Digo Sim

Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos do meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperançasa entre pulmões
e nuvens

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.

A vida nós a assamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
meu vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela
– digo sim.

*

[Ferreira Gullar]

Pra não esquecer

Em letra pequena

escrevi o seu nome

para não esquecer;

 

Bem dobrado

com muito cuidado

guardei no bolso

para não esquecer;

 

Amarrei no pulso

uma tira de seda

de Nossa Senhora

para não esquecer.

 

Mas quando esqueci

dei embora a camisa

lavada e passada;

 

e cortei o pulso

para arrancar a tira

que eu já não sabia

para o que servia…

[M.S.]

Cala a boca, Ana Maria

Nota da Pedra Lascada: Da “série” Utile Dulci, mais um texto reencarnado, que havia sido publicado em  15 de julho do ano póstumo (acho que hoje estou meio mórbido rs) – [M.S.]

– – –

Não demora, começarão a dizer que eu sou o ranzinza do pedaço. E não é pra menos, porque ultimamente nem eu estou aguentando as minhas cricrizagens.

 
Essa história do “Cala a boca” já virou um jargão e também logo, logo ninguém vai aguentar ouvir “cala a boca daqui”, “cala a boca de lá”… Até havia pensado em lançar uma seção nada original com esse título (Cala a Boca), mas tive a sanidade de não levar essa má ideia adiante.

 

De qualquer forma, ainda com o risco de ser vítima do meu próprio veneno, não prometo que essa será a última vez que direi… Enfim, até o Saraiva do clássico “pergunta idiota, tolerância zero” foi ressuscitado, por que eu – humilde desconhecido – haveria de me omitir logo agora em que as cretinices e charlatanices pululam nos programas de entretenimento em seus momentos pseudo-jornalísticos. Quer dizer, temos de reconhecer que isso não é de agora; é desde sempre e muito provavelmente vai até o fim dos tempos.
 
Mas é só surgir uma tragédia para que os carniceiros de plantão explorem ao máximo cada detalhe do acontecimento para alavancar o ibope e, assim, maximizar suas margens de lucros, transformando inclusive programas culinários em plantões jornalísticos e espaços para entrevistas com os envolvidos – e são nesses momentos eufóricos que as pérolas se multiplicam! E como!
 
No fato em questão, no entanto, há que se reconhecer que não se trata de mais uma “carniceira de plantão”, muito pelo contrário, pois essa alcunha lhe seria extremamente injusta, mas, como dizem que quem está na chuva é pra se molhar, quem trabalha na Globo é pra dançar o jogo dos abutres, senão não sobrevive na cadeia alimentar.
 
Daí que, como não poderia deixar de ser (até poderia, mas o PIG mantém sua tradição oportuno-sensacionalista), o assunto do momento (o desaparecimento e provável assassinato de Eliza Samudio) foi abordado hoje no Programa “Mais Você” com uma entrevista com um veterinário, que respondeu sobre a possibilidade de se descobrir se pedaços da mulher foram dados aos cães.
 
Conversa vai, conversa vem, Ana Maria perguntou se não era possível descobrir isso através do exame das fezes dos animais; e o veterinário falou que somente se algum cão estivesse “impactado”, ao que a nossa entrevistadora, com uma humildade que lhe é sem dúvida característica (ao menos na frente da telinha), perguntou o significado desta expressão.
 
O veterinário, senhor muito educado e prestativo, sem graça para dizer diretamente, rodeou, rodeou, deu a entender do que se tratava e nossa heroína matinal foi ao seu socorro, oferecendo-lhe uma saída – por assim dizer – honrosa: “quando o cão não consegue ir ao banheiro?”
 

Cá pra nós, em que pese a gentileza da atitude, essa coisa ficou meio esquisita, ou melhor dizendo, esquisita e meio. Talvez a cachorrinha dela consiga, por ter nascido em berço de ouro e ter sido adestrada  (ou seria educada?) no mais alto padrão de fineza e etiqueta… Mas cachorros que vão ao banheiro?! Pra mim é novidade.

Bertolt Brecht Remember

Por Vinicius Canhoto

Foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht. Na época, Marcelo já me havia falado dele, principalmente de seus poemas, não de seu teatro. E era uma fase que eu precisava de teatro, muito teatro, pois escrevia um tema shakespereano chamado “Canção para bruxas da meia noite”. Era um sonho de uma noite de verão em que um poeta sobre uma bicicleta e uma noite sem lua cantava o passado com suas bruxas que atuaram sobre os cenários e ribaltas de seu peito para depois dormir em Paris ou em São Paulo nuas em apocalipses & núpcias. As atrizes seriam magas de cetim, purpurina e latão que fugiriam antes do aplauso. O elenco já estava escalado: Glicia, Camila, Cleide, Kátia — as belas de sempre. O cenário estaria nas ruas e salas, nas folhas e árvores, em cada canto que eu ia, em minha cabeça, em cada coisa que sou. O tema era uma paródia sobre as feridas biográficas que carregava pela cidade perdendo seus nomes endereços & números de telefone: Kelly nas Laranjeiras, Harumi nas Pitangueiras, Andréia nas Goiabeiras, Michele nas Figueiras, magas que agitavam suas vassouras na hora de cantar. Mas o tema da peça fracassou e desisti porque acabaram as mágicas das manhãs e tardes, o encanto do ônibus com as magas maquiadas, mas elas nunca foram esquecidas, mesmo depois de curadas. Apesar de tudo, aprendi que com minhas bruxas que eu poderia melhorar e que elas sempre me ajudariam a ver um pouco mais além. Mas não é delas que eu quero falar, é sobre Brecht.

                Como disse no começo, foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht no Paço Municipal. Me recordo como fosse hoje de suas mãos sangrentas a contarem a história da infanticida Marie Farrar que foi acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma: já no segundo mês de gestação, em casa de uma parteira, num sótão, ela tentou expulsar o desafeto com duas injeções, embora tivesse pago de imediato o estipulado e ter continuado a apertar a cintura, tomado aguardente com pimenta moída, o que apenas serviu de forte purgante, e o corpo continuava inchando, até ser surpreendida pelo nascimento. Marie Farrar era menina pobre, empregada, que no dia do natalício, com a barriga escondida dos patrões limpou as escadas, estendeu toda roupa que lavou, varreu a neve em volta da casa antes de parir. E pariu um filho igual aos outros filhos. Depois disso ficou pouco tempo na cama, pois a criança começou a chorar o que a obrigou a conter com esforço seus gritos para que ninguém descobrisse e se pôs a bater-lhe com os dois punhos até a criança ficar quieta. Levou o natimorto consigo para a cama durante o resto da noite e pela manhã escondeu-o na lavanderia e o enterrou na neve até o degelo revelar seu crime. Desta história, o que mais me marcou a memória era o refrão: “Mas o senhor não vos indigneis, pois todo ser humano precisa de ajuda”. Não fiquei indignado, apenas emocionado com aquele trágico aborto. Daí passei a ler tanto os Poemas Pedagógicos de Marcelo, quanto os Poemas Qüinqüenais de Brecht.

Depois de conhecê-lo, lembro das vezes em que Marcelo, Allan, Anderson, Fábio, toda a juventude socialista e eu bebíamos com Brecht no Bar Vermelho e ele dizia que “Em nossa terra quem é bom não consegue ser bom por muito tempo   Quando os pratos estão vazios os homens atracam-se à mesa   Os mandamentos dos deuses não influem na carestia da vida   Por que os deuses não vão aos mercados distribuir alimentos em abundância?   Com vinho e pão garantidos os homens seriam bons e fraternais”   & nós lhe falávamos dos nossos sonhos  Máquinas de Fazer Sanduíches Gratuitos & a Coca-Cola sob controle do Estado distribuída no colégio na hora do recreio & cigarros sem nicotina & pílulas anticoncepcionais ao lado dos chicletes & pílulas contraceptivas ao lado do band-aid nas docerias & cupons para ir ao puteiro por uma hora pelo menos uma vez por mês & revistas do Batman e livros do Baudelaire na cesta básica, Brecht simplesmente ria da nossa ironia de esquerda festiva naqueles dias que encerravam uma época e as cortinas se fechavam antes do aplauso.