A Balada do Café Triste

Por Vinicius Canhoto, do blog “Inferno Riscado a Giz”.

Sentava-se à mesa um homem só, de aspecto triste, nesses cafés de estilo inglês que existem na cidade. De cabeça baixa, silenciosamente, no rosto fechado, o olhar melancólico penetrava na caneca de café, como se essa caneca lhe mostrasse algo além da escuridão líquida do café.

O líquido, por sua vez, não lhe mostrou nada mais além de seu próprio reflexo. Vejo em teus olhos que estás novamente triste, disse-lhe o café. Ele preferiu não responder e tomou outro gole que desceu queimando, mas sem gosto. Devagar, advertiu o café, que eu não sou coca-cola. O homem respirou fundo e voltou a olhar o interior da caneca e o líquido negro lhe disse, Vejo na tua face que esquecera de ter cuidado contigo mesmo. Ele, como alguém que teve a atenção chamada, passou a mão na bochecha percebendo que há vários dias não fazia a barba, que seu cabelo precisava ser cortado, que a camisa estava amarrotada e o sorriso ausente. Calma, homem, disse-lhe o café, Não vá levantar e reclamar de mim ao dono do estabelecimento e este vir a tomar conhecimento que está a perder um freguês por conta de um café metido a sincero, estou apenas a dizer aquilo que vejo. Ele, desconfortável, cobriu o rosto com as mãos. Não esconda o rosto, e, também, não se incomode com aquilo que um pouco de café venha a lhe dizer. O homem tirou as mãos do rosto e fitou incógnito o conteúdo da caneca que lhe pediu. Só não vá embora antes de tomar-me de todo e abandonar-me como um café frio. Neste momento, em que o líquido negro lhe disse Abandonar-me como um café frio, ele sentiu um ar gelado por todo o corpo e um calafrio. No entanto, o café o compreendeu, Vejo na tua expressão que hoje acordaste mais triste que o de costume, nesta manhã em preto e branco com gosto de pão amanhecido.

Ele aquiesceu. O café, compartido, prosseguiu, Nunca precisara, como numa música que toca aqui, de tanto carinho, força e cuidado. Quando a angústia senta-se ao seu lado, quando esta é a única companheira e tendes de ser forte, como noutra canção, a dor de cada amanhecer, a esperar por alguém que nunca vem. Alguém.  Há mesmo alguém, perguntou o café. O homem confirmou com a cabeça. O líquido negro gabou-se da própria sabedoria, Sabia. Quando vi a tristeza em teus olhos e o açúcar que faltaste a adoçar-me, percebi que era abandono.

A palavra abandono o levou às recordações de quando havia alguém, uma mulher a olhá-lo profundamente nos olhos. Estava descontrolada, mas relutava para manter o controle, aparentando-se forte, impaciente, insensível e cruel, media-o como fosse uma peça de vestuário numa vitrine. Ele, não sabendo como reagir nessa ocasião, jamais se preparara, viu-se imóvel à espera do fim. Olhando o relógio, aparentemente nervoso, vendo que todo o encanto se ausentava ao encontro, ao observar os olhos dela que surgiam num misto de medo, piedade, compaixão e renúncia. Ela tentou usar algumas palavras como consolo. Inútil. No íntimo, estava convicta de que era estúpido tentar. Assim, ela entoava a voz cuidadosamente para que suas palavras não o ferissem mais que o necessário. Enquanto as palavras dela entravam nos ouvidos dele, ferindo-o em seu ser, ele teve vontade de chorar, mas estava seco por dentro. Mais tarde, entrou em casa sozinho com o amargo gosto de derrota. Não fechou a porta. Ao entrar, percebeu que não havia a quem falar ou saudar a chegada, estava só, entre móveis velhos, peças de decoração e paredes. Esquecera as chaves em algum lugar, mas antes que se apercebesse disso o vento bateu a porta. A janela estava aberta, esquecida. Sem fome, foi à cozinha e abriu a geladeira. Era um gesto mecânico, sem reflexão, tal qual a TV ligada no caminho percorrido entre a sala e a cozinha. Talvez o barulho da TV fosse para substituir uma voz, uma companhia, e a geladeira, quem sabe, um outro prato na mesa. O silêncio lhe era insuportável. Desistiu. Não tinha fome. Voltou à sala e desligou a TV. Foi ao quarto e deitou-se. No escuro os pensamentos, angústias e lembranças ficavam-lhe mais claros. A luz apagada permitia-lhe ver melhor e mais nítidos rostos e situações, propiciava-lhe ver-se melhor. Dormiu um pouco, acordou assustado, havia sonhado com ela. Quis telefonar, não teve coragem. Esperou o telefone tocar. Caminhou quilômetros pela sala, permaneceu jogado no sofá por horas mirando o aparelho. Por fim, ouviu o estridente som, correu para atender, mas era engano. Meia hora depois ligou para ela, mas quem atendeu foi a secretária eletrônica. Sufocado pelo próprio respirar, ele não quis ou não teve coragem de deixar recado. Jamais se vira com tanto medo, uma sensação de solidão naquele momento. A casa vazia e desarrumada, a gaiola que prendia um passarinho estava aberta e desocupada, o pequeno aquário vazio, as samambaias já se foram junto com os peixes, tudo estava deserto. Os livros, discos e as lembranças, tudo continuava no seu lugar, com um pouco de poeira e abandono. Olhou a porta da geladeira. A lista de dieta ainda estava lá, como aquela foto do verão. Pouco parece ter mudado, mas dentro de tudo mesmo, sabe-se que nada permanece da mesma forma.

Esta é tua história, perguntou o café um momento antes de sentir que uma gota fria e salgada caía inesperadamente dentro de si levando-o a censurá-lo, Não chore, homem. O líquido negro, não se contendo, perguntou àquele que chorava, Não aprendeste que homem não chora.

Enfim, ele ergueu o olhar para o teto, como se quisesse esconder as lágrimas. Secou-as com as palmas das mãos e voltou a fitar o café, Não me olhe assim, prosseguiu o líquido, como se quisesse pedir desculpas. A mim não fizeste mal algum, tua lágrima não me esfriou e nem alterou o meu sabor. Bem sei, aquilo que viveste não foi fácil, não foi um filme, foi fato, não foi tecnicolor, foi real. Entendo quando respiras um vazio por dentro e em seu interior pairam incertezas, perguntas sem respostas, lembranças desordenadas. Quando os fatos não se encaixam e as explicações não se explicam, tudo te parece tão complicado e contraditório. Não é. Ele concordou com muito pesar e uma dúvida, Ela parecia tão forte, tão decidida. Será que tinha certeza do que estava fazendo, E você, perguntou o café, Sabia o que estava fazendo. Ele fixou os olhos no líquido negro e sem dar importância a pergunta continuou, Ela sempre teve o gênio difícil, sempre fora assim, querendo que a razão sobrepujasse a emoção, ao sentimento. O café disse-lhe então, Você fala de razão e emoção como se falasse de água e óleo. Vamos, homem. Deixe de ser amargo, me adoce, que a razão é o café e a emoção é o açúcar. Ele, sem pensar mais, apanhou maquinalmente a colher e o açúcar, enquanto adoçava o líquido da caneca, disse mais para si mesmo do que para o café, Começo a crer que pra ela tudo foi em vão, Ou não, disse-lhe o líquido em tom de provocação. A dúvida cafecaniana o fez calar, respirar fundo e falar, Saio de casa sem um beijo, sem um conselho, sem uma recomendação para chegar cedo ou me cuidar. Sei que ao voltar, não vou ouvir um Olá, um Como vai ou um Já chegou. Tenho a certeza de que posso perder a hora, as chaves, a aliança, qualquer coisa, que ninguém dará falta. Eu posso até perder a mim mesmo que ninguém daria por falta. E o café lhe disse, Tens demasiada pena de si próprio. O homem corou e calou-se de vergonha. Do líquido negro, de repente, escapou um comentário que não se soube se era uma interrogação ou exclamação, Oxalá, um amor que deveria ter durado anos.

Porém, antes que o homem tomasse satisfação do café, uma fragrância de perfume conhecido invadiu-lhe as narinas. Ele se arrepiou, tremeu, O que foi, perguntou-lhe o líquido negro, Parece que viste um fantasma. Ele não respondeu. Veio-lhe a cabeça uma série de imagens fugazes, de sons rápidos e passados, resgatados das mais profundas reminiscências por aquele cheiro. Ele, ansioso, gelado e aflito, olhando para todos os lados, a procurá-la, buscando-a.

Uma mulher ia em direção à saída, mas não era o rosto configurado nas recordações. Era uma desconhecida, saindo sem saber que em seu olor havia algo que este homem, sentado a tomar café, não queria olvidar e que, entretanto, cortou-lhe o ar e o peito na transversal.

Nunca bebemos o mesmo café, lamentou o homem ao ver que a mulher que ia e não era. Entretanto, o café manteve-se frio e calado até ouvir daquele homem um outro lamento, desta vez em tom de indagação, Meu Deus, se realmente existes, por que me deixas assim. Neste momento, o líquido negro, sem lamento algum, também indagou, Haverá alguém a olhar por nós. O homem, sem saber a resposta, calou e tomou o último gole que restava de café.

– – –

Nota da Pedra Lascada: Conheço este conto há anos, quando canhoto era apenas um adjetivo que designava a predominância do autor, então adolescente, no uso das mãos e dos pés esquerdos. Já o critiquei pela referência explícita a certas canções, mas sinceramente me parece que algumas referências ou foram excluídas ou dissolvidas no corpo do conto que, revisitado “séculos” depois, me parece mais “clean”, mais interessante. Curiosamente, embora tenha recordado algumas falas, e reconhecido outras referências, confesso que não lembrava que era o café (representante direto da consciência – superego? – do protagonista) que falava. Dos contos de Canhoto, tenho outros que prefiro, como o próprio Inferno Riscado a Giz, e outros que exconjuro (e ele sabe muito bem o por quê), e “A Balada do Café Triste” não está entre os meus favoritos, mas tem seus encantos sustentados em um certo ar autobiográfico, meio retrô, meio revival. Aliás, por influência das leituras/ revisões dos contos de Canhoto acabei chegando a uam conclusão, que traduziu-se em aforisma (válida para este conto e para o canhoto escritor Canhoto: “Só quem conhece as leituras, não as agruras, do poeta, é que pode entender-lhe”. [M.S]

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964
.

[Thiago de Mello]

Estrelas – II

Passarei…
Restará de mim muito pouco,
pouco desses dedos, pouco desse
corpo, dessa massa acinzentada.
 
E as páginas em q’escrevo
também um dia sumirão,
as letras, os pensamentos
as lembranças sobre mim…
 
Nesse dia inexato sim
– definitivamente –
terei passado;
as estrelas não.
 
E jamais me contarão.
.
[Marcelo Siqueira]

Estrelas – I

Nunca mais contei estrelas
Nem brindei da taça hodierna
O profundo agradecimento
 .
E as vendo cintilantes
Como outrora diferentes
Um pasto azul-escuro
E um pastor prateado
 .
Conduzi minha quimera
Numa lágrima desprendida
Não por dor nem sofrimento
Mas por amor à vida.
.
                                              [MS]

O caminho

Nota da Pedra Lascada: Faz tempo que conheço o probleminha a seguir, cuja autoria e origem desconheço. Como janeiro é sempre uma época em que costumo revirar velhos papéis, encontrei-o em meio às bugigangas ordinárias. Reescrevo-o realizando algumas pequenas alterações, que não alteram a essência da questão. Quem sabe você poderia solucioná-lo… [M.S.]

– – –

Um homem, perdido, chega numa estrada que se abre em duas direções. Neste ponto, encontra uma pessoa que conta a ele que uma das estradas o levará a um vilarejo de pessoas boas e sinceras que poderão lhe ajudar a se encontrar; porém, o outro caminho o levará a uma vilarejo de pessoas muito interesseiras e mitomaníacas*, que lhe roubarão dinheiro e lhe arracarão a pele.

Essa pessoa diz que pertence a um dos vilarejos, mas não diz qual, e propõe ao homem um desafio: descobrir, com uma única pergunta, qual é a direção que o levará à sua salvação.

E então, que pergunta o homem deverá fazer para descobrir o caminho que o levará ao vilarejo das pessoas boas?

– – –

* Mitomaníacas são pessoas que mentem compulsivamente.

Fatos

Eu não li as suas poesias.
Esperei o ônibus passar
Enquanto o tempo foi se
Aproximando.

Eu não li as suas cartas.
Estão em alguma gaveta
No subconsciente...
(É como se eu nem as tivesse
recebido).

Eu não li os seus lábios,
Que, distantes, exclamavam
Qualquer coisa como “cuidado!”
Num dia cinzento como
Esse.

Eu não li o letreiro
(Em meu sonho)
Anunciando o juízo final
- O fim dos tempo da
solidão.

Eu não li...
Mas fiquei com medo da noite,
Tive receio das pessoas,
Desconfiei dos
Fatos...

[M.S]

“Tapanacara”

Nota da Pedra Lascada: Abaixo, mais um texto publicado (em 13 de março de 2010) no quase falecido Utili Dulci. 

Por Marcelo Siqueira

Num momento revival, estava remexendo numas pastas suspensas de um velho arquivo aqui de casa. Primeiro, fiquei pensando como e porque eu juntei tanto papel assim, que nem sei se teve, tem ou terá utilidade algum dia: são recortes de jornais, notícias do mundo, de economia, cultura, artigos, papéis velhos e tantas tralhas que juntas não dão um Real lá no ferro-velho; rascunhos de cartas, contos e outros gêneros literários que tive pelo menos paciência para (porcamente) começar, pouca sapiência para continuar e coragem nenhuma para dar um fim digno a elas: a queima total e absoluta, ou o afogamento dos papéis, após picotá-los todinhos, na esperança de bater uma disposição para fazer aquele processo todo da recilagem artesanal do papel – a bem da verdade, nunca tive entusiasmo suficiente para passar dessa primeira fase e, por isso, a emenda saía sempre muitíssimo pior do que o soneto – quero dizer, no final das contas me sobrava aquela massa de celulose mal-cheirosa e que eu tinha de dar um fim antes que o povo aqui de casa desse um fim em meu amado couro lombar.
 
Que não me leiam tais confissões os arautos da preservação ambiental – já os posso ver apontando seus dedos indicadores para mim e dizendo, nervosos e com certa razão: “Até tu, Brutus”?. De qualquer forma, em minha defesa tenho a dizer que tudo isso foi muito educativo, pois aprendi que não se deve tentar reciclar folhas de jornais juntamente com folhas de sulfite brancas, ainda que usadas, pois o efeito sempre será uma massa cinzenta de má qualidade cuja utilidade, quando muito, seria apenas para fazer aquelas bolas de papel molhado (verdadeiros rebocos de celulose) das quais os adolescentes, por misteriosos motivos alheios à nossa compreensão, costumam enfeitar os tetos dos banheiros (e não raramente das salas de aula!) das escolas. Sábios são os feirantes que inventaram um bom uso para os jornais usados (lidos e não lidos)!
 
Voltando às pastas suspensas… Encontrei em uma delas uns raros exemplares de um jornal – o “Tapanacara” – que fazíamos à época da faculdade, acho que a partir de 2001. Bem dizendo, não era realmente um jornal, era mais um boletim, frente e verso de folha A4, com textos de opiniões próprias a respeito de assuntos internos da Fundação Santo André e do movimento estudantil (em resumo: provocações). Este boletim tinha como lema “O jornal daquele que quer deixar de ser gabiru” – uma referência tanto ao personagem e ao livro do cartunista Edgar Vasques (“O Gênio Gabiru”), como também a nosso talvez malicioso entendimento do termo “gabiru”.
 
Não tínhamos nem ilusão nem pretensão de que o “Tapanacara” sobrevivesse por muito tempo; se meus cálculos não estão equivocados (o que costumeiramente acontece), em dois ou três anos lançamos seis edições, entre as quais algumas, por assim dizer, bastardas porque não reconhecidas plenamente – enigma este que nem nós entendemos, porque nunca foram anônimas. As edições não passavam de cem exemplares e, por incrível que pareça, se esgotavam rapidamente (de início até pensávamos que havia alguma relação com o conteúdo, mas hoje em dia desconfio que esse rápido esgotamento pudesse ter alguma associação com a crônica falta de papéis higiênicos nos banheiros da faculdade).
 
Brincadeiras à parte, o fato é que mesmo irrisória na quantidade, a primeira edição nos trouxe, na prática, alguns aprendizados que já possuíamos à luz da teoria; esses aprendizados foram explicitados no editorial da quinta edição, que dizia: “Quando lançamos a primeira edição do Tapanacara, quase apanhamos. é isso mesmo, e não se trata de metáfora. O Jornal desagradou a gregos e troianos, a deuses, semideuses e sentinelas. Isso nos trouxe algumas lições: a primeira é que pensar dói (inclusive fisicamente); a segunda é que pensar incomoda, pois, concordando com Paulo Freire, é uma ação que tem sua reação; a terceira é de que estávamos no caminho correto, uma vez que conseguimos desequilibrar ao menos subjetivamente alguns de nossos amados leitores, que, assim, não permaneceram indiferentes à leitura” (…).
 
Para não dizerem que sou viciado em um parêntesis, vou dizer: abrindo um travessão… e fazendo um paralelo com determinadas situações ocorridas atualmente na política brasileira, e por Marx ter sustentado que a história nunca se repete, e quando isso acontece é como farsa ou como tragédia, eu fico aqui na dúvida se prefiro que essa história que parece se repetir em outro contexto e em outra época seja farsa ou seja tragédia… De fato, espero que se cumpra apenas a primeira sentença dessa tese de Marx e que seja tão-somente um escrasso equívoco conceitual meu fazer esse tipo de paralelo entre situações tão díspares e estar a insinuar que é uma história que se repete.
 
Nada a ver, mas é que encontro semelhanças em tantas coisas aparentemente desiguais!… Por exemplo, na primeira edição do Tapanacara lançamos o esboço do que deveria vir a ser as “Teses do Povo Gabiru”, as quais jamais foram concluídas (para manter a tradição). Na quinta edição, dois anos depois, reafirmamos a atualidade dessas “Teses”. Agora, vejam bem, passaram-se 09 anos e continuo pensando que, em alguns círculos, algumas labaredas das “Teses do Povo Gabiru” continuam ardendo intensamente. Veja você, e depois me diga se tem algum sentido essas elocubrações todas ou se é a minha miopia que atingiu o meu córtex cerebral:
 
Teses do Povo Gabiru
 
Atributos de ser Gabiru:
 
1) Ao tornar-se Gabiru a sua única responsabilidade perante a sociedade é manter-se vivo.
2) Não se envolver com nada verdadeiramente sério [no âmbito da ação política].
3) Não assumir qualquer espécie de responsabilidade [política].
4) Negar-se veemente a qualquer reflexão ou questionamento.
5) Negar-se acima de tudo a qualquer tipo de ação e, quando agir, agir somente sob efeito de uma manipulação.
 
Vantagens de ser Gabiru:
 
1) Você não terá responsabilidade alguma [sobre as consequências das decisões tomadas].
2) Você não precisará pensar porque já tem alguém pensando por você.
3) Você não precisará agir (a menos que seja em caso de manipulação) porque já tem alguém agindo por você.
4) Você poderá confiar nos mais sórdidos canalhas e ter todas as ilusões sobre as suas boas intenções.
 
Desvantagens de ser Gabiru:
 
1) Você não terá pensamentos próprios.
2) Você será condicionado à vontade dos outros.
3) Você não irá compreender porquê a sua realidade é esta.
4) Você apenas irá reclamar como todos os outros Gabirus e não mudará nada.
 
 
***
Em tempo: li estes dias no jornal que o governador do Distrito Federal, preso acusado de corrupção e um dos protagonistas do mensalão do DEM, recebeu orações de uma senhora e ganhou livro de auto-ajuda de um senhor, ambas as ações como manifestação de apoio de quem diz acreditar que ele esteja realmente sendo vítima de um complô…
 
Ainda em tempo: essas Teses precisam ser revisadas…. Agora vou dormir que to com sono!

No Calor Urbano

*
À noite,
Quando vou à cidade
E as ruas estão descongestionadas,
Tudo parece tranqüilo:
Nada de mais acontece
– o que é breve fenece
o que é surdo amortece
o que é dor o amor esquece
o que é maldição vira prece
o que é pensar arvorece…
 
**
Então, o que era egrégio ficou pouco
O que era livre ficou louco.       .       .
        
***
E os prédios não estão mais derretendo.

A bruxa

Nota da Pedra Lascada: O continho a seguir foi escrito em 2007. Encontrei-o perdido entre alguns papéis que estavam a ponto de serem jogados fora. Fiz algumas pequenas alterações, para deixá-lo menos pior. Segue o que foi possível de ser feito – ao som de “Cabeça Dinossauro”, do Titãs. (M.S.)

–  –  –

Na noite do dia em que plantara baratas supondo que renasceriam, saí para o meio da rua e olhei em direção ao grande prédio verde-água no alto do morro – era a escola em que eu estudaria. As janelas crepitavam em brasa ardente e uma longa e estridente risada ecoou de seu interior.

Meus olhos não entendiam o que estavam vendo e a mente parecia aprisionada em um estupor. Desejei me mover de um salto só para calçada, da calçada para o quintal, do quintal para dentro de casa, de dentro de casa para debaixo do cobertor, que era o lugar mais seguro desde que eu cobrisse bem meus pés para que nenhuma assombração apertasse os meus dedos; mas, antes que eu pudesse levar a cabo o natural instinto de fuga, ela veio do céu como uma rajada de relâmpago, montada em sua vassoura de crina de cavalo e madeira de lei retorcida; deu um rodopio e seus cabelos de lava vulcânica quase tocaram o solo; o ar ao redor ficou mais seco do que a minha garganta e os meus lábios imobilizados.

Parou à minha frente, suspensa; como que montada no próprio diabo, apontou para a escola com o indicador esquerdo curvo e a destra domando as rédeas do louco animal inanimado que cheirava a amoníaco e qualquer outra substância desconhecida. Fitou meus olhos com suas pupilas totalmente esbranquiçadas, como a ler meus pensamentos, a roubar minha alma ou, ainda pior,  subtrair-me a paixão pela vida que me sairia mais cara e cujo débito jamais pagaria.

Senti o chão se abrir sob os meus pés e comecei a cair num profundo abismo de gélidas e espessas trevas. À medida que caía, a velocidade se tornava vertiginosa e o ar me golpeava duramente, como se as gotículas de chuva repentinamente principiada fossem minúsculas e afiadíssimas lâminas que retalhavam invisivelmente o meu corpo.

Girando em queda livre, percebi que ela vinha me perseguindo – não a via, mas distinguia claramente em um ponto ainda distante o brilho lânguido de suas mechas vulcânicas que transformavam em vapor as gotas de água e, assim, iam desenhando um luminoso efêmero caminho em espiral.

Em poucos instantes, senti cada vez mais perto o seu hálito selvagem, e não sei como também tinha a certeza de que mais próximo ainda estava o fim da queda.

Foi então que vi um chão de um concreto selado com piche crescendo em minha direção. Meu coração batia como se fosse romper o peito, mas os ossos o oprimiam e essa sensação fazia com que eu sentisse falta de ar.

“A hora!… A hora!” – uma voz longínqua num estranho idioma anunciava o momento derradeiro. O chão estava a segundos de minha face e unhas afiadas eram cravadas em meu ombro, que ardia a cada toque.

Tentei dar um grito, mas não consegui; no súbito instante abri os olhos e senti que Mimi Rousseau, concupiscente, acariciava meus cabelos atrás da nuca, enquanto dizia: “Oh, my little boy, you had a nightmare. It’s time to wake… It’s time to wake”…

Resíduo

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

                                 [Carlos Drummond de Andrade]