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“V de Vingança”, de James McTeigue

Ficha Técnica:
Título original: (V for Vendetta)
Lançamento: 2006 (Alemanha, EUA)
Direção: James McTeigue
Atores: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt.
Duração: 132 min
Gênero: Ficção Científica
***

Por Bruno Gawryszewski – Bacharel em Educação Física pela UFRJ e Mestrando em Educação pela UFRJ; e Gabriel Rodrigues Daumas Marques – Licenciado em Educação Física pela UFRJ e Graduando de Pedagogia pela UFRJ, no sítio http://www.telacritica.org/V.htm.

 “Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.” 

 Criada por Alan Moore (roteirista) e David Lloyd (arte) nos anos 1980, a HQ, V de Vingança (V for Vendetta, no original), chegou às telas dos cinemas em 2005, trazendo a figura do anti-herói de codinome V em sua missão de explodir o Parlamento britânico, repetindo a tentativa feita por Guy Fawkes em 1605 na “Conspiração da Pólvora”. A “Conspiração” foi orquestrada por um grupo de católicos insatisfeitos com a falta de isonomia no tratamento entre católicos e protestantes pelo então rei Jaime I. Guy Fawkes era o especialista em pólvora e fora preso estocando a pólvora sob o prédio do Parlamento, após a conspiração vazar aos ouvidos do rei. Aliás, são feitas várias referências à “Conspiração” durante o filme, como a rima supracitada, assim como o ideal de se explodir um símbolo como estratégia catalisadora para uma transformação social a partir da afirmação e revolta dos indivíduos.

Não é possível afirmar com clareza o momento temporal do filme, a não ser que se passa num futuro não muito distante assim. O contexto histórico-social é diluído no filme, ao contrário da HQ, em que se explica a ascensão ao poder do grupo fascista “Nórdica chama”, associado às corporações que restaram dos destroços da guerra nuclear que varreu os Estados Unidos, mas que atingiu a Inglaterra através da transformação criminosa dos efeitos climáticos. Aliás, a comparação da HQ e de sua adaptação às telonas é quase uma tentação para os fãs da série. Se a HQ dá a entender de que se instaurou uma ditadura empresarial-militar fascista decorrente de um golpe de estado (situação ainda muito presente no início dos anos 1980, quando foi escrita), no filme, o grupo chega ao poder através de eleições, o que já demonstra a incorporação da democracia formal pela burguesia no século XXI.

 


Destacaríamos como personagens principais V (Hugo Weaving), Evey (Natalie Portman) e Inspetor Finch (Stephen Rea). Todos esses personagens passam por transformações significativas. V é o resultado da frustrada experiência de testes comandados pela indústria farmacêutica dos membros do Partido e futuros governantes do país no campo de readaptação de Larkhill, onde eram levados os excluídos da nova sociedade, o que incluía minorias étnicas, sexuais, imigrantes e ativistas políticos. No filme, Larkhill se constitui a fonte experimental para riqueza posterior dos membros do Partido e sua ascensão ao controle do aparato do Estado. V é puro ódio contra aqueles que lhe torturaram, manipularam suas propriedades psíquicas e fisiológicas, e esse desejo de vingança, o combustível para suas ações “terroristas”, fazendo assim a sua justiça pessoal, já que a justiça legalmente constituída não pertenceria mais aos cidadãos, mas à classe dominante. A HQ nos ajuda a compreender o significado da Justiça para V. Ele diz que “Eu a admirava, apesar da distância (personificada pela estátua no alto do Old Bailey). Ainda criança, passando pela rua, eu admirava sua beleza”. Porém, naquele contexto a Justiça não passava de uma meretriz que flertava com os homens de uniforme. Quando “perguntado” pela estátua sobre quem tomou o seu lugar, ele responde que “seu nome é anarquia […] com ela, aprendi que não há sentido na justiça sem liberdade” (p.43).

Evey é uma jovem bem instruída, amante das artes, porém assustada e temerosa. Seus pais foram executados pelas forças policiais por serem ativistas políticos que protestavam contra a ascensão do grupo fascista ao poder e ainda por cima, trabalha no canal BTN, a TV estatal rigidamente comandada pelo governo. Ela é salva por V após quase ser estuprada pelos Homens-Dedo (policiais). Seu personagem passa por uma verdadeira metamorfose no decorrer da película. Se no início do filme, mostrava-se servil e obediente ao sistema (apesar da plena consciência da tirania no poder) e às normas legais, depois passa a compreender os propósitos de V, forjando assim, não uma consciência de classe, mas uma consciência de luta contra a opressão da sociedade. Outro aspecto incorporado por Evey em decorrência de sua convivência com V é a ausência de uma identidade própria. Liberta de seus medos e fraquezas, Evey consegue sobreviver na Londres caótica sem se deixar reconhecer (e talvez sem reconhecer a mesma Evey).

 

 Inspetor Finch, magistralmente interpretado por Rea, representa o fiel cumpridor de ordens do chanceler em assuntos investigativos da polícia. Também membro do Partido, ele acredita que sua missão em prol da sociedade é manter a ordem e a unidade através do trabalho na polícia. Honesto, ele leva seu trabalho a sério em seus princípios e quando as sucessivas revelações escusas sobre membros do Partido são trazidas à tona em suas investigações, começa a se questionar sobre quais interesses realmente representa.

Por conta da identificação do diferente enquanto perigoso, atitudes e discursos opressores e coercitivos transcorrem contra as minorias, como os imigrantes, os muçulmanos e os homossexuais, ao passo que nota-se a ausência de negros. Para que seja consolidada certa hegemonia, necessitamos abordar três pontos: a proliferação do elemento da fé, atrelada à união e à força; a utilização de aparelho repressivo, materializado pelos Homens-Dedo para fiscalizar e punir a desobediência até mesmo de maneira corrupta e pelo toque de recolher amarelo enquanto elemento de suposta proteção; e um farsante estado de ordem e paz trocados pelo consentimento silencioso do conjunto da sociedade.

Em tempos de Bush & Cia, observamos no filme a mesma fórmula que (costuma) justificar a ascensão dos regimes totalitários. Países em meio a uma recessão econômica, níveis elevados de criminalidade, desordem urbana ou então devastada por uma guerra civil são o prato cheio para a investida de um grupo, personificado por uma liderança, ora carismática, ora temida, mas que vem a público prometer que, em troca da perda da liberdade e direitos civis, tem-se de volta a segurança, a ordem, a paz e os valores perdidos. O resgate da família e a temência a Deus são temas recorrentes aos novos tempos. E qualquer um que venha a protestar por liberdade, será devidamente removido do convívio social. Não podemos deixar de citar a fala contida na HQ pelo Chanceler (na HQ, chamado de Líder): “Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos. A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade” (p.39).

 

 Pareceu-nos importante comentar acerca de diversos destaques ao longo do filme às mais diversas manifestações artísticas. Através de referências a filmes e peças teatrais, da observação de pinturas e esculturas, a música dos instrumentos de percussão, bem como da encenação da prisão e da tortura de Evey e da dança realizada pelos protagonistas às vésperas da ‘revolução de V’, é levantado o papel do artista, que utiliza mentiras para contar as verdades e traz à tona a subversão e as potencialidades da Arte.

Ao transmitir mensagens ratificando a previsão de que ‘a Inglaterra triunfará’ além das certezas fabricadas—já que ‘dúvidas mergulharão o país no caos’—os dominantes revelam suas verdades universais, a fim de veicular ideologicamente a transmissão do medo, entreter a população e manter coesa a estrutura social vigente. Conforme citam Engels e Marx (s/d):

“Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de idéias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as idéias do seu domínio (s/p).

 

 Apesar da instigante aliteração utilizada com a letra V em sua apresentação para Evey e da afirmação de que não importa quem ele é, mas suas ações, sua identificação parte do algarismo romano estabelecido na porta de sua cela em Larkhill, local e ocasião de onde desponta o elemento catalisador da vingança concretizada posteriormente contra a cúpula dominante e diretamente envolvida com o caso—a Voz de Londres, o bispo, a legista, o chanceler e o que a este poderia substituir.

Nossa intenção é dialogar a partir da temática central do filme e oferecer subsídios para uma análise problematizadora da realidade complexa que nos cerca, traçando paralelos e questionando o método apresentado e a percepção das relações sociais estabelecidas que são apresentadas no enredo transcorrido.

Primeiramente, apesar da história situar-se em um futuro não muito distante2, carece de uma caracterização conjuntural do modo de produção existente, ou seja, a existência da propriedade privada dos meios de produção e a liberdade de compra e venda de força de trabalho enquanto mercadoria, necessidades básicas para existência e sobrevivência do sistema capitalista. Em segundo lugar, é notória a ausência de discussões acerca da divisão social em classes antagônicas, o que limita a centralidade do filme enquanto fornecedor de elementos para uma prática revolucionária na sociedade em que nos localizamos, pois não é mencionada a organização dos trabalhadores, uma séria análise das condições objetivas e subjetivas e majoritariamente é expressa a vingança de um indivíduo para com o sistema vigente. Pela opção de nos pautarmos a partir do materialismo histórico, Engels (2004) nos propicia com clareza:

“A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca de produtos, é a base de toda ordem social; (…) a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz, e pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na idéia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata”. (p. 61)

Essa superestimação do indivíduo pode influenciar em duas matizes: diretamente, a anarquista, através de práticas individualistas, terroristas e voluntaristas; metaforicamente, a marxista, cujos materialismos histórico e dialético nos servem de instrumentos para a práxis da transformação efetiva da sociedade. De acordo com Green (1982):
O anarquismo começa sua análise (…) a partir da situação do indivíduo—desrespeitado, oprimido, massacrado pelo jugo do poder centralizado da burocracia.

Já o marxismo inicia sua análise da sociedade a partir de sua divisão em classes conflitantes, exploradores e explorados, considerando essa divisão a raiz de toda opressão e a razão pela qual nenhum homem pode ser realmente livre. (p. 19, grifos do autor)

Em diversos momentos, é enaltecida a primeira pessoa do singular—‘depois que eu destruir o Parlamento’ ou ‘durante 20 anos busquei apenas este dia’, sendo atribuídas a V caracterizações de ‘terrorista psicótico espalhando mensagens de ódio’, o que recai sobre problemas morais—e faltam conseqüências responsáveis com o processo empregado, já que inexiste uma atuação centralizada e organizada de um Partido revolucionário enquanto vanguarda de uma classe oprimida. Fica-nos obscuro e omisso o que fazer após a explosão do prédio e a morte do setor dominante, pois um Estado socialista centralizado—ou ditadura do proletariado—“é imperativo absoluto enquanto a luta entre o novo e o velho sistema não estiver resolvida de modo conclusivo em escala mundial” (idem, p. 86); além da irresponsabilidade de estimular e levar as massas às ruas sem nenhuma possibilidade de autodefesa, pois elas poderiam ter sido esmagadas pelo exército, que recua pela falta de comando.

Cabe uma metáfora de nossa parte com algumas contribuições advindas do marxismo, caso identifiquemos o indivíduo V enquanto a figura de um Partido, já que o mesmo afirma haver por trás da máscara um rosto que a ele não pertence, que sob a mesma há mais do que carne; há idéias que são à prova de balas. Como de nada valem idéias sem homens que as coloquem em ação, poderíamos extrair daí o elemento subjetivo para a transformação social, amparado pela resposta de Evey ao detetive após questionar quem era V: ‘Era Edmond Dantes, meu pai, minha mãe, meu irmão, meu amigo, eu, você, todos nós’ e que teria clandestinamente organizado a Galeria Sombria e preparado a distribuição das máscaras para a população e o trem com explosivos para derrubada do Parlamento.

Apesar da metáfora proposta, são perceptíveis os desvios de método para correlação com a revolução socialista, alguns destes advindos de teorias anarquistas. Questionado por Evey se a explosão do Parlamento faria o país melhor, a resposta é que apenas há oportunidades, não certezas; ‘o prédio é apenas um símbolo, tal como o ato de sua destruição e o poder dos símbolos emana do povo’. Porém, “lançar uma bomba em um banco, incendiar um edifício (…) não é conduzir a revolução, mas brincar com ela (…) Não dá nascimento à consciência de classe” (ibidem, p. 108). Além do apontamento de que o povo precisa de esperança mais do que de um prédio, uma outra situação importante é quando deixa a decisão de puxar a alavanca às pessoas que construirão o novo, já que ele ajudou a construir o atual mundo. Também é comentada a importância da espontaneidade das massas para o sucesso de um movimento revolucionário, ampliando a discussão, pois “(…) sem uma teoria e liderança revolucionárias, a espontaneidade das massas é insuficiente para substituir o velho por algo fundamentalmente novo”. (p. 54).

A despeito das condições objetivas e subjetivas para o marxismo, Lênin menciona que a “revolução é impossível sem uma situação revolucionária, mas nem toda situação revolucionária tende à revolução” (p.216-7), apresentando três índices concomitantes para essa situação revolucionária, a saber, a crise das cúpulas, o agravamento extremo da miséria e da angústia das classes oprimidas e a atividade independente das massas. Junto a estas mudanças objetivas, é necessária uma mudança subjetiva, ou seja, a capacidade da classe revolucionária conduzir ações revolucionárias de massas a fim de destruir completa ou parcialmente o “velho Governo, que não cairá jamais, mesmo em épocas de crises, se não for forçado a sucumbir”.

Por fim, reproduzimos o questionamento do Inspetor Finch. Às vésperas do “Grande Dia”, imerso em seus pensamentos, como se perguntasse a V e a si mesmo: “Está pronto? Nós estamos prontos?”. Ocorrerá um 5 de novembro no século XXI, com data e local tão bem marcados? Ou será uma revolução absolutamente espontânea, surgida das massas? Ou sequer haverá uma revolução? Vivamos e construamos esses caminhos!

 

REFERÊNCIAS

ENGELS, Friedrich, MARX, Karl. A ideologia alemã. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br, Acesso em: 3 nov. 2007.

ENGELS, Friedrich. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. São Paulo: José Luiz e Rosa Sundermann, 2004.

GREEN, Gilbert. Anarquismo ou Marxismo: uma opção política. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982.

LENIN, V. I. La Faillitte de la Deuxième Internationale. Oeauvres. V. XXI, p. 216-217. In: NÚCLEO DE EDUCAÇÃO POPULAR. Apostila História das Revoluções e do Pensamento Marxista, São Paulo.

MOORE, Alan. V de Vingança. Edição Especial. Barueri: Panini Comics, 2006.

Carta pessoal, mas aberta ao Prof. Jorge Paz de Mogi das Cruzes

São Bernardo do Campo, 01 de abril de 2011

“O saber que não vem da experiência, não é realmente saber”. Lev Semenovitch Vygotsky

 

Caro Amigo Prof. Jorge Paz,

No silêncio desta manhã, acordei com pensamentos sobre meu trabalho pedagógico coletivo. Normalmente, acordo assim após eles acontecerem.

Ah, certo! Eu deveria acordar com planos sobre o novo dia e não revendo o dia anterior. Mas às vezes isso acontece e eu lhe conto o porquê. Sinto-me indiferente, ausente, distante…longe do raciocínio propositor, investigador, realizador. Diria que concomitantemente aos anos que me afastam da nossa profícua militância sindical junto aos educadores do estado de SP, e lá se vão 15 anos, houve um crescente apagar das luzes dos nossos ideais revolucionários no seio da Educação. Só prá imaginar, Callegari que propôs a Escola Padrão durante o governo de Fleury no estado de SP hoje dirige a construção de um “novo” estatuto para o magistério são bernadense. Mas ainda conclui se issso é bom ou ruim. Apenas uma constatação.

Quando as luzes se apagam para dar vez a um ressurgir forte e claro de novas proposições ou mesmo realizações é bom. Na educação, a cada luz que se apaga, várias vidas intelectuais também se obscurecem e parece não voltarem mais a brilhar. Há um conformismo factual e uma inércia intelectual latente.

Durante estes quase 15 anos que nos afastam do raciocício analista-propositivo tivemos, sim, até tivemos bons momentos de uma discussão política pautada em questões de fundo para a educação e mesmo para nossas carreiras que porém não sairam dos papéis sujos pela condecêndencia de alguns dirigentes que continuam a dirigir o que não lhes pertence, já que políticos de carreira pouco tem de representatividade efetiva (compromisso) com aqueles que deveriam estar representando. Penso que há muito não participo de uma reunião em que se analise nossos reais objetivos e possíveis formas de alcançá-los a luz de uma reflexão global que parta de uma análise conjuntural mundial focando o papel na nossa Educação dentro desse conjunto global que nos dita normas e condutas.

As reuniões, para as quais somos remunerados de forma vil, ainda são pautadas para discutirmos trâmites burocráticos como entrada e saída de alunos, empréstimos e/ou uso de materiais didáticos, uso dos espaços escolares, da limpeza, do preenchimento dos registros, etc…etc… e por aí vamos. Para não ser fatalista e/ou tendenciosa, há alguns momentos de formação.

Qual o papel que a Educação brasileira representa dentro do Capital global? O que a nova geração de professores representa na manutenção do “status quo” dos governos? Qual o caminho para a Educação libertária proposta pelo Prof. Paulo Freire, a qual não foi trilhada após mais de 3 décadas da sua apresentação? O que a obra de Lev Vygotsky que ressalta o papel da escola no desenvolvimento mental das crianças e é uma das mais estudadas pela pedagogia contemporânea nos afeta diretamente para uma ação diferenciada no nosso coletivo pedagógico? Caro amigo, não conseguimos concluir sobre Lev porque nunca o estudamos de fato. Desde que a direita socialista se apoderou de Lev (Vygotsky) para seu discurso e que passamos a conhê-lo como um sócio-interacionista sem ao menos saber o que ele representou na Educação do seu país ao escrever propostas científicas na Bielo-Rússia como apoiador da revolução bolchevique de 1917, a coisa virou samba de criolo doido. Pouco sabemos de fato sobre esse jovem, filho de judeus, que em tão pouco tempo de vida (1896 – 1934) deixou ao universo pedagogês análises e propostas profundas para uma educação revolucionária, onde o objetivo máximo é a apropriação do conhecimento pelas classes mais espoliadas do capitalismo imperialista excludente, como base para o fim da exclusão social através da convivência de valores sociais. Nossa, viajei para o tempo de nossos estudos em grupo e aprofundamento de análises e conclusões.

Noto a disseminação da intelectualidade pela ineleculidade; do silêncio à discussão; da inferiorização dos temas aos que possam resultar em questionamento e interferência. Assim, amigo professor Jorge que tanto se esforçou durante todo o seu percurso profissional para que os encontros dos professores não caissem nessa armadilha do não-construir, chegamos a dizer o que não pensamos e a fazer o que não cremos. Deixamo-nos dominar pelo “quanto menos pensar, melhor” e, mesmo assim, nos sentimos cansados, desorganizados, sem boas lideranças quer construtoras de nova ordem educacional, quer ativistas. E em dado momento em que me vi questionando sobre se sou a favor ou contra a retirada de material pedagógico (jogos) de uma sala específica para a nossa sala de aula, respondi de forma a que meus pares entendessem – embora não saiba se entenderam porque se restringiram à pequenos murmúrios entre grupos – meu pensamento sobre a forma de reunião que temos produzido nas escolas:

 Estou me “lichando” para se vamos ou não retirar o material da sala de jogos para nossas classes. Estou me “lichando” para toda essa burocracia que cotidianamente ao longo de anos discutimos e registramos em atas. Estou me “lichando” prá esta educação imobilizadora e perpetuadora de classes. Que tudo voe pelos ares e renasçam as palavras de quem fala, de quem quer construir uma nova ordem, uma nova sabedoria já tão velha em papéis amarelados pelo tempo que não a realiza, a nova e libertadora Pedagogia do Oprimido é meu desejo íntimo.

Obrigada pelo que juntos estudamos, pensamos, propusemos e construímos em espaço reformador e atuante. Onde a inércia não tinha vez, onde o inusitado se transformava em base para o sólito. Sim, parecem palavras enigmáticas, mas creio no enigmático que nos fornece conteúdo imprescindível para ação reformadora.

As luzes se apagam e com ela um ciclo questionável de magistério no munícipio de São Bernardo, prá mim. AINDA sem uma conclusão mais aprofundada sobre esta década, eu posso lhe dizer, caro amigo, que em quase nada se compara às nossas vivências durante o final da década de 80 e de 90. Mas com certeza, minha próxima década longe do cotidiano por dentro da Escola Pública, muitas boas produções e boas atuações surgirão fora desse reduto conservador dos valores legalistas. Valores que não são nossos nem do nosso emérito (que palavra esquisita, deve ser da direita festiva) e estimado Prof. Paulo Freire . Mais uma vez obrigada por seus ouvidos de Mestre!

 

Abraços fraternos!

Profª Geanete L. Franco

A polêmica em torno de “No Caminho com Maiakovski”

Nota da Pedra Lascada (revisitando velhas polêmicas): O texto seguinte foi integralmente extraído do sítio http://www.jornaldepoesia.jor.br/autoria1.html, e é de autoria de Soares Feitosa. Trata-se da polêmica em torno do poema “No Caminho, com Maiakovski”, o qual muitos atribuem ao próprio poeta russo (hoje em dia não acontece tanto, mas quem o recitando não o tenha atribuído, que atire a primeira bala de goma). Confira!

Por Soares Feitosa


 No caminho com Maiakóvski, que não é de Maiakóvski, mas teria parentesco com Martin Niemöller, um pastor luterano, mas é de Eduardo Alves da Costa.

 A primeira vez que li o belo texto de Eduardo Alves da Costa foi numa gramática da língua portuguesa. Gostei. Muito! Copiei-o imediatamente no Jornal de Poesia. O que se conhece de Internet e livros didáticos é apenas um fragmento, mas tão forte, tão belo e independente que pode ser lido escoteiro como se fora um poema independente que, a rigor, é.

Eis o fragmento de Eduardo Alves da Costa:

 No caminho com Maiakóvski

“[…]

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[…]”

Prometo-lhes publicar o poema inteiro. Minha amiga Maria do Carmo Ferreira, acho que ela o tem. Agora lhes falo de um outro poema, a rigor um trecho de sermão, ou prédica, de um pastor luterano, alemão, da época do nazismo,  Martin Niemöller, ao que parece de 1933 (o poema). Encontrei, via www.google.com, os seguintes textos:

1º) Zuerst kamen sie für die Kommunisten, und ich war nicht Kommunist, und da hab ich nichts gesagt und nichts getan, und dann kamen sie für die Gewerkschaftler, und ich war kein Gewerkschaftler,und sie kamen für die Sozialdemokraten, und sie kamen für die Katholiken, und sie kamen für die Juden, und ich war keiner von denen, und dann kamen sie für mich, und da war keiner mehr, der schreien konnte. 2º) Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar.
3º) Quand ils sont venus chercher les communistes, je n’ai pas bougé : je ne suis pas communiste. Alors, ils sont venus pour les syndicalistes et je n’étais pas syndicaliste; Et ils vinrent pour les Sociaux-Démocrates, et ils vinrent pour les catholiques, et ils vinrent pour les juifs, je n’étais aucun de ceux-là; Quand ils sont venus pour moi, il n’y avait plus personne pour faire le cercueil. 4º) First they came for the Communists, and I didn’t speak up, because I wasn’t a Communist. Then they came for the Jews, and I didn’t speak up, because I wasn’t a Jew. Then they came for the Catholics, and I didn’t speak up, because I was a Protestant. Then they came for me, and by that time there was no one left to speak up for me.

 Não entendo que o belíssimo poema de Eduardo Alves da Costa seja plágio de maneira alguma. Da mesma forma que A raposa e as uvas, de La Fontaine, não é plágio de Fedro, nem este plagia a Esopo. Todos visitam o tema, inclusive eu, em Psi, a Penúltima.

Como é que diz o velho Esclesiastes? Não há nada de novo sob o Sol, coisa assim. Parece que não há mesmo. O importante, certamente, é a recriação, a re-escritura, atualizando o tema ao hic et nunc – ao aqui e agora.

Consta que Brecht também teria visitado o texto de Niemöller. Maiakóvski, não. Morto Maiakóvski em 1930, é até admissível que seja o contrário, Niemöller é que teria visitado o poeta russo. Mas, a rigor, toda a confusão com o nome de Maiakóvski, no poema de Eduardo Alves da Costa, decorreu, ao que parece, do título do poema –  No caminho com Maiakóvski, que é também o título do livro em que foi publicado. Em suma, nem o russo visitou o alemão, nem o alemão teria visitado o russo. E Brecht? Estou procurando. Quem souber, por favor! Há este fragmento que guarda um certo parentesco:

 “Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural
Diante dos acontecimentos de cada dia,
Numa época em que corre o sangue
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
A fim de que nada passe por imutável.”
 

Bastante no rumo, não?

O poeta Eduardo Alves da Costa garante que  Maiakóvski nada tem a ver com o tema, assim noticia a Folha de São Paulo, edição de 20.9.2003, na íntegra:

 “Um Maiakóvski no caminho

Foi resolvida graças à novela das oito uma confusão de 30 anos. Escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, 67, o poema “No Caminho, com Maiakóvski” era (quase) sempre creditado ao russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930).
Em “Mulheres Apaixonadas”, Helena (Christiane Torloni) leu um trecho do poema, dando o crédito correto. Foi o suficiente para reavivar a polêmica -resolvida dois capítulos depois, em que a autoria de Costa foi reafirmada- e, de quebra, fazer surgir uma proposta de reeditar o poema, para aproveitar a exposição no horário nobre.
Livro combinado, a noite de autógrafos será na novela. “Pedi que apresse e me mande até o dia 10. Quero lançar aqui”, diz Manoel Carlos, autor de “Mulheres”. Eduardo Alves da Costa falou à coluna: 

Folha – Você se arrepende de ter posto Maiakóvski no título?
Eduardo Alves da Costa –
De maneira nenhuma! Tanto que vou usar o mesmo título para o livro que sai agora.

Folha – Durante mais de 30 anos acreditaram que o poema era dele. Isso não o incomoda?
Costa –
Era uma enxurrada muito grande. Saiu em jornais com crédito para Maiakóvski. Fizeram até camisetas na época das Diretas-Já. Virou símbolo da luta contra o regime militar.

Folha – Como surgiu o engano?
Costa –
O poema saiu em jornais universitários, nos anos 70. O psicanalista Roberto Freire incluiu em um livro dele e deu crédito ao russo e me colocou como tradutor. Mas já encomendei da França a obra completa do Maiakóvski. Quando alguém me questionar, entrego os cinco volumes e mando achar o poema lá.

“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada” Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa atribuído ao russo Vladimir Maiakóvski.  

Não te rendas jamais

 

Procura acrescentar um côvado
à tua altura. Que o mundo está
à míngua de valores
e um homem de estatura justifica
a existência de um milhão de pigmeus
a navegar na rota previsível
entre a impostura e a mesquinhez
dos filisteus. Ergue-te desse oceano
que dócil se derrama sobre a areia
e busca as profundezas, o tumulto
do sangue a irromper na veia
contra os diques do cinismo
e os rochedos de torpezas
que as nações antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais, nunca te entregues,
foge das redes, expande teu destino.
E caso fiques tão só que nem mesmo um cão
venha te lamber a mão,
atira-te contra as escarpas
de tua angústia e explode
em grito, em raiva, em pranto.
Porque desse teu gesto
há de nascer o Espanto.

 [Eduardo Alves da Costa]

*http://www.jornaldepoesia.jor.br/e2alves02p.html

Carta à Sra. Secretária de Educação

Nota da pedra Lascada: A carta abaixo foi escrita por uma Professora (com P maiúsculo!) de nossa Rede de Ensino, em SBC. Recebi a missiva por e-mail, e por considerá-la de alta relevância, e pelo espírito sereno com que escreveu e pela coerência das ideias, sinto-me na obrigação de divulgá-la, para que mais profissionais possam debater e sentir-se inspirados nessa onda de debates que toma corpo em nosso município. Dito de outra forma: é possível vencer pela razão, utilizando-se da razão, sem ofensas. Acredito que suas palavras representam a preocupação da grande maioria dos educadores públicos de nosso município, e as questões levantadas carecem de soluções urgentes. Todavia, de toda a beleza desse movimento, só uma coisa me entristece: essa situação não é novidade em nossa rede, pois já acontecia em algumas escolas, porém, não recaía sobre as professoras, mas sobre os  auxiliares em educação. Foi preciso vivenciá-la para nos darmos conta da gravidade da situação. Mas isso não tira o mérito da questão, muito pelo contrário, pode nos servir para tomarmos consciência – e que essa consicência seja a possibilidade de derrubarmos os muros que eventualmente nos separam de nossos parceiros no ofício de educar. [M.S]

***

Sra. Secretária da Educação:

Escrevo esta mais como um desabafo de uma professora que faz parte desta rede de ensino a mais de 26 anos. Durante  o tempo transcorrido, tivemos muitos obstáculos nos caminhos, mas que nos levaram a grandes conquistas. Acredito que uma das maiores foi a inclusão das crianças de 0 a 3 anos no ensino básico.

Faço parte da equipe do módulo I desde 1999. Acompanhei, aliás muito de perto todas as mudanças. Em 1999, época em tínhamos como parceiros de sala de aula os monitores, ficou estabelecido que as turmas de 3 anos, não teriam direito a dois educadores ao mesmo tempo em sala de aula. Nesta época eu tinha uma turma de 3 anos. Entrava na sala de aula às 8hs, para acompanhar meus alunos que haviam chegado entre 7hs e 8hs e recebidos pelas professoras de 2 anos com seus respectivos monitores. Às 14 hs, deixava a turma com outra professora que fazia jornada suplementar de 16hs semanais, e ficava com eles até as 17hs, quando entregava as crianças para os monitores das turmas de 2 anos para aguardar a chegada dos pais.

Desde então tivemos um auxiliar em educação para cada turma, depois além de um para cada turma de 2 anos, havia mais um volante para acompanhar (se é que é possível, já que a rotina se dá ao mesmo tempo para diferentes turmas) nos momentos “críticos”, de cada turma. E finalmente, 2 auxiliares para cada turma. Um grande ganho com certeza para a educação com qualidade tão prestigiada de São Bernardo.

Se disser que fiquei triste com a nova mudança, estaria mentindo para mim mesma, já que também acompanhei todo o processo de transformação dos monitores em professores e a justa reivindicação dos auxiliares em educação, de auxiliar alguém e não de serem responsáveis por alunos sem o devido preparo para tal. Mas claro, como todos, fiquei apreensiva, porém, confiante, pois já havia passado por um momento onde o outro educador abria a porta da sala de aula para entrar e eu saia, sem que tivéssemos tempo de falar sobre nossos alunos. Hoje este tempo seria possível, uma vitória com certeza, se…

Infelizmente na prática do dia a dia não é bem assim que a coisa acontece.

Recebi os alunos sozinha, sendo que eles choram, como esperado para a época. Neste momento, confesso: não sabia o que fazer, pois não consegui elencar entre os fatos abaixo relacionados, as prioridades:
– Receber o aluno que chorava aconchegando-o em meu colo;
-dar atenção aos demais alunos presentes na sala, pois requerem minha presença e muitas vezes o meu colo;
-dar atenção para os pais que ao entregar em seus filhos aos meus cuidados, necessitavam me inteirar sobre os últimos acontecimentos, com relação a sua criança;
-recolher e guardar as mochilas dos alunos;
-receber o transportador que muitas vezes me trazia um recado dos familiares e até mesmo um medicamento, que necessita ser anotado e guardado em local apropriado, longe do alcance do alunos;
-socorrer uma criança que estivesse passando mal;
-levar os alunos que já estão deixando de usar fraldas ao banheiro;
-enfim poderia citar muitas outras situações em que sozinha é impossível atender e deixar de atender a tantas outras.

Quando chegava o auxiliar em educação era muito difícil definir a sensação que tinha, alegria, desespero, urgência em lhe passar fatos e informações, ansiedade, por um dia que se iniciou tão tumultuado e que com certeza demoraria para retomar a rotina tão importante para as crianças. Pois neste momento voltava à estaca zero e com muitas das urgências anteriores: levar crianças ao banheiro, trocar fraldas, acalentar e dar atenção merecida e necessária a todos do grupo…

Parágrafo este escrito no passado, pois hoje, na tentativa de sanar o problema temporariamente, foi permitido aos auxiliares em educação que acompanham este grupo, fazer horas extras. Temporariamente, porque a informação que temos é de que será permitido até o final de março. Com certeza, terei que escrever o parágrafo anterior no presente, pois até lá não há ilusão de que os alunos estarão totalmente adaptados e independentes, necessitando de pouquíssimo auxílio individual, que é o que poderei oferecer. Outra questão que me faço é: até quando eles vão conseguir fazer horas extras, sem prejuízo de seu bem estar físico, psicológico e emocional?

Ah, mas chega o outro professor às 10hs, quando na medida do possível os “incêndios foram apagados” (pois muitas e muitas vezes é assim que me sinto: apagando incêndios). Bom, é… conversamos com ele para contar e inteirá-lo sobre os fatos, os alunos, ou simplesmente o ignoramos e esperamos que ele se engaje na rotina? Infelizmente, geralmente é a segunda opção.
Ao menos o almoço é mais tranquilo, assim como o repouso, mas e depois que eu saio da sala? Fico me perguntando se as angústias são as mesmas, porque com certeza os acontecimentos são os mesmos.

Apenas uma situação corriqueira desta turma:

-Temos dois educadores na sala, acompanhando a turma, um sai para trocar fraldas, o outro fica com as demais crianças em um momento lúdico, ou de atividade pedagógica, vê que uma das crianças fez xixi e evacuou na roupa, já que ela não está mais usando fraldas há  uma semana. O que deve fazer esta educadora, atender a criança que necessita dela? Atender ao restante do grupo? Limpar o local, já que sair da sala para  pedir auxílio é impossível?

Me pergunto diariamente: e a qualidade ficou aonde?

Claro, sei que até o ano anterior quando eu saia da sala também ficavam apenas duas pessoas. Mas educadoras que haviam vivenciado toda a rotina juntas e que deixavam as crianças com fraldas trocadas para irem embora, com os agasalhos em local de fácil acesso e com atividades propostas onde estas pessoas poderiam, com mais tranquilidade do que hoje, encerrar a rotina do dia, em especial porque não ficava durante uma hora sozinha.

Outro fato de extrema importância que precisa ser ressaltado é o fato de que a faixa etária das crianças atendidas estendeu-se, em uma época do desenvolvimento infantil que meses fazem muita diferença. Ter na mesma sala de aula um aluno que fez 1 ano de vida em dezembro de 2010 e outro que fez 2 anos em janeiro de 2011, é de uma diferença assustadora para esta fase da vida, pois são 11 meses de diferença. Na mesma sala temos alunos que não andam, não se alimentam adequadamente com sólidos, não falam e outros que necessitam correr, pois andam com destreza, alimentam-se bem e falam com fluência. Parceiros experientes??? Um pouquinho demais para esta faixa de desenvolvimento e  uma ou duas pessoas interagindo com elas.

Muitas vezes olho para os meus alunos e penso o que diria a professora de seu neto Arthur, com 1 ano, que foi abraçado (e consequentemente derrubado, já que eles ainda não tem noção de sua força, mas querem cuidar do amigo) por um amigo de 2 anos. Será que foi falta de atenção da professora ou um momento de interação saudável entre crianças? Ou ainda porque é impossível atender a um grupo tão diverso e grande? O que diria ao ver o Arthur sentar-se sobre listas telefônicas que estão apoiadas na cadeira para que ele alcance a mesa para almoçar? Já que em um complexo escolar é impossível ter mobiliário diferente para atendimento de crianças com variação de idade entre 2 e 6 anos.
O que diria ao saber que seu neto Arthur, cortou-se com um estilhaço de um prato de vidro, por ele próprio usado ou que alguma criança “mais velha e experiente”, derrubou sem querer e o fez quebra-se?

Eu enquanto professora todos os dias faço uma oração para que os acidentes possíveis de acontecer se tornem impossíveis, pois seria muito difícil convencer os pais que estes tipos de acidentes acontecem, em especial com uma diferença tão grande de desenvolvimento e habilidades.

Enfim são tantos os desabafos, que teria que escrever inúmeros outros emails.

Não, não espero sensibilizá-la, espero apenas que retome os ganhos e os compare com as perdas para equipará-los e assim tornar novamente a educação do módulo I uma educação de qualidade.

Um forte abraço.

Professora Cleonice de Souza Mello
CMIEB Cícero Porfírio dos Santos/Gilberto Lazzuri

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

[Alphonsus de Guimaraens]

A Administração Escolar como Prática Pedagógica (3)

Não é sem razão que Frigotto, valendo-se das teses de Gorz, compreende como sinônimos classe burguesa, classe capitalista e classe dominante e inclui nelas “não apenas os donos (individuais ou associados) dos meios e instrumentos de produção, mas também todos aqueles que, embora não-proprietários, constituem o funcionário coletivo do capital, ou seja, o conjunto daqueles que gerem, representam e servem ao capital e suas exigências”. (FRIGOTTO, 2001, p. 32)
Assim como a escola, a Administração Escolar, no capitalismo, tende a assimilar as características da administração gerencial, ou seja, da administração de empresas, adotando seus princípios e métodos e reproduzindo, por conseguinte, as relações sociais – que, nunca é demais lembrar, são sempre relações de poder. Aliás, num contexto conservador,

A escola e o local de trabalho organizam-se de modo bastante análogo. Tanto um quanto o outro tende a ser grande, burocrático, impessoal, hierarquizado e rotinizado. Ambos tendem a motivar o desempenho mediante recompensas externas, como notas e salários, ao invés de confiar no valor próprio do empreendimento. Escola e local de trabalho são dominados pelos especialistas e pela autoridade formal; em ambos, existem horários que determinam o ritmo do trabalho e regulamentos que determinam sua natureza. (CARNOY & LEVIN, 1993, p. 19)

No entanto, é preciso ter em conta que

À diferença das empresas em geral, que visam à produção de um bem material tangível ou de um serviço determinado, imediatamente identificáveis e facilmente avaliáveis, a escola visa a fins de difícil identificação e mensuração, quer devido ao seu caráter, de certa forma, abstrato, quer em razão do envolvimento inevitável de juízos de valor em sua avaliação. Outra especificidade da escola diz respeito ao seu caráter de instituição prestadora de serviços, que lida diretamente com o elemento humano. (PARO, 2003, p. 126)

Apesar de os intelectuais da classe dominante (os conscientes e os não-conscientes de sua situação) propugnarem pela aplicação – em maior ou menor grau adaptada – da administração capitalista à Administração Escolar, de o senso-comum defender a excelência e supremacia da administração privada sobre a administração pública e, embora consideremos que mesmo uma Administração Escolar democrática não possa prescindir de algumas contribuições que os estudos sistemáticos na área de Administração de Empresas tem fornecido ao longo de seu processo histórico, devemos demarcar explicitamente os limites destas contribuições, para que a escola, de natureza essencialmente pública, não seja tratada como empresa e, tal como a empresa, não sofra – ou para que deixe de sofrer – do autoritarismo aí reinante, com risco de cumprir tão somente um papel de reprodução da ideologia e das relações sociais dominantes.
A competência e os conhecimentos técnicos são fundamentais para qualquer Administração, muito mais ainda para uma Administração comprometida com a classe trabalhadora, uma vez que, por comprometida com a classe a qual se vincula, responsabiliza-se efetivamente pelos resultados a serem alcançados.
Sem dúvida, os conhecimentos de natureza técnica podem facilitar a organização eficiente e o uso o mais racional e adequado possível objetivando os fins mais amplos da educação:

… o problema da apreensão de conhecimentos, hábitos e habilidades que se possam chamar de “administrativos” se coloca como um desafio tanto mais importante a ser enfrentado pela escola, quanto mais aberta e participativa for sua administração, já que, com isso, aumenta o número e a variedade de pessoas envolvidas diretamente no processo. A competência técnica não deve confundir-se, entretanto, com tecnicismo, que é a hipertrofia do aspecto técnico em detrimento dos demais, ou seja, a utilização da técnica pela técnica, sem consideração para com os fins a que ela exatamente deve servir. (PARO, 2003, p. 159)

Todavia, a Administração Escolar não pode ser tratada como uma questão meramente técnica, como querem fazer crer os teóricos da administração empresarial e do gerenciamento. A escolha das técnicas e dos procedimentos, por si só, já são decisões políticas que, no nível de uma Administração Escolar participativa e democrática, precisam ser compartilhadas coletivamente, sob pena de se manter a dicotomização entre concepção e execução, entre teoria e prática, entre aqueles que “pensam” as políticas públicas educacionais e aqueles que as executam.
Chegamos aqui ao entendimento de Administração Escolar participativa e democrática. Ao dizer “participativa” e “democrática” não estou, de modo algum, caindo em redundâncias semânticas; muito pelo contrário, a experiência escolar por mim vivenciada, seja como aluno, seja como profissional da educação, me fez compreender que, infelizmente, existem formas não-democráticas de participação, ou seja, de participação apenas no nível da formalidade e da mera presença física, sem a real intervenção dos sujeitos que nela se inserem.
Ao meu ver, em concordância com Paro, “numa administração democrática, todos os amplos setores envolvidos no processo precisam ser considerados”. (PARO, 2003, 162); isso implica responsabilidades compartilhadas e poder de decisão coletivo. Numa perspectiva de Administração Escolar democrática, o chamado “trio de gestão” – e mais especificamente o Diretor Escolar que, como responsável direto pela Administração Escolar junto aos órgãos superiores, vive uma dupla tensão entre as exigências destes órgãos e as demandas da comunidade, dos professores e funcionários da escola (Cf. PARO, 2003, p. 133) – precisa atuar de modo a tornar dinâmica e concreta a participação dos setores diretamente envolvidos na educação escolar, para que possam decidir sobre os rumos dos projetos de interesse coletivo da classe trabalhadora – interesses estes nem sempre expressos nos desejos e necessidades imediatas dos envolvidos na comunidade escolar (esta própria uma categoria marcadamente heterogênea em todos os sentidos – cultural, geográfica, ideológica, social, econômicamente etc.).
Neste sentido, uma Administração Escolar comprometida com a superação do sistema de exploração de uma classe sobre outra pode contribuir para a tomada de consciência dos trabalhadores, para que a classe trabalhadora deixe de ser classe em si, e passe a ser classe para si. (Cf. MARX & ENGELS, 2000a). Assim, a Administração Escolar adquire um caráter pedagógico estrutural. Além disso,

A administração escolar configura-se, antes do mais, em ato político, na medida em que requer sempre uma tomada de posição. A ação educativa e, conseqüentemente, apolítica educacional em qualquer das suas feições não possuem apenas uma dimensão política, mas é sempre política, já que não há conhecimento, técnica e tecnologias neutras, pois todas são expressão de formas conscientes ou não de engajamento. (DOURADO, 2003, p. 82).

Cumpre reafirmar, ainda: mesmo que oficialmente há pessoas que respondam pela Administração Escolar, esta tem, necessariamente, de ser coletiva. Isso porque

A democracia como princípio articula-se ao da igualdade ao proporcionar, a todos os integrantes do processo participativo, a condição de sujeitos expressa no seu reconhecimento como interlocutor válido. Como método, deve garantir a cada um dos participantes igual poder de intervenção e decisão, criando mecanismos que facilitem a consolidação de iguais possibilidades de opção e ação diante dos processos decisórios. (ADRIÃO & CAMARGO, 2002, p. 77)
Discutirei mais adiante algumas possibilidades para a efetivação desta participação coletiva.

Paro (2003) defende que a escola já terá cumprido seu objetivo máximo e, em grande medida revolucionário, se obtiver êxito no processo de ensino-aprendizagem, ou seja, levando os alunos a assimilarem e compreenderem os conhecimentos produzidos e acumulados historicamente; para este autor, o domínio dos conhecimentos construídos coletivamente é um importante instrumento para a emancipação humana e, consequentemente, para a superação do modo de produção capitalista. Refletindo um pouco mais profundamente, vale a pena voltar-nos a Kramer, que alerta:

Temos dito que a função da escola democrática é socializar os conhecimentos produzidos na história, pelos homens. Temos definido tais conhecimentos como científicos, sistematizando-os em textos e manuais didáticos. Mas não estará, assim, a educação sendo reduzida a uma parte do saber humano e social (o dito científico), deixando uma lacuna ao desconsiderar a cultura e a crítica da cultura? (KRAMER, 1998, p. 26)

Diante dessas considerações, torna-se fundamental que a Administração Escolar, enquanto esforço coletivo para a consecução dos fins educacionais, propicie meios para que não apenas a rotina burocrática aconteça de modo a favorecer a prática pedagógica, como também favoreça condições para a reflexão dessa prática, pois a escolha dos conteúdos não pode se dar ao acaso, mas sim diante de uma perspectiva de formação global e de superação das contradições inerentes à sociedade de classe. Deste modo, cai por terra a idéia da Administração como mera aplicação de técnicas e métodos mais ou menos padronizados, uma vez que, comprometida com a prática pedagógica, e existindo em função desta, a Administração Escolar, enquanto movimento coletivo, cumpre função formativa, ou seja, sendo ação educativa intencional reveste-se, ela própria, de caráter pedagógico. Logo, rompe-se, assim, a dicotomização prática pedagógica X administração escolar, porque a Administração Escolar, no processo de formação que é o processo da participação coletiva, torna-se prática pedagógica fundamental para as práticas dentro da escola. Além disso, no momento em que a Administração Escolar deixa de ser centralizada em um ou em um pequeno grupo de sujeitos e sim num coletivo formado pelos amplos setores da escola, há que se admitir que também a própria prática pedagógica em sala de aula passa a ter caráter administrativo.
De qualquer forma,

… a condução democrática das atividades no interior da instituição escolar, fundamentada não apenas na participação de todos os setores a ela relacionados, mas sobretudo na vigência de relações de colaboração recíproca entre os envolvidos, não é um projeto que se realize do dia para a noite (…), mas que deve ser conquistado historicamente, através da ação constante (…). (PARO, 2003, p. 165)

 

Referências bibliográficas:

ADRIÃO, Theresa; CAMARGO, Rubens Barbosa de. A Gestão Democrática na Constituição Federal de 1988. In_MINTO, César Augusto [et al.]. Gestão, Financiamento e Direito à Educação: análise da LDB e da Constituição Federal. – 2 ed. – SãoPaulo: Xamã, 2001. pp 69-78

CARNOY, Martin; LEVIN, Henry M. Escola e Trabalho no Estado Capitalista. – 2 ed. – São Paulo: Cortez, 1993

DOURADO, Luiz Fernandes. A Escolha de Dirigentes Escolares: políticas e gestão da educação no Brasil. In_FERREIRA, Naura S. Carapeto (org.). Gestão Democrática da Educação: atuais tendências, novos desafios. – 4 ed. – São Paulo: Cortez, 2003. pp 77-96

FRIGOTTO, Gaudêncio. A Produtividade da Escola Improdutiva: um (re) exame das relaçõs entre educação e estrutura econômico-social e capitalista. – 6 ed. – São Paulo: Cortez, 2001

KRAMER, Sônia. Por Entre as Pedras: arma e sonho na escola. – 3 ed. – São Paulo: Ática, 1998

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. In_MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. – São Paulo: Alfa-Ômega, 2000a. pp 13-47

PARO, Vitor Henrique. Administração Escolar: introdução crítica. – 12 ed. – São Paulo: Cortez, 2003

E-mails que não (sei se) merecem atenção…

Mas que me deixam num estado nauseabundo daqueles!

Todos os dias recebemos uma quantidade de e-mails indesejados, que vão desde propagandas enganosas, spams, correntes que prometem a cura espiritual, a felicidade infinita ou notebooks de graça (bastando em ambos os casos reencaminhar os benditos para o maior número de contatos possíveis  e impossíveis), pragas e voodoos – igualmente bastando ignorar as correntes, deletar os malditos, não reencaminhar para os contatos – nesse caso, seus dedos vão apodrecer, os olhos vão murchar, você não conseguirá mais fazer “coisinhas”  pelo resto da vida, ou pelo menos até quando, anos depois, ou no próximo mês,  ou na próxima semana (o que é bem mais provável) você tiver a oportunidade de se redimir ao receber novamente aquela mesma corrente e desta vez fazer a coisa certa: reencaminhá-la para o maior número possível e impossível de seus contatos e dos contatos dos seus contatos.

Isso sem contar aqueles carregados de vírus, que tentam com toda sorte de argumentos te seduzir a abrir o link, que te conduzirá ao paraiso (quer dizer, vai conduzir seu pc ao paraíso e os seus dados diretamente para os HDs de gente de conduta duvidosa!): são e-mails que te prometem as fotos daquela balada que diz que você curtiu à beça, mas que você tem uma leve impressão que não era você, porque não lembra de curtir uma domingueira há uns trezentos anos, no mínimo. Ou então aqueles que te prometem o link premiado: “clique aqui e realize o sonho da casa própria”, “você foi escolhido como o profissional do ano” (e nesse caso você acha estranho ser escolhido como profissional do ano, porque não sabe o que é registro em carteira desde o Plano Collor), ou “seu nome foi sorteado para concorrer a um prêmio maravilhoso pela Revista ‘Readers Digest Selection’ (se é que se escreve assim, mas você sabe bem o que é isso, porque já deve ter recebido um e-mail ordinariozinho desse tipo): clique no desenho da chave e receba seu carro em casa”!

Enfim, são uma infinidade de correntes, propagandas e protestos de todo tipo que ninguém mais tem certeza se aquela pessoa desaparecida na foto desapareceu mesmo ou armaram uma pegadinha pra ela. E olha que já recebi e-mail sobre pessoas realmente desaparecidas! Mas desconfio que ainda receberei um e-mail com a minha foto, com um apelo do tipo: “Ajude a procurar Marcelo. Pai de cinco filhos, esposo dedicado, teve uma crise de depressão depois de assistir Brasil Urgente com o Datena e o Jornal da Band com o Boris Casoy. Seja solidário e repasse este e-mail aos seus contatos. Se você já viu essa pessoa, ou tem notícias de seu paradeiro, disque “0300XX60706070denovo” (valor de uma ligação de celular para Curitiba + impostos)”.

Depois de tantas rabujentices minhas, sinto uma nuvenzinha cinzenta pairar sobre sua cabeça, como que perguntando: “Se é tanto sofrimento assim, porque simplesmente não deleta sem abrir, ou bloqueia esses tipos de e-mails?”. E eu respondo: Porque simplesmente acho interessante conhecer o que as pessoas pensam – mesmo que eventualmente eu possa discordar de uma ou outra opinião. Afinal, ninguém aprenderia que o doce é doce se comesse somente coisas açucaradas, nem o que é salgado se comesse somente… ah, você entendeu! Aprendemos mesmo é com as diferenças, apesar de que a gente não precisa passar por certas experiências para saber se são boas ou ruins… De qualquer forma, acho que uma das maravilhas da internet é as pessoas poderem comunicar umas às outras o que pensam, sentem, desejam, acreditam… Além disso, eu também tenho minha parte nessa história toda, porque o que eu encaminho de mensagens que muita gente não quer nem da missa saber o terço, olha… não está escrito no gibi!

Não são as correntes de bençãos ou de maldições (que no fim das contas são as mesmas coisas, porque se você não reencaminhá-las vai direto pro inferno, ou lhe nascerão brotoejas nas nádegas), ou de pessoas supostamente desaparecidas, ou de prêmios inimagináveis etc e tal que me estremilicam. Não, essas eu até curto – porque se alguém manda um anjinho te desejando um bom dia, ou te fazendo uma oração, ou te prometendo o reino da felicidade a uns cliques no Power Point, que bom! Mal não fará desejar o bem para outras pessoas, mesmo quando não as conhecemos. Mensagens deste tipo podem não fazer muito a minha cabeça, nem levantar meu astral, mas também com toda certeza não me colocam pra baixo.

O que me deixa trelelê mesmo, de verdade, a ponto de às vezes (somente às vezes, e por um pequeno milésimo de tempo) duvidar da humanidade do ser humano, são aquelas mensagens que jogam inteiramente no desgraçado a culpa por suas desgraças (a palavra é forte, mas não tem outra mais precisa, porém, se quiser amenizar pode substituir por: “jogam inteiramente nos miseráveis a culpa por suas misérias”, ou melhor, por nossas misérias); mensagens com queixas até justas, sabe, mas carregadas de preconceitos de toda ordem e desordem, principalmente preconceitos de classe, raça e gênero.

Hoje mesmo recebi uma delas, que aqui vai transcrita não como manifestação de apoio, mas como expressão de indignação com tamanha falta de sensibilidade, com tamanha carência de reflexão, com tamanha desumanização, com tamanho desrespeito ao nosso lindo ofício de mestres, que é o exercício do magistério, e sob o sarcástico título “Mensagem criativa de uma escola”. Veja:  “Esta é a mensagem que os professores de uma escola da Califórnia decidiram gravar na secretária eletrônica: A escola cobra responsabilidade dos alunos e dos pais perante as faltas e trabalhos de casa e, por isso, ela e os professores estão sendo processados por pais que querem que seus filhos sejam aprovados mesmo com muitas faltas e sem fazer os trabalhos escolares. Eis a mensagem gravada: – Olá! Para que possamos ajudá-lo, por favor, ouça todas as opções: – Para mentir sobre o motivo das faltas do seu filho – tecle 1. – Para dar uma desculpa por seu filho não ter feito o trabalho de casa – tecle 2. – Para se queixar sobre o que nós fazemos – tecle 3. -Para insultar os professores – tecle 4. – Para saber por que não foi informado sobre o que consta no boletim do seu filho ou em diversos documentos que lhe enviamos – tecle 5. – Se quiser que criemos o seu filho – tecle 6. – Se quiser agarrar, esbofetear ou agredir alguém – tecle 7. – Para pedir um professor novo pela terceira vez este ano – tecle 8. – Para se queixar do transporte escolar – tecle 9. – Para se queixar da alimentação fornecida pela escola – tecle 0. – Mas se você já compreendeu que este é um mundo real e que seu filho deve ser responsabilizado pelo próprio comportamento, pelo seu trabalho na aula, pelas tarefas de casa, e que a culpa da falta de esforço do seu filho não é culpa do professor, desligue e tenha um bom dia!”

Me abstenho desta vez, e somente desta vez, de análises sociológicas, filosóficas ou mesmo educacionais (porque obviamente este texto diz mais do que está escrito: diz o que pensa quem o escreveu, ou o apóia, a respeito da função social da escola, do que é ser professor, do que é educação, do que é ser gente… … … … …). Basta, por ora, o meu estômago revirando, nauseabundo, porém só um pouco nauseabundo, porque tenho certeza de que este texto não representa o pensamento predominante dos mestres do ofício da arte de ensinar, para usar da expressão empregada pelo Miguel Arroyo.

Na verdade, sinto que este texto representa feridas que não cicatrizaram, não cicatrizam e continuam doendo intensamente, porque não as compreendemos, e não as compreendendo encontramos no outro o alienígena, isto é, o “outro estranhado”, não identificado como complementar, mas como oposto, malígno, canceroso, o culpado pelas mazelas que sofremos, quando não se trata nem de culpa, mas de responsabilidade, responsabilidade que, se formos bem sinceros conosco, mesmo no íntimo de nossos pensamentos mais secretos (aqueles que evitamos dizer a nós mesmos), acabaremos por concluir que também nós temos uma parte que nos cabe nesta cova rasa, ou profunda, de um latifúndio que recusamos reconhecer como sendo direito do outro também, pra lembrar o Chico…  

Por fim, apenas sugeriria uma outra tecla, como opção para a “criativa” secretária eletrônica desta suposta escola: “Se quiser mandar esta meeeeeeeeerrrrrrrrrrda de escola para o espaço, de onde nunca deveria ter saído -tecle estrela”. [M.S]

P.s: Califórnia é governada por quem mesmo? Ah, sim: pelo exterminador do futuro! Tá explicado!!!