Nota da Pedra Lascada: Da “série” Utile Dulci, mais um texto reencarnado, que havia sido publicado em 15 de julho do ano póstumo (acho que hoje estou meio mórbido rs) – [M.S.]
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Nota da Pedra Lascada: Da “série” Utile Dulci, mais um texto reencarnado, que havia sido publicado em 15 de julho do ano póstumo (acho que hoje estou meio mórbido rs) – [M.S.]
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Por Vinicius Canhoto
Foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht. Na época, Marcelo já me havia falado dele, principalmente de seus poemas, não de seu teatro. E era uma fase que eu precisava de teatro, muito teatro, pois escrevia um tema shakespereano chamado “Canção para bruxas da meia noite”. Era um sonho de uma noite de verão em que um poeta sobre uma bicicleta e uma noite sem lua cantava o passado com suas bruxas que atuaram sobre os cenários e ribaltas de seu peito para depois dormir em Paris ou em São Paulo nuas em apocalipses & núpcias. As atrizes seriam magas de cetim, purpurina e latão que fugiriam antes do aplauso. O elenco já estava escalado: Glicia, Camila, Cleide, Kátia — as belas de sempre. O cenário estaria nas ruas e salas, nas folhas e árvores, em cada canto que eu ia, em minha cabeça, em cada coisa que sou. O tema era uma paródia sobre as feridas biográficas que carregava pela cidade perdendo seus nomes endereços & números de telefone: Kelly nas Laranjeiras, Harumi nas Pitangueiras, Andréia nas Goiabeiras, Michele nas Figueiras, magas que agitavam suas vassouras na hora de cantar. Mas o tema da peça fracassou e desisti porque acabaram as mágicas das manhãs e tardes, o encanto do ônibus com as magas maquiadas, mas elas nunca foram esquecidas, mesmo depois de curadas. Apesar de tudo, aprendi que com minhas bruxas que eu poderia melhorar e que elas sempre me ajudariam a ver um pouco mais além. Mas não é delas que eu quero falar, é sobre Brecht.
Como disse no começo, foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht no Paço Municipal. Me recordo como fosse hoje de suas mãos sangrentas a contarem a história da infanticida Marie Farrar que foi acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma: já no segundo mês de gestação, em casa de uma parteira, num sótão, ela tentou expulsar o desafeto com duas injeções, embora tivesse pago de imediato o estipulado e ter continuado a apertar a cintura, tomado aguardente com pimenta moída, o que apenas serviu de forte purgante, e o corpo continuava inchando, até ser surpreendida pelo nascimento. Marie Farrar era menina pobre, empregada, que no dia do natalício, com a barriga escondida dos patrões limpou as escadas, estendeu toda roupa que lavou, varreu a neve em volta da casa antes de parir. E pariu um filho igual aos outros filhos. Depois disso ficou pouco tempo na cama, pois a criança começou a chorar o que a obrigou a conter com esforço seus gritos para que ninguém descobrisse e se pôs a bater-lhe com os dois punhos até a criança ficar quieta. Levou o natimorto consigo para a cama durante o resto da noite e pela manhã escondeu-o na lavanderia e o enterrou na neve até o degelo revelar seu crime. Desta história, o que mais me marcou a memória era o refrão: “Mas o senhor não vos indigneis, pois todo ser humano precisa de ajuda”. Não fiquei indignado, apenas emocionado com aquele trágico aborto. Daí passei a ler tanto os Poemas Pedagógicos de Marcelo, quanto os Poemas Qüinqüenais de Brecht.
Depois de conhecê-lo, lembro das vezes em que Marcelo, Allan, Anderson, Fábio, toda a juventude socialista e eu bebíamos com Brecht no Bar Vermelho e ele dizia que “Em nossa terra quem é bom não consegue ser bom por muito tempo Quando os pratos estão vazios os homens atracam-se à mesa Os mandamentos dos deuses não influem na carestia da vida Por que os deuses não vão aos mercados distribuir alimentos em abundância? Com vinho e pão garantidos os homens seriam bons e fraternais” & nós lhe falávamos dos nossos sonhos Máquinas de Fazer Sanduíches Gratuitos & a Coca-Cola sob controle do Estado distribuída no colégio na hora do recreio & cigarros sem nicotina & pílulas anticoncepcionais ao lado dos chicletes & pílulas contraceptivas ao lado do band-aid nas docerias & cupons para ir ao puteiro por uma hora pelo menos uma vez por mês & revistas do Batman e livros do Baudelaire na cesta básica, Brecht simplesmente ria da nossa ironia de esquerda festiva naqueles dias que encerravam uma época e as cortinas se fechavam antes do aplauso.

Enquanto leio o jornal local, os jornais televisivos mostram as tristes imagens do caos proporcionado, em parte, pelas chuvas de verão Brasil afora, com destaque para algumas regiões do Estado de São Paulo e, principalmente, sobre o Estado do Rio de Janeiro.
Não é de hoje que os nossos verões tem sido particularmente assassinos, inclusive com uma tendência classista mórbida.
O que quero simplesmente dizer é que, embora a tragédia se abata sobre (quase) todas as cabeças, independente de cor, credo, raça, ou classe social, são as populações marginalizadas que mais sofrem com as enchentes e os deslizamentos de terra típicos de um país que pouco, muitíssimo pouco, faz em relação ao planejamento do desenvolvimento urbano e, particularmente, habitacional; e nada faz para frear a sanha gananciosa dos capitalistas de plantão, que buscam lucros à custa da vida alheia.
O resultado disso é que com as especulações imobiliárias que elevam os preços das moradias às alturas inconcebíveis, impraticáveis e imorais, ao nosso povo com menor ou quase nenhum poder aquisitivo só resta ocupar as regiões periféricas, os topos e as enconstas dos morros. Assim, a ocupação não planejada e, consequentemente, o desmatamento, abre caminho para as previsíveis tragédias.
O Diário do Grande ABC desta sexta-feira anuncia que no Rio de Janeiro já são mais de 500 mortos, 8320 pessoas desalojadas e 6270 pessoas desabrigadas. Sem contar as populações que estão sem água e energia elétrica e, ainda, devido ao isolamento provocado pelas enchentes e desmoronamentos, outras tantas que estão sem contato com o poder público.
Ou seja, não menos de 15.000 seres humanos no Rio de Janeiro afetados tragicamente por aquilo que o DGABC classificou como “a segunda maior tragédia climática no Brasil”, seguindo as justificativas comumente adotadas pelos governantes em geral, isto é, colocar a culpa na chuva, no clima, quando não nas próprias vítimas.
Inclusive o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral¹, afirmou que “Educar é dizer não. Não se pode habitar essas áreas”… Como se viver embaixo da ponte (que também alaga) e morar no morro fosse alguma opção! Já o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em recente entrevista televisiva, disse com todas as letras que o problema são as chuvas de verão; e o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, afirmou que obras contra enchentes não são feitas em 4 anos²…
Aí vem o Sakamoto³ (desculpem o trocadilho) com uma pergunta muito bem sacada: “E em vinte anos, dá?!”… Porque, como todo mundo está careca de saber, e Alkmin mais careca ainda está, o seu partido já vai para vinte anos à frente do governo de SP. Aliás, somando-se o tempo em que foi vice-governador e governador efetivo, Alkmin vai para 12 anos à frente do governo do Estado mais rico da Federação! E lamenta que em quatro anos não dá para resolver os problemas das enchentes. Pelo visto, vai pleitear a reeleição…
Voltando à “segunda maior tragédia climática no Brasil”… A não ser meramente pelo fato de que estes acontecimentos relacionam-se ao clima do nosso país tropical abençoado por deus e bonito por natureza, eles absolutamente não são tragédias climáticas! São tragédias provocadas por anos de descaso e desmazelo dos governantes, pela falta de política habitacional efetiva, pela especulação imobiliária, pelo desemprego estrutural e, em última análise, pelo modo de produção no qual baseamos a nossa economia, isto é, o nosso modo de viver, morrer (e por que não dizer?) matar.
A propósito, a foto que precede este artigo foi extraída do sítio da Globo, e é do Bairro Itajaí, em Santa Catarina. A legenda, fictícia, é tão somente uma provocação. A foto é de 2008, mas a imagem é a mesma de todos os anos! Como diria Marx: a história nunca se repete; quando se repete, ou é farsa, ou é tragédia. No caso da história brasileira, geralmente são as duas coisas ao mesmo tempo. [M.S.]
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Por Vinicius Canhoto, do blog “Inferno Riscado a Giz”.
Sentava-se à mesa um homem só, de aspecto triste, nesses cafés de estilo inglês que existem na cidade. De cabeça baixa, silenciosamente, no rosto fechado, o olhar melancólico penetrava na caneca de café, como se essa caneca lhe mostrasse algo além da escuridão líquida do café.
O líquido, por sua vez, não lhe mostrou nada mais além de seu próprio reflexo. Vejo em teus olhos que estás novamente triste, disse-lhe o café. Ele preferiu não responder e tomou outro gole que desceu queimando, mas sem gosto. Devagar, advertiu o café, que eu não sou coca-cola. O homem respirou fundo e voltou a olhar o interior da caneca e o líquido negro lhe disse, Vejo na tua face que esquecera de ter cuidado contigo mesmo. Ele, como alguém que teve a atenção chamada, passou a mão na bochecha percebendo que há vários dias não fazia a barba, que seu cabelo precisava ser cortado, que a camisa estava amarrotada e o sorriso ausente. Calma, homem, disse-lhe o café, Não vá levantar e reclamar de mim ao dono do estabelecimento e este vir a tomar conhecimento que está a perder um freguês por conta de um café metido a sincero, estou apenas a dizer aquilo que vejo. Ele, desconfortável, cobriu o rosto com as mãos. Não esconda o rosto, e, também, não se incomode com aquilo que um pouco de café venha a lhe dizer. O homem tirou as mãos do rosto e fitou incógnito o conteúdo da caneca que lhe pediu. Só não vá embora antes de tomar-me de todo e abandonar-me como um café frio. Neste momento, em que o líquido negro lhe disse Abandonar-me como um café frio, ele sentiu um ar gelado por todo o corpo e um calafrio. No entanto, o café o compreendeu, Vejo na tua expressão que hoje acordaste mais triste que o de costume, nesta manhã em preto e branco com gosto de pão amanhecido.
Ele aquiesceu. O café, compartido, prosseguiu, Nunca precisara, como numa música que toca aqui, de tanto carinho, força e cuidado. Quando a angústia senta-se ao seu lado, quando esta é a única companheira e tendes de ser forte, como noutra canção, a dor de cada amanhecer, a esperar por alguém que nunca vem. Alguém. Há mesmo alguém, perguntou o café. O homem confirmou com a cabeça. O líquido negro gabou-se da própria sabedoria, Sabia. Quando vi a tristeza em teus olhos e o açúcar que faltaste a adoçar-me, percebi que era abandono.
A palavra abandono o levou às recordações de quando havia alguém, uma mulher a olhá-lo profundamente nos olhos. Estava descontrolada, mas relutava para manter o controle, aparentando-se forte, impaciente, insensível e cruel, media-o como fosse uma peça de vestuário numa vitrine. Ele, não sabendo como reagir nessa ocasião, jamais se preparara, viu-se imóvel à espera do fim. Olhando o relógio, aparentemente nervoso, vendo que todo o encanto se ausentava ao encontro, ao observar os olhos dela que surgiam num misto de medo, piedade, compaixão e renúncia. Ela tentou usar algumas palavras como consolo. Inútil. No íntimo, estava convicta de que era estúpido tentar. Assim, ela entoava a voz cuidadosamente para que suas palavras não o ferissem mais que o necessário. Enquanto as palavras dela entravam nos ouvidos dele, ferindo-o em seu ser, ele teve vontade de chorar, mas estava seco por dentro. Mais tarde, entrou em casa sozinho com o amargo gosto de derrota. Não fechou a porta. Ao entrar, percebeu que não havia a quem falar ou saudar a chegada, estava só, entre móveis velhos, peças de decoração e paredes. Esquecera as chaves em algum lugar, mas antes que se apercebesse disso o vento bateu a porta. A janela estava aberta, esquecida. Sem fome, foi à cozinha e abriu a geladeira. Era um gesto mecânico, sem reflexão, tal qual a TV ligada no caminho percorrido entre a sala e a cozinha. Talvez o barulho da TV fosse para substituir uma voz, uma companhia, e a geladeira, quem sabe, um outro prato na mesa. O silêncio lhe era insuportável. Desistiu. Não tinha fome. Voltou à sala e desligou a TV. Foi ao quarto e deitou-se. No escuro os pensamentos, angústias e lembranças ficavam-lhe mais claros. A luz apagada permitia-lhe ver melhor e mais nítidos rostos e situações, propiciava-lhe ver-se melhor. Dormiu um pouco, acordou assustado, havia sonhado com ela. Quis telefonar, não teve coragem. Esperou o telefone tocar. Caminhou quilômetros pela sala, permaneceu jogado no sofá por horas mirando o aparelho. Por fim, ouviu o estridente som, correu para atender, mas era engano. Meia hora depois ligou para ela, mas quem atendeu foi a secretária eletrônica. Sufocado pelo próprio respirar, ele não quis ou não teve coragem de deixar recado. Jamais se vira com tanto medo, uma sensação de solidão naquele momento. A casa vazia e desarrumada, a gaiola que prendia um passarinho estava aberta e desocupada, o pequeno aquário vazio, as samambaias já se foram junto com os peixes, tudo estava deserto. Os livros, discos e as lembranças, tudo continuava no seu lugar, com um pouco de poeira e abandono. Olhou a porta da geladeira. A lista de dieta ainda estava lá, como aquela foto do verão. Pouco parece ter mudado, mas dentro de tudo mesmo, sabe-se que nada permanece da mesma forma.
Esta é tua história, perguntou o café um momento antes de sentir que uma gota fria e salgada caía inesperadamente dentro de si levando-o a censurá-lo, Não chore, homem. O líquido negro, não se contendo, perguntou àquele que chorava, Não aprendeste que homem não chora.
Enfim, ele ergueu o olhar para o teto, como se quisesse esconder as lágrimas. Secou-as com as palmas das mãos e voltou a fitar o café, Não me olhe assim, prosseguiu o líquido, como se quisesse pedir desculpas. A mim não fizeste mal algum, tua lágrima não me esfriou e nem alterou o meu sabor. Bem sei, aquilo que viveste não foi fácil, não foi um filme, foi fato, não foi tecnicolor, foi real. Entendo quando respiras um vazio por dentro e em seu interior pairam incertezas, perguntas sem respostas, lembranças desordenadas. Quando os fatos não se encaixam e as explicações não se explicam, tudo te parece tão complicado e contraditório. Não é. Ele concordou com muito pesar e uma dúvida, Ela parecia tão forte, tão decidida. Será que tinha certeza do que estava fazendo, E você, perguntou o café, Sabia o que estava fazendo. Ele fixou os olhos no líquido negro e sem dar importância a pergunta continuou, Ela sempre teve o gênio difícil, sempre fora assim, querendo que a razão sobrepujasse a emoção, ao sentimento. O café disse-lhe então, Você fala de razão e emoção como se falasse de água e óleo. Vamos, homem. Deixe de ser amargo, me adoce, que a razão é o café e a emoção é o açúcar. Ele, sem pensar mais, apanhou maquinalmente a colher e o açúcar, enquanto adoçava o líquido da caneca, disse mais para si mesmo do que para o café, Começo a crer que pra ela tudo foi em vão, Ou não, disse-lhe o líquido em tom de provocação. A dúvida cafecaniana o fez calar, respirar fundo e falar, Saio de casa sem um beijo, sem um conselho, sem uma recomendação para chegar cedo ou me cuidar. Sei que ao voltar, não vou ouvir um Olá, um Como vai ou um Já chegou. Tenho a certeza de que posso perder a hora, as chaves, a aliança, qualquer coisa, que ninguém dará falta. Eu posso até perder a mim mesmo que ninguém daria por falta. E o café lhe disse, Tens demasiada pena de si próprio. O homem corou e calou-se de vergonha. Do líquido negro, de repente, escapou um comentário que não se soube se era uma interrogação ou exclamação, Oxalá, um amor que deveria ter durado anos.
Porém, antes que o homem tomasse satisfação do café, uma fragrância de perfume conhecido invadiu-lhe as narinas. Ele se arrepiou, tremeu, O que foi, perguntou-lhe o líquido negro, Parece que viste um fantasma. Ele não respondeu. Veio-lhe a cabeça uma série de imagens fugazes, de sons rápidos e passados, resgatados das mais profundas reminiscências por aquele cheiro. Ele, ansioso, gelado e aflito, olhando para todos os lados, a procurá-la, buscando-a.
Uma mulher ia em direção à saída, mas não era o rosto configurado nas recordações. Era uma desconhecida, saindo sem saber que em seu olor havia algo que este homem, sentado a tomar café, não queria olvidar e que, entretanto, cortou-lhe o ar e o peito na transversal.
Nunca bebemos o mesmo café, lamentou o homem ao ver que a mulher que ia e não era. Entretanto, o café manteve-se frio e calado até ouvir daquele homem um outro lamento, desta vez em tom de indagação, Meu Deus, se realmente existes, por que me deixas assim. Neste momento, o líquido negro, sem lamento algum, também indagou, Haverá alguém a olhar por nós. O homem, sem saber a resposta, calou e tomou o último gole que restava de café.
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Nota da Pedra Lascada: Conheço este conto há anos, quando canhoto era apenas um adjetivo que designava a predominância do autor, então adolescente, no uso das mãos e dos pés esquerdos. Já o critiquei pela referência explícita a certas canções, mas sinceramente me parece que algumas referências ou foram excluídas ou dissolvidas no corpo do conto que, revisitado “séculos” depois, me parece mais “clean”, mais interessante. Curiosamente, embora tenha recordado algumas falas, e reconhecido outras referências, confesso que não lembrava que era o café (representante direto da consciência – superego? – do protagonista) que falava. Dos contos de Canhoto, tenho outros que prefiro, como o próprio Inferno Riscado a Giz, e outros que exconjuro (e ele sabe muito bem o por quê), e “A Balada do Café Triste” não está entre os meus favoritos, mas tem seus encantos sustentados em um certo ar autobiográfico, meio retrô, meio revival. Aliás, por influência das leituras/ revisões dos contos de Canhoto acabei chegando a uam conclusão, que traduziu-se em aforisma (válida para este conto e para o canhoto escritor Canhoto: “Só quem conhece as leituras, não as agruras, do poeta, é que pode entender-lhe”. [M.S]
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
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[Thiago de Mello]
Por Leonardo Sakamoto*
A Folha de S. Paulo, deste domingo, traz a informação de que a presidenta Dilma Rousseff, em sua primeira semana de trabalho, retirou o crucifixo da parede de seu gabinete e a bíblia de sua mesa.
Helena Chagas, ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social, através de seu twitter, contradisse a informação divulgada pela Folha na tarde de hoje – depois deste post já ter sido publicado. Segundo ela, “a presidenta Dilma não tirou o crucifixo da parede de seu gabinete. A peça é do ex-presidente Lula e foi na mudança. Aliás, o crucifixo, que Lula ganhou de um amigo no início do governo, é de origem portuguesa”. Segundo Chagas, a bíblia continua lá, em uma sala contígua, em cima de uma mesa. A mesma informação está em nota da Secom.
A meu ver, a discussão sobre a propriedade do crucifixo é indiferente – se Dilma não repuser a peça. O que importa é a existência de símbolos religiosos no gabinete da Presidência da República e a sua retirada. A Secretaria de Comunicação Social afirma que não foi uma opção dela ter tirado, mas é uma decisão não recolocar outro no lugar. Do jeito que é o Brasil, não fazer nada, mantendo o espaço sem crucifixo, será um ato simbólico surpreendente.
Defendo fortemente que a retirada de símbolos religiosos seja realizado por todos os que ocupam cargos públicos no país. Dilma afirmou ser católica durante as eleições (ok, como disse na época, eu ainda aposto que ela e José Serra são, no limite, agnósticos – mas vá lá), mas não foi eleita para representar apenas cristãos e sim cidadãos de todas as crenças – inclusive os que acreditam em nada.
A questão da retirada de crucifixos, imagens e afins de repartições públicas gerou polêmicas ao longo da história a partir do momento em que um Estado se afirma laico (e não desde o lançamento do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, como querem fazer crer o pessoal do “não li, mas não gostei”). A França retirou os símbolos religiosos de sedes de governos, tribunais e escolas públicas no final do século 19. Nossa primeira Constituição republicana já contemplava a separação entre Estado e Igreja, mas estamos 120 anos atrasados em cumprir a promessas dos legisladores de então.
Em janeiro do ano passado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou uma nota em que rejeitou “a criação de ‘mecanismos para impeder a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União’, pois considera que tal medida intolerante pretende ignorar nossas raízes históricas”.
Adoro quando alguém apela para as “raízes históricas” para discutir algo. Na época, lembrei que a escravidão está em nossas raízes históricas. A sociedade patriarcal está em nossas raízes históricas. A desigualdade social estrutural está em nossas raízes históricas. A exploração irracional dos recursos naturais está em nossas raízes históricas. A submissão da mulher como reprodutora e objeto sexual está em nossas raízes históricas. As decisões de Estado serem tomadas por meia dúzia de iluminados ignorando a participação popular estão em nossas raízes históricas. Lavar a honra com sangue está em nossas raízes históricas. Caçar índios no mato está em nossas raízes históricas. E isso para falar apenas de Brasil. Até porque queimar pessoas por intolerância de pensamento está nas raízes históricas de muita gente.
Quando o ser humano consegue caminhar a ponto de ver no horizonte a possibilidade de se livrar das amarras de suas “raízes históricas”, obtendo a liberdade para acreditar ou não, fazer ou não fazer, ser o que quiser ser, instituições importantes trazem justificativas fracas como essa, que fariam São Tomás de Aquino corar de vergonha intelectual. Por outro lado, o pessoal ultraconservador tem delírios de alegria.
Em 2009, o Ministério Público do Piauí solicitou a retirada de símbolos religiosos dos prédios públicos, atendendo a uma representação feita por entidades da sociedade civil e o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mandou recolher os crucifixos que adornavam o prédio e converteu a capela católica em local de culto ecumênico. Algumas dessas ações têm vida curta, mas o que importa é que percebe-se um processo em defesa de um Estado que proteja e acolha todas as religiões, mas não seja atrelado a nenhuma delas.
É necessário que se retirem adornos e referência religiosas de edifícios públicos, como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Não é porque o país tem uma maioria de católicos que espíritas, judeus, muçulmanos, enfim, minorias, precisem aceitar um símbolo cristão em um espaço do Estado. Além disso, as denominações cristãs são parte interessada em várias polêmicas judiciais – de pesquisas com célula-tronco ao direito ao aborto. Se esses elementos estão escancaradamente presentes nos locais onde são tomadas as decisões sem que ninguém se mexa para retirá-las, como garantir que as decisões serão isentas?
Como já disse aqui antes, o Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos, tenham seus templos, igrejas e terreiros e ostentem seus símbolos (tem uma turma dodói da cabeça que diz que isso significaria a retirada do Cristo Redentor do morro do Corcovado – afe… por Nossa Senhora!). Mas não pode se envolver, positiva ou negativamente, em nenhuma delas. Estado é Estado. Religião é religião.
Como é difícil uma democracia respeitar suas minorias.
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*Este brilhante e lúcido artigo (desculpem a redundância, mas não é menos que isso!) foi extraído do Blog do Sakamoto (http://blogdosakamoto.uol.com.br/), que tem sido de leitura imperdível. [M.S.]