É preciso não esquecer nada

cecília meirelles É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

                                                       [Cecília Meireles]

Nosso Tempo

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

[Carlos Drummond de Andrade]

***

Não deixa de ser irônico constatar que esse pema é tão atual…

Cidade Prevista

Drummond estilizadoGuardei-me para a epopéia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto do Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na vila oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casa sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
mas ele será um dia
o país de todo homem.

Carlos Drummond de Andrade
(extraído de “A Rosa do Povo” – 1943/1945)

À maneira de dizer

revolução francesa Falávamos da fome, da nossa fome, da nossa vontade de viver e ultrapassar limites, nos transpor e sobrepor tudo o que pensávamos ser, tudo o que odiávamos em nós; sim, porque nos odiávamos mais do que ao mundo. Nos fazíamos mal mais do que aos outros. E apenas nos alimentávamos de uma esperança ilusória (irrisória), uma ânsia de um porvir jamais realizado.

Quando amaldiçoávamos os acontecimentos que escapavam de nossas mãos, amaldiçoávamos, na verdade e sem saber, a nossa própria condição e insuficiência diante de tudo, a nossa incompreensão dos fatos, mas nunca a arrogância com que tentávamos seduzir e conquistar atenções, ou nossa pretensão ao nos considerar imprescindíveis à luta – ou ao que considerávamos luta.

O mundo agora não é o mesmo porque mudamos a cara e o endereço; insistimos em usar os trajes de combate, porém alteramos as estratégias: tomamos fôlego antes de gritar ou correr, nos preocupamos com as sobras que temos a perder.

Em que nos tornamos, afinal?

Os amigos… Cada qual foi para um canto e às vezes ouvimos vozes de um passado recente, ou menos recente.

Em que pensávamos quando projetávamos nosso corpo à frente de batalhas quixotescas?

Guardamos as impressões do que éramos e cultivamos imagens que nunca foram as nossas, mas não guardamos o que pensamos nem verdadeiramente o que sentimos.

Éramos o que poderíamos ser, somente. Chovia ou fazia sol estávamos lá, ou não estávamos. De qualquer maneira, não éramos coisas, nem objetos de uma análise distorcida por uma mente alienada. Não servíamos a ninguém a não ser as nossas ansiedades. Ou fugíamos dela tentando parecer úteis, cada um com seu motivo ou escape – jamais teremos certeza, nem de nós mesmos.

Primeiro, aprendemos a dissimular a dor e a alegria; depois, fragorosamente derrotados, aprendemos a dissimular as palavras, contorcê-las para desfigurar as intenções mais recônditas abrigadas em um labirinto indevassável.

Jamais fomos o que éramos. Estes que não somos, somos nós.

[M.S., 29 de novembro de 2007]

Testemunho da Morte de Marcelo Siqueira

“Herberto Helder escreveu um livro para me avisar que Marcelo morreu aos vinte e nove anos – desta vez e só desta vez – Não chorei Só lamentei ele ter morrido antes de ter lido e vivido a Idade da Razão” (…)[CENSURADO] (extraído de Vinicius Canhoto – Cadáver Esquisito

Não o interroguem em sua cama de madeira em seu confortável ou não ataúde de um metro e sessenta e cinco por dois palmos de largura que será descido a sete palmos da superfície e sobre o solo serão acrescidas algumas violetas e por que não uma orquídea rara ou comum de qualquer cor escolhida aleatoriamente conforme a disponibilidade do mercado e a disponibilidade do bolso Não indaguem ao corpo a inútil questão que permanecerá agora e para sempre e até na hora de nossa morte amém impassivelmente sem resposta Não supliquem aos céus qualquer alívio para a profunda dor nem roguem lenitivos artificiais laboratoriais medicinais ou mesmo ilegais Não o aguardem em sonho pois o profeta foi soterrado com a crise da idade prematuramente avançada seu vício e sua linguagem o corromperam até os ossos e pouco deixou ao verme que primeiro corroeu as entranhas do velho bruxo

Há qualquer coisa de sereno em seu rosto eu vejo não não há a serenidade está estampada sim mas no olhar de quem a atribui à matéria sem vida que um dia foi esse que a morte o apossou antes mesmo que a súbita passagem e o último suspiro Eu o vi há poucos dias fone nos ouvidos chamei-o mas ele não pode escutar atravessou a avenida e em seu semblante não se notava nenhum vestígio da fatalidade apenas a seriedade ou a dissimulação inexplicável que a vida lhe imprimiu Não espere de mim um sorriso a todo instante escutei de seus lábios recitando uma poeta andreense como se fosse ela mesma silabando em seus ouvidos entonação por entonação quando então ele completou não sei de dele mesmo que a proximidade da morte amplia o sentido da vida Todavia não perguntem a inevitável pergunta que assombra os mortos de sobrecasaca os mortos de drummond e o próprio drummond antes que pudessem se fazer tais porque após as palavras cessaram em sua boca quanto mais as razões

Não peçam ao seu biógrafo particular e não autorizado explicações quando insistente e irritantemente proferir sua sentença maior e prestidigitadora marcelo morreu todos choraram menos eu porque todos os crimes deixam de existir no exato instante póstumo em que são cometidos permanecendo apenas seus efeitos suas causas perdem o motivo de ser tão logo se executem Eu o vi em suas duas em suas quatro horas diárias rascunhando cartas que jamais seriam digitadas lendo os mesmos livros com a impaciência de quem resolve passatempos com a impaciência de quem aguarda o tempo passar com a impaciência de quem pragueja contra o tempo que passa e a vida que se esvai quanto mais se vive e a vida que se esvai quanto menos se deseja viver Mas marcelo morreu o culpado não fui eu mas marcelo morreu e todos choraram menos eu repete aquele que descobriu que escrever sobre si mesmo é matar-se a contagotas assim como fez kafka não com a carta ao seu pai mas com todas as suas outras e quanto mais se lê mais suicídio comete e jamais se saberá quem foi kafka canhoto molière joyce ou todos os veríssimos e quem mais quer que sejamos talvez a consciência desse fato fez com que márquez não relesse suas histórias buendía compulsivo refizesse os pingentes e a louca costurasse anos a fio a mortalha de seu pai que era verdadeiramente a mortalha de si mesma enquanto à essa época e em outros tempos marx desencravava os furúnculos de suas nádegas socialistas ao som da nona sinfonia

Agora irmãos vamos dar as mãos não não dêem porque a morte é um elemento de coesão somente nestes míseros momentos o que se verá e ouvirá pelas costas além das piadas é a maldição ao frio ou ao calor excessivos ou à chuva inconveniente ou ao cheiro de clorofórmio ou ao cheiro das flores em coroa que se impregnarão por dias e dias em nossas narinas menos da de marcelo que morreu aos vinte e nove anos de idade e todos calam todos calam todos calam e só Eu canto Eu lembro quando ele chegou tão jovem para nossa idade avançada e no entanto um pouco que seja nos rejuvenesceu com seus velhos sonhos lembramos da metamorfose que o transformou não num bicho mas num animal vago e sonolento lembro da luta interior que ele narrava como uma saga indescritível de suas derrotas insaciáveis agora ei-lo aí sem eira nem beira porém com o destino mais certo do que os nossos incertos fados que temos a cumprir mais certo do que os incertos fardos que temos a carregar e passar adiante

Não não o finjam com o seu caro terno de linho jamais comprado porque esse aí de paletó e gravata camisa e sapato combinando esse aí não é ele senão outro qualquer que nunca será tal como o fora é uma afronta tanto ao que foi como ao que pensávamos e desejávamos ser o herói de antes e o idiota de sempre não o finjam deixem-no verdadeiro e sem afetações pelo menos em sua última hora conosco porque em verdade em verdade vos dizemos ele está nu ao nosso lado como qualquer cadáver esquisito vestido da cabeça aos pés como uma criança sem malícia apenas nos contempla indiferente a nossa indiferença porque marcelo morreu aos vinte e nove anos e todos dormem todos dormem todos dormem menos eu Aos trinta e dois anos ou antes ou depois eu o matei com o amor com que ele se alimentou eu o afoguei numa piscina de sonhos no prato que ele comeu e depois cuspiu esferográficas tantas e nenhuma para mim marcelo morreu e todos choraram ninguém jamais o conhecerá menos eu

.

[M.S., em 14 de novembro de 2007 – 21 de janeiro de 2010]

***

Nota da Pedra Lascada (Agora sim, com o trigésimo quarto ano novo começando): As partes em itálico foram retiradas do poema “Cadáver Esquisito”, de Vinicius Canhoto. A intenção era publicar aqui o poema em referência, uma vez que este (poema?) é, de certa forma, também uma resposta – um tanto quanto zombeteira, admito – ao “Cadáver Esquisito” de Canhoto, em que uma das personagens (indevidamente) levava meu nome; todavia, por motivos de força maior, consideramos imprópria a sua publicação, até mesmo porque, como ressalta Canhoto, não se trata de mim, mas de uma geração que – acrescento – teve seu fim simbólico com o (quem dera também tivesse sido apenas simbólico) falecimento de nosso camarada e sempre amigo Adilson Fornazier (diga-se de passagem, um dos últimos comunistas no PCdoB). Agradeço muito, sem ironias, às sinceras contribuições de Canhoto, cujos benevolentes comentários (“ruim”, “aqui você erra a mão”, “nossa, melhora isso!”, “eita, drummondismo!” e “eita, final melodramático!”) iluminaram a minha cabeça de antanho. Sinto muito por não ter feito as alterações sugeridas – e não as fiz não porque discordasse, mas porque estão longe da minha capacidade no momento, afinal, o escritor é ele e não eu. Quanto ao título, em que pese a fatal sentença proferida por Canhoto de que do jeito que está, com nome e sobrenome, não passa de um “narcisismo barato”, como última palavra de réu julgado e condenado, apoiado em Saramago, segundo o qual “somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades”, declaro-me absolutamente culpado, porque este (poema?) não trata de uma geração, é autobiográfico mesmo, embora algumas pessoas vão encontrar suas vozes e seus pensamentos nele. Enfim, este é o meu Mateus, eu que o embale.

Lugar-Comum

 

Tudo em minha volta é silêncio que não se encontra. As folhas das árvores, balançando ao vento, contam segredos de outros países – não os ouço porque não os entendo em suas línguas bárbaras ou sutis; em suas e nossas gírias. Vejo as imagens tecidas pelo roçar das folhas nos troncos das árvores – uma visão natural com os sentidos que me foram emprestados. Chega a hora de devolvê-los. Ponho o coração de lado; a sensação é de letargia. Aguardo as cenas de minha vida inteira passarem em retrospectiva. Mas não! Somente o sorriso em seu rosto é o que me vem, e logo em seguida a saudade, que me faz sentir ainda mais humano, e ainda mais melindroso. Sinto-a tão presente que o calor de seu corpo conforta o meu em seus últimos instantes. Uma lágrima sua cai em minha face e rola até o canto da boca. Esse é o nosso último beijo – involuntário e tão sincero que desejara este instante outras mil vezes. Tudo passa. Esvanece. Abro os olhos para a escuridão momentânea. Apuro os sentidos. Levanto. Nada ouço. As folhas sumiram. Permanece o vento silencioso e tão denso  que tenho a impressão de que poderia conter-lhe  entre os punhos, mas os pulsos estão entorpecidos; fraquejam. Do outro lado da rua, o letreiro de neon piscando um “não há vagas” num compasso de uma bailarina ébria e sem par. Estendo os braços para fora da janela. Chuva. Frio. Na calçada logo abaixo passa alguém apressadamente; para. Olha para cima, para mim. E se vai.

Imagem extraída do blog http://escritus-no-silencio.blogspot.com/

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

[Cecília Meireles]

 

Ode Ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar… — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

[Mario de Andrade]