Essa não é uma letra meramente fictícia. Todos os fatos narrados e todas as cenas são, infelizmente, reais – e ilustram apenas parte de um cotidiano construído sob os pilares da normalização da exploração e da violência contra a população pobre, principalmente a preta e periférica.
Tag: Poesia
Cronos
Versão musicada do poema “Cronos”. Particularmente, amei o resultado. E você, o que achou?
Silente
hoje eu não estou para a música
tem dias que a gente só quer
o barulho dos autos que passam
do vento soprando as folhagens
e às vezes nem isso; só o silêncio
o silêncio mesmo do pensamento
o olhar fechado, quieto, no escuro
o tempo naquela cena, esquecido
o silêncio do coração pulsando
das asas da borboleta pousada
o silêncio das rimas quebradas
dos versos sem prosódias
das ondas lentas, do vídeo pausado
daquela fotografia ali na escada
o silêncio do seu silêncio
mas tudo é grito, nada é sussurro
as passadas sem pressa
e sem qualquer sincronia
das pessoas no outro lado da rua
elas não gritam, trovejam
os sorrisos efusivos
as pálpebras pesadas de sono
a planta florescendo à nossa frente
os sacos de lixo à espera da coleta
gritam, gritam, gritam, só gritam
e eu querendo o silêncio de memórias
das coisas que nunca foram, se foram
o silêncio de uma lágrima perdida
abrindo na face uma ferida de sal
que, invisível, saliente, agita – e grita.
- Imagem em destaque: “Caminhante sobre o mar de névoa”, Caspar David Friedrich, 1818
- Música de fundo: “O Silêncio: Concertino“, Madredeus
Cronos

Imagem em destaque: Detalhe da obra “Saturno“, 1636-1638, de Peter Paul Rubem.
Soneto do Pretérito Nada Perfeito
Os cantos de sereia por aí estão
No sibilo de outros ventos
Prenunciando, a pretexto de novos,
Velhacos e velhos tempos.
Semeiam caos, colhem desilusão
É preciso resistir aos revezes...
Em suas tezes, as suas teses
Já não escondem (transparentes que são).
Nesse jogo de antecipação
Em que os meios o fim justifica
Tudo pode e nada com nada fica.
O fatídico discurso não se inventa:
É uma ponte para o futuro
Logo ali nos anos noventa.
[M.S]
Tento
às vezes em desalento
por mil vezes e mil proventos
mesmo em descontentamento
buscando algum consenso
tento
no intuito de fomento
há que adicionar fermento
e não deixar ao vento
nem sempre a contento
tento
o trabalho é imenso
o processo longo e lento
o resultado, penso,
entre suspense e suspenso
tenso, tento.
Amor
Amor é música constante
Cantada em voz miudinha
Descompasso e dissonante
A um passo que não tinha.
Só a ouve não quem a toca
Mas quem por ela é tocado
Bem no canto de tua boca
Num sorriso disfarçado.
Cavaleiro imaginário
A cavalgar um alazão
À margem esquerda do rio
Em que repousa o coração.
Está onde não se procura
De tantas faces, muitas vestes
Ora iluminada, ora escura
Se lança a céus azuis celestes.
[M.S.]
Pretexto
sem ter tido
um sentido
além do dito
ou do escrito
compreendido
o contexto
às vezes um texto
é só um pretexto
nem tudo de mim
é sobre mim
às vezes é meio
pelo qual semeio
outras vezes
em si mesmo
é fim
às vezes é só
outras, sim
[M.S.]
Vênus
Para Vivi – flor de março, presente de abril
sobre o céu de Marte
brilha o Sol de março
solitário
ventos varrem as colinas
levantam a poeira
vazios de poesia
sobre o chão rubro
fantasmas rasgam fantasias
e seus uivos, tal como lobos
sob Deimos
sob Fobos
são ocos - não os ouço
distante distante e a um passo
de um sonho, de um traço
no planisfério, no espaço
onde o globo sobrevoa
e os olhos nus alcançam
no lado oposto lá está ela
ao calar a noite
ao fechar de março
a estrela da manhã estreia
no outono sua primavera
uns a chamam de Vênus
outros a chamam de deusa
pela sua força vulcânica
pela sua chama ardente
a chamamos simplesmente
amor
[M.S. – Mar/2024]
Imagem em destaque: “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli (1484-1485)
1977
sob o signo do sonho
nas bordas do firmamento
o chão a chuva a seca
lá fora ou cá dentro
não sei
pobre terra rica
pés descalços, brasis
rubra poeira
pele em brasa
sob o fervo de fevereiro
a gélida sentença
o desengano
impossível a existência
tão leve a criança
- coração paranapanema
mente em curto
curta a vida
curto o tempo
leva para casa leva ela
e tudo que ela leva
e eleva as mãos
mas não
sob o forno a fé
o enfrentamento
o ranger das madeiras
das paredes
o silvo do vento ao cruzar
das frestas
sob o sereno os poros
os porões d'outros verões
o fogo vindouro
entre o café e o algodão
as vacas e os seus frutos
a cana e os moinhos
as mãos moídas os calos
os prantos calados
da obstinação da mãe
da teimosia do pai
da natural tepidez
de substâncias compostas
do barro
da carne
da alma
da tez
dos trinta e seis
o pulsar do filho improvável
possível se fez
[M.S. - Fev./2024]







