Carta à mãe

Mãe, às vezes a saudade dói e eu tento não pensar – não porque quero esquecer, mas porque não sei lidar com vazios e com a culpa de não ter feito mais, de não ter sido mais presente, de não estar ao seu lado enquanto podia, por ter te deixado partir sem lutar o suficiente; por aceitar, como inevitável, o inevitável que poderia ter sido adiado.

Poderia ter sido adiado? Não sei lidar com essa dúvida…

Não consigo explicar se fui egoísta e entreguei o jogo sem jogar, ou se foi o certo a fazer. Nunca saberei, e esta é a pedra herdada de Sísifo que terei de carregar até que as cortinas se fechem.

Mãe, como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui ouvindo Pink Floyd, Caetano ou Roberto, que você tanto preferia e que tocou na sua despedida, marcando aqueles passos sem pressa até a sua penúltima morada – o Roberto mesmo, de quem eu nunca gostei. Que fosse o Roberto!

Havia muito pra lhe falar, mãe! Mas só ouvia a música atravessando meu corpo, um clarinete mal tocado, um violino arrastado como se tanto fizesse, como se ninguém fosse perceber… enquanto o seu corpo, pequenino, pesava nos nossos braços e ao mesmo tempo era tão leve, tão efêmero, tão sem seu sorriso… tão sem você!

Eu apenas queria que você soubesse, mãe, que naquele dia não chorei. Chorei à noite, talvez por me sentir culpado por não ter chorado. Talvez pela estranha fraqueza de ter sido forte como havia me preparado para ser.  Eu me senti envergonhado por ter sido forte…

Então acho que chorei por vergonha, e pela vergonha de me sentir envergonhado. E chorei porque finalmente havia me dado conta de que não tinha mais para onde voltar e só poderia, dali em diante, seguir em frente…

O meu riso – você sempre soube – era de nervosismo; dentro da minha calmaria fazia tempestade, trazia comigo um tsunami que mais tarde inundaria meus olhos até a mente se apagar para uma noite pesada e sem sonho.

Talvez tivesse sonhado.  Não lembro agora.

O que lembro, mãe, não sei o porquê: o ferro na mesa, na mesa as cobertas, as roupas pelas cadeiras, dobradas, uma música tocando no rádio da vizinha, uma música alta em língua estrangeira, a voz grave e suave do locutor incidindo sobre a parte instrumental – uma música que nunca mais ouvi; não sei dizer, mas a ouço nitidamente, na mente.

Lembro dos pães da vó; os pães que antes de irem ao forno descansavam toda a noite sob cobertores estendidos na mesa. Como a vó dizia que, depois de sovar, eles precisavam descansar sob as cobertas, eu – menino cheio de ideias aquarianas – os imaginava cansados da sova que a vó lhes dava.

A vó se foi bem antes, mãe, a vó com seus olhos azuis como o mar, safiras como o céu num dia de sol sem nuvens, safiras como pedras atravessadas pela luz… Safiras.

A vó levou os pães que não mais precisariam descansar depois da sova, que não mais amanheceriam quentinhos dentro do forno, que já não exalariam aquele cheiro de casa de vó misturado com o cheiro de café no coador,  café moído na hora, café com cheiro de vó, nas ruas prudentes de terra batida, naquela casa de tábuas azuis safira como os seus olhos, muros baixos, varandinha, pequeno jardim com roseiras na frente e o Fusca, do vô, cor de vinho tinto no quintal lateral – o vô que havia partido muito antes, com seu bigode fininho, seu sorriso discreto e sua voz de trovão; o vô que deixou na parede o chicote muladeiro de três pontas…

Mãe, lembro e sinto o hálito quente do vento soprando como um abraço, no verão do Jardim Silvana, como os seus braços envoltos no meu corpo de menino que custava a dormir, a sentir o embalo como o mar indo, como o mar vindo, indo e vindo… e o vento soprando o som de sua voz, num sussurro: “xiu, dorme, vê se dorme”…

Lembro-me do asfalto com cheiro de piche, as bolhas estourando ao calor do Sol, de como era gostosa a sensação de pisar descalço no asfalto morno – logo eu, que nunca gostei de andar descalço, que calçava as sandálias assim que levantava da cama, e que muito provavelmente, se permitissem, dormiria com elas…

Lembro-me do dia em que estive exatamente no limite da chuva que caía, mãe: estendi os braços e molhei apenas parte do corpo, sentindo o cheiro de terra subindo vagarosamente, um cheiro de roça cuja memória é construída mais pelos relatos dos adultos do que pelas minhas, pois se misturam com cenas vagas de coisas que não sei ao certo ter vivenciado.

Naquele dia, sentei na beira da calçada e joguei uma massa de barro na roda de um carro que passava, e, pela primeira vez na vida, te vi virando uma fera, mãe, mas não para brigar comigo.

Um menino é sempre um menino – um dia vira homem e começa a entender as coisas… Por ora, o susto bastava como lição.

Lembro-me daquela casa com que sempre sonhava: o ônibus deslizando sobre o interminável viaduto de Aparecida, o chão se abrindo sob meus pés, o corpo em queda, o teto se abrindo, o piso de cimento queimado, vermelho brasa, frio, e tudo vazio de móveis, apenas as paredes, o teto fechando, a casa escura.

Eu sei: tudo isso já foi dito, mãe! Absolutamente nada até aqui é novidade, pois, o que não foi falado, foi ao menos pensado…

Só não falei dos olhos à espreita no escuro, olhos de hiena, olhos furtivos e sorrateiros…  Ninguém perde por confiar, mãe.

Nunca contei – não lembro de ter lhe contado, mãe – da mordida do cachorro, dos sorrisos desdentados e das mordidas das hienas…  Da solidão gelada como aquele piso, vermelho como o fogo, as portas fechadas, a luz do Sol entrando pelas frestas da janela – o Sol fora, a escuridão dentro.

Mãe, decerto você gostaria tanto de estar aqui, sabe! Essa casa, os jardins, o quintal sem escadas, de frente pra rua, como numa cidade de interior. A gente quase esquece estar à beira de rodovia numa cidade com mais de oitocentas mil pessoas.

Você gostaria até dos gatos, mãe!

Não lembro de alguma vez você ter falado que gostasse ou não de gatos – acho que você não gostava, mas destes teria gostado, tenho certeza; eles repousariam no seu colo como eu fazia, você enroscaria os seus dedos embaraçando os pelos deles como fazia no meu cabelo quando era comprido…

Lembra, mãe, daquele cabelo comprido que todo mundo e eu mesmo achava feio pra caramba e você dizia ser bonito?!… Foi uma experiência e tanto aquela cabeleira de Bethânia, os óculos de John, a barba que mal crescia e só começou a marcar alguma presença significativa aos quarenta…

Agora, que começam a rarear os fios, sinto falta daqueles cabelos que, por ironia e por deboche, eu prendia com elásticos os mais coloridos possíveis, como aquele branco com flores e corações multicolores – presente de uma amiga que se foi há muitos e muitos anos.

Às vezes sinto o gosto do frango com molho dos domingos… do macarrão, da salada de maionese, mas eu gostava mesmo era do pão francês com sardinha, cebola e tomate picadinhos! … Era a sua receita secreta, o nosso lanche especial, melhor do que qualquer um que já provei até hoje, porque nenhum outro leva na receita a sua lembrança.

Mãe, eu tenho quase meio século a mais do que a expectativa de vida que me deram. Não tarda que, com um pouco de sorte, terei a sua idade em seu último dia.

Não me pergunto o porquê – não vejo um propósito em nada disso –, apenas acato a natural condição humana sem alimentar ilusões e acolho a saudade que ora cochila, ora desperta turbulenta, mas está sempre presente, viva, latente. Por isso, mãe, ainda que não me ouça, ainda que não me leia, hoje precisava falar novamente de coisas já ditas e de outras que nunca havia mencionado. Talvez outras cenas aflorem ao se aproximar o momento de lhe resgatar de sua morada…

Como canta o Roberto, mãe: “das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter; só assim sinto você bem perto de mim outra vez”.

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