Categoria: Contos, crônicas, poesias & afins
Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
[Alphonsus de Guimaraens]
E-mails que não (sei se) merecem atenção…
Mas que me deixam num estado nauseabundo daqueles!
Todos os dias recebemos uma quantidade de e-mails indesejados, que vão desde propagandas enganosas, spams, correntes que prometem a cura espiritual, a felicidade infinita ou notebooks de graça (bastando em ambos os casos reencaminhar os benditos para o maior número de contatos possíveis e impossíveis), pragas e voodoos – igualmente bastando ignorar as correntes, deletar os malditos, não reencaminhar para os contatos – nesse caso, seus dedos vão apodrecer, os olhos vão murchar, você não conseguirá mais fazer “coisinhas” pelo resto da vida, ou pelo menos até quando, anos depois, ou no próximo mês, ou na próxima semana (o que é bem mais provável) você tiver a oportunidade de se redimir ao receber novamente aquela mesma corrente e desta vez fazer a coisa certa: reencaminhá-la para o maior número possível e impossível de seus contatos e dos contatos dos seus contatos.
Isso sem contar aqueles carregados de vírus, que tentam com toda sorte de argumentos te seduzir a abrir o link, que te conduzirá ao paraiso (quer dizer, vai conduzir seu pc ao paraíso e os seus dados diretamente para os HDs de gente de conduta duvidosa!): são e-mails que te prometem as fotos daquela balada que diz que você curtiu à beça, mas que você tem uma leve impressão que não era você, porque não lembra de curtir uma domingueira há uns trezentos anos, no mínimo. Ou então aqueles que te prometem o link premiado: “clique aqui e realize o sonho da casa própria”, “você foi escolhido como o profissional do ano” (e nesse caso você acha estranho ser escolhido como profissional do ano, porque não sabe o que é registro em carteira desde o Plano Collor), ou “seu nome foi sorteado para concorrer a um prêmio maravilhoso pela Revista ‘Readers Digest Selection’ (se é que se escreve assim, mas você sabe bem o que é isso, porque já deve ter recebido um e-mail ordinariozinho desse tipo): clique no desenho da chave e receba seu carro em casa”!
Enfim, são uma infinidade de correntes, propagandas e protestos de todo tipo que ninguém mais tem certeza se aquela pessoa desaparecida na foto desapareceu mesmo ou armaram uma pegadinha pra ela. E olha que já recebi e-mail sobre pessoas realmente desaparecidas! Mas desconfio que ainda receberei um e-mail com a minha foto, com um apelo do tipo: “Ajude a procurar Marcelo. Pai de cinco filhos, esposo dedicado, teve uma crise de depressão depois de assistir Brasil Urgente com o Datena e o Jornal da Band com o Boris Casoy. Seja solidário e repasse este e-mail aos seus contatos. Se você já viu essa pessoa, ou tem notícias de seu paradeiro, disque “0300XX60706070denovo” (valor de uma ligação de celular para Curitiba + impostos)”.
Depois de tantas rabujentices minhas, sinto uma nuvenzinha cinzenta pairar sobre sua cabeça, como que perguntando: “Se é tanto sofrimento assim, porque simplesmente não deleta sem abrir, ou bloqueia esses tipos de e-mails?”. E eu respondo: Porque simplesmente acho interessante conhecer o que as pessoas pensam – mesmo que eventualmente eu possa discordar de uma ou outra opinião. Afinal, ninguém aprenderia que o doce é doce se comesse somente coisas açucaradas, nem o que é salgado se comesse somente… ah, você entendeu! Aprendemos mesmo é com as diferenças, apesar de que a gente não precisa passar por certas experiências para saber se são boas ou ruins… De qualquer forma, acho que uma das maravilhas da internet é as pessoas poderem comunicar umas às outras o que pensam, sentem, desejam, acreditam… Além disso, eu também tenho minha parte nessa história toda, porque o que eu encaminho de mensagens que muita gente não quer nem da missa saber o terço, olha… não está escrito no gibi!
Não são as correntes de bençãos ou de maldições (que no fim das contas são as mesmas coisas, porque se você não reencaminhá-las vai direto pro inferno, ou lhe nascerão brotoejas nas nádegas), ou de pessoas supostamente desaparecidas, ou de prêmios inimagináveis etc e tal que me estremilicam. Não, essas eu até curto – porque se alguém manda um anjinho te desejando um bom dia, ou te fazendo uma oração, ou te prometendo o reino da felicidade a uns cliques no Power Point, que bom! Mal não fará desejar o bem para outras pessoas, mesmo quando não as conhecemos. Mensagens deste tipo podem não fazer muito a minha cabeça, nem levantar meu astral, mas também com toda certeza não me colocam pra baixo.
O que me deixa trelelê mesmo, de verdade, a ponto de às vezes (somente às vezes, e por um pequeno milésimo de tempo) duvidar da humanidade do ser humano, são aquelas mensagens que jogam inteiramente no desgraçado a culpa por suas desgraças (a palavra é forte, mas não tem outra mais precisa, porém, se quiser amenizar pode substituir por: “jogam inteiramente nos miseráveis a culpa por suas misérias”, ou melhor, por nossas misérias); mensagens com queixas até justas, sabe, mas carregadas de preconceitos de toda ordem e desordem, principalmente preconceitos de classe, raça e gênero.
Hoje mesmo recebi uma delas, que aqui vai transcrita não como manifestação de apoio, mas como expressão de indignação com tamanha falta de sensibilidade, com tamanha carência de reflexão, com tamanha desumanização, com tamanho desrespeito ao nosso lindo ofício de mestres, que é o exercício do magistério, e sob o sarcástico título “Mensagem criativa de uma escola”. Veja: “Esta é a mensagem que os professores de uma escola da Califórnia decidiram gravar na secretária eletrônica: A escola cobra responsabilidade dos alunos e dos pais perante as faltas e trabalhos de casa e, por isso, ela e os professores estão sendo processados por pais que querem que seus filhos sejam aprovados mesmo com muitas faltas e sem fazer os trabalhos escolares. Eis a mensagem gravada: – Olá! Para que possamos ajudá-lo, por favor, ouça todas as opções: – Para mentir sobre o motivo das faltas do seu filho – tecle 1. – Para dar uma desculpa por seu filho não ter feito o trabalho de casa – tecle 2. – Para se queixar sobre o que nós fazemos – tecle 3. -Para insultar os professores – tecle 4. – Para saber por que não foi informado sobre o que consta no boletim do seu filho ou em diversos documentos que lhe enviamos – tecle 5. – Se quiser que criemos o seu filho – tecle 6. – Se quiser agarrar, esbofetear ou agredir alguém – tecle 7. – Para pedir um professor novo pela terceira vez este ano – tecle 8. – Para se queixar do transporte escolar – tecle 9. – Para se queixar da alimentação fornecida pela escola – tecle 0. – Mas se você já compreendeu que este é um mundo real e que seu filho deve ser responsabilizado pelo próprio comportamento, pelo seu trabalho na aula, pelas tarefas de casa, e que a culpa da falta de esforço do seu filho não é culpa do professor, desligue e tenha um bom dia!”
Me abstenho desta vez, e somente desta vez, de análises sociológicas, filosóficas ou mesmo educacionais (porque obviamente este texto diz mais do que está escrito: diz o que pensa quem o escreveu, ou o apóia, a respeito da função social da escola, do que é ser professor, do que é educação, do que é ser gente… … … … …). Basta, por ora, o meu estômago revirando, nauseabundo, porém só um pouco nauseabundo, porque tenho certeza de que este texto não representa o pensamento predominante dos mestres do ofício da arte de ensinar, para usar da expressão empregada pelo Miguel Arroyo.
Na verdade, sinto que este texto representa feridas que não cicatrizaram, não cicatrizam e continuam doendo intensamente, porque não as compreendemos, e não as compreendendo encontramos no outro o alienígena, isto é, o “outro estranhado”, não identificado como complementar, mas como oposto, malígno, canceroso, o culpado pelas mazelas que sofremos, quando não se trata nem de culpa, mas de responsabilidade, responsabilidade que, se formos bem sinceros conosco, mesmo no íntimo de nossos pensamentos mais secretos (aqueles que evitamos dizer a nós mesmos), acabaremos por concluir que também nós temos uma parte que nos cabe nesta cova rasa, ou profunda, de um latifúndio que recusamos reconhecer como sendo direito do outro também, pra lembrar o Chico…
Por fim, apenas sugeriria uma outra tecla, como opção para a “criativa” secretária eletrônica desta suposta escola: “Se quiser mandar esta meeeeeeeeerrrrrrrrrrda de escola para o espaço, de onde nunca deveria ter saído -tecle estrela”. [M.S]
P.s: Califórnia é governada por quem mesmo? Ah, sim: pelo exterminador do futuro! Tá explicado!!!
Poesia
Gastei uma hora pensando num verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
[Carlos Drummond de Andrade]
Poema Dissolvido
Uma “bofetada” em Ana Maria Braga
Difícil imaginar um jogador de futebol famoso que, mais do que driblar, fazer gols e correr atrás da bola (ou correr pra longe da bola!), esteja associado a algo que não seja aquela imagem que temos do cara que ganha a vida fácil fazendo o que sempre sonhou em fazer: ganhar muito dinheiro, viver no luxo e na farra – e tudo isso sem nem precisar ter terminado os estudos! Puxa, eu sei que parece preconceito meu… Digo mais: eu nem penso assim! Tenho certeza de que a grande maioria come o pão que o diabo amassou e que deus cuspiu, trabalhando duro sem receber o necessário para o sustento tranquilo, e ainda assim fazendo a alegria de torcedores e dos próprios colegas que, famosos, ganham milhões às suas custas.
Abrindo um parêntesis: de futebol eu não entendo bulufas, nem mesmo compreendo como é que pra garantir o seu ganha-pão alguém seja obrigado a ter um empresário que detém o seu “passe”, que nada mais é do que o poder de decidir se o atleta joga neste ou naquele time – pra mim isto é mais do que escravidão, é uma relação de vassalagem e servidão que persiste em nossos tempos e é ainda mais retrógrada do que a relação burguesia-proletariado porque, além do cara não possuir o poder sobre os instrumentos do seu trabalho, não tem nem a liberdade de vender sua força de trabalho pra quem bem entende. Isso sem falar da insana onda de violência que envolve o futebol, esse moderno ópio do povo que movimenta bilhões e que, a cada campeonato, faz mais e mais vítimas – dentro e fora dos campos e estádios.
Bem, voltando à questão inicial… Preconceito ou não, a verdade é que o inconsciente coletivo atribui à figura do jogador famoso uma “áurea” de vida fácil e frívola, do cara que fez fama e fortuna sem precisar rachar a cabeça com os estudos e com os vestibulares e que, por isso, tem licença poética para cantar “Ovriram do piranga as margi prácida” – o que, diga-se de passagem, comparado a mim que mal sei o Hino Nacional e não canto nem no banheiro, já é uma proeza e tanto! Se bem que a inteligência das pessoas não se mede por saber ou não cantar corretamente o Hino Nacional, mas é inegável e inestimável a coragem de cantá-la em público desses bravos que não temem não a justiça, mas a clava forte da ironia dos ímpios como eu, que aqui estou não a gracejar de seus equívocos, mas sim a considerá-los superiores àqueles que fingindo entoar o Hino, simplesmente balbuciam palavras desconexas ou sílabas incompletas.
Sem mais delongas! O fato é que no imaginário popular a figura de jogadores famosos de futebol associa-se a um monte de coisas (boas, não tão boas, ou ruins mesmo, dependendo do ponto-de-vista ou do conceito moral que cada um possui). O que passa longe da nossa mente é a imagem do jogador de futebol famoso culto, letrado, leitor assíduo de jornais e livros etc (como se isso fosse condição imprescindível para alguém ter inteligência ou sensibilidade para intepretar e compreender o mundo e as relações humanas!). A respeito disso, não conheço, por exemplo, o histórico do jogador Petkovic, ídolo do Flamengo – pra ser bem sincero, não conheço histórico de jogador ou time nenhum, porque se tem outra coisa que eu tambérm não entendo é como pode 22 caras ficarem brigando por uma só bola (como dizem, dá uma bola pra cada um que acaba a briga!). Acontece que Petkovic, em entrevista à Ana Maria Braga, em seu programa matutino (deliciosas receitas, o que estraga é a apresentadora!) mostrou que ser jogador famoso de futebol e ser inteligente não são duas coisas dissociadas: logo nos primeiros minutos da entrevista, Ana Maria pergunta à Petkovic, que é de origem sérvia, “como é ter nacido num país com tantas dificuldades”. A resposta, simples, direta e precisa: “QUANDO NASCI NÃO TINHA DIFICULDADE NENHUMA, ERA UM PAÍS MARAVILHA, A GENTE VIVIA NUM REGIME SOCIALISTA, NÉ, TODO MUNDO BEM, TODO MUNDO TRABALHANDO… TEM TRABALHO, SALÁRIO”… O mais irônico é que, acho que de tanta plástica e de tanta maquiagem pra lustrar aquela cara-de-pau, a apresentadora não moveu um músculo da face nem ficou vermelha pela gafe que cometeu – mudou de assunto como se nunca na vida tivesse levado essa bofetada de Petkovic. [M.S – texto originalmente publicado em 28 de fevereiro de 2010]
Confira diretamente em: http://petkovic10.blogspot.com/2010/02/ana-maria-recebe-o-craque-de-futebol.html
O Morto
Redundâncias
“Após trocar ofensas com um jornalista durante a entrevista coletiva após a vitória por 3 a 1 sobre a Costa do Marfim , o técnico Dunga escapou de uma possível punição. A Fifa, por meio de seu porta voz, Pekka Odriozola, anunciou que não há nenhuma prova para abrir processo contra o treinador”. (http://www.espbr.com/noticias/dunga-escapa-punicao-ofensas-jornalista-22-junho-2010-03-08)
Subiu a subida com o fôlego sem ar. Chamaram-lhe de volta e desceu correndo a descida irregular. Olhou com os olhos marejados, suando um suor frio e molhado… Rezou uma reza que sabia desde pequeno, quando era criança. Pensou no quanto a persistência de vencer na vida persiste ainda agora em que ele próprio, já idoso, envelheceu. Orgulhoso, gritara em voz alta: “Sou um vitorioso vencedor!”. Abriu o portão e entrou dentro de casa. Sentou-se no sofá e abriu com as mãos o jornal no caderno de esportes. Ficou contente pela alegria de saber que o técnico da seleção não seria punido pelos xingamentos com que xingou o juíz porque este expulsara pra fora do campo o jogador que bateu com um soco no adversário do outro time. A reportagem dizia: “O comandante da Seleção Brasileira poderia ter sido enquadrado no artigo 57 do Código Disciplinar da Fifa. Nele consta que qualquer pessoa que ofenda alguém de forma ofensiva, corre o risco de sofrer sanções”.
M.S. (continua…)
A Hóspede
Transcendental
percebo tudo isso, mas pouco menos…
[M.S., em 07/03/1999]

