E por falar em cesta básica, cartão merenda, kit alimentação…

Senta que lá vem história…

Era início dos anos 80. Morava ainda em Embu das Artes e, por óbvio, a memória daqueles anos são apenas flashes de episódios recortados.

Eu devia ter uns 3, 4 anos e morava numa casa de dois cômodos com meus pais, meus irmãos, um casal de tios e seus filhos, meus primos.

Não tenho memórias dessa convivência, mas curiosamente recordo de dois episódios específicos.

Lembro que naquele tempo havia índios que andavam com adereços típicos.

Certa vez um parou no portão de casa e ficou por um longo tempo me observando brincar no quintal.

Minha mãe, quando saiu de dentro de casa para ver o que eu estava fazendo, me fez correr para dentro com medo de ter o filho caçula sequestrado por um estranho.

O homem, porém, era fotógrafo e só queria vender seus serviços, tirando fotos de crianças montadas em um pônei.

Acredito que não tenha tirado a foto, pelo menos não recordo de a ter visto. Lembro, isto sim, do pequeno pônei branco de longos pelos, do cheiro macio dos arreios e da cela de couro, e lembro do índio, que vestia uma calça clara, chinelos de couro, uma camiseta xadrez de manga longa e trazia, na cabeça, um cocar com adornos vermelhos e verdes.

Aquela figura chamava a atenção e, por isso teimei por um tempo em ir para dentro, mas minha mãe, quando não tinha muita paciência para convencimento, usava um método próprio: apelava para a espada de São Jorge (não a bíblica, a planta mesmo), e ao levantá-la mirando nossas pernas, tinha o milagroso efeito de nos convencer de imediato.

E assim foi.

Outro episódio, que diz respeito à curiosidade gastronômica e foi deste que lembrei ao rever este vídeo, foi quando minha mãe estava fazendo faxina em casa.

Era cedo ainda e eu acabara de levantar. Na casa, tudo em silêncio. Fui até o outro cômodo e minha mãe estava ajoelhada, com um pano na mão e uma lata próxima de si.

“Mãe, que você tá fazendo?”, perguntei.

E ela, sem parar o que estava fazendo: “Tô fazendo faxina, menino!”

“Mas que você tá fazendo com esse pano?”, insisti.

“Estou encerando, menino! Vai deitar e volta a dormir, vai”.

Não fui. Fiquei ao pé da porta, olhando, imóvel por um tempo.

Algo me chamou a atenção. Observei que minha mãe dobrava o pano, passava dentro da lata de ferro arredondada e em seguida passava ao chão, em movimentos circulares.

Era uma substância pastosa vermelha, cheirosa, cheirosa…

“Que é isso, mãe?”, perguntei, apontando para a lata.

Minha mãe até então estava concentrada; como que despertada bruscamente de um sono a princípio não entendeu a pergunta.

“O que é isso, o quê, menino?!”

E apontando novamente para a lata, refiz a pergunta, cuja resposta você já sabe, mas de fato eu desconhecia:

“É cera, menino!”

“Cera?…”

“É, é cera!”

“É de comer, mãe?”

“Não, menino! Não tá vendo que é de passar no chão?”

“Tô vendo, mãe, mas é de comer?”

“Não é de comer, não, menino! Me deixa trabalhar aqui!!!” – respondeu em definitivo minha mãe, com um olhar que valia mais que a zuncada de três espadas de São Jorge.

Abaixei a cabeça, virei as costas e já ia a caminho do colchão pra dormir mais um pouquinho, sentindo aquele cheirinho vindo do chão no outro cômodo, da substância pastosa e avermelhada colhida da lata de ferro arredondada, uma pasta cheirosa, cheirosa…

Voltei. Parei à porta:

“Mãe, mas é de comer?”

E minha mãe, sem dizer uma palavra, levantou com a lata de ferro na mão, foi até a cozinha, pegou uma colherzinha passou a pontinha na pasta e me deu:

“É, é de comer sim! Toma, menino, e não me enche mais a paciência!”

A espada de São Jorge devia ter acabado…

 

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