"Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus"
[Chico Buarque - Pedaço de Mim]
A nossa despedida começou muito antes de voltar a ser hospitalizada, quando fui visitá-la em casa e, ao dar tchau, me abraçou e confidenciou baixinho ao meu ouvido: “Deixa falar uma coisa só pra você… eu vou morrer“.
Numa vã tentativa de amenizar uma revelação que sentia ser verdadeira, respondi com outra verdade: “Todos nós vamos, mãe” e ela, com um sorriso enigmático – talvez resignado, talvez constrangido -, retrucou: “Mas eu vou primeiro“.
Com toda a sua sabedoria de vida, ela não tinha como saber que de alguma forma os filhos também vão quando as mães se vão. O contrário também é verdadeiro e, na realidade, a gente só sabe quando acontece.
O fato é que no dia em que nos deixou, deixei a mim também; lhe perdi como mãe e, em alguma medida, ao mesmo tempo me perdi como filho; me fiz por momentos o pai – meu avô – que há tempos partiu. Era preciso cumprir o triste rito dos últimos preparativos, cujos passos havia antecipado em mapas mentais de caminhos obscuros.
Quando a acompanhava no hospital, tentava evitar as lágrimas, mas, sentir que estava a perdendo doía tanto ou mais quanto perder efetivamente. Às vezes – gesto inconsciente de autodefesa ou contradição inerente ao ser humano -, o medo de perder nos faz afastar, ainda que de nós mesmos.
Já no seu leito derradeiro, acariciei sua fronte e beijei sua testa inanimada, senti seus fios de cabelo nas pontas de meus dedos e coloquei entre suas delicadas e frias mãos uma carta que na noite anterior havia escrito em letras miúdas e incrivelmente regulares, como há muito não conseguia fazer. Dirigi a ela palavras carinhosas e alguns chistes – nosso jogo em vida – e tive a impressão que sorria, consciente de que essa impressão era, mais do que um produto da memória, efeito do desejo de que estivesse a sorrir de fato… e de que aquilo tudo não passasse de um sonho mau que em breve seria dissipado feito neblina ao Sol.
Como um duplo de mim mesmo, racionalizei a emoção e escondi bem no fundo a invisível dor que dilacerava a olhos vistos. Não sei se devo pedir desculpas pela reação nada intempestiva, pela falta de desespero diante da esperança findada, mas precisava afastar o quanto antes os olhares de piedade porque estes feriam impiedosamente; não podia dar conta de tanta dor compartilhada e ao mesmo tempo vivenciada de maneira tão unicamente pessoal. “Se ela me deixou, a dor é minha e de mais ninguém“…
Na fraqueza inevitável das últimas horas ao seu lado, vesti a fantasia de uma fortaleza em festa porque, antes de tudo, ela não merecia o sofrimento de partir sentindo que nos deixava em sofrimento. Consolei a quem precisava e até mesmo a quem consternadamente procurava nos consolar com gestos e palavras afetuosas e sou grato a cada um que se fez presente senão de corpo, pelo menos em palavra ou em pensamento pelos mais diversos meios.
A sua despedida foi simples, triste e bonita. Até mesmo antigas amigas e colegas de trabalho tiraram um momento do serviço para um último adeus e, conforme a crença de alguns, para um “até breve, a gente se vê“. Para o momento final, escolhemos duas músicas que sei que teria gostado. Sim, “eu tenho tanto, pra lhe falar, mas como palavras não sei dizer“…
(Era bom deitar em seu colo, recebendo carinho na cabeça como se fosse criança e ficar um tempão sem dizer nada, porque não precisava de palavras, sabe… E por vezes lhe arrancar gargalhadas dizendo “Mãe, deixa eu voltar pro seu útero, era tão quentinho!”…)
Desabei apenas após ter a ilusão de que tudo havia passado, já em casa… O fato é que não passa nunca e a gente vai aprendendo a conviver com uma camada de tristeza subcutânea: uma ausência que se faz presente a todo instante, em ondas ora mais, ora menos intensas.
Com frequência, essas ondas se manifestam em sonhos aparentemente tão reais que chegam a nos fazer acordar chorando ou rindo, como um em que estávamos todos à volta de sua mesa e eu lhe dizia: “Oxe, mãe, como a senhora está aqui?” e ela respondeu: “Eu não estou, menino, só vim ver como vocês estão”.
É a lembrança e o desejo de que estivesse aqui que lhe fazem presente, eu sei… E é por isso que também sei que, se uma parte do filho se vai com a perda da mãe, igualmente a mãe permanece viva nos filhos que vivos permanecem – filhos que prosseguem construindo a história que começou dentro dela… dentro de você, mãe, como pedaço de ti.
[M.S.]

Lindo!??