque esse aí de paletó e gravata camisa e sapato combinando esse aí não é ele senão outro qualquer que nunca será tal como o fora é uma afronta tanto ao que foi como ao que pensávamos e desejávamos ser o herói de antes e o idiota de sempre não o finjam deixem-no verdadeiro e sem afetações pelo menos em sua última hora conosco porque em verdade em verdade vos dizemos ele está nu ao nosso lado como qualquer cadáver esquisito vestido da cabeça aos pés como uma criança sem malícia apenas nos contempla indiferente a nossa indiferença porque marcelo morreu aos vinte e nove anos e todos dormem todos dormem todos dormem menos eu Aos trinta e dois anos ou antes ou depois eu o matei com o amor com que ele se alimentou eu o afoguei numa piscina de sonhos no prato que ele comeu e depois cuspiu esferográficas tantas e nenhuma para mim marcelo morreu e todos choraram ninguém jamais o conhecerá menos eu

.

[M.S., em 14 de novembro de 2007 – 21 de janeiro de 2010]

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Nota da Pedra Lascada (Agora sim, com o trigésimo quarto ano novo começando): As partes em itálico foram retiradas do poema “Cadáver Esquisito”, de Vinicius Canhoto. A intenção era publicar aqui o poema em referência, uma vez que este (poema?) é, de certa forma, também uma resposta – um tanto quanto zombeteira, admito – ao “Cadáver Esquisito” de Canhoto, em que uma das personagens (indevidamente) levava meu nome; todavia, por motivos de força maior, consideramos imprópria a sua publicação, até mesmo porque, como ressalta Canhoto, não se trata de mim, mas de uma geração que – acrescento – teve seu fim simbólico com o (quem dera também tivesse sido apenas simbólico) falecimento de nosso camarada e sempre amigo Adilson Fornazier (diga-se de passagem, um dos últimos comunistas no PCdoB). Agradeço muito, sem ironias, às sinceras contribuições de Canhoto, cujos benevolentes comentários (“ruim”, “aqui você erra a mão”, “nossa, melhora isso!”, “eita, drummondismo!” e “eita, final melodramático!”) iluminaram a minha cabeça de antanho. Sinto muito por não ter feito as alterações sugeridas – e não as fiz não porque discordasse, mas porque estão longe da minha capacidade no momento, afinal, o escritor é ele e não eu. Quanto ao título, em que pese a fatal sentença proferida por Canhoto de que do jeito que está, com nome e sobrenome, não passa de um “narcisismo barato”, como última palavra de réu julgado e condenado, apoiado em Saramago, segundo o qual “somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades”, declaro-me absolutamente culpado, porque este (poema?) não trata de uma geração, é autobiográfico mesmo, embora algumas pessoas vão encontrar suas vozes e seus pensamentos nele. Enfim, este é o meu Mateus, eu que o embale.