A língua, sensual, suga
a sensível palavra
que, desvirginada,
goza os prazeres
do sentido
dupla e
penetradamente
atribuído.
.
A palavra
é sempre intata
por sua tez
Mesmo não sendo
proferida
Só uma vez.
*
[M.S.]
Categoria: Contos, crônicas, poesias & afins
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
[Carlos Drummond de Andrade]
Digo Sim
Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos do meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperançasa entre pulmões
e nuvens
Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.
A vida nós a assamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
meu vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela
– digo sim.
*
[Ferreira Gullar]
Pra não esquecer
Em letra pequena
escrevi o seu nome
para não esquecer;
Bem dobrado
com muito cuidado
guardei no bolso
para não esquecer;
Amarrei no pulso
uma tira de seda
de Nossa Senhora
para não esquecer.
Mas quando esqueci
dei embora a camisa
lavada e passada;
e cortei o pulso
para arrancar a tira
que eu já não sabia
para o que servia…
[M.S.]
Cala a boca, Ana Maria
Nota da Pedra Lascada: Da “série” Utile Dulci, mais um texto reencarnado, que havia sido publicado em 15 de julho do ano póstumo (acho que hoje estou meio mórbido rs) – [M.S.]
– – –
Ilha Grande
Bertolt Brecht Remember
Por Vinicius Canhoto
Foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht. Na época, Marcelo já me havia falado dele, principalmente de seus poemas, não de seu teatro. E era uma fase que eu precisava de teatro, muito teatro, pois escrevia um tema shakespereano chamado “Canção para bruxas da meia noite”. Era um sonho de uma noite de verão em que um poeta sobre uma bicicleta e uma noite sem lua cantava o passado com suas bruxas que atuaram sobre os cenários e ribaltas de seu peito para depois dormir em Paris ou em São Paulo nuas em apocalipses & núpcias. As atrizes seriam magas de cetim, purpurina e latão que fugiriam antes do aplauso. O elenco já estava escalado: Glicia, Camila, Cleide, Kátia — as belas de sempre. O cenário estaria nas ruas e salas, nas folhas e árvores, em cada canto que eu ia, em minha cabeça, em cada coisa que sou. O tema era uma paródia sobre as feridas biográficas que carregava pela cidade perdendo seus nomes endereços & números de telefone: Kelly nas Laranjeiras, Harumi nas Pitangueiras, Andréia nas Goiabeiras, Michele nas Figueiras, magas que agitavam suas vassouras na hora de cantar. Mas o tema da peça fracassou e desisti porque acabaram as mágicas das manhãs e tardes, o encanto do ônibus com as magas maquiadas, mas elas nunca foram esquecidas, mesmo depois de curadas. Apesar de tudo, aprendi que com minhas bruxas que eu poderia melhorar e que elas sempre me ajudariam a ver um pouco mais além. Mas não é delas que eu quero falar, é sobre Brecht.
Como disse no começo, foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht no Paço Municipal. Me recordo como fosse hoje de suas mãos sangrentas a contarem a história da infanticida Marie Farrar que foi acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma: já no segundo mês de gestação, em casa de uma parteira, num sótão, ela tentou expulsar o desafeto com duas injeções, embora tivesse pago de imediato o estipulado e ter continuado a apertar a cintura, tomado aguardente com pimenta moída, o que apenas serviu de forte purgante, e o corpo continuava inchando, até ser surpreendida pelo nascimento. Marie Farrar era menina pobre, empregada, que no dia do natalício, com a barriga escondida dos patrões limpou as escadas, estendeu toda roupa que lavou, varreu a neve em volta da casa antes de parir. E pariu um filho igual aos outros filhos. Depois disso ficou pouco tempo na cama, pois a criança começou a chorar o que a obrigou a conter com esforço seus gritos para que ninguém descobrisse e se pôs a bater-lhe com os dois punhos até a criança ficar quieta. Levou o natimorto consigo para a cama durante o resto da noite e pela manhã escondeu-o na lavanderia e o enterrou na neve até o degelo revelar seu crime. Desta história, o que mais me marcou a memória era o refrão: “Mas o senhor não vos indigneis, pois todo ser humano precisa de ajuda”. Não fiquei indignado, apenas emocionado com aquele trágico aborto. Daí passei a ler tanto os Poemas Pedagógicos de Marcelo, quanto os Poemas Qüinqüenais de Brecht.
Depois de conhecê-lo, lembro das vezes em que Marcelo, Allan, Anderson, Fábio, toda a juventude socialista e eu bebíamos com Brecht no Bar Vermelho e ele dizia que “Em nossa terra quem é bom não consegue ser bom por muito tempo Quando os pratos estão vazios os homens atracam-se à mesa Os mandamentos dos deuses não influem na carestia da vida Por que os deuses não vão aos mercados distribuir alimentos em abundância? Com vinho e pão garantidos os homens seriam bons e fraternais” & nós lhe falávamos dos nossos sonhos Máquinas de Fazer Sanduíches Gratuitos & a Coca-Cola sob controle do Estado distribuída no colégio na hora do recreio & cigarros sem nicotina & pílulas anticoncepcionais ao lado dos chicletes & pílulas contraceptivas ao lado do band-aid nas docerias & cupons para ir ao puteiro por uma hora pelo menos uma vez por mês & revistas do Batman e livros do Baudelaire na cesta básica, Brecht simplesmente ria da nossa ironia de esquerda festiva naqueles dias que encerravam uma época e as cortinas se fechavam antes do aplauso.
Amanhecer
A Balada do Café Triste
Por Vinicius Canhoto, do blog “Inferno Riscado a Giz”.
Sentava-se à mesa um homem só, de aspecto triste, nesses cafés de estilo inglês que existem na cidade. De cabeça baixa, silenciosamente, no rosto fechado, o olhar melancólico penetrava na caneca de café, como se essa caneca lhe mostrasse algo além da escuridão líquida do café.
O líquido, por sua vez, não lhe mostrou nada mais além de seu próprio reflexo. Vejo em teus olhos que estás novamente triste, disse-lhe o café. Ele preferiu não responder e tomou outro gole que desceu queimando, mas sem gosto. Devagar, advertiu o café, que eu não sou coca-cola. O homem respirou fundo e voltou a olhar o interior da caneca e o líquido negro lhe disse, Vejo na tua face que esquecera de ter cuidado contigo mesmo. Ele, como alguém que teve a atenção chamada, passou a mão na bochecha percebendo que há vários dias não fazia a barba, que seu cabelo precisava ser cortado, que a camisa estava amarrotada e o sorriso ausente. Calma, homem, disse-lhe o café, Não vá levantar e reclamar de mim ao dono do estabelecimento e este vir a tomar conhecimento que está a perder um freguês por conta de um café metido a sincero, estou apenas a dizer aquilo que vejo. Ele, desconfortável, cobriu o rosto com as mãos. Não esconda o rosto, e, também, não se incomode com aquilo que um pouco de café venha a lhe dizer. O homem tirou as mãos do rosto e fitou incógnito o conteúdo da caneca que lhe pediu. Só não vá embora antes de tomar-me de todo e abandonar-me como um café frio. Neste momento, em que o líquido negro lhe disse Abandonar-me como um café frio, ele sentiu um ar gelado por todo o corpo e um calafrio. No entanto, o café o compreendeu, Vejo na tua expressão que hoje acordaste mais triste que o de costume, nesta manhã em preto e branco com gosto de pão amanhecido.
Ele aquiesceu. O café, compartido, prosseguiu, Nunca precisara, como numa música que toca aqui, de tanto carinho, força e cuidado. Quando a angústia senta-se ao seu lado, quando esta é a única companheira e tendes de ser forte, como noutra canção, a dor de cada amanhecer, a esperar por alguém que nunca vem. Alguém. Há mesmo alguém, perguntou o café. O homem confirmou com a cabeça. O líquido negro gabou-se da própria sabedoria, Sabia. Quando vi a tristeza em teus olhos e o açúcar que faltaste a adoçar-me, percebi que era abandono.
A palavra abandono o levou às recordações de quando havia alguém, uma mulher a olhá-lo profundamente nos olhos. Estava descontrolada, mas relutava para manter o controle, aparentando-se forte, impaciente, insensível e cruel, media-o como fosse uma peça de vestuário numa vitrine. Ele, não sabendo como reagir nessa ocasião, jamais se preparara, viu-se imóvel à espera do fim. Olhando o relógio, aparentemente nervoso, vendo que todo o encanto se ausentava ao encontro, ao observar os olhos dela que surgiam num misto de medo, piedade, compaixão e renúncia. Ela tentou usar algumas palavras como consolo. Inútil. No íntimo, estava convicta de que era estúpido tentar. Assim, ela entoava a voz cuidadosamente para que suas palavras não o ferissem mais que o necessário. Enquanto as palavras dela entravam nos ouvidos dele, ferindo-o em seu ser, ele teve vontade de chorar, mas estava seco por dentro. Mais tarde, entrou em casa sozinho com o amargo gosto de derrota. Não fechou a porta. Ao entrar, percebeu que não havia a quem falar ou saudar a chegada, estava só, entre móveis velhos, peças de decoração e paredes. Esquecera as chaves em algum lugar, mas antes que se apercebesse disso o vento bateu a porta. A janela estava aberta, esquecida. Sem fome, foi à cozinha e abriu a geladeira. Era um gesto mecânico, sem reflexão, tal qual a TV ligada no caminho percorrido entre a sala e a cozinha. Talvez o barulho da TV fosse para substituir uma voz, uma companhia, e a geladeira, quem sabe, um outro prato na mesa. O silêncio lhe era insuportável. Desistiu. Não tinha fome. Voltou à sala e desligou a TV. Foi ao quarto e deitou-se. No escuro os pensamentos, angústias e lembranças ficavam-lhe mais claros. A luz apagada permitia-lhe ver melhor e mais nítidos rostos e situações, propiciava-lhe ver-se melhor. Dormiu um pouco, acordou assustado, havia sonhado com ela. Quis telefonar, não teve coragem. Esperou o telefone tocar. Caminhou quilômetros pela sala, permaneceu jogado no sofá por horas mirando o aparelho. Por fim, ouviu o estridente som, correu para atender, mas era engano. Meia hora depois ligou para ela, mas quem atendeu foi a secretária eletrônica. Sufocado pelo próprio respirar, ele não quis ou não teve coragem de deixar recado. Jamais se vira com tanto medo, uma sensação de solidão naquele momento. A casa vazia e desarrumada, a gaiola que prendia um passarinho estava aberta e desocupada, o pequeno aquário vazio, as samambaias já se foram junto com os peixes, tudo estava deserto. Os livros, discos e as lembranças, tudo continuava no seu lugar, com um pouco de poeira e abandono. Olhou a porta da geladeira. A lista de dieta ainda estava lá, como aquela foto do verão. Pouco parece ter mudado, mas dentro de tudo mesmo, sabe-se que nada permanece da mesma forma.
Esta é tua história, perguntou o café um momento antes de sentir que uma gota fria e salgada caía inesperadamente dentro de si levando-o a censurá-lo, Não chore, homem. O líquido negro, não se contendo, perguntou àquele que chorava, Não aprendeste que homem não chora.
Enfim, ele ergueu o olhar para o teto, como se quisesse esconder as lágrimas. Secou-as com as palmas das mãos e voltou a fitar o café, Não me olhe assim, prosseguiu o líquido, como se quisesse pedir desculpas. A mim não fizeste mal algum, tua lágrima não me esfriou e nem alterou o meu sabor. Bem sei, aquilo que viveste não foi fácil, não foi um filme, foi fato, não foi tecnicolor, foi real. Entendo quando respiras um vazio por dentro e em seu interior pairam incertezas, perguntas sem respostas, lembranças desordenadas. Quando os fatos não se encaixam e as explicações não se explicam, tudo te parece tão complicado e contraditório. Não é. Ele concordou com muito pesar e uma dúvida, Ela parecia tão forte, tão decidida. Será que tinha certeza do que estava fazendo, E você, perguntou o café, Sabia o que estava fazendo. Ele fixou os olhos no líquido negro e sem dar importância a pergunta continuou, Ela sempre teve o gênio difícil, sempre fora assim, querendo que a razão sobrepujasse a emoção, ao sentimento. O café disse-lhe então, Você fala de razão e emoção como se falasse de água e óleo. Vamos, homem. Deixe de ser amargo, me adoce, que a razão é o café e a emoção é o açúcar. Ele, sem pensar mais, apanhou maquinalmente a colher e o açúcar, enquanto adoçava o líquido da caneca, disse mais para si mesmo do que para o café, Começo a crer que pra ela tudo foi em vão, Ou não, disse-lhe o líquido em tom de provocação. A dúvida cafecaniana o fez calar, respirar fundo e falar, Saio de casa sem um beijo, sem um conselho, sem uma recomendação para chegar cedo ou me cuidar. Sei que ao voltar, não vou ouvir um Olá, um Como vai ou um Já chegou. Tenho a certeza de que posso perder a hora, as chaves, a aliança, qualquer coisa, que ninguém dará falta. Eu posso até perder a mim mesmo que ninguém daria por falta. E o café lhe disse, Tens demasiada pena de si próprio. O homem corou e calou-se de vergonha. Do líquido negro, de repente, escapou um comentário que não se soube se era uma interrogação ou exclamação, Oxalá, um amor que deveria ter durado anos.
Porém, antes que o homem tomasse satisfação do café, uma fragrância de perfume conhecido invadiu-lhe as narinas. Ele se arrepiou, tremeu, O que foi, perguntou-lhe o líquido negro, Parece que viste um fantasma. Ele não respondeu. Veio-lhe a cabeça uma série de imagens fugazes, de sons rápidos e passados, resgatados das mais profundas reminiscências por aquele cheiro. Ele, ansioso, gelado e aflito, olhando para todos os lados, a procurá-la, buscando-a.
Uma mulher ia em direção à saída, mas não era o rosto configurado nas recordações. Era uma desconhecida, saindo sem saber que em seu olor havia algo que este homem, sentado a tomar café, não queria olvidar e que, entretanto, cortou-lhe o ar e o peito na transversal.
Nunca bebemos o mesmo café, lamentou o homem ao ver que a mulher que ia e não era. Entretanto, o café manteve-se frio e calado até ouvir daquele homem um outro lamento, desta vez em tom de indagação, Meu Deus, se realmente existes, por que me deixas assim. Neste momento, o líquido negro, sem lamento algum, também indagou, Haverá alguém a olhar por nós. O homem, sem saber a resposta, calou e tomou o último gole que restava de café.
– – –
Nota da Pedra Lascada: Conheço este conto há anos, quando canhoto era apenas um adjetivo que designava a predominância do autor, então adolescente, no uso das mãos e dos pés esquerdos. Já o critiquei pela referência explícita a certas canções, mas sinceramente me parece que algumas referências ou foram excluídas ou dissolvidas no corpo do conto que, revisitado “séculos” depois, me parece mais “clean”, mais interessante. Curiosamente, embora tenha recordado algumas falas, e reconhecido outras referências, confesso que não lembrava que era o café (representante direto da consciência – superego? – do protagonista) que falava. Dos contos de Canhoto, tenho outros que prefiro, como o próprio Inferno Riscado a Giz, e outros que exconjuro (e ele sabe muito bem o por quê), e “A Balada do Café Triste” não está entre os meus favoritos, mas tem seus encantos sustentados em um certo ar autobiográfico, meio retrô, meio revival. Aliás, por influência das leituras/ revisões dos contos de Canhoto acabei chegando a uam conclusão, que traduziu-se em aforisma (válida para este conto e para o canhoto escritor Canhoto: “Só quem conhece as leituras, não as agruras, do poeta, é que pode entender-lhe”. [M.S]
Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
.
[Thiago de Mello]


