Futebol, ufanismo, velhas mazelas e resistência popular

“A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos”                                                                                                                                                                                                                      (Pablo Picasso)

O ufanista escondido em (quase) cada um de nós, que a copa da FIFA (não do Brasil, da FIFA mesmo, como o nome oficial dela escancara) aliada à toda propaganda governista parece que faz com que a visão para alguns fique (ainda mais) cega e para outros fique turva…

Não se trata  de ser contra ou a favor do futebol em si, ou opor em importância esporte à educação, como se o valor desta fosse somente possível vinculado à anulação daquele (se bem que não podemos esquecer que esporte não se resume a futebol).

O problema é que, no Brasil (mas não apenas aqui) o capitalismo – que transforma tudo e todos em mercadoria – elevou o futebol à categoria de sonho máximo de consumo e objetivo de crianças e jovens que – acreditam eles – nem precisam de escolaridade para alcançar o sucesso, a fama e a grana, mas iludidos com o fetiche dessa mercadoria, não se dão conta de que, no darwinismo social típico do capitalismo, sucesso, fama e grana são para poucos. E para que os poucos acumulem ganhos miliardários, a grande maioria dos jogadores recebem precariamente e, em campo, o “produto” de seu trabalho (se é que não poderíamos também denominar mais-valia) é expropriado pelos empresários, pelos patrocinadores, enfim, pela burguesia.

Particularmente, essa copa nem significa de fato investimento em esporte. Significa gastos milionários de verba pública que servirão à especulação imobiliária, aos grandes empresários, às empreiteiras, aos bancos.

Para a população pobre continua a política do pão e circo, os desalojamentos, a política “higienista”, o genocídio, a tortura – que se manifesta não apenas por meio da ação direta de agentes da repressão militar, que aí estão e aí continuam espancando, jogando bombas e dando cacetadas, murros e pontapés etc a torto e a direito, atirando primeiro e perguntando depois (aliás nem perguntando, como temos visto nós últimos acontecimentos de forjamento de provas para criminalizar manifestantes); tortura que se manifesta nos preços dos alimentos, nos transportes coletivos deteriorados e superlotados, no desemprego e no subemprego, na baixa qualidade da educação pública, na falta de vagas em creches e pré-escolas, nos critérios que ilegalmente municípios estabelecem para oferecer (quando tem) vaga para criança em creche, nas UPAs de lata sem médicos e sem equipamentos suficientes, na saúde pública precarizada, nas propagandas políticas que mentem descaradamente vendendo um mundo de ilusões enquanto a realidade é cada vez mais dura.

Somente mesmo os governistas e os mal-intencionados fingem acreditar que os atos contra a copa (até mesmo no movimento “não vai ter copa) visavam ou visam impedir a realização da copa da FIFA no Brasil. E eu digo “fingem” porque só acredita nesse discurso os ingênuos. E infelizmente o que há de ingênuos não cabe no gibi!

Os governistas tucanos e petistas, isto é, os da velha e os da nova direita, não são nem um pouco ingênuos, e vendem esse discurso em prol de se manterem no poder, aprofundarem o fascismo recém-saído do armário e criminalizarem os movimentos sociais e políticos que legitimamente continuam saindo às ruas e se manifestando contra essa política nefasta que cada vez mais ganha corpo; continuam saindo às ruas – e não começaram a sair agora, na copa, como alguns dizem tentando atribuir a pecha de oportunistas (???) a quem luta, enquanto estes mesmos alguns ficam em casa com ou sem suas bandeirinhas de ocasião lamentando a “corrupção” e blablabla e tititi e trololó com os velhos mimimis e jargões que já estão cheios de teia de aranha…

Os movimentos sociais e políticos continuam saindo às ruas em defesa dos direitos dos trabalhadores, da juventude, da população em geral (da qual também fazem parte os que optaram olhar o mundo pela janelinha).

Ainda que possamos discordar de algumas táticas usadas com as dos black blocs (e particularmente discordo), os movimentos sociais e políticos que resistem na luta e continuam ocupando as ruas manifestam um intenso desejo de vida e de construção.

Como afirma Madalena Freire, desejos de vida são aqueles que nos impulsionam para os conflitos, para os problemas na busca de superação, transformação, mudança.

Há quem, em defesa dessa copa da Fifa, afirme que se não houvessem gastos com esse evento, ocorreriam os mesmos gastos em coisas menos importantes, e não na educação, na saúde, no transporte coletivo, na moradia… enfim, em necessidades de primeira ordem; e afirmam também que os gastos com o evento da Fifa não tiraram recursos dessas é de outras áreas. E tudo isso pode ser bem verdade, mas é no mínimo lamentável que se aceite como fato dado e consumado que os governos gastem (ou gastariam) com coisas “menos importantes” e invistam menos em áreas prioritárias.

A questão nem é se não foram desviados recursos da educação e da saúde por exemplo (nem poderia, porque essas áreas têm formas de financiamento específicas, com verbas próprias e cuja legislação impede a aplicação para outros fins). A questão é que cada centavo, ou melhor, cada milhar gasto com a FIFA representa menos recursos investidos na solução dos históricos problemas sociais brasileiros (e não estou me referindo a paliativos programas assistencialistas).

O problema reside no conformismo dos seres humanos frente às mazelas do capitalismo, como se elas fossem inevitáveis, naturais e eternas. Justamente é esse conformismo e esse pensamento de “inevitabilidade” que colaboram para que as mazelas (desemprego, subemprego, miséria, pobreza, concentração de renda, segurança, saúde, educação e transporte público cada vez mais precários…) se perpetuem.

Seria aceitável afirmarmos que se não fossem os petistas a praticarem mensalão seriam qualquer outro que estivesse no governo, só porque o tucanato à frente dos governo estaduais e à frente do governo federal com FHC também o praticou para, entre outras coisas, aprovar a reeleição? Só porque praticam mensalinhos prefeitos de tantos municípios que conhecemos, seria aceitável que, se não fossem estes, seriam outros?…

Se você, que chegou até aqui na leitura, já jogou a toalha e considera aceitáveis  ou normais e naturais (e por isso eternas e imutáveis) as mazelas da vida (que são causadas pela exploração do homem pelo homem), lamento informar, mas você é potencialmente um perigo para si mesmo, pois (também utilizando uma expressão de Madalena Freire) alimenta psiquicamente um tenebroso desejo de morte.

Como diz Madalena Freire, “desejos de morte (…) nos empurram ao não enfrentamento das dificuldades, dos problemas, dos conflitos, deixando-os resguardados e acomodados na repetição, na mesmice da reprodução e, portanto, no não pensar reflexivo”.

Para finalizar, deixo aqui o meu protesto contra as prisões políticas que estão ocorrendo Brasil afora e, principalmente, em São Paulo. Tratam-se de tentativas de criminalização dos movimentos populares, sociais e políticos e claramente um atentado à democracia, que ocorre sob o patrocínio e silêncio conivente do governo federal.

Liberdade já para os presos políticos do governo Alckimin! Abaixo a escalada da ditadura brasileira!! Pela garantia dos direitos constitucionais!!!

 

 


Imagem em destaque

Tom Fisk em Pexels.com

A Copa como metáfora e a metáfora da Copa: pela rebelião do valor

Por Mauro Iasi.

O capital se apropria de tudo, não seria diferente no caso do futebol. O destino daquilo que é mercantilizado é ver seu ser transformado em veículo de valor de troca, forma de expressão do valor, que passa a ser primordial, relativizando seu valor de uso original.

Como coisa de valor, sua vida passa a fluir no sentido da realização do valor e no caso da produção capitalista de mercadorias, de mais valor. Quando era um valor de uso, a realização se dava na fruição, no consumo daquilo que se buscava para realizar o desejo do corpo ou do espírito. No ato de se apropriar das propriedades da coisa para saciar nossa fome ou sede, ao ouvir a melodia que nos acalma a alma ou desperta o corpo. Como mercadoria, a realização se dá no ato da troca, na transformação da coisa em equivalente geral monetário, enquanto o valor de uso subsumido fica ali, relativizado, quando não esquecido.

É por isso que a propaganda seduz para o ato da compra, sem que necessariamente o consumo corresponda ao desejo ou a necessidade. Um comercial de refrigerante transpira gotinhas de coisas geladas, paisagens refrescantes, gente feliz em dias quentes, mas a coisa em si, pode ser um xarope adocicado que vai de dar mais sede e te levar a consumir outra vez o produto… que vai te dar mais sede ainda.

No caso particular do futebol, a mercantilização ocorre não apenas pela venda do espetáculo esportivo em si mesmo, mas em várias dimensões: no “mercado de jogadores”, na venda dos direitos de imagem, como veículo de propaganda, como empreendimento milionário de empreiteiras, bancos e tantos outros. A velha arte de esfolar várias vezes o mesmo boi.

O valor de uso originário fica soterrado sob montanhas de formas mercantis que sobre ele buscam seu quinhão da valorização, muitas vezes fictícia e parasitária. É por isso que muitas vezes depois de realizada a farra do valor de troca, nossos estômagos e espíritos futebolísticos permanecem famintos e sedentos.

No entanto, age sobre a forma mercadoria a maldição do valor de uso. Isto é, mesmo relativizado e subsumido, o valor de uso é incontornável. Não é possível que haja uma mercadoria sem valor de uso – ainda que sob a luz de uma certa racionalidade esquecida ele seja uma “utilidade inútil”. Ninguém vai à padaria comprar cigarro almejando um câncer de traquéia. Mas, só quem já fumou sabe o valor de uso de uma boa baforada.

O valor de uso subsumido (mas incontornável) resiste ali onde não devia, mesmo que na subversiva sensação de ausência: na sede e fome não saciadas, na pobreza persistente no país que dizia tê-la abolida no marketing político, na desigualdade da sociedade da igualdade, na falta do sinal na sociedade do acesso total à comunicação 4G… em noventa minutos de… nada.

O futebol mercadoria e seu evento maior – a Copa – é montado para a realização do lucro das grandes corporações. Esta Copa já aconteceu e a FIFA S/A, a maior das corporações, já abocanhou seus lucros, assim como as empreiteiras, os bancos, as empresas publicitárias, os empresários que escalam jogadores no lugar de técnicos, já contabilizam seus lucros. Se vai ter jogo ou não é um detalhe.

Mas esta montanha de valor de troca tem que encontrar um valor de uso sob o qual se agarrar. Assim como a abstração do espírito precisa do corpo, o exu precisa do cavalo. Onze pessoas de cada lado e um apito do árbitro, desperta o esporte e os garotos propaganda se esquecem, ou deveriam esquecer, de seus contratos, das bugigangas que vendem, e a adrenalina comanda os corpos no busca da bola, evitar o adversários, encontrar o caminho da meta.

Cérebro, nervos, músculos… uma coisa chamada ser humano, que já foi um sonho, que já foi sacrifício, que foi entrega e dor, que quer ser conquista, emerge dali de onde foi soterrado pela mercadoria. Um ser composto, uma equipe, um time, se funde com milhares de pessoas que se desviam da bola, tencionam seu músculo antes do chute no exato instante que o jogador vai chutar a bola e em uníssono gritam, abraçam estranhos, choram…

Marx em sua monumental obra se refere a uma ciência que se chamaria “merceologia”, que teria a tarefa de listar todas as formas possíveis de mercadoria. Não sei se existe essa que descrevemos, não sei que valor de uso é esse que consiste o ser do futebol. Posso apenas falar como viciado desta substância. Ela leva um menino de seis ou sete anos a colecionar botões com times de futebol para imitar o jogo sobre uma mesa. Em estágios mais sérios de contágio, o moço passa a organizar campeonatos e a registrá-los em livros. Grita, sozinho ou com amigos, em certames disputadíssimos. Chega até a guardar os times de botão – inclusive as caixas de fósforos encapadas com fita isolante, que serviam de goleiros –, e os registros de anos de campeonato para tentar infectar seus filhos.

Quanto mais amo o futebol, mais odeio o capitalismo.

A Copa deles já ocorreu. Foi contra nós e eles venceram. Alguns desavisados ou mal intencionados festejam. Mas está em curso uma vingança, uma rebelião. Talvez várias. Uma nas ruas, onde exercemos o sagrado direito de não sermos tratados como imbecis (alguns, é verdade, se orgulham em ser imbecis e não foram às ruas – é um direito deles). Ela continua e espero que um dia possamos vencer. Mas existe outra rebelião. Neste tempo em que muita coisa anda despertando, acredito que podemos estar vendo o despertar de um velho e tão maltratado conhecido: o futebol.

Você pode até tentar produzir futebol em série, futebol fordista, ou como disse em seu maravilhoso texto, nosso querido Pasolini, o “futebol prosa”. Mas o “futebol poesia”, resiste, surpreende, desperta. Monarquias futebolísticas (e infelizmente algumas reais) eliminadas e zebras pastando alegremente.

Enquanto alguns correm para abraçar o valor de troca, a forma fetichizada e desumana, prefiro beijar a face do valor de uso que renasce. É a rebelião do valor de uso… preparem-se, pode não ser só no futebol.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

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Texto extraído do Blog da Boitempo.

O escravo da Casa Grande e o desprezo pela esquerda

Por Mauro Iasi, em http://blogdaboitempo.com.br/2014/06/16/o-escravo-da-casa-grande-e-o-desprezo-pela-esquerda/

 

Malcom X comparou, certa vez, os negros que defendiam a integração na sociedade norte americana com escravos da casa. Para defender suas pequenas posições de acomodação na ordem escravista, buscavam imitar seus senhores, copiar seus maneirismos, usar suas roupas, sua linguagem, adotando o nome da família de seus senhores. Daí o “X” no lugar do sobrenome do revolucionário norte americano.

Não é de se estranhar que os escravos da Casa Grande se incomodassem com as revoltas vindas da Senzala, pois poderiam atrapalhar sua instável acomodação, sua sobrevivência subserviente.

Dois textos recentes me chamam a atenção, não sei se produzidos pela mesma pena, mas certamente movidos pelo mesmo ódio e desprezo contra a esquerda em nosso país. Um deles é de autoria do sociólogo Emir Sader neste blog (“Não é a Copa, imbecil, são as eleições), que recentemente comparou os manifestantes a cachorros vira-lata, outro é o editorial do Brasil de Fato de 03/06/2014 (“Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo“) que, não contente em se aliar ao campo de apoio a Dilma, abriu as baterias contra a esquerda – aquela mesma que em muitas situações apoiou esse jornal, não apenas nas campanhas para sua sustentação, mas participando de seu conselho editorial e apoiando nos momentos mais difíceis.

Tanto o sociólogo como o jornal têm o direito de apoiar quem quiserem, de emitirem suas opiniões, mas o que nos chama a atenção é a necessidade de atacar a esquerda e a forma deste ataque. Como em todo o debate que busca fugir do mérito da questão (talvez pela dificuldade em realizar o debate neste campo) lança-se mão de estigmas. É preciso caracterizar os oponentes como “esquerdistas”, “minorias”, “intelectuais vacilantes da academia”, ou mais diretamente de “imbecis”.

Por vezes devemos aceitar o debate não pela qualidade dos argumentos ou a seriedade dos adversários, mas em respeito àqueles que poderiam se beneficiar do bom debate. Para isso temos que supor que o debate é sério e que há uma questão de fundo, ainda que para isso tenhamos que separar uma grossa camada de retórica que visa desqualificar o debate para não enfrentá-lo.

O argumento central da posição expressa nos textos citados, mas explícita e de forma mais clara no editorial do Brasil de Fato, poderia ser assim resumida: os governistas teriam uma “visão ampla da luta de classes”, que articularia três dimensões – a luta social, a ideológica e a institucional – atuando com “firmeza ideológica e flexibilidade tática”; enquanto os supostos esquerdistas “ignoram a correlação de forças” no Brasil e na America Latina e concentram muito mais nas criticas do que nas realizações dos governos “populares”. Isso porque subordinam suas posições, como “vacilantes intelectuais da academia” ou partidos “sem o mínimo peso eleitoral”, não a uma análise concreta de uma situação concreta, mas a uma “fidelidade” ao marxismo ortodoxo.

O resultado desta premissa, segundo a posição expressa, é o seguinte:

“Por isso, para serem condizentes com uma análise concreta de uma situação concreta, os partidos de esquerda sem o mínimo de peso eleitoral, que não conseguem enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares durante as eleições deveriam estar fortalecendo a candidatura de Dilma, mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular.

Mesmo na posição de um “vacilante intelectual do mundo acadêmico, fiel ao marxismo e de um partido sem peso eleitoral”, gostaria de iniciar o debate afirmando que nossos colegas deveriam seguir, antes de mais nada seus conselhos. Se não vejamos. O erro do “esquerdismo”, que o impediria de realizar uma análise concreta de uma situação concreta, é que “não conseguem identificar frações de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma”.

Então vamos lá. Quais são as classes e frações de classe que se somam aos governos do PT? O PT produziu-se como experiência histórica da classe trabalhadora que acabou por projetar-se numa organização política que, sem perder a referencia passiva desta classe, assumiu posturas políticas que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores. Não se trata de uma questão de origem de classe, mas do caráter de classe da proposta política apresentada em nome dos trabalhadores.

É preciso explicar aos leitores que nós (intelectuais vacilantes fieis ao marxismo) não concebemos a classe social como mera posição nas relações sociais de produção e formas de propriedade, mas como uma síntese de determinações que partindo da posição econômica, devem se somar a ação política, a consciência de classe e outros aspectos. Dessa forma, um setor da classe trabalhadora, ainda que partindo originalmente deste pertencimento, pode em sua ação política e na sua intencionalidade, afirmar outro projeto societário que não aquele que nossa experiência histórica constitui como meta – o socialismo –, sendo capturado pela hegemonia burguesa, naquilo que Gramsci chamou de “transformismo”.

No caso do PT acaba por se consolidar um projeto que tem por principal característica quebrar as reivindicações sociais do proletariado e dar a elas uma feição democrática; despir as formas puramente políticas das reivindicações da pequena burguesia e apresentá-las como socialistas, e tudo isso para exigir instituições democráticas republicanas “não como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas como meio de atenuar a sua contradição e transformá-la em harmonia.” (Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, p. 63).

Assim o PT em seu projeto (e prática) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno-burguês. Mas o PT não governa sozinho, têm razão nossos colegas. É necessário seguir nossa análise para responder quais classes e setores de classe compõem o governo Dilma. Como o centro do projeto político foi deslocado para chegar ao governo federal e lá se manter, são necessárias alianças e até mesmo o programa de reformas democrático-populares é por demais amplo (seria o que André Singer chama de “reformismo forte”), então, rebaixa-se o programa (um “reformismo fraco”) e amplia-se as alianças. Para qual direção?

Não podemos confundir a sopa de letrinhas do leque de alternativas partidárias com segmentos de classe, mas eles são um indicador das personificações desses interesses. As alianças inicialmente pensadas como um leque entorno da classe trabalhadora, setores médios e pequenos empresários, se amplia bastante agora no quadro de um Pacto Social. Vejamos:

“Um novo contrato social, em defesa das mudanças estruturais para o país, exige o apoio de amplas forças sociais que dêem suporte ao Estado-nação. As mudanças estruturais estão todas dirigidas a promover uma ampla inclusão social – portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores serão atingidos diretamente pelas políticas distributivistas e, nestas condições, não se beneficiarão do novo contrato social. Já osempresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a ampliação do mercado de consumo de massas e com a desarticulação da lógica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.”

Resoluções do 12.º Encontro Nacional (2001). Diretório Nacional do PT (São Paulo, 2001, p. 38).

Este pacto social com “empresários produtivos de qualquer porte” não deixaria de fora nem mesmo os “rentistas”, como se comprovou. A chamada governabilidade exigiria que as personificações partidárias destes interesses estivessem na sustentação do governo, de forma que o governo de “centro” (pequeno-burguês) buscou e conseguiu se aliar com siglas da direita (PMDB, PTB, PP, PSC e outras). Na composição física do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monopólios no Ministérios da Indústria, dos bancos no Banco Central, do agronegógio no Ministério da Agricultura, assim como o controle das agências reguladores e outros espaços formais e informais de definição da política governamental.

Evidente que haverá participação dos “trabalhadores”, mas há aqui uma diferença essencial. Enquanto os setores do grande capital monopolista levam suas demandas à política de governo e as efetivam, as demandas dos trabalhadores são, por assim dizer, filtradas. Enquanto a CUT defendia suas resoluções em defesa da previdência pública, um ex-presidente da entidade assume o ministério para implementar a reforma da previdência, assim como a luta pela reforma agrária é tolerada, mas filtrada e peneirada em espaços intermediários para que os militantes comprometidos não cheguem aos espaços de decisão sobre a questão fundiária e agrária, estes reservados aos representantes do agronegócio.

Podemos ver militantes e personificações de segmentos importantes da classe trabalhadora em áreas como a saúde, a assistência social e outras, no entanto, o espaço efetivo de implementação de políticas ficaria constrangida pelas áreas de planejamento e a lógica da reforma do Estado para produzir a subserviência à lei de responsabilidade fiscal e a política de superávits primárias que tanto agrada aos banqueiros.

Recentemente a presidente Dilma, através da deputada Kátia Abreu (aquela mesmo!!!) da bancada ruralista, garimpava apoio entre os diferentes setores do agronegócio (gado, soja, milho, etc.), enquanto Paulo Maluf posava sorridente ao lado do candidato do PT ao governo de São Paulo em troca de alguns minutos no tempo de TV.

O governo de pacto social com os setores da grande burguesia monopolista e a pequena burguesia que sequestrou a representação da classe trabalhadora, implica nos limites da ação de governo, isto é, impedem o “reformismo forte” e impõe um “reformismo fraco”. Para atender as exigências da acumulação de capital dos diversos segmentos da burguesia monopolista, as demandas dos trabalhadores têm que ser contingenciadas, focalizadas, gotejadas, compensatórias.

Queria-se acabar com a fome e a miséria, mas devemos nos contentar em combater as manifestações mais agudas da miséria absoluta. Queríamos uma reforma agrária (e mais que isso, não é, uma nova política agrícola e de abastecimento, etc.), mas devemos nos contentar com crédito para assentamentos competirem com o agronegócio e assistência para os que não conseguem. Não se revertem as privatizações realizadas e cresce a lógica privatista com as fundações público privadas, as OSs e outras formas diretas ou indiretas de privatização.

O problema é que, mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação. O leque de alianças da governabilidade petista não implica fidelidade dos setores do capital monopolista, adeptos do amor livre, entendem o apoio ao governo do PT como uma relação aberta. Por isso aparecem na época das eleições na forma de suas personificações como partidos de “oposição”.

Tal dinâmica produz um movimento interessante. Amor e união com a burguesia monopolista durante o governo e pau na classe trabalhadora (combinada com apassivamento via políticas focalizadas e inserção como consumidores); e briga com a burguesia e promessas de amor com os trabalhadores na época de eleição!

A abertura da Copa e a hostilização vinda da área VIP contra a presidente funciona aqui como uma metáfora perfeita: eles fazem a festa para os ricos, enchem o estádio com a elite branca e rica, esperando gratidão, mas a elite xinga a presidente.

A artimanha governista é circunscrever a propalada análise concreta de uma situação concreta à conjuntura da eleição e não do período histórico em que esta conjuntura se insere. Graças a esta mágica, desaparece o governo real entre no lugar um mito que resiste ao neoliberalismo contra as forças do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. É o odioso “neoliberalismo”, que vai retroceder nos incríveis ganhos sociais alcançados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como são piores que nosso governo, precisamos derrotá-los para evitar o retrocesso e as privatizações. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os adversários de direita… quem privatizou o Campo de Libra? Colocando exército para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das fundações público-privadas que abriu caminho para a privatização da saúde e outras? Quem aprovou a lei dos transgênicos, o código florestal e de mineração?

Não são iguais, é verdade. São duas versões distintas disputando a direção do projeto burguês no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado.

Precisamos circunscrever a análise da correlação de forças ao momento eleitoral para evitar a derrota do governo Dilma, vejam, “mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular”!

Então, comecemos por aí: o atual governo NÃO É UM ALTERNATIVA POPULAR! Já é um bom começo. Mas tenho uma péssima notícia… também não é neodesenvolvimentista, seja lá o que isso queira dizer. É um governo de pacto social que, partindo de um programa e uma concepção pequeno-burguesa, crê ser possível manter as condições para a acumulação de capitais o que leva a uma brutal concentração de renda e riqueza nas mãos de um pequeno grupo, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco e muito lentamente, apresenta a limitada intenção de diminuir a pobreza absoluta e incluir os trabalhadores na sociedade via capacidade de consumo (bolsas, salários e crédito, etc.).

Ora, o que deve fazer a esquerda “sem o mínimo de peso eleitoral, que não consegue enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares”? Dizem os governistas: votar na Dilma. No entanto, desculpe a insistência de quem faz análise concreta de situação concreta não só quando chegam as eleições e água bate na bunda; mas, e se for exatamente este processo de pacto social e de implementação de um social-liberalismo que está impedindo o “avanço da consciência de classe”? Depois de 12 anos de governos desta natureza a consciência de classe está mais avançada que estava nos anos 80 e 90? Nos parece que não.

Se somos tão insignificantes, irrelevantes e idiotas… por que é necessário bater desta forma na esquerda? Pelo simples fato que nossa existência, a existência de uma ESQUERDA (não a pecha de esquerdismo que tenta se impor contra nós como estigma), é a denuncia explícita dos limites e contradições que o governismo e seus lacaios querem jogar para debaixo do tapete.

Para manter a “imagem” do governo petista (Sader está preocupado com a imagem) é preciso uma operação perversa: atacar quem denuncia os limites desta experiência, não importando o quanto desqualificado e hipócrita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necessário destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os métodos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT é uma projeção do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem lá no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem expressão eleitoral, irresponsáveis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a crítica de esquerda a essa experiência centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que não guarda nada a não ser desprezo para com os escravos da casa grande?

As manifestações seriam, segundo os governistas, uma ofensiva da direita para sujar a imagem bela e idealizada do governo e o esquerdismo joga água neste moinho. Interessante que a necessidade de uma análise concreta de uma situação concreta, da correlação de forças e das classes não é necessária quando se trata das manifestações. MTST, garis, metroviários, professores, são todos imbecis marionetes da direita, manipulados por ela e quando pensam lutar por seus direitos e demandas estão fazendo o jogo da direita. Somos nós que fazemos o jogo da direita… tem certeza?

De nossa parte, não nos incomodamos, porque não esperamos nada mais que isso como consequência do progressivo, e triste, processo de descaracterização e rebaixamento político. Não será a primeira vez que a política pequeno-burguesa, que se diz representante de todo o povo, se alia ao trabalho sujo da direita para combater a esquerda.

Respondemos àqueles que acreditam que estamos isolados com as palavras de Lenin, com quem aprendemos a fazer análise concreta de uma situação concreta:

Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor? Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!
(Lenin, Que fazer?, São Paulo: Expressão Popular, 62).

Ensino público, gratuito e de qualidade. Bandeira da União da Juventude Socialista. Será que eles lembram?

Por Janne Hellen

Em 2007, o Senador Cristovam Buarque apresentou uma proposta ousada: Político eleito (vereador, prefeito, deputado, etc.), ou seja, agentes do Estado democrático, eleitos democraticamente pelo povo, devem matricular seus filhos (em idade escolar) em escolas públicas.

Infelizmente, o senado não parece ter levado essa proposta muito a sério. Obviamente tem lá suas razões. Um agente público conhece sim, e muito bem, a realidade atual da educação no Brasil, contanto, não faz nenhuma questão de participar efetivamente dela, se abstêm cinicamente de, no mínimo, tentar qualquer tipo de melhoria na vida diária, cotidiana de um pobre professor da rede pública de ensino e é exatamente por conhecer bem, e por receber um salário confiante, que se recusam a matricular seus filhos, futuros estudantes de universidades públicas de peso, em escolas públicas sem peso, insalubres, desestruturadas e, às vezes, nocivas. Haja vista o último acontecimento no Rio de Janeiro com o atirador Wellington Menezes.

Lamentavelmente, nós que estamos diariamente lidando com o esmagamento da “industria educacional”, muito bem lembrada por Anderson Esteves, quando cita, José Américo de Almeida, (…) “Como servo da indústria educacional, ocorre com o professor o que José Américo de Almeida descreveu ocorrer com o brejeiro sob a bagaceira que degrada o corpo e o espírito, ambos vivem com a “resignada submissão às necessidades de cada dia não (…) para ganhar a vida: (…), (mas,) apenas, para não perdê-la”, dada a parca remuneração que recebem. Tudo isso, é claro, com a anuidade e condescendência dos nossos agentes públicos eleitos pelas vias democráticas.

Quando os políticos se virem obrigados a matricular seus filhos nas boas e nas bem estruturadas escolas públicas, a qualidade do ensino poderá sofrer grandes impactos. E todos sabem das implicações decorrentes do ensino público que temos no Brasil.

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Autor: SENADOR – Cristovam Buarque

Ementa: Determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e
demais dependentes em escolas públicas até 2014.

Data de apresentação: 16/08/2007

Situação
atual: Local: 18/06/2009 – Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania

Situação:
17/04/2009 – AGUARDANDO INSTALAÇÃO DA COMISSÃO

Indexação da matéria: Indexação: FIXAÇÃO, OBRIGATORIEDADE, AGENTE PÚBLICO, OCUPANTE, CARGO ELETIVO, EXECUTIVO, LEGISLATIVO, REPÚBLICA FEDERATIVA, ESTADOS, (DF), MUNICÍPIOS, MATRÍCULA, FILHOS, DEPENDENTE, ESCOLA PÚBLICA, EDUCAÇÃO BÁSICA, ENSINO FUNDAMENTAL, ENSINO DE PRIMEIRO GRAU, DEFINIÇÃO, PRAZO MÁXIMO, APLICAÇÃO, NORMAS.

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Fontes:  http://anderesteves.wordpress.com/2010/06/

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoAssinada.aspx?pi=P2011N12048#

http://www.senado.gov.br/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166

Cala a boca, José Serra!

Nota da Pedra Lascada: texto publicado em 07 de abril de 2010, no antigo blog Utile Dulci.

Não bastasse as tagarelices do Galvão, temos também as tagarelices do Zé Alagão, que demorou a sair do armário e se assumir (formalmente) como candidato a presidente da  República; que demorou também a escolher um vice e, quando escolheu, foi forçado goela abaixo a aceitar um candidato a vice do DEM, um tal Índio da Costa, ilustre desconhecido que resumiu sua entrada nesta chapa com uma frase que vai entrar pros anais da história: “Não tenho a menor ideia de nada” (!!!).
 
Pelo visto, esta chapa vai dar muita matéria para os cronistas e os humoristas de plantão… Mas é de José Serra, entre tantas outras, a expressão que melhor representa o cinismo tucano, e que dá mostras do que podemos esperar dele, caso eleito. Esta lá na FSP, deste domingo, 04 de julho, à página C14: “[Índio] Tem uma namorada e, me disse por telefone, “não tenho amantes“. Eu até disse: também não precisa exagerar. O que tem que ser é uma coisa discreta”.
 
O premiê italiano Silvio Berlusconi é que não segue esse conselho nem que lhe paguem, porque a discrição lhe passa longe!!! Aliás – coincidência ou não -, na mesma página tem uma frase dele: “Sou simpático, rico e velho. Casar comigo pode parecer um ótimo negócio”… (“Pode”… Mas não é!)
 
Voltando ao Serra, que de simpático nada tem, essa declaração de que ter amante até pode, mas é preciso ser discreto, deve ter feito os seus colegas da Opus Dei espumar e dar saltos furiosos. Afinal, para quem tenta vender a imagem de família “doriana”, essa frase infeliz é um pouquitinho contraditória, não?
 
Agora, só queria saber, por mera especulação, o quão discreto ele é – seu padrinho político, o Farol de Alexandria, bateu recorde no quesito discrição, conseguindo a proeza de, sendo “homem público”, esconder por longos 18 anos um filho fruto de adultério (Veja: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/11/15/fhc-decide-reconhecer-filho-que-teve-fora-do-casamento-241319.asp)!!!
 
Não estou insinuando nada, mas que isso tudo não cheira bem, ninguém há de negar.(M.S.)

 

Os indiferentes

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que “viver significa tomar partido”. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

                                                                                                                        [Antonio Gramsci, in_ Lá Città Futura – extraído de http://www.marxists.org/portugues/gramsci/1917/02/11.htm]

Só pra constar…

Por Marcelo Siqueira

Ainda que seja simbólica, não é pouca coisa a vitória de uma mulher nas eleições para presidente do Brasil. Mas essa é uma análise que precisarei aprofundar, ler muito mesmo pra poder dizer alguma palavra inteligível que seja.

Todavia, sabe-se que mais do que cor ou gênero, ou origem de classe, o que conta no final das contas é o posicionamento de classe, isto é, a questão econômica, os compromissos assumidos com a manutenção ou a superação do status quo, da ordem vigente.

Pelo que vi do primeiro discurso de Dilma, em 31 de outubro, nenhuma novidade  se aproxima. Espero que não seja bem assim, embora não tenha ilusões…

É duro dizer, mas, comparando com o que poderia ser (José Serra na presidência), saímos na vantagem. Oxalá!

O machismo de José Serra

Por Cynthia Semíramis*

Já era de conhecimento público o machismo de José Serra. Em 2009, FHC descreveu Serra para a revista Piauí:

“Antes de decidir, ele ouve bastante gente, mas leva mais a sério as mulheres. Como o Serra é muito competitivo, qualquer conversa dele com um homem tende a se tornar um embate. E com as mulheres ele acha que não tem competição”.

Essa visão de superioridade masculina sobre as mulheres marca os comentários de José Serra. Ele reproduz o cânone machista que inferioriza a mulher, retira dela a autonomia e a transforma em objeto de seus interesses políticos.

José Serra flerta com jornalista quando está sendo entrevistado. E mesmo se dizendo cristão devoto, afirma que na política pode-se ter amantes, desde que seja de forma discreta.

Ele não tem pudor em usar e descartar mulheres na campanha, mesmo que sejam parentes. Colocou a esposa para atacar Dilma falando de aborto. Confrontado sobre esses ataques durante debate televisivo, optou por se calar ao invés de explicar a situação ou defender o posicionamento da esposa. Quando veio a público que Monica e José Serra haviam feito um aborto, Monica foi afastada da campanha.

Ele também usou a filha Veronica: trouxe a público a quebra de sigilo fiscal de Veronica, ocorrida em 2009, acusando o PT de ser o responsável pela quebra de sigilo. No entanto, a quebra de sigilo resultou de disputa entre tucanos mineiros e paulistas. Assim que começaram a divulgar a responsabilidade dos tucanos, e irregularidades sobre Veronica a respeito de quebra de sigilo de brasileiros se tornaram matéria de capa na Carta Capital, Veronica foi convenientemente tirada de foco.

A última pérola machista aconteceu ontem. Em Uberlândia, José Serra afirmou:

“Se você é uma menina bonita, tem que conseguir 15 votos. Pegue a lista de pretendentes e mande um e-mail. Fale que quem votar em mim tem mais chance com você”.

Com isso, ele está sugerindo que função de mulher ser cabo eleitoral, manipulando “pretendentes” (vocabulário do século XIX!), trocando atenção masculina por votos. Em resumo: agir como prostituta, não para obter dinheiro e se sustentar, mas para obter votos para ele. No Twitter, Serra foi duramente criticado e recebeu a hashtag SerraCafetao, que está tendo grande repercussão.

Atenção para o “menina bonita“, que descarta, de uma vez só, as mulheres adultas e as mulheres feias (quem define “feiúra”, se beleza não é um padrão universal?) José Serra está reforçando a misoginia e deixando evidente o contexto machista de toda a campanha eleitoral tucana: papel de mulher é ser bonita, obediente e disposta a favores sexuais em nome de um candidato.

Outros episódios serristas podem ser elencados, como a constante tentativa de desqualificar em termos machistas a candidata Dilma Rousseff.

Fica claro que, para José Serra, lugar de mulher é sob as ordens dele. Ele até ouve os conselhos (será que ouve críticas também?) das mulheres, e depois as deixa em segundo plano, retirando-as do limbo somente quando necessário para atingir fins políticos. Se não os atinge, elas são descartadas e ignoradas.

Fato: José Serra é machista. Ao expor seu machismo continuamente, acaba por perder o respeito das mulheres que têm autonomia, que não querem ser manipuladas, que se recusam a agir como prostitutas eleitorais.

* Professora Universitária. Conheça mais em http://cynthiasemiramis.org/

O Papa e o aborto

Por Leonardo Boff – teólogo e escritor

É bom que mantenhamos o espírito crítico face a esta inoportuna intervenção do Papa na política brasileira. Mas o povo mais consciente tem, neste momento, dificuldade em aceitar a autoridade moral de um Papa que durante anos ocultou o crime de pedofilia entre padres e bispos.

É importante que na intervenção do Papa na política interna do Brasil acerca do tema do aborto, tenhamos presente este fato para não sermos vítimas de hipocrisia: nos catolicíssimos países como Portugal, Espanha, Bélgica, e na Itália dos Papas já se fez a descriminalização do aborto (Cada um pode entrar no Google e constatar isso). Todos os apelos dos Papas em contra, não modificou a opinião da população quando se fez um plebiscito. Ela viu bem: não se trata apenas do aspecto moral, a ser sempre considerado (somos contra o aborto), mas deve-se atender também a seu aspecto de saúde pública.

No Brasil a cada dois dias morre uma mulher por abortos mal feitos, como foi publicado recentemente em O Globo na primeira página. Diante de tal fato devemos chamar a polícia ou chamar médico? O espírito humanitário e a compaixão nos obriga a chamar o médico até para não sermos acusados de crime de omissão de socorro.

Curiosamente, a descriminalização do aborto nestes países fez com que o número de abortos diminuísse consideravelmente. O organismo da ONU que cuida das populações demonstrou há anos que, quando as mulheres são educadas e conscientizadas, elas regulam a maternidade e o número de abortos cai enormente. Portanto, o dever do Estado e da sociedade é educar e conscientizar e não simplesmente condenar as mulheres que, sob pressões de toda ordem, praticam o aborto. É impiedade impor sofrimento a quem já sofre.

Vale lembrar que o cânon 1398 condena com a excomunhão automática quem pratica o aborto e cria as condições para que seja feito. Ora, foi sob FHC e sendo ministro da Saúde, José Serra, que foi introduzido o aborto na legislação, nas duas condições previstas em lei: em caso de estupro ou de risco de morte da mãe. Se alguém é fundamentalista e aplica este cânon, tanto Serra quanto Fernando Henrique estariam excomungados. E Serra nem poderia ter comungado em Aparecida como ostensivamente o fez. Mas pessoalmente não o faria por achar esse cânon excessivamente rigoroso.

Mas Dom José Sobrinho, arcebispo do Recife o fez. Canonista e extremamente conservador, há dois anos atrás, quando se tratou de praticar aborto numa menina de 9 anos, engravidada pelo pai e que de forma nenhuma poderia dar a luz ao feto, por não ter os órgãos todos preparados, apelou para este canon 1398 e excomungou os medicos e todos os que participaram do ato. O Brasil ficou escandalizado por tanta insensibilidade e desumanidade. O Vaticano num artigo do Osservatore Romano criticou a atitude nada pastoral deste Arcebispo.

É bom que mantenhamos o espírito crítico face a esta inoportuna intervenção do Papa na política brasileira. Mas o povo mais consciente tem, neste momento, dificuldade em aceitar a autoridade moral de um Papa que durante anos ocultou o crime de pedofilia entre padres e bispos.

Como cristãos escutaremos a voz do Papa, mas neste caso, em que uma eleição está em jogo, devemos recordar que o Estado brasileiro é laico e pluralista. Tanto o Vaticano e o Governo devem respeitar os termos do tratado que foi firmado recentemente onde se respeitam as autonomias e se enfatiza a não intervenção na política interna do pais, seja na do Vaticano seja na do Brasil.

Um abraço bem fraterno.

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Nota de Protesto da Pedra Lascada (sob o sol, sentado no alto da montanha, observando o vale adiante): “Como cristãos escutaremos a voz  do Papa”? Ah, tá… rs

FHC e a Contra-Reforma Tucana

Por Leandro Fortes*
Fernando Henrique Cardoso é hoje um velho solitário de Higienópolis, por onde zanza, esquecido, entre moradores indiferentes.  Pelas ruas do nobre bairro paulistano, FHC nem curiosidade mais desperta nos transeuntes, embora muitos deles o aceitem como mau professor da aula magna do neoliberalismo ainda ensaiada, agora em ritmo de Marcha sobre Roma, pelo candidato José Serra, herdeiro político a quem despreza. Serra escondeu Fernando Henrique ao longo de toda a campanha eleitoral para só resgatá-lo quando, desfeita qualquer possibilidade de uma vitória digna, os tucanos embicaram em direção à vala golpista do moralismo anti-aborto, do terrorismo religioso e da malandragem política que faz de demônios miúdos símbolos sagrados da cristandade.
*
FHC é ateu, embora tenha passado seus oito anos de mandato escapulindo das patrulhas religiosas, diga-se, sem muito esforço, apoiado que era pela mídia e pelas representações do grande capital. Era, por assim dizer, um santo do pau oco ostensivamente tolerado por cardeais do PFL que o controlavam, beatos interessados em dividir o pão das estatais a preço de banana ao mesmo tempo em que vendiam indulgências políticas aos cristãos-novos do PSDB, estes, alegremente ungidos pelo papa ACM I, o Herético. Não por outra razão, céu e inferno se moveram, em conluio, para esconder na Espanha o filho bastardo de Fernando Henrique com uma repórter da TV Globo enquanto durasse, na Terra, o reinado do príncipe dos sociólogos. Assim foi feito. Fiat voluntas tua.
*
Anjo caído na Praça Vilaboim, FHC não é mais sombra do que era, pelo contrário, circula entre os mortais a remoer, aqui e ali, a mágoa de ter sido esquecido pelos que tanto comeram em sua mão. Mesmo agora, que Serra, abençoado pela Padroeira e batizado nas pias da TFP, encorajou-se a falar das privatizações, o velho ex-presidente sabe que, para ele, mesmo as semelhanças se tornaram distantes. Porque se FHC se moveu para a direita pelo viés econômico, embalado pela onda mundial da globalização made USA, Serra decidiu se jogar no precipício do fascismo sem máscaras nem rede de segurança, disposto a arreganhar os dentinhos para defender os fetos que Dilma Rousseff pretende assassinar, segundo avaliação criteriosa de Mônica Allende Serra, postulante ao cargo de primeira-dama e, provavelmente, ao de inquisidora-mor do Santo Ofício tucano.
*
De alguma maneira, no entanto, nos passos solitários que dá entre a banca de jornal e a padaria da dourada comunidade onde vive, Fernando Henrique Cardoso deve ter lá seus momentos de depressão mundana, ainda que, movido pela vingança, nada faça para conter a insensatez e o ridículo de seus correligionários e velhos companheiros empenhados, no alvorecer do século XXI, a jogar a política brasileira nas trevas da Idade Média. Faria melhor, na quadra da vida em que se encontra, se barrasse, com a autoridade que lhe resta, essa cruzada insana.
*
Fernando Henrique sabe que foi graças a ele, às alianças e escolhas que fez, que o PSDB, força política nascida como anunciação de novos tempos de ética e de igualdade social, transformou-se na trombeta do apocalipse da Opus Dei, seita fundamentalista católica onde se ajoelha e reza o governador eleito de São Paulo Geraldo Alckmin.
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Não é possível não lhe vir, lá no fundo do peito, um quê de amargura ao vislumbrar o quão graúdas e salientes se tornaram as serpentes que plantou em ovos na democracia brasileira, sobretudo a mais virulenta delas, em plena e venenosa atividade, entocada no Supremo Tribunal Federal.
*
Talvez seja a hora de FHC se confessar.

*http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/10/13/fhc-e-a-contra-reforma-tucana/