Contos & crônicas

Zangado

(Música de fundo: Piano – Concerto nº1 em E menor, op.11: II. Romance – Larghetto )

Enrolado em um cobertor rasgado ao meio – suficiente, porém, para cobrir todo o seu corpo –, ele dormia um sono profundo no banco da praça. Era um senhor sexagenário que, por analogia e por gracejo, havia recebido dos comerciantes locais e de seus consumidores ordinários o apelido de Zangado: exibia uma volumosa e emaranhada barba de tons grisalhos, uma estatura incomum e uma costumeira carranca; chamava a atenção também por dizer estar sempre acompanhado de um cachorro muito manso e serelepe de longos pelos ruivos e olhos tão azuis quanto o seu, sobre o qual afirmava, aos nossos ouvidos incrédulos, ter acolhido há 30 anos,  num dia em que fora visitar pela primeira vez a biblioteca central – a respeito deste encontro, alternava versões e acrescentava variações conforme o ouvinte, ou de acordo com seu humor, a fase da Lua ou a estação do ano, contudo, invariavelmente o relato começava com o cachorro caindo de um caminhão de mudanças e terminava com o animal dentro da biblioteca, em seu colo ou embaixo de seu paletó; desde então – afirmava – nunca se separaram e um dia voltaria com o amigo para sua terra natal, a Espanha, onde dizia ter sido maestro de uma orquestra sinfônica. Como se tornou mendigo, nunca revelara.

Com o corpo estendido naquele banco duro de concreto, nada parecia abalar o seu descanso, como tão pouco o abalaria os sinos da Igreja Matriz, que em alguns minutos dobrariam anunciando a virada da noite, mas uma chuva inesperada, fina e fria, começou a lhe castigar as costas – esse natural e incômodo banho lhe fez despertar num sobressalto; o cachorro, que dormia aos seus pés, também acordou assustado, rosnando ao nada, na escuridão. Homem e animal experimentaram, por instantes, a mesma sensação de desorientação que os levaram a um estranhamento mútuo e sobre onde estavam. Todavia, foi o cachorro o primeiro a dar por si, pulando no colo de seu dono e lhe lambendo o rosto, como que para acordá-lo de vez.

Refeito do susto, o homenzinho abraçou o cachorro e fez carinho em sua cabeça. Em seguida, juntou as suas tralhas, que consistiam basicamente no cobertor e uma mochila na qual carregava uma caneca de alumínio, uma escova de dentes, um creme dental que já estava no fim, um pente com alguns dentes quebrados, uma capa de chuva amarela, algumas mudas de roupa que lavava uma vez por semana no albergue da Rua do Ouvidor – dia em que tomava banho e fazia uma refeição mais adequada – e um velho livro de Boris Pasternak, protegido dentro de sacolinhas plásticas de supermercado: “O Doutor Jivago” – uma edição numerada de quinhentos e sessenta e cinco páginas de mil novecentos e cinquenta e oito, que continha uma dedicatória datada de vinte e quatro de dezembro do ano de publicação do livro, e que ele assegurava ter sido escrita e assinada pessoalmente pelo crítico literário português Jacinto do Prado Coelho – a dedicatória, no entanto, não era destinada a ele, mas sim a uma mulher chamada Artêmia, sobre a qual raramente falava e, segundo nos revelou certa vez com olhos marejados e voz embargada, com quem teria vivido um longo romance quando, ainda jovem, vivera em Portugal. Dizia a dedicatória: “Artêmia, para que mais ilustre seu já ilustre espírito. Sinceramente, Jacinto Prado. 24.12.58”.

A chuva apertava e os pingos escorriam pelos cabelos e pela barba do mendigo, alongando-os ainda mais; o ar gelado lhe doeu os ossos e lhe fez tremer todo. O cão ruivo chacoalhou seus pelos espalhando gotas por todos os lados e em seguida disparou para perto da porta da igreja. Era preciso sair dali e abrigar-se embaixo de algo que oferecesse alguma proteção. Tirou a capa de chuva da mochila e a vestiu apressadamente. Pensou em qual direção seguir e então decidiu ir passar o restante da noite embaixo da marquise do Primeiro Cartório de Registros Cíveis, que era tão vistosa a ponto de cobrir parte dos degraus de sua longa escadaria. Colocou a mochila nas costas e assobiou ao cão, que naquele momento estava de um lado ao outro correndo pela praça, a caçar algum animal que ao longe não se distinguia se tratar de um gato ou um rato, mas que fugia das garras de seu caçador com esquives sincronizados, resultando num baile frenético cujo prêmio seria simplesmente a própria vida. Ao ouvir o assobio, os dois animais estancaram; o ruivo deu um salto para frente, sacudiu novamente os pelos e voltou correndo para perto do andarilho – com um ar triunfante trazia, entre seus dentes, um caxinguelê.

Nesse momento, o sino da Matriz começou suas badaladas noturnas, mas desta vez disputando espaço com os trovões. Para o pequeno homem, que a dez metros da igreja se voltou para a entrada desta, como a se despedir de um ente querido, aquela associação entre os clarões iluminando a torre em repentinos raios esparsos, os dobres e os trovões trouxe à tona a memória de uma sinfonia cujo maestro invisível conduzia sadicamente das alturas para acordar e torturar homens que, por razões das mais diversas fizeram, ou se viram obrigados a fazer, das praças e calçadas o seu lar, e dos bancos das praças e dos pontos de ônibus as suas camas, por vezes bem disputadas. Pensar na figura de um maestro invisível conduzindo uma orquestra sádica lhe soou um tanto irônico, pois há tempos abandonara qualquer fé no sobrenatural, assim como (mais pelas experiências que teve na vida do que pelas leituras que fez) também não acreditava em uma mão invisível a regular a sociedade; sabia que tudo – inclusive a condição de homens como ele – resultava de um complexo jogo de interesses econômicos numa confusa teia de relações sociais. Nesse jogo, via-se como vítima e como algoz, como criação e como criador; resignara-se a esta situação e a pressentia passageira, mesmo vivendo tantos anos assim.

Com seus passinhos curtos e obstinados, saiu da praça, atravessou a rua e seguiu em direção ao Cartório, que ficava a duas quadras dali. O cachorro caminhava muito rente às suas pernas ao ponto que quem olhasse de longe teria a impressão de que ambos formavam um único e indistinto ser vivo.

Ao fim do expediente os comerciantes depositavam nas calçadas os resíduos produzidos ao longo do dia, que deveriam ser recolhidos pelos coletores de lixo entre as dezenove e as vinte e duas horas; contudo, naquela noite um blecaute acontecera na região central e a companhia de energia elétrica não tinha previsão de quanto tempo levaria para solucionar o problema; assim, por motivos de segurança a empresa de coleta, com autorização do departamento de serviços urbanos, decidira realizar o serviço na primeira hora da manhã seguinte. Por isso, se esgueirando pelas paredes e portas das lojas para tentar se proteger do vento e da chuva, às vezes homem e cachorro precisavam desviar da calçada e caminhar por alguns trechos das ruas, afundando os pés no meio-fio, onde as águas formavam uma espécie de córrego em direção às bocas de lobo entupidas.

No momento em que retornara à calçada, já próximo de uma grande porta de aço de um magazine, percebeu uma luz se aproximando  por detrás, cada vez mais intensa – era um automóvel sedã de cor escura e vidros fumês, cujo motorista vinha lentamente e, ao aproximar-se, acelerou e jogou o carro o mais que pode próximo à calçada; passando sobre uma poça de água, criou uma onda que encobriu cachorro e homenzinho que, num movimento instintivo, jogou-se contra a porta de aço, causando um estrondo metálico seguido do disparo do alarme da loja – um som altíssimo que fazia os ouvidos doerem: era como se um túnel de vento lhe soprasse diretamente nos ouvidos, causando uma ligeira tontura no pequeno homem, que sentia uma dor aguda no ombro e na fronte, além de um gosto de água suja na boca.

Cambaleante, sentou-se à porta da loja a tempo de ver o cachorro correndo atrás do carro, com latidos frenéticos que mesmo ao longe disputavam em intensidade com o alarme da loja. Bruscamente, o motorista pisou no freio e o carro deslizou em ziguezague uns três metros, cantando os pneus. O cachorro, já tendo alcançado o auto, continuava latindo, parado ao lado da porta do passageiro. Após alguns segundos, a porta do passageiro se abriu e o ruivo ouriçou os pelos, preparando-se para atacar; de repente, recuou alguns passos e um forte estampido saiu de dentro do carro, depois outro e mais outro – a cada estampido, um clarão tornava visível a silhueta de um homem meio inclinado para o lado, com o braço esticado e um objeto em sua mão, de onde originavam luzes e estampidos.

O cão soltou um latido estridente, rolou o corpo em cambalhotas até o meio-fio e estancou, imóvel e em silêncio. A porta do carro se fechou e o auto prosseguiu lentamente, dobrou a esquina e sumiu.

“Não!…” – Tentou gritar o velho, mas a voz mal saíra. Levantou-se de uma vez. O gosto de água suja na boca foi substituído por um amargor até então nunca sentido, apesar das tantas agruras pelas quais passara em sua vida errante. Caminhou em direção ao ruivo, sentiu um formigamento intenso na língua e uma fraqueza nas pernas; lentamente as vistas escureceram, como o fechar das imensas e rubras cortinas do Gran Teatre del Liceu, para onde involuntariamente se via transportado naquele momento, conduzindo uma orquestra com músicos que permaneciam todos emudecidos e cabisbaixos, à frente de uma plateia de pessoas congeladas e com buracos vazios substituindo os globos oculares. Zangado girou em torno do próprio corpo e tombou no meio da calçada, sentindo as pontas dos dedos terem alcançado o cachorro.

Acordou ao amanhecer, com as roupas ensopadas. Demorou a compreender que estava estendido sobre uma maca dentro de uma ambulância. Abriu os olhos, não enxergou nada. Sentado ao seu lado, um socorrista lhe aplicava um soro na veia. Tentou se levantar, mas sentia-se sem força; balbuciou algumas palavras e a voz fraca era abafada pelo som da sirene. Percebendo-se acompanhado, fez um gesto. O enfermeiro aproximou a orelha de sua boca e em seguida respondeu, sem entender o porquê da pergunta: “Cachorro? Que cachorro?…

O homenzinho, que não sabia se estava com os olhos abertos ou fechados, percebia do lado de fora apenas uma escuridão barulhenta; dentro de si,  sentia um vazio profundo em meio a memórias de coisas confusas e incertas. O som estridente da sirene foi ficando cada vez mais distante de seus ouvidos, enquanto a ambulância seguia avançando pela cidade empurrando os autos para as laterais da pista.

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