Digo Sim

Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos do meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperançasa entre pulmões
e nuvens

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.

A vida nós a assamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
meu vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela
– digo sim.

*

[Ferreira Gullar]

Pra não esquecer

Em letra pequena

escrevi o seu nome

para não esquecer;

 

Bem dobrado

com muito cuidado

guardei no bolso

para não esquecer;

 

Amarrei no pulso

uma tira de seda

de Nossa Senhora

para não esquecer.

 

Mas quando esqueci

dei embora a camisa

lavada e passada;

 

e cortei o pulso

para arrancar a tira

que eu já não sabia

para o que servia…

[M.S.]

O brincar na Educação Infantil

Por Tânia Ramos Fortuna*
 
 
Brincar e aprender

Em recente pesquisa sobre as relações entre jogo e educação segundo o pensamento dos educadores (Fortuna e Bittencourt, 2003), constatamos que proporcionar aprendizagem é o mais freqüente motivo pelo qual o jogo é considerado importante para a educação, em uma amostra onde preponderam educadores de ensino fundamental.

Os educadores infantis, por seu turno, são mais resistentes a assimilar o jogo à aprendizagem, ainda que reconheçam sua importância para o desenvolvimento infantil. Uma hipótese para entender esta posição, já apresentada em outro trabalho (Fortuna, 2000), é que, por muito tempo, a definição de sua identidade profissional baseou-se na oposição brincar versus estudar: a “escolinha” e a creche são lugares de brincar, enquanto a escola (as demais séries do ensino) é lugar de estudar. Outra hipótese é que a disposição de “deixar brincar” é seu modo de insurgirem-se contra as práticas educativas que submetem o tempo passado na escola infantil ao pragmatismo e ao utilitarismo da Economia escolar. No entanto, quando admitem que brincar é aprender, não é no sentido amplo, em plena conexão com o próprio desenvolvimento, e sim como resultado do ensino dirigido, onde tudo acontece, menos o brincar – exatamente como procedem os professores do ensino fundamental, tentando instrumentalizar aquilo que é indomável, espontâneo, imponderável.

Esta separação é deletéria tanto para a educação infantil quanto para o ensino fundamental, pois em ambos os casos a fecundidade da presença do jogo na educação acha-se ameaçada, já que é reduzida ora à reificação do brincar, influenciada pela visão romântica da infância (Brougére, 1998), sob o argumento de que não intervir é preservar sua genuinidade, ora à subordinação extrema aos conteúdos curriculares, quando praticamente não há espaço para a brincadeira propriamente dita.

No caso da educação infantil, qual é, então, o melhor lugar que a brincadeira pode ocupar? Nem tão “largada” que dispense o educador, dando margem a práticas educativas espontaneístas que sacralizam o ato de brincar, nem tão dirigida que deixe de ser brincadeira (Ramos, 2002). Como se faz isso? Qual é o papel do educador em relação ao brincar na educação infantil?

Brincar é uma atividade paradoxal: livre, imprevisível e espontânea, mas, ao mesmo tempo, regulamentada; meio de superação da infância, assim como modo de constituição da infância; maneira de apropriação do mundo de forma ativa e direta, mas, também, através da representação, ou seja, da fantasia e da linguagem (Wajskop, 1995). Brincando, o indivíduo age como se fosse outra coisa e estivesse em outro tempo e lugar, embora, para que a atividade seja considerada brincadeira e não alucinação, ele deve estar absolutamente conectado com a realidade. Provavelmente Ajuriaguerra e Marcelli (apud Fortuna, 2000) consideraram tudo isto para dizer que é um paradoxo querer definir o brincar com demasiado rigor.

Diante destes paradoxos não é de surpreender que não seja possível afirmar categoricamente para que serve a brincadeira. Entretanto, os custos desta atividade são tão elevados para as espécies que brincam, envolvendo gasto de tempo, energia e exposição a riscos, que o retorno, em termos de benefícios, deve ser considerável (Yamamoto e Carvalho, 2002).

Para quem brinca, contudo, a pergunta ‘brincar pra quê?’ é vã, pois brinca-se por brincar, porque brincar é uma forma de viver. Como recordam Yamamoto e Carvalho (op. cit.), o indivíduo que brinca não o faz porque isto o torna mais competente, seja no ambiente imediato, seja no futuro. A motivação para brincar é intrínseca à própria atividade.

Mesmo sem intenção de aprender, quem brinca aprende, até porque se aprende a brincar. Como construção social, a brincadeira é atravessada pela aprendizagem, pois os brinquedos e o ato de brincar, a um só tempo, contam a história da humanidade e dela participam, diretamente, sendo aprendidos, e não uma disposição inata do Homem. Esta aprendizagem é mais freqüente com os pares do que dependente de um ensino diretamente transgeracional (Carvalho e outros, 2003, p. 21). Uma das explicações para isto remonta, possivelmente, ao surgimento do sentimento de infância a partir da modernidade, quando as crianças foram especialmente estimuladas a conviver entre si, na escola, e não mais com os adultos, no trabalho.

Por que, então, é tão difícil para os educadores infantis incluírem-na na escola infantil, sem incorrer na didatização ou no abandono do brincar ?
Apesar deste problema não ser exclusivo da educação infantil, adquire uma original configuração em razão da pendulação histórica entre o ensino dirigido na escola infantil e a proposição de “só brincar” (Brougére, 1998). A associação do jogo à aprendizagem traz consigo o problema do direcionamento da brincadeira, em termos de intencionalidade e produtividade. Brougére (2002) sugere a noção de educação informal para pensar a relação entre jogo e educação sobre novas bases, ainda que admita que a oposição formal versus informal seja muito simplista. O autor explica a formalização como processo em que a intenção educativa pode tornar-se mais consciente ou mais explícita em certas situações até constituir o objetivo principal de uma interação. É deste modo que Brougére chega à afirmação de que o jogo não é naturalmente educativo, mas se torna educativo pelo processo de formalização educativa. Todavia, adverte: “o jogo pode possibilitar o encontro de aprendizagens. É uma situação comportando forte potencial simbólico que pode ser fator de aprendizagem, mas de maneira inteiramente aleatória, dificilmente previsível” (id., p.10).

O lugar do brincar na educação infantil

Até mesmo um rápido olhar sobre a sala de aula de educação infantil permite estimar o papel que desempenha o brincar neste lugar, a começar pelo seu arranjo espacial, ele mesmo favorável ou não ao desenvolvimento da atividade lúdica, uma vez que diferentes arranjos espaciais permitem diferentes atividades lúdicas a partir de diversas modalidades de interação. Pesquisas feitas por Legendre (1983, 1986 e 1987) e, a partir delas, os estudos de Carvalho e Rubiano (1994) em torno da organização do espaço da sala de aula apontam maior concentração de crianças em torno do educador em arranjos com menor ou plena estruturação espacial, e que em zonas circunscritas há maior atividade de faz-de-conta, já que fornecem proteção e privacidade e favorecem a focalização no parceiro e na atividade.

O problema é que, a despeito de muitos educadores deixarem seus alunos brincar, a efetiva brincadeira está ausente na maior parte das classes de educação infantil. E, o que é pior: à medida que as crianças crescem, menos brinquedos, espaço e horário para brincar existem. Quando aparece, é no pátio, no recreio, no dia do brinquedo, não sendo considerada uma atividade legitimamente escolar.
Na verdade, os adultos parecem sentir-se ameaçados pelo jogo devido a sua aleatoriedade e aos novos possíveis que constantemente abrem (Wajskop, op. cit). Seu papel no brincar foge à habitual centralização onipotente e os professores não sabem o que fazer enquanto seus alunos brincam, refugiando-se na realização de outras atividades, ditas produtivas. Na melhor das hipóteses, tentam racionalizar, definindo o brincar como atividade espontânea que cumpre seus fins por si mesma. Na pior das hipóteses, sentem-se incomodados pela alusão à própria infância que o contato com o brincar dos seus alunos propicia, ou confusos quanto ao que fazer enquanto as crianças brincam, muitas vezes não apenas se intrometendo na brincadeira, como tentando ser a própria criança que brinca.

Por outro lado, uma sala de aula cuja visualidade lúdica é excessiva, chegando ao ponto de ser invasiva, distancia as crianças do brincar. Com tantas ofertas de brinquedos e situações lúdicas as crianças não conseguem assimilar as propostas ali contidas, e acabam não interagindo com este material, dispostos somente para enfeite e contemplação, com um papel meramente decorativo. Não são brinquedos para brincar, são “de ver”. Outras vezes os brinquedos e as brincadeiras são cercados de tanta proibição, com instruções tão restritivas, que às crianças só resta não brincar – e brigar.

A ação do educador sobre o brincar infantil

A simples oferta de certos brinquedos já é o começo do projeto educativo – é melhor do que proibir ou sequer oferecer. Porém, a disponibilidade de brinquedos não é suficiente. Na escolha e proposição de jogos, brinquedos e brincadeiras o educador coloca o seu desejo, suas convicções e suas hipóteses acerca da infância e do brincar. O educador infantil que realiza seu trabalho pedagógico na perspectiva lúdica observa as crianças brincando e faz disto ocasião para reelaborar suas hipóteses e definir novas propostas de trabalho. Não se sente culpado por este tempo que passa observando e refletindo sobre o que está acontecendo em sua sala de aula (Moyles, 2002, p. 123). Percebe que o melhor jogo é aquele que dá espaço para a ação de quem brinca, instiga e contém mistérios. Mas não fica só na observação e oferta de brinquedos: intervém no brincar, não para apartar brigas ou para decidir quem fica como o quê, ou quem começa ou quando termina, e sim para estimular a atividade mental, social e psicomotora dos alunos, com questionamentos e sugestões de encaminhamentos. Identifica situações potencialmente lúdicas, fomentando-as, de modo a fazer a criança avançar do ponto em que está na sua aprendizagem e seu desenvolvimento (Moyles, id.). Não exige das crianças descrição antecipada ou posterior das brincadeiras, pois se assim fizer não estará respeitando o que define o brincar, isto é, sua incerteza e improdutividade (Kishimoto, 2002), embora esteja disponível para conversar sobre o brincar antes, durante e depois da brincadeira. Enfim, realiza uma animação lúdica.

Para fazer tudo isto o educador não pode aproveitar a “hora do brinquedo” para realizar outras atividades, conversar com os colegas, merendar, etc. Ao contrário: em nenhum momento da rotina na escola infantil deve o educador estar tão inteiro e ser tão rigoroso – no sentido de atento às crianças e aos seus próprios conhecimentos e sentimentos – quanto nesta hora.

Em linhas gerais, é necessário que o educador insira o brincar em um projeto educativo, o que supõe intencionalidade, ou seja, ter objetivos e consciência da importância de sua ação em relação ao desenvolvimento e à aprendizagem infantil. Este projeto educativo, no entanto, não passa de ponto de partida para sua prática pedagógica, jamais ponto de chegada definido rigidamente de antemão, pois é preciso renunciar ao controle, centralização e onisciência do que ocorre com as crianças em sala de aula. De um lado, o educador deve desejar – a dimensão mais subjetiva de “ter objetivos” – e, ao mesmo tempo, deve abdicar de seus desejos – no sentido de permitir que as crianças, tais como são na realidade, advenham, reconhecendo que elas são elas mesmas, e não aquilo que ele, educador, deseja que elas sejam. Será a ação educativa sobre o brincar infantil contraditória, paradoxal? Sim, tal como o brincar!

Referências bibliográficas
BROUGÉRE, G. Jogo e Educação. Porto Alegre: Artmed, 1998.
BROUGÉRE, G. Jogo e educação: novas perspectivas. 2002. Dig. 11 p.
CARVALHO, M. I. C. e RUBIANO, M. B. Organização do espaço em Instituições pré-escolares. In: MORAES, Z. (org.) Educação infantil: muitos olhares. São Paulo: Cortez, 1994.
CARVALHO, A. M. C. e outros (org.). Brincadeira e cultura: viajando pelo Brasil que brinca. São Paulo: Casa do Psicológo, 2003. v. 1 e 2
FORTUNA, T. R. Sala de aula é lugar de brincar? In: XAVIER, M.L.F. e DALLA ZEN, M.I.H. Planejamento: análises menos convencionais. Porto Alegre: Mediação, 2000 (Cadernos de Educação Básica, 6) p. 147-164
FORTUNA, T. R. Vida e morte do brincar. Espaço pedagógico. Passo Fundo, v. 8, n. 2, p. 63-71, dez. 2001.
FORTUNA, T. R. e BITTENCOURT, A. S. D. Jogo e educação: o que pensam os educadores. Porto Alegre: UFRGS, 2003. Dig. 14 p.
LEGENDRE, A. Appropriation par les enfants de l’environnement architectural: ses modalités et ses effets sur les activités dans les grandes sections de crèches. Enfance, v.3, p. 389-395, 1983.
—. Effects of spatial arrangement on child/child and child/ caregivers interactions: na ecological expriment in day care center. Anais da 16. Reunião Anual de Psicologia da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto, 1986, p. 131-142.
—. Transfformation de l’espace d’activités et echanges. Psychologie française, 32 (1/2): 31-43, juin 1987.
KISHIMOTO, T. Um estudo de caso no Colégio D. Pedro V. In: OLIVEIRA-FORMOSINHO, J. e KISHIMOTO, T. M. Formação em contexto: uma estratégia de integração. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2002. p. 153-201.
MOYLES, J. Só brincar? O papel do brincar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2002.
RAMOS, T. El joc. Revista Infància: Revista de La Associación de Maestros Rosa Sensat. Barcelona, 127: 6-14, jul./ago. 2002
YAMAMOTO, M. E. e CARVALHO, A. M. A. Brincar para quê? Uma abordagem etológica ao estudo da brincadeira. Estudos de Psicologia, v. 7, n. 1, p. 163-164, 2002.
WAJSKOP, G. O brincar na educação infantil. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, (92):62-9, fev. 1995.

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Fonte: http://www.educared.org.ar/infanciaenred/elgloborojo/piedra/2006_06/03.asp

Cala a boca, Ana Maria

Nota da Pedra Lascada: Da “série” Utile Dulci, mais um texto reencarnado, que havia sido publicado em  15 de julho do ano póstumo (acho que hoje estou meio mórbido rs) – [M.S.]

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Não demora, começarão a dizer que eu sou o ranzinza do pedaço. E não é pra menos, porque ultimamente nem eu estou aguentando as minhas cricrizagens.

 
Essa história do “Cala a boca” já virou um jargão e também logo, logo ninguém vai aguentar ouvir “cala a boca daqui”, “cala a boca de lá”… Até havia pensado em lançar uma seção nada original com esse título (Cala a Boca), mas tive a sanidade de não levar essa má ideia adiante.

 

De qualquer forma, ainda com o risco de ser vítima do meu próprio veneno, não prometo que essa será a última vez que direi… Enfim, até o Saraiva do clássico “pergunta idiota, tolerância zero” foi ressuscitado, por que eu – humilde desconhecido – haveria de me omitir logo agora em que as cretinices e charlatanices pululam nos programas de entretenimento em seus momentos pseudo-jornalísticos. Quer dizer, temos de reconhecer que isso não é de agora; é desde sempre e muito provavelmente vai até o fim dos tempos.
 
Mas é só surgir uma tragédia para que os carniceiros de plantão explorem ao máximo cada detalhe do acontecimento para alavancar o ibope e, assim, maximizar suas margens de lucros, transformando inclusive programas culinários em plantões jornalísticos e espaços para entrevistas com os envolvidos – e são nesses momentos eufóricos que as pérolas se multiplicam! E como!
 
No fato em questão, no entanto, há que se reconhecer que não se trata de mais uma “carniceira de plantão”, muito pelo contrário, pois essa alcunha lhe seria extremamente injusta, mas, como dizem que quem está na chuva é pra se molhar, quem trabalha na Globo é pra dançar o jogo dos abutres, senão não sobrevive na cadeia alimentar.
 
Daí que, como não poderia deixar de ser (até poderia, mas o PIG mantém sua tradição oportuno-sensacionalista), o assunto do momento (o desaparecimento e provável assassinato de Eliza Samudio) foi abordado hoje no Programa “Mais Você” com uma entrevista com um veterinário, que respondeu sobre a possibilidade de se descobrir se pedaços da mulher foram dados aos cães.
 
Conversa vai, conversa vem, Ana Maria perguntou se não era possível descobrir isso através do exame das fezes dos animais; e o veterinário falou que somente se algum cão estivesse “impactado”, ao que a nossa entrevistadora, com uma humildade que lhe é sem dúvida característica (ao menos na frente da telinha), perguntou o significado desta expressão.
 
O veterinário, senhor muito educado e prestativo, sem graça para dizer diretamente, rodeou, rodeou, deu a entender do que se tratava e nossa heroína matinal foi ao seu socorro, oferecendo-lhe uma saída – por assim dizer – honrosa: “quando o cão não consegue ir ao banheiro?”
 

Cá pra nós, em que pese a gentileza da atitude, essa coisa ficou meio esquisita, ou melhor dizendo, esquisita e meio. Talvez a cachorrinha dela consiga, por ter nascido em berço de ouro e ter sido adestrada  (ou seria educada?) no mais alto padrão de fineza e etiqueta… Mas cachorros que vão ao banheiro?! Pra mim é novidade.

Bertolt Brecht Remember

Por Vinicius Canhoto

Foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht. Na época, Marcelo já me havia falado dele, principalmente de seus poemas, não de seu teatro. E era uma fase que eu precisava de teatro, muito teatro, pois escrevia um tema shakespereano chamado “Canção para bruxas da meia noite”. Era um sonho de uma noite de verão em que um poeta sobre uma bicicleta e uma noite sem lua cantava o passado com suas bruxas que atuaram sobre os cenários e ribaltas de seu peito para depois dormir em Paris ou em São Paulo nuas em apocalipses & núpcias. As atrizes seriam magas de cetim, purpurina e latão que fugiriam antes do aplauso. O elenco já estava escalado: Glicia, Camila, Cleide, Kátia — as belas de sempre. O cenário estaria nas ruas e salas, nas folhas e árvores, em cada canto que eu ia, em minha cabeça, em cada coisa que sou. O tema era uma paródia sobre as feridas biográficas que carregava pela cidade perdendo seus nomes endereços & números de telefone: Kelly nas Laranjeiras, Harumi nas Pitangueiras, Andréia nas Goiabeiras, Michele nas Figueiras, magas que agitavam suas vassouras na hora de cantar. Mas o tema da peça fracassou e desisti porque acabaram as mágicas das manhãs e tardes, o encanto do ônibus com as magas maquiadas, mas elas nunca foram esquecidas, mesmo depois de curadas. Apesar de tudo, aprendi que com minhas bruxas que eu poderia melhorar e que elas sempre me ajudariam a ver um pouco mais além. Mas não é delas que eu quero falar, é sobre Brecht.

                Como disse no começo, foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht no Paço Municipal. Me recordo como fosse hoje de suas mãos sangrentas a contarem a história da infanticida Marie Farrar que foi acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma: já no segundo mês de gestação, em casa de uma parteira, num sótão, ela tentou expulsar o desafeto com duas injeções, embora tivesse pago de imediato o estipulado e ter continuado a apertar a cintura, tomado aguardente com pimenta moída, o que apenas serviu de forte purgante, e o corpo continuava inchando, até ser surpreendida pelo nascimento. Marie Farrar era menina pobre, empregada, que no dia do natalício, com a barriga escondida dos patrões limpou as escadas, estendeu toda roupa que lavou, varreu a neve em volta da casa antes de parir. E pariu um filho igual aos outros filhos. Depois disso ficou pouco tempo na cama, pois a criança começou a chorar o que a obrigou a conter com esforço seus gritos para que ninguém descobrisse e se pôs a bater-lhe com os dois punhos até a criança ficar quieta. Levou o natimorto consigo para a cama durante o resto da noite e pela manhã escondeu-o na lavanderia e o enterrou na neve até o degelo revelar seu crime. Desta história, o que mais me marcou a memória era o refrão: “Mas o senhor não vos indigneis, pois todo ser humano precisa de ajuda”. Não fiquei indignado, apenas emocionado com aquele trágico aborto. Daí passei a ler tanto os Poemas Pedagógicos de Marcelo, quanto os Poemas Qüinqüenais de Brecht.

Depois de conhecê-lo, lembro das vezes em que Marcelo, Allan, Anderson, Fábio, toda a juventude socialista e eu bebíamos com Brecht no Bar Vermelho e ele dizia que “Em nossa terra quem é bom não consegue ser bom por muito tempo   Quando os pratos estão vazios os homens atracam-se à mesa   Os mandamentos dos deuses não influem na carestia da vida   Por que os deuses não vão aos mercados distribuir alimentos em abundância?   Com vinho e pão garantidos os homens seriam bons e fraternais”   & nós lhe falávamos dos nossos sonhos  Máquinas de Fazer Sanduíches Gratuitos & a Coca-Cola sob controle do Estado distribuída no colégio na hora do recreio & cigarros sem nicotina & pílulas anticoncepcionais ao lado dos chicletes & pílulas contraceptivas ao lado do band-aid nas docerias & cupons para ir ao puteiro por uma hora pelo menos uma vez por mês & revistas do Batman e livros do Baudelaire na cesta básica, Brecht simplesmente ria da nossa ironia de esquerda festiva naqueles dias que encerravam uma época e as cortinas se fechavam antes do aplauso.

A “segunda maior tragédia climática no Brasil”

"Bairro da região nobre (SP, RJ ou SC, tanto faz!) é afetado pelo desmoronamento de terra."

Enquanto leio o jornal local, os jornais televisivos mostram as tristes imagens do caos proporcionado, em parte, pelas chuvas de verão Brasil afora, com destaque para algumas regiões do Estado de São Paulo e, principalmente, sobre o Estado do Rio de Janeiro.

Não é de hoje que os nossos verões tem sido particularmente assassinos, inclusive com uma tendência classista mórbida.

O que quero simplesmente dizer é que, embora a tragédia se abata sobre (quase) todas as cabeças, independente de cor, credo, raça, ou classe social, são as populações marginalizadas que mais sofrem com as enchentes e os deslizamentos de terra típicos de um país que pouco, muitíssimo pouco, faz em relação ao planejamento do desenvolvimento urbano e, particularmente, habitacional; e nada faz para frear a sanha gananciosa dos capitalistas de plantão, que buscam lucros à custa da vida alheia.

O resultado disso é que com as especulações imobiliárias que elevam os preços das moradias às alturas inconcebíveis, impraticáveis e imorais, ao nosso povo com menor ou quase nenhum poder aquisitivo só resta ocupar as regiões periféricas, os topos e as enconstas dos morros. Assim, a ocupação não planejada e, consequentemente, o desmatamento, abre caminho para as previsíveis tragédias.

O Diário do Grande ABC desta sexta-feira anuncia que no Rio de Janeiro já são mais de 500 mortos, 8320 pessoas desalojadas e 6270 pessoas desabrigadas. Sem contar as populações que estão sem água e energia elétrica e, ainda, devido ao isolamento provocado pelas enchentes e desmoronamentos, outras tantas que estão sem contato com o poder público.

Ou seja, não menos de 15.000 seres humanos no Rio de Janeiro afetados tragicamente por aquilo que o DGABC classificou como “a segunda maior tragédia climática no Brasil”, seguindo as justificativas comumente adotadas pelos governantes em geral, isto é, colocar a culpa na chuva, no clima, quando não nas próprias vítimas.

Inclusive o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral¹, afirmou que “Educar é dizer não. Não se pode habitar essas áreas”… Como se viver embaixo da ponte (que também alaga) e morar no morro fosse alguma opção! Já o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em recente entrevista televisiva, disse com todas as letras que o problema são as chuvas de verão; e o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, afirmou que obras contra enchentes não são feitas em 4 anos²…

Aí vem o Sakamoto³ (desculpem o trocadilho) com uma pergunta muito bem sacada: “E em vinte anos, dá?!”… Porque, como todo mundo está careca de saber, e Alkmin mais careca ainda está, o seu partido já vai para vinte anos à frente do governo de SP. Aliás, somando-se o tempo em que foi vice-governador e governador efetivo, Alkmin vai para 12 anos à frente do governo do Estado mais rico da Federação! E lamenta que em quatro anos não dá para resolver os problemas das enchentes. Pelo visto, vai pleitear a reeleição…

Voltando à “segunda maior tragédia climática no Brasil”… A não ser meramente pelo fato de que estes acontecimentos relacionam-se ao clima do nosso país tropical abençoado por deus e bonito por natureza, eles absolutamente não são tragédias climáticas! São tragédias provocadas por anos de descaso e desmazelo dos governantes, pela falta de política habitacional efetiva, pela especulação imobiliária, pelo desemprego estrutural e, em última análise, pelo modo de produção no qual baseamos a nossa economia, isto é, o nosso modo de viver, morrer (e por que não dizer?) matar.

A propósito, a foto que precede este artigo foi extraída do sítio da Globo, e é do Bairro Itajaí, em Santa Catarina. A legenda, fictícia, é tão somente uma provocação. A foto é de 2008, mas a imagem é a mesma de todos os anos! Como diria Marx: a história nunca se repete; quando se repete, ou é farsa, ou é tragédia. No caso da história brasileira, geralmente são as duas coisas ao mesmo tempo. [M.S.]

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1) http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/01/13/dilma-ve-momento-dramatico-com-chuvas-no-rio-mas-evita-definir-recursos-e-prazos.jhtm

2) http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/01/11/obras-nao-ficam-prontas-em-24-horas-diz-alckmin-governo-promete-investir-r-800-mi.jhtm

3) http://blogdosakamoto.uol.com.br/

A Balada do Café Triste

Por Vinicius Canhoto, do blog “Inferno Riscado a Giz”.

Sentava-se à mesa um homem só, de aspecto triste, nesses cafés de estilo inglês que existem na cidade. De cabeça baixa, silenciosamente, no rosto fechado, o olhar melancólico penetrava na caneca de café, como se essa caneca lhe mostrasse algo além da escuridão líquida do café.

O líquido, por sua vez, não lhe mostrou nada mais além de seu próprio reflexo. Vejo em teus olhos que estás novamente triste, disse-lhe o café. Ele preferiu não responder e tomou outro gole que desceu queimando, mas sem gosto. Devagar, advertiu o café, que eu não sou coca-cola. O homem respirou fundo e voltou a olhar o interior da caneca e o líquido negro lhe disse, Vejo na tua face que esquecera de ter cuidado contigo mesmo. Ele, como alguém que teve a atenção chamada, passou a mão na bochecha percebendo que há vários dias não fazia a barba, que seu cabelo precisava ser cortado, que a camisa estava amarrotada e o sorriso ausente. Calma, homem, disse-lhe o café, Não vá levantar e reclamar de mim ao dono do estabelecimento e este vir a tomar conhecimento que está a perder um freguês por conta de um café metido a sincero, estou apenas a dizer aquilo que vejo. Ele, desconfortável, cobriu o rosto com as mãos. Não esconda o rosto, e, também, não se incomode com aquilo que um pouco de café venha a lhe dizer. O homem tirou as mãos do rosto e fitou incógnito o conteúdo da caneca que lhe pediu. Só não vá embora antes de tomar-me de todo e abandonar-me como um café frio. Neste momento, em que o líquido negro lhe disse Abandonar-me como um café frio, ele sentiu um ar gelado por todo o corpo e um calafrio. No entanto, o café o compreendeu, Vejo na tua expressão que hoje acordaste mais triste que o de costume, nesta manhã em preto e branco com gosto de pão amanhecido.

Ele aquiesceu. O café, compartido, prosseguiu, Nunca precisara, como numa música que toca aqui, de tanto carinho, força e cuidado. Quando a angústia senta-se ao seu lado, quando esta é a única companheira e tendes de ser forte, como noutra canção, a dor de cada amanhecer, a esperar por alguém que nunca vem. Alguém.  Há mesmo alguém, perguntou o café. O homem confirmou com a cabeça. O líquido negro gabou-se da própria sabedoria, Sabia. Quando vi a tristeza em teus olhos e o açúcar que faltaste a adoçar-me, percebi que era abandono.

A palavra abandono o levou às recordações de quando havia alguém, uma mulher a olhá-lo profundamente nos olhos. Estava descontrolada, mas relutava para manter o controle, aparentando-se forte, impaciente, insensível e cruel, media-o como fosse uma peça de vestuário numa vitrine. Ele, não sabendo como reagir nessa ocasião, jamais se preparara, viu-se imóvel à espera do fim. Olhando o relógio, aparentemente nervoso, vendo que todo o encanto se ausentava ao encontro, ao observar os olhos dela que surgiam num misto de medo, piedade, compaixão e renúncia. Ela tentou usar algumas palavras como consolo. Inútil. No íntimo, estava convicta de que era estúpido tentar. Assim, ela entoava a voz cuidadosamente para que suas palavras não o ferissem mais que o necessário. Enquanto as palavras dela entravam nos ouvidos dele, ferindo-o em seu ser, ele teve vontade de chorar, mas estava seco por dentro. Mais tarde, entrou em casa sozinho com o amargo gosto de derrota. Não fechou a porta. Ao entrar, percebeu que não havia a quem falar ou saudar a chegada, estava só, entre móveis velhos, peças de decoração e paredes. Esquecera as chaves em algum lugar, mas antes que se apercebesse disso o vento bateu a porta. A janela estava aberta, esquecida. Sem fome, foi à cozinha e abriu a geladeira. Era um gesto mecânico, sem reflexão, tal qual a TV ligada no caminho percorrido entre a sala e a cozinha. Talvez o barulho da TV fosse para substituir uma voz, uma companhia, e a geladeira, quem sabe, um outro prato na mesa. O silêncio lhe era insuportável. Desistiu. Não tinha fome. Voltou à sala e desligou a TV. Foi ao quarto e deitou-se. No escuro os pensamentos, angústias e lembranças ficavam-lhe mais claros. A luz apagada permitia-lhe ver melhor e mais nítidos rostos e situações, propiciava-lhe ver-se melhor. Dormiu um pouco, acordou assustado, havia sonhado com ela. Quis telefonar, não teve coragem. Esperou o telefone tocar. Caminhou quilômetros pela sala, permaneceu jogado no sofá por horas mirando o aparelho. Por fim, ouviu o estridente som, correu para atender, mas era engano. Meia hora depois ligou para ela, mas quem atendeu foi a secretária eletrônica. Sufocado pelo próprio respirar, ele não quis ou não teve coragem de deixar recado. Jamais se vira com tanto medo, uma sensação de solidão naquele momento. A casa vazia e desarrumada, a gaiola que prendia um passarinho estava aberta e desocupada, o pequeno aquário vazio, as samambaias já se foram junto com os peixes, tudo estava deserto. Os livros, discos e as lembranças, tudo continuava no seu lugar, com um pouco de poeira e abandono. Olhou a porta da geladeira. A lista de dieta ainda estava lá, como aquela foto do verão. Pouco parece ter mudado, mas dentro de tudo mesmo, sabe-se que nada permanece da mesma forma.

Esta é tua história, perguntou o café um momento antes de sentir que uma gota fria e salgada caía inesperadamente dentro de si levando-o a censurá-lo, Não chore, homem. O líquido negro, não se contendo, perguntou àquele que chorava, Não aprendeste que homem não chora.

Enfim, ele ergueu o olhar para o teto, como se quisesse esconder as lágrimas. Secou-as com as palmas das mãos e voltou a fitar o café, Não me olhe assim, prosseguiu o líquido, como se quisesse pedir desculpas. A mim não fizeste mal algum, tua lágrima não me esfriou e nem alterou o meu sabor. Bem sei, aquilo que viveste não foi fácil, não foi um filme, foi fato, não foi tecnicolor, foi real. Entendo quando respiras um vazio por dentro e em seu interior pairam incertezas, perguntas sem respostas, lembranças desordenadas. Quando os fatos não se encaixam e as explicações não se explicam, tudo te parece tão complicado e contraditório. Não é. Ele concordou com muito pesar e uma dúvida, Ela parecia tão forte, tão decidida. Será que tinha certeza do que estava fazendo, E você, perguntou o café, Sabia o que estava fazendo. Ele fixou os olhos no líquido negro e sem dar importância a pergunta continuou, Ela sempre teve o gênio difícil, sempre fora assim, querendo que a razão sobrepujasse a emoção, ao sentimento. O café disse-lhe então, Você fala de razão e emoção como se falasse de água e óleo. Vamos, homem. Deixe de ser amargo, me adoce, que a razão é o café e a emoção é o açúcar. Ele, sem pensar mais, apanhou maquinalmente a colher e o açúcar, enquanto adoçava o líquido da caneca, disse mais para si mesmo do que para o café, Começo a crer que pra ela tudo foi em vão, Ou não, disse-lhe o líquido em tom de provocação. A dúvida cafecaniana o fez calar, respirar fundo e falar, Saio de casa sem um beijo, sem um conselho, sem uma recomendação para chegar cedo ou me cuidar. Sei que ao voltar, não vou ouvir um Olá, um Como vai ou um Já chegou. Tenho a certeza de que posso perder a hora, as chaves, a aliança, qualquer coisa, que ninguém dará falta. Eu posso até perder a mim mesmo que ninguém daria por falta. E o café lhe disse, Tens demasiada pena de si próprio. O homem corou e calou-se de vergonha. Do líquido negro, de repente, escapou um comentário que não se soube se era uma interrogação ou exclamação, Oxalá, um amor que deveria ter durado anos.

Porém, antes que o homem tomasse satisfação do café, uma fragrância de perfume conhecido invadiu-lhe as narinas. Ele se arrepiou, tremeu, O que foi, perguntou-lhe o líquido negro, Parece que viste um fantasma. Ele não respondeu. Veio-lhe a cabeça uma série de imagens fugazes, de sons rápidos e passados, resgatados das mais profundas reminiscências por aquele cheiro. Ele, ansioso, gelado e aflito, olhando para todos os lados, a procurá-la, buscando-a.

Uma mulher ia em direção à saída, mas não era o rosto configurado nas recordações. Era uma desconhecida, saindo sem saber que em seu olor havia algo que este homem, sentado a tomar café, não queria olvidar e que, entretanto, cortou-lhe o ar e o peito na transversal.

Nunca bebemos o mesmo café, lamentou o homem ao ver que a mulher que ia e não era. Entretanto, o café manteve-se frio e calado até ouvir daquele homem um outro lamento, desta vez em tom de indagação, Meu Deus, se realmente existes, por que me deixas assim. Neste momento, o líquido negro, sem lamento algum, também indagou, Haverá alguém a olhar por nós. O homem, sem saber a resposta, calou e tomou o último gole que restava de café.

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Nota da Pedra Lascada: Conheço este conto há anos, quando canhoto era apenas um adjetivo que designava a predominância do autor, então adolescente, no uso das mãos e dos pés esquerdos. Já o critiquei pela referência explícita a certas canções, mas sinceramente me parece que algumas referências ou foram excluídas ou dissolvidas no corpo do conto que, revisitado “séculos” depois, me parece mais “clean”, mais interessante. Curiosamente, embora tenha recordado algumas falas, e reconhecido outras referências, confesso que não lembrava que era o café (representante direto da consciência – superego? – do protagonista) que falava. Dos contos de Canhoto, tenho outros que prefiro, como o próprio Inferno Riscado a Giz, e outros que exconjuro (e ele sabe muito bem o por quê), e “A Balada do Café Triste” não está entre os meus favoritos, mas tem seus encantos sustentados em um certo ar autobiográfico, meio retrô, meio revival. Aliás, por influência das leituras/ revisões dos contos de Canhoto acabei chegando a uam conclusão, que traduziu-se em aforisma (válida para este conto e para o canhoto escritor Canhoto: “Só quem conhece as leituras, não as agruras, do poeta, é que pode entender-lhe”. [M.S]