Estatuto da Educação – Um olhar crítico e necessário

Por Geanete Lavorato Franco*

 Trabalhadores da Educação,  

Sempre fico preocupada com a construção dos novos estatutos do magistério (não é o primeiro em minha carreira). A mim, eles se parecem com um manual recheado de nomneclaturas, escalas, possibilidades que podem salvar o percurso dos funcionários por ele premiado. Mas esse percurso de longos 25 ou 30 anos que dependem da lei maior sobre a aposentadoria não é tão certo, tão equitativo e não tão lógico. Isso não quer dizer que eu seja contra a re-construção do Estatuto de SBC. Mas penso que maior que as definições necessárias é o tempo que o servidor levará para ter sua carreira concluída e, após sua conclusão, o que mais esse trabalhador da Educação terá a motivá-lo para que permaneça na mesma rede com o mesmo entusiasmo que lhe moveu em sua primeira década de Professor. 

Desconhecendo um pouco a real forma do encaminhamento destas presentes discussões, peço desculpas se repetir o já definido pela comissão, mas registro aqui que ao escutar a palestra do Prof. Callegari senti-a muito frágil para os interesses dos  Trabalhadores da Educação. Faço questão de usar este termo, Trabalhadores da Educação, para que não paire dúvidas quanto ao caráter do profissional da Educação. Temos que deixar bem explícito de que lecionar não é um sacerdócio, é uma profissão e como tal deve ser vista, respeitada e qualificada como tal. 

Sobre a base da definição de um Profissional da Educação podemos re-construir o Estatuto.  Enquanto houver cargos nomeados pelos Secretários também nomeados de acordo com os interesses do governante eleito que normalmente desconhece ou não re-conhece a profissão de um Trabalhador da Educação ou confunde-os com um exercício de sacerdócio, não avançaremos nas discussões, quanto mais concluí-las. 

Um estatuto que norteia responsabilidades, deveres porém não avança com um plano justo de carreira, não está realmente criando um Estatuto, mas sim um Manual de Responsabilidades.  É o que tem acontecido nestes 12 anos que nos trouxeram a SBC por força de concurso público e é  que acontece em estados e cidades que concluem seus estatutos com base em nomenclaturas. 

Mesmo que tivéssemos um olhar contemplativo quanto à carreira do trabalhador da educação, podemos afirmar com certeza que a política salarial avassalou qualquer possibilidade de atingirmos um ápice profissional como o faz a Prefeitura de SP, reservadas algumas críticas aqui não pertinentes neste momento, independentemente de quem a governe. E, aqui neste momento falo da carreira de um Professor, um vez que os desmandos nas Secretarias e seus Governantes não tem garantido a excelência no resultado final da educação como meio de construção pessoal e social dos educandos.  

Este tema, plano de carreira, antecedendo qualquer intenção de transformação é amplo. Continuarei a escrever sobre ele envinado as reflexões a vocês.

Quero aqui re-lembrar a todos e todas que o curso de graduação na USP oferecido aos nossos educadores é equivocado. Muitos dos que o frequenta estão abandonando responsabilidades profissionais e familiares por falta de tempo para bem cumprirem os estudos e trabalhos. Além de estarem estafados ao assumirem responsabilidades concomitantes, tais como: Educadora em DOIS períodos por força da necessidade financeira, mãe, filha, esposa e estudante do curso de pós-graduação. Prá começar qualquer discussão, nossa carreira, nossa vida profissional devem ser respeitadas, e para tanto, o curso deve justificar parte do salário e do tempo de quem o faz para que seja profícuo e responsável.

Desculpe nossa colocação no meio deste já talvez avançado diálogo entre a comissão e a secretaria. Mas por motivos de forum íntimo, resisti a me procunciar em mais uma elaboração estatutária.

Abraços!

*Profª Geanete Lavorato Franco – 60
EMEB Viriato Correia / SBC

Indústria cultural e educação

Por Anderson Alves Esteves

 

“O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada no portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo”*

     Machado de Assis denunciou, há cerca de um século, a palmatória usada para agredir as mãos dos estudantes; hoje, ela continua existindo, apenas mudou de alvo: ao invés das mãos, agride os cérebros – trata-se de, com o material didático apostilado ou modulado, avançar com o conteúdo em um ritmo fabril sem que se “perca tempo” pensando, sem que se filosofe em uma aula de Filosofia (!), trata-se de, em uma página, citar três, quatro filósofos[1] sem expor a argumentação de nenhum deles; o que importa é cumprir o programa, preencher o material didático, empreender a “utilização exaustiva”[2]. Lecionar, sob a indústria cultural e o monopólio das escolas e dos materiais didáticos é repetir, com crianças e jovens, o que a razão tecnológica fez aos adultos no trabalho e o que a indústria cultural faz a todos no tempo “livre”: basta ensinar o que, anteriormente, a televisão já lhes ensinou, a saber, submeter-se incondicionalmente à ordem administrada para receber, na maior quantidade possível, o que ela distribui – sob tal enquadramento, lecionar a autonomia e a crítica dos pensamentos de Kant e Hegel é ensinar a não ser autônomo e nem crítico, elaborar uma proposta pedagógica para a edificação da autonomia é pilhéria e não mais utopia. A invasão do “efeito de choque”[3] do cinema e da estética televisiva na escola expressa-se no material didático que, imitando-os, força a aula a jogar uma sucessão de imagens, palavras e exercícios sem que se disponibilize tempo à reflexão – trata-se de uma aula sem aura, de mais um exemplar do material didático para as massas tal como uma emissora de televisão oferta mais um capítulo de um seriado, uma vez que o docente apenas segue a vereda do que foi apostilado ou modulado sem poder trilhar outro caminho e o discente também tem a individualidade deficitária por ter o espírito guiado por outrem[4].  E para o discente a aprendizagem é fácil, uma vez que já vem de sua casa sem autonomia e sem crítica, já vem com um pensamento padronizado e treinado para não se verticalizar – a capitulação da instituição escolar ocorre ao repetir à exaustão tudo o que existe, ao subtrair o hic et nunc das aulas e integrá-las, na forma e no conteúdo, ao status quo. O próprio ritmo da aula e da escola deve seguir o ritmo da indústria cultural que (de)formou o seu público: nada de concentração e reflexão, basta ver algo aqui e ali no material didático que abriu mão do rigor filosófico-científico e adotou a comunicação desleixada e reacionária que curva-se perante o status quo, conforme Adorno analisou: “A expressão vaga permite àquele que a ouve representar-se aproximadamente o que lhe convém e que ele de todo modo já tem em mente”[5]. Os ouvidos moucos e a razão mutilada dos discentes que ouvem uma expressão do tipo “Platão é idealista” imaginam ter aprendido Platão, a despeito do professor saber não ter ensinado. O que importa é dar conta do material didático e todos os interesses devem ser anulados em nome do programa que não foi escolhido pelo docente ou pelos discentes – eis o rebaixamento dos átomos sociais em relação ao todo. Eis, com efeito, uma forma de controle social: o material didático se impõe e distribui informações cuja moeda de troca é reversível em notas àqueles que regulam-se pelo plano das coisas, resignam-se com ele (há uma mobilização, não importa se honesta ou não, das crianças e jovens para aquisição das notas tal como os adultos se mobilizam em trabalhar para o grande capital e consumir, posteriormente, algumas mercadorias); sem elas, a escola não sobrevive no mercado, os docentes não vendem força-de-trabalho, os discentes não ascendem ao próximo degrau do ensino seriado (não importando se aprenderam algo ou não) – a escola insiste em ensinar a lei da concorrência sob a era dos monopólios. Docentes e discentes, tomando as coisas como lhe são dadas, pretéritas, aceitas sem nenhum questionamento, veem que o importante é fazer segundo o postulado pelo plano, pela apostila – a coisa é o que importa, ela guia o docente e o discente na medida em que ambos estão submetidos à norma e à imanência dela, cujo resultado é a alienação e a coisificação. Os grilhões que os amarram são as próprias coisas que usam[6]. Em particular, ao docente cabe apenas o papel de tornar-se um professor-animador-de-torcida para convencer os discentes a executarem as tarefas; uma novidade teórica correspondente à educação monopolizada pelos materiais didáticos é a proposta de Perrenoud de atribuir ao professor o dever de  “criar outros tipos de situação de aprendizagem”[7], de tornar palatável a subserviência e a heteronomia. Para ser uma forma de controle social eficiente, o material didático também conta com docentes e discentes que produziram modos de pensar de acordo com ele, uma vez que escola heterônoma exige um público sem autonomia: não só a coisa, mas a consciência de quem a ocupa expressa e veicula a dominação por agir de acordo com as coisas aceitando-as racionalmente (racionalidade pré-formada, é verdade), autorizando a administração do todo sobre si mesma e abrindo mão da autonomia. De um lado, a racionalidade mutilada e coisificada que foi produzida no consumidor do material didático é reflexo deste; de outro, o consumidor veicula e perpetua o controle social ao reproduzir, perenemente, o formato e o conteúdo esvaziado do material didático mediante a servidão voluntária. A indústria de um modo geral, e a indústria educacional, de um modo particular,  ambas monopolizadas, retiraram da sociedade burguesa a iniciativa individual característica à era liberal: a era monopolista mina a autonomia e forma átomos sociais hetorônomos que veiculam a ordem estabelecida ao agirem como dentes das engrenagens dos grandes conglomerados monopolistas. Se o material didático usado para a construção do conhecimento e da autonomia produz ideologia e heteronomia, se aquilo que poderia ser instrumento de liberdade é o grilhão que acorrenta os átomos sociais, como estes poderão se emancipar?  


* ASSIS, Machado de. “Conto de escola” In: A cartomante e outros contos. São Paulo: Moderna, 2004, p. 30.

[1] Eis dois exemplos: 1) FÁTIMA, Maria Amorin de. Filosofia: ensino médio vol. 3. Belo Horizonte: Editora Educacional, 2010, p. 15. 2) ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia: módulo 1. São Paulo: Moderna, 2009, p. 4.

[2] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete, Petrópolis: Vozes, 2002, 25° edição, p. 131.

[3] BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução” In: Os pensadores. Tradução de José Lino Grünnewald, São Paulo: Abril Cultural, 1975, p. 31.

[4] Ainda na edificação da sociedade liberal, Rousseau já argumentava, em 1761, que a educação conduzida por outrem prejudica a individualidade: “(…) Recebendo-as (as coisas) tais como nos são dadas é sempre sob uma forma que não é a nossa. Somos mais ricos do que pensamos mas, diz Montaigne, ‘ensinam-nos a pedir emprestado, de esmola’; ensinam-nos a nos servirmos antes do bem alheio do que do nosso, ou antes, acumulando sem cessar, não ousamos tocar em nada: somos como esses avarentos que só pensam em encher seus celeiros e, em meio à abundância, deixam-se morrer de fome”. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Júlia ou a nova Heloísa. Tradução de Fúlvia M. L. Moretto, São Paulo/Campinas: Hucitec/Unicamp, 1994, p. 66.

[5] ADORNO, Theodor. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 2° edição, 1993, aforismo 64, p. 88.

[6] MARCUSE, Herbert. “Sobre os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho na ciência econômica” In: Cultura e Sociedade vol. I. Tradução de Wolfgang Leo Maar, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 43.

[7] PERRENOUD, Philippe. 10 novas competências para ensinar. Tradução de Patrícia Chittoni Ramos, Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000, p. 25.

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Fonte: http://anderesteves.wordpress.com/

Olhai os Lírios do Campo

Publicado em 1938, este é um dos livros cuja leitura, desde os quatorze anos, sempre retomo e nunca me canso, porque parece que sempre encontro algo que eu não tinha visto antes, e o que antes havia visto reveste-se de uma novidade possibilitada pelo olhar apurado no tempo (= eufemismo para envelhecimento do leitor), ou pelo distanciamento da história – esta sim nunca envelhece. Trata-se de um romance sem igual, com personagens de uma humanidade extrema, marcantes, e uma história de encher-nos ora de raiva, ora de comoção. Apesar da ideia de redenção, presentíssima na narrativa, vale cada minuto que passamos percorrendo as entranhas deste livro e mergulhando no mundo de Eugênio e Olívia, cujos caminhos se encontram e desencontram, conforme as opções que vão tomando a partir das realidades com que vão se defrontando. Penso que neste romance Érico Veríssimo contrapõe a ideia de culpa pela idéia de responsabilidade, que é a parcela que cada um carrega a todo momento da vida.

Uma “bofetada” em Ana Maria Braga

Difícil imaginar um jogador de futebol famoso que, mais do que driblar, fazer gols e correr atrás da bola (ou correr pra longe da bola!), esteja associado a algo que não seja aquela imagem que temos do cara que ganha a vida fácil fazendo o que sempre sonhou em fazer: ganhar muito dinheiro, viver no luxo e na farra – e tudo isso sem nem precisar ter terminado os estudos! Puxa, eu sei que parece preconceito meu… Digo mais: eu nem penso assim! Tenho certeza de que a grande maioria come o pão que o diabo amassou e que deus cuspiu, trabalhando duro sem receber o necessário para o sustento tranquilo, e ainda assim fazendo a alegria de torcedores e dos próprios colegas que, famosos, ganham milhões às suas custas.

 Abrindo um parêntesis: de futebol eu não entendo bulufas, nem mesmo compreendo como é que pra garantir o seu ganha-pão alguém seja obrigado a ter um empresário que detém o seu “passe”, que nada mais é do que o poder de decidir se o atleta joga neste ou naquele time – pra mim isto é mais do que escravidão, é uma relação de vassalagem e servidão que persiste em nossos tempos e é ainda mais retrógrada do que a relação burguesia-proletariado porque, além do cara não possuir o poder sobre os instrumentos do seu trabalho, não tem nem a liberdade de vender sua força de trabalho pra quem bem entende. Isso sem falar da insana onda de violência que envolve o futebol, esse moderno ópio do povo que movimenta bilhões e que, a cada campeonato, faz mais e mais vítimas – dentro e fora dos campos e estádios.

 Bem, voltando à questão inicial… Preconceito ou não, a verdade é que o inconsciente coletivo atribui à figura do jogador famoso uma “áurea” de vida fácil e frívola, do cara que fez fama e fortuna sem precisar rachar a cabeça com os estudos e com os vestibulares e que, por isso, tem licença poética para cantar “Ovriram do piranga as margi prácida” – o que, diga-se de passagem, comparado a mim que mal sei o Hino Nacional e não canto nem no banheiro, já é uma proeza e tanto! Se bem que a inteligência das pessoas não se mede por saber ou não cantar corretamente o Hino Nacional, mas é inegável e inestimável a coragem de cantá-la em público desses bravos que não temem não a justiça, mas a clava forte da ironia dos ímpios como eu, que aqui estou não a gracejar de seus equívocos, mas sim a considerá-los superiores àqueles que fingindo entoar o Hino, simplesmente balbuciam palavras desconexas ou sílabas incompletas.

 Sem mais delongas! O fato é que no imaginário popular a figura de jogadores famosos de futebol  associa-se a um monte de coisas (boas, não tão boas, ou ruins mesmo, dependendo do ponto-de-vista ou do conceito moral que cada um possui). O que passa longe da nossa mente é a imagem do jogador de futebol famoso culto, letrado, leitor assíduo de jornais e livros etc (como se isso fosse condição imprescindível para alguém ter inteligência ou sensibilidade para intepretar e compreender o mundo e as relações humanas!). A respeito disso, não conheço, por exemplo, o histórico do jogador Petkovic, ídolo do Flamengo – pra ser bem sincero, não conheço histórico de jogador ou time nenhum, porque se tem outra coisa que eu tambérm não entendo é como pode 22 caras ficarem brigando por uma só bola (como dizem, dá uma bola pra cada um que acaba a briga!). Acontece que Petkovic, em entrevista à Ana Maria Braga, em seu programa matutino (deliciosas receitas, o que estraga é a apresentadora!) mostrou que ser jogador famoso de futebol e ser inteligente não são duas coisas dissociadas: logo nos primeiros minutos da entrevista, Ana Maria pergunta à Petkovic, que é de origem sérvia, “como é ter nacido num país com tantas dificuldades”. A resposta, simples, direta e precisa: “QUANDO NASCI NÃO TINHA DIFICULDADE NENHUMA, ERA UM PAÍS MARAVILHA, A GENTE VIVIA NUM REGIME SOCIALISTA, NÉ, TODO MUNDO BEM, TODO MUNDO TRABALHANDO… TEM TRABALHO, SALÁRIO”… O mais irônico é que, acho que de tanta plástica e de tanta maquiagem pra lustrar aquela cara-de-pau, a apresentadora não moveu um músculo da face nem ficou vermelha pela gafe que cometeu – mudou de assunto como se nunca na vida tivesse levado essa bofetada de Petkovic. [M.S – texto originalmente publicado em 28 de fevereiro de 2010]

 Confira diretamente em: http://petkovic10.blogspot.com/2010/02/ana-maria-recebe-o-craque-de-futebol.html

O Morto

Pão – trigo e água:
O sangue o vinho
O corpo do porco
Banhado no álcool.
 
             Heresia:
Boemia – cítrica
A fruta a gengiva
O esôfago
A pedra no rim
a cirrore o figo
No fígado do morto
Posto na mesa.
 
Pão – trigo e água
O sal no céu – de Seúl
O caco de copo
No chão o bule
No fogão o verme
No corpo do porco
Morto posto na mesa.
 
                       Heresia:
Fermento da modern
Idade: trigo e sangue
O pulmão a úlcera
No esôfago a fumaça
No corpo do porco
Morto posto na mesa.
 
 
[M.S., em 15/07/1998 – 16/02/2010]

Informes sobre o Estatuto da Educação (1)

Caras (os) colegas,

A Comissão Setorial de Educação, que está incubida da organização e negociação sobre o Estatuto dos Profissionais da Educação de SBC, retornou suas atividades em 15 de fevereiro, reunindo-se com a assessoria contratada pela SE, para discutir propostas para reformulação do Estatuto. Tendo como base as discussões já iniciadas, algumas possibilidades de alterações estão sendo levantadas, e precisamos saber de vocês suas opiniões e sugestões – para tanto, as plenárias em horários de htpcs serão fundamentais, além da participação direta nas demais reuniões e do envio de propostas. Fiquei responsável por ventilar as informações, e gostaria da colaboração de todos para que a circulação seja a mais ampla possível, a fim de que cada profissional formule suas próprias opiniões e tenhamos, ao final do processo, um Estatuto que represente ao máximo o coletivo dos educadores e, acima de tudo, seja um instrumento que contribua para a melhoria da qualidade da educação em nosso município.

Até o momento, tivemos dois encontros com a assessoria, nos quais iniciamos a discussão seguindo aquele cronograma apresentado a todas (os) pela própria SE, no final do ano passado, durante palestra do Cesar Callegari. Nestes dois encontros, debatemos a parte permanente do quadro do magistério, e surgiram como propostas duas modificações principais: a criação do cargo de vice-diretor, concursado, em substituição à atual função gratificada de PAD; e a mudança de denominação do cargo de Orientador Pedagógico para Supervisor de Ensino (neste caso, a proposta foi trazida pelos próprios OP’s, que em ampla maioria consideram que as suas atribuições atuais já são pertinentes à esta denominação proposta). A respeito destas duas propostas, entendemos que se faz necessário ampliar a discussão sobre o perfil dos profissionais (vice-diretor e Supervisor de Ensino, e dos demais tb, claro, no sentido de chegarmos ao entendimento sobre se as atribuições atuais condizem com as demandas e funções realizadas).

Sobre a questão dos professores substitutos, foi nos esclarecido que o fato de serem celetistas não é motivo para não serem enquadrados no quadro do magistério e terem assegurado, assim, um plano de carreira, mesmo que mantenham seu regime de contratação original. Até então, havia um entendimento mais ou menos generalizado (e, pelo visto, equivocado) de que para serem incluídos no Estatuto teriam de ser transformados em estatutários. É claro que o regime de contratação único é o mais adequado, haja vista que as diversas formas de contratação implicam em precarização do trabalho e das condições de trabalho e de remuneração do trabalhador (estágios, terceirizações, frente de trabalho, CLT, estatutário) e, assim, defender o regime de contratação único é defender também melhores condições trabalhistas para os profissionais servidores e, por consequência, melhores condições de prestação de serviços à comunidade. Todavia, ser estatutário não é condiçção para que os professores substitutos sejam devidamente considerados do quadro do magistério e tenham regulamentado o plano de carreira. Aliás, é importante ressaltar, mesmo os demais cargos em extinção deverão ter assegurado seu plano de carreira.

Outra questão que começou a ser debatida refere-se aos auxiliares em educação. Entre as questões levantadas, estão: devemos considerar os auxiliares em educação como professores leigos e, portanto, elaborarmos mecanismos para incluí-los progressivamente no quadro do magistério? Ou devemos considerá-los como quadro do apoio, na categoria de profissionais da educação, e tornar mais claras (ou mais aprofundadas) as delimitações entre suas funções e as funções dos professores? O que ambas propostas significam? Quais os impactos delas para o atendimento das crianças e para a vida funcional dos auxiliares? Aprofundar as delimitações entre as funções não seria aprofundar a concepção da separação entre cuidar e educar, entre aquele que cuida do corpo e aquele que educa a mente? Não somente a eles, mas principalmente, cabe aos auxiliares manifestarem seus entendimentos a esse respeito.

Algumas outras possibilidades foram discutidas, embora não eram, ainda, o foco das discussões: criação de um cargo específico, congênere ao de auxiliar de limpeza, na escola. Isso porque, segundo argumentos da SE, não seria possível incluir os auxiliares de limpeza no quadro dos profissionais da educação porque eles são cargos amplos, pertencentes às demais secretarias. Criar um cargo específico da educação, com um mecanismo que possibilite aos atuais auxiliares de limpeza que atuam nas escolas, optarem por manterem sua denominação e, assim, trabalharem em outras secretarias, ou mudarem a denominação para um eventual cargo específico de auxiliar de limpeza escolar, poderia ser um caminho para superar esse entrave apresentado pela SE para a inclusão dos profissionais do apoio operacional no quadro dos profissionais da educação. Quais seriam os imapctos de ambas as decisões? Os profissionais que manterem suas denominações, poderiam continuar trabalhando nas escolas, ou não? Esta é outra questão que precisa ser aprofundada. O que pensam os auxiliares de limpeza a respeito disso?

Por fim, reiteramos que a Comissão Setorial de Educação depende da participação ampla dos profissionais da educação para que possamos elaborar o mais coletivamente possível o Estatuto dos Profissionais da Educação de SBC. Sabemos que as demandas do cotidiano geralmente desfavorecem um envolvimento mais aprofundado, mas este é um momento único, cujos resultados dependerão da capacidade de organização coletiva dos profissionais da educação.

Esperamos que, com estas informações, tenhamos contribuído para fomentar o debate. 

[M.S]

Carta aberta a Ziraldo

Nota da Pedra Lascada: eu que cresci lendo Ziraldo, e que sempre tive aversão pelas historietas de Monteiro Lobato, não pude deixar de me emocionar ao ler a carta aberta da escritora Ana Maria Gonçalves ao ilustre pai do Menino Maluquinho. Que, em relação a Ziraldo, não se cumpra a preocupação estampida no Gênio Gabiru, de Velasquez, isto é, que o herói de ontem não se torne o idiota de amanhã (no caso, de hoje). [M.S]

Do Blog Geledés – Instituto da Mulher Negra (http://www.geledes.org.br/)

Num extenso e substancial texto a escritora Ana Maria Gonçalves nos revela as entranhas do pensamento racista de Monteiro Lobato e do seu mais novo herdeiro Ziraldo, autor da camiseta do Bloco Carnavalesco “Que merda é essa” que desfila no bairro de Ipanema, zona sul carioca, região de alta classe média do Rio de Janeiro. Num vídeo em que o link (Que merda é essa?) está no texto abaixo, vê-se que o bloco foi fundado por um grupo com negros frequentadores das praias e bares de Ipanema fazendo exatamente aquela “mistura racial” em que o negro se vê constrangido a ridicularizar-se para ser aceito no grupo como normalmente acontece na democracia racial brasileira.

Carta Aberta ao Ziraldo

ziraldo_racista

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca “Que merda é essa?” e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: “(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” (em “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : “Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista”. A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o “humor negro” de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita “é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente”.

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, “work” muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu “processo” sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro “O presidente negro ou O choque das raças”que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois:“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha”.

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: “Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” Tempos depois, voltou a se animar: “Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (…) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos – o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos”. Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: “Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)”.

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. “Em que estado voltaremos, Rangel,” se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, “desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões”. Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever “M*” porque a palavra “merda” foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, “work” muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: “O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem.” Está lá, Ziraldo, leia de novo: “crianças e adolescentes têm prioridade”. Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a “censura” chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? “Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato”, você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: “O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele” (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque “(…) um já está quase formado e o outro não estuda mais (…). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (…), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (…). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (…). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (…) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom” (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: “(…) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada” (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que “Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (…) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!” (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: “Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, aausência do branco” (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de “macaquear” (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. “Macaqueando” um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar “macaqueando” Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um “processo” que ele provou que “work” com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas “macaqueando”. Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: “Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável”. Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam “colocados a salvo de tudo que é violência e abuso”, como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: “(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, “negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão”, e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, – porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria MachadoRuth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz:”Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (…) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais.”É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que “faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças.” Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de “macaco”, “carvão”, “fedorento”, “ladrão”, “vagabundo”, “coisa”, “burro”, e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que “Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: “Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. “Nós defendemos o front da raça branca – diz o sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil”. Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.” Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, “o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos.” Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: “Só dói quando eu rio“.

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves

Leia materia completa: Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves – Portal Geledés

As Vinhas da Ira

As Vinhas da IraO livro representa o confronto entre indivíduo e sociedade, através da epopéia da família Joad, expulsa pela seca dos campos de algodão de Oklahoma, para tentar a sobrevivência como bóias-frias nas plantações de frutas do Vale de Salinas, na Califórnia. Steinbeck retratou a situação do homem moderno diante das dificuldades, a pobreza e a privação em um universo feroz, protagonizado por vítimas da competição e párias sociais. O autor exibe na vida e na arte paradoxos, provocados pela tensão entre instinto e mente, natureza e história, a civilização e seus descontentes. ‘As vinhas da ira’ é a prova de que homens em lugares e situações comuns podem ser tocados pela intenção épica e conduzidos à imortalidade.

Ensaio Sobre a Cegueira

Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma “treva branca” que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.
O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Páginas: 312
Formato: 14.00 x 21.00 cm
Peso: 0.38800 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 25/10/1995
ISBN: 9788571644953
Selo: Companhia das Letras
 

O Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita em Crianças de 0 a 5 anos

Autores: Stela Miller, Suely Amaral Mello
Formato: 11 x 17 cm, 52 páginas
ISBN: 978-85-61379-12-4

A educação infantil pode contribuir para a formação do leitor e produtor de textos? Como fazer isso sem sacrificar o direito das crianças à infância? Como formar as bases orientadoras do processo de aprendizagem da escrita e da leitura considerando a forma específica como as crianças aprendem até os seis anos de idade, ou seja, como formar a necessidade de ler e escrever nas crianças sem “dar aulas” sobre a leitura e a escrita? O texto “O desenvolvimento da linguagem oral e escrita”, de Stela Miller e Suely Amaral Mello, discute essas questões e apresenta exemplos de atividades voltadas para o favorecimento da expressão na criança, um aspecto importante em sua formação, porque, como afirmam as autoras, “A expressão precisa […] ser cultivada ao longo do processo de ensino e de aprendizagem, pois, ao estimular a expressão das crianças, estaremos, ao mesmo tempo, provocando a expressão daquilo que foi aprendido, assimilado, apropriado e criando melhores condições para seu processo de humanização.

Onde encontrar: http://www.proinfantieditora.com.br/produto.php?id=121