Escrever não é desenhar letras nem juntar palavras.

Aluno tira zero na redação da Fuvest ao usar ‘palavras difíceis’ e processa reitor da USP“, anuncia o Globo, no último dia 27.

Segundo a banca examinadora, a redação, repleta de palavras rebuscadas e em desuso, fugiu do tema e não teve clareza argumentativa, nem indícios suficientes que “demonstrem compreensão do tema (“O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”) e desenvolvimento (…), o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual”.

Aproveito o fato como disparador de uma reflexão que considero fundamental na construção da cultura escrita e no processo de alfabetização; portanto, não pretendo aqui analisar o incompreensível texto, que não deixa dúvidas de que o aluno em questão é um leitor assíduo de dicionários e apreciador da língua (praticamente) morta. Ao final, compartilho alguns links para quem quiser se enredar no emaranhado linguístico e nas análises sobre o caso em si.

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Ampliar o vocabulário” ou “ampliar o repertório linguístico” comumente aparecem como objetivos de aprendizagem relacionados às atividades de leitura e de contação de histórias.

Na Educação Infantil, então, é um clássico que compartilha espaços nos PPP com “diferenciar letras de números”, “citar e saber grafar as letras do alfabeto”, “escrever o próprio nome convencionalmente (com ou sem ajuda da plaquinha)”.

Há anos insisto que escrever não é meramente grafar letras, juntar sílabas, palavras e compor frases. Digo mais: saber desenhar as letras, ou conhecer os nomes delas de frente para trás e de trás para frente não é condição imprescindível para a alfabetização – diria até que são secundários e inerentemente consequentes (isso quando as práticas são adequadas e significativas). Uma hora aprofundo sobre isso; ou não.

Por sua vez, ler não é soletrar letras desenhadas, nem decifrar palavras e recitar (verbal ou mentalmente) frases.

Não se trata de propor alfabetização (no sentido da decodificação) na Educação Infantil, ou melhor, não se trata de antecipar atividades próprias de etapas posteriores, mas de compreender como se constroem as aprendizagens da leitura e da escrita (isto é, a cultura escrita) desde as mais tenras idades, cujos conteúdos e estratégias específicas serão basilares para a posterior compreensão do código linguístico, de como se escreve convencionalmente e, sobretudo, de como se efetiva a função social da escrita.

Que secretarias de educação Brasil afora e município adentro insistam em avaliar estudantes por conhecimentos rasos ou conteúdos que não denotam competências escritoras ou leitoras, é só mais um capítulo no drama da Educação Brasileira, nessa novela chamada “Formação massificada de analfabetos funcionais”, que geralmente se desdobra na série “Compra de pacotes educacionais” e no filme “Contratação de empresas aplicadoras de provas” etcétera, etcétera e tal – os interesses em jogo são muitos outros…

Contudo, linguagem é comunicação, é expressão de pensamentos, de sentimentos, é construção de diálogo e de entendimentos. É a busca de sentidos!
Pode-se saber os nomes e as grafias das letras, pode-se saber formar palavras, frases, períodos e parágrafos inteiros com perfeição ortográfica e gramatical; pode-se devorar dicionários e dominar dezenas de milhares de vocábulos e, ainda assim, não ser um competente produtor ou leitor de texto.

A redação deste garoto é um exemplo vivo disso. E não há aqui nenhum chiste. Só constatação mesmo.

Aos professores que insistem em estabelecer objetivos de aprendizagem rasos, desconexos e atividades equivocadas, especialmente na Educação Infantil, há que se pedir: Parem. Só parem! Há um universo de conteúdos específicos, de práticas e de conhecimentos significativos e necessários  na primeiríssima e na primeira infância, relacionados ao desenvolvimento da linguagem, da leitura e da escrita, que são muito mais importantes para que as crianças avancem em seus conhecimentos da língua escrita e para que venham a se tornar competentes leitoras e produtoras de textos.


Para aprofundar a reflexão!


Sobre o caso do estudante que zerou a redação da Fuvest

Quando acaba o que chamamos de infância

NOTA DA PEDRA LASCADA: Em tempos neoliberais, as pressões por resultados se multiplicam, as demandas se intensificam e o trabalho se torna cada vez mais multifacetado, complexo e profundamente burocratizado, ao mesmo tempo em que as condições salariais e de trabalho se precarizam vertiginosamente. Como consequência, cresce o desalento e a sensação de que só nos resta deixar o corpo boiar e a onda do mar nos levar, até que em algum momento recuperemos energia para retomar as braçadas.

Na educação não estamos imunes a este, digamos, fenômeno sócio-econômico e, por vezes, percebemos em nós e em nossos colegas sinais de que estamos chegando num ponto em que nos perderemos, sem possibilidade de nos encontrar. Neste sentido, comenta-se, muito, da necessidade de que os educadores e as educadoras, e especialmente os professores, as professoras e os profissionais do magistério, se reencantem com suas profissões – tarefa giganteca, dado o contexto explicitado acima.

Eis que nos deparamos com reflexões como as formuladas pela professora Geovanna Gomes, em seu artigo “Quando acaba o que chamamos de infância“, e percebemos que é possível renovar o encantamento pedagógico; existem muitos caminhos a trilhar e ele passa não apenas em olhar para a frente, mas sim essencialmente recuperarmos o olhar para a infância, buscando reconciliar a infância passada e a infância presente, a criança que fomos, e que carregamos conosco, e as crianças com que lidamos… Essa é uma viagem por nós e a nós mesmos, viagem necessária para se apurar os olhares, os sentidos e a razão. Assim, convidamos você a ler o artigo, publicado originalmente no blog Somos Todos Educadores.

Boa leitura!