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Talvez

Tudo em mim se vai
Tudo o que é meu
E tudo o q'eu poderia ter sido
Inclusive o que eu sou.

De mim apenas fica
Um pouco do que fui
E um tanto do que serei
(do que, na verdade, penso em ser)

Já não tenho medo de me perder
Mas 'inda me procuro a cada instante
Por isso escrevo como quem joga
Palavras ao vento,
Conchas ao mar,
Areia no deserto...

Sou isso mesmo
E nem mesmo sei quem sou
No espelho me desconheço,
As águas não me refletem,
O fogo não ilumina
Nem tampouco aquece.

Sua voz ainda assusta
Seu nome tange os signos
Mas não encontro eco na memória.
Todavia, persiste.

Assim, a sua ausência é tão concreta:
Às vezes desencontrada
Outras, jamais acontecida.

Talvez eu explique,
Talvez não entenda,
Contudo, esta é a minha vida.






Poética do puro e do profano

                     I

...Às vezes escolho um beco sem saída
Mas não há sempre becos sem saída
Nem tristeza que perdure
Nem felicidade infinita.

                    *

"All the bridges that you burn
Come back one day to haunt you".
                  (Tracy Chapman)

                     II

Sou o operário das letras
- Imagino-me assim;
Faço com tal:
Fabrico ilusão, sonho e ideal;
Instinto? Revolução.
Sigo esta trilha
e acho que é essa a minha natureza.

                    *

"Everybody sing we're free, free, free".
                         (Tracy Chapman)

                    III

Procurei respostas para algumas situações...
Respostas não encontrei em frases
- encontrei-as em seus atos.
Telefonei: será que ainda alimento esperanças?
Acho que regresso ao passado e talvez seja tarde
Porém não acredito que seja - tudo mudou.

Escrevo como se depusesse em um grande julgamento:
Os versos que fiz para os meus camaradas foram sinceros;
Os versos que fiz para a minha amada foram sinceros.
Sinceros foram os versos que não ousei fazer.

Estou pensando em novas frases com velhas palavras até.
Quando preciso com urgência tudo desaparece.

Meritíssimo, não sou poeta, não sei escrever.
Pode ser que eu tenha transmitido essa imagem,
                                      só isso,
                                         só...

                    *

"Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência".
                   (Eduardo Alves da Costa)

                    IV

Tudo bem, digamos que eu seja realmente poeta.
Brincando de se passar por hermeneuta,
                         ou astronauta
                          das palavras
                      dos sons citados
                       sem ritmos, dos
                   fonemas, dos planos
             dos filmes dos cinemas...
Pouco (ou nada) importa a esta altura.

                    V

Mas sou, som sim o poeta
- o poeta do apocalipse, da beira do precipício
                       fazendo das letras o meu
                                         ofício
                                 e o meu vício.

Sou a coisa podre
remoendo o treco nojento que revira o bagulho escroto
à procura do nauseabundo odor das palavras.

Sou o seu nada
o êxtase da indiferença retorcido ao nunca;
o ser misterioso que ao lhe ver passar ao seu chão
                                            junca.

                    Sou o poeta
                        do
                    fim do milênio.

Vejo as casas que transmitem ideias
                  serem destruídas,
Vejo as casas que abrigam os mortos
                  serem destruídas,
Vejo a poeira se erguendo
enquanto o concreto vai caindo.

Tentei. Tanto quanto tive tempo.
Trespassando horas e toneladas.
Tudo: multiplicado pelo vazio absoluto

E, em meio a tanta magnitude,
em meio à gravidade da situação.
ainda posso ver uma criança sorrindo.

Eu sou o poeta e não o profeta.
Tenho o alfa e o ômega - o início e o fim -
                         não em minhas mãos
                   mas em minha imaginação.

                    *

"A vida nós a amassamos em sangue
         e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual..."            
                 (Ferreira Gullar)

                    VI

Epílogo: Os corpos em chamas na noite tranquila...
           As cinzas no céu, carregadas pelo vento
                             para repousar no mar:
                         Cinzas da poluição fabril
                     resultada da ganância febril.

                    *

               "You in your fancy
               Material world
               Create in your image
               A supreme god

               Your virgin mary
               Your holy ghost
               Claimed to be purê of heart
               Have hands are stained with blood"
                                  (Tracy Chapman)










 

Palavras

1 – É necessário dizer

Preciso dizer-te
Esta noite, somente
Uma palavra-chave
Abrir as portas do mundo
E somar cada estrela
De todas as constelações
E multiplica-las por cada gotícula
De água das nuvens desse inverno...

Preciso dizer-te, celeste
É o espaço sideral
Porta e chave do Universo.
Invadir, já, o planeta
Da constelação de mesmo nome
E alcançar um pedacinho
De um sonho e de uma vida
E multiplicar, multiplicar
Por todas as ansiedades
E por todas as esperanças...

Preciso dizer-te, Aurora
É mais que a luz da manhã;
É pura sincronia
Dos versos divinos
Concretizada (em vão)
Pela necessidade
De efeitos naturais
Para acordar os seres humanos...

Estender, pois, a mão
Sem luva que derrube
Ao escapar,
Mas estender a mão nua,
Sem segredos a esconder.

2 – Perspectivas

Preciso dizer-te
Que já estamos sem tempo
E há tempos estamos distantes.

(Uma palavra em desespero
percorre meus pensamentos)

Preciso dizer-te
Que temos, ainda, alguma chance
E as alternativas foram abandonadas.

(Uma voz suave
alucina minha alma)

Preciso dizer-te
Que os planos foram queimados
E, mesmo assim, lutamos.

 

Fora do tempo

Sem o susto de cada dia o homem não vive.

Não pode com a certeza do fim ou de um recomeço sem tréguas,
Com o imediato silêncio no instante que chega - e passa,
Com o sopro do vento que traz uma gota de chuva,
Com a maneira certa de falar ou de se portar à mesa...

Não pode com isso, muito menos com aquilo.

Com uma fonte de desejo à frente e uma moeda que falta,
Com o futuro que se esgarça a cada ação planejada
- como areia que se esvai numa intenção esquecida.

O homem não pode consigo.
Vê a estreiteza das rochas e insiste no naufrágio,
Abandona-se à sorte para deleitar-se com a paisagem.

Quando se dá conta, já foi, sem nunca ter sido.
                                         [M.S.]

2018

Prometo não dizer nunca;
e de prometer jamais me contrariar
- nunca antes, nunca depois, sempre agora...

Um instante preso dentro de uma garrafa
opaca e sem tampa;
Um instante pronto para ser bebido
até a última gota,direto do gargalo
para a garganta.

Prometo escolher só as palavras erradas
- as mais rotas, irregulares e inexatas
Para que todos os sentidos sejam possíveis,

Para que nenhuma palavra 
seja sentida, mesmo que linda
e tudo seja incompreensível
e ao mesmo tempo cristalino
como o brilho de uma sinapse
em seu ápice,
no instante em que finda.

Prometo não dizer prometo
e não arrancar da pele a flor,
à flor da pele, 
quando exausto,
num silêncio incauto e ao infinito,
soltar um grito em série.

Prometo não dizer mais nada
Prometo não guardar segredo
e ainda (o que à memória agrada)
- prometo não esquecer do medo.

[M.S.]











Vão-se os anéis…

 

O dia que vem chegando,
As palavras que disse sem pensar,
As consequências inevitáveis,
A impulsividade contagiosa de meus amigos..

Somado a tudo isso: a esperança perdida.
Salvar o homem? Para quê?
Ainda assim, persisto - persistimos.

Encontro rostos conhecidos,
Vozes ressurgem na memória...
Gritos - nesse instante silencioso -
Cerram o sono e a paciência.

É preciso ter coragem ou estar louco
Para saber-se a muito e ser tão pouco.

A manhã se aproxima,
Sabemos que o Sol existirá longamente
E que cada manhã vindoura é um dia a mais
De menos paz, de intensa irracionalidade.

Preso neste mar de papéis
A mente convergindo para a incoerência
E essa lembrança triste e serena, trapaceira.

Vão-se os anéis, os dedos...

[M.S., abril/2000]