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É preciso não esquecer nada

cecília meirelles É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

                                                       [Cecília Meireles]

Nosso Tempo

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

[Carlos Drummond de Andrade]

***

Não deixa de ser irônico constatar que esse pema é tão atual…

Em São Paulo, militância LGBT vai às ruas pedir aprovação de lei que torna crime a homofobia

Por Rodrigo Cruz, da Revista Caros Amigos.

Paiinel da MarchaDiversidade. Uma característica da qual o Brasil se orgulha, mas que na prática, ainda não é respeitada, e, sobretudo, garantida, pelo chamado Estado de direito. Estamos falando de um País que possui mais de 200 paradas gays, entre elas a maior do mundo (São Paulo), é sede da maior associação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais (LGBT) da América Latina (a ABGLT), mas que, contraditoriamente, jamais aprovou em sua esfera legislativa uma única medida a favor de sua população homossexual. O pior de tudo: o Brasil é o país líder em assassinatos de homossexuais no mundo – em média um a cada dois dias, segundo dados da ONG Grupo Gay da Bahia (GGB).

Para se ter uma idéia, em 2009, foram 198 assassinatos documentados. Em 2010, foram mais de 250 assassinatos. Ainda segundo o GGB, proporção de vítimas geralmente é de 70% de gays, 27% de travestis e 3% de lésbicas. Os números, porém, podem ser maiores do que se imagina. Devido à total ausência de estatísticas oficiais sobre crimes de ódio contra lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais, a falta de recursos da polícia para identificar casos deste tipo e certo receio por parte das testemunhas em denunciar situações de violência, o cálculo ainda está longe de ser exato.

O Grupo Gay da Bahia realiza o levantamento há 30 anos, baseado em casos divulgados pela imprensa nacional e regional. Já exigiu inúmeras vezes que o Ministério da Justiça e as Secretarias Estaduais de Direitos Humanos assumam o compromisso de coletar os dados. Nunca obteve sucesso.

É com o intuito de pressionar o poder público para a aprovação do Projeto de Lei 122/2006 (que torna crime atos homofóbicos), sensibilizar a sociedade para a questão do preconceito contra as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero e principalmente, pedir o fim da violência homofóbica, que militantes da causa LGBT, mobilizados a partir de uma comunidade virtual no Facebook, irão marchar no próximo dia 19, da Praça do Ciclista, rumo a Av. Paulista nº 777, em São Paulo. O local ficou conhecido depois que, em novembro do ano passado, quatro jovens de classe média atingiram um rapaz com uma lâmpada fluorescente na cabeça. O motivo? Acreditavam que a vítima era homossexual.

O episódio, no entanto, representa apenas a ponta de uma enorme teia de violência (muitas outras agressões ocorreram posteriormente em São Paulo, inclusive de homens contra mulheres homossexuais). Causa revolta que alguém seja agredido por ser homossexual em plena Av. Paulista, conhecida justamente por receber a maior parada gay do mundo, mas a homofobia é ainda pior nas capitais mais distantes do eixo sul-sudeste, no interior do país, nas pequenas cidades aonde a imprensa não chega e aonde o preconceito sequer é questionado.

Tal qual o machismo, a homofobia está presente no cotidiano dos brasileiros, e se engana quem pensa que ela atinge somente os homossexuais. Se você é heterossexual, mas simplesmente não se enquadra nos ditos padrões de comportamento do homem (ou da mulher) “tradicional”, então provavelmente você já foi, ou será, vítima de homofobia. Trata-se, sobretudo, de um preconceito de gênero.

É por isso que, além de exigir a aprovação do PLC 122, instrumento jurídico capaz de garantir a integridade física e moral de lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais, é preciso informar e conscientizar a sociedade. Para a marcha do dia 19, os organizadores preparam panfletos que explicam os reais objetivos do projeto de lei e desmistificam a idéia, amplamente difundida por setores fundamentalistas, de que o projeto impede a liberdade de expressão e culto das igrejas, já que para elas, a homossexualidade é considerada um pecado. O argumento, que pode ser contestado por qualquer um que tenha acesso ao texto integral do PLC, tem sido utilizado insistentemente pela bancada evangélica do Senado para barrar sua aprovação. Enquanto isso, milhares morrem em segredo.

O assunto também tomou conta do segundo turno das eleições presidenciais do ano passado, quando os candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) utilizaram o debate fundamentalista para ganhar parte do eleitorado evangélico, órfão da então candidata Marina Silva (PV) derrotada no primeiro turno. Dilma e Serra tiveram reuniões a portas fechadas com lideranças religiosas e a atual Presidente da República chegou a redigir uma carta a estes setores esclarecendo suas opiniões sobre o aborto e a PLC 122. Na época, a ABGLT lançou um manifesto direcionado aos candidatos, pedindo a manutenção de um debate livre de concepções religiosas.

Unidos contra a homofobia

Logo após os ataques na Av. Paulista, o militantes LGBT organizaram uma série de manifestações, que culminaram na criação de uma Frente Paulista Contra a Homofobia, que reúne grupos LGBT, ONG’s, representantes da sociedade civil, de outros movimentos pelos direitos humanos e também de órgãos públicos, com o intuito de enfrentar a crescente onda de homofobia no Estado. Além de apoiar a marcha do dia 19, a Frente pretende criar um observatório capaz de mapear a violência contra a população LGBT em São Paulo.

Rodrigo Cruz é jornalista e integrante do Coletivo LGBT 28 de Junho

 

SERVIÇO:

Marcha Contra a Homofobia

Data: 19 de fevereiro de 2011

Local: Praça do Ciclista, Av. Paulista esquina com a Av. da Consolação

Horário: Concentração às 15h

Itinerário: O grupo sai em marcha da Praça do Ciclista e segue em direção ao edifício 777 da Av. Paulista

Cidade Prevista

Drummond estilizadoGuardei-me para a epopéia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto do Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na vila oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casa sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
mas ele será um dia
o país de todo homem.

Carlos Drummond de Andrade
(extraído de “A Rosa do Povo” – 1943/1945)

À maneira de dizer

revolução francesa Falávamos da fome, da nossa fome, da nossa vontade de viver e ultrapassar limites, nos transpor e sobrepor tudo o que pensávamos ser, tudo o que odiávamos em nós; sim, porque nos odiávamos mais do que ao mundo. Nos fazíamos mal mais do que aos outros. E apenas nos alimentávamos de uma esperança ilusória (irrisória), uma ânsia de um porvir jamais realizado.

Quando amaldiçoávamos os acontecimentos que escapavam de nossas mãos, amaldiçoávamos, na verdade e sem saber, a nossa própria condição e insuficiência diante de tudo, a nossa incompreensão dos fatos, mas nunca a arrogância com que tentávamos seduzir e conquistar atenções, ou nossa pretensão ao nos considerar imprescindíveis à luta – ou ao que considerávamos luta.

O mundo agora não é o mesmo porque mudamos a cara e o endereço; insistimos em usar os trajes de combate, porém alteramos as estratégias: tomamos fôlego antes de gritar ou correr, nos preocupamos com as sobras que temos a perder.

Em que nos tornamos, afinal?

Os amigos… Cada qual foi para um canto e às vezes ouvimos vozes de um passado recente, ou menos recente.

Em que pensávamos quando projetávamos nosso corpo à frente de batalhas quixotescas?

Guardamos as impressões do que éramos e cultivamos imagens que nunca foram as nossas, mas não guardamos o que pensamos nem verdadeiramente o que sentimos.

Éramos o que poderíamos ser, somente. Chovia ou fazia sol estávamos lá, ou não estávamos. De qualquer maneira, não éramos coisas, nem objetos de uma análise distorcida por uma mente alienada. Não servíamos a ninguém a não ser as nossas ansiedades. Ou fugíamos dela tentando parecer úteis, cada um com seu motivo ou escape – jamais teremos certeza, nem de nós mesmos.

Primeiro, aprendemos a dissimular a dor e a alegria; depois, fragorosamente derrotados, aprendemos a dissimular as palavras, contorcê-las para desfigurar as intenções mais recônditas abrigadas em um labirinto indevassável.

Jamais fomos o que éramos. Estes que não somos, somos nós.

[M.S., 29 de novembro de 2007]

Testemunho da Morte de Marcelo Siqueira

“Herberto Helder escreveu um livro para me avisar que Marcelo morreu aos vinte e nove anos – desta vez e só desta vez – Não chorei Só lamentei ele ter morrido antes de ter lido e vivido a Idade da Razão” (…)[CENSURADO] (extraído de Vinicius Canhoto – Cadáver Esquisito

Não o interroguem em sua cama de madeira em seu confortável ou não ataúde de um metro e sessenta e cinco por dois palmos de largura que será descido a sete palmos da superfície e sobre o solo serão acrescidas algumas violetas e por que não uma orquídea rara ou comum de qualquer cor escolhida aleatoriamente conforme a disponibilidade do mercado e a disponibilidade do bolso Não indaguem ao corpo a inútil questão que permanecerá agora e para sempre e até na hora de nossa morte amém impassivelmente sem resposta Não supliquem aos céus qualquer alívio para a profunda dor nem roguem lenitivos artificiais laboratoriais medicinais ou mesmo ilegais Não o aguardem em sonho pois o profeta foi soterrado com a crise da idade prematuramente avançada seu vício e sua linguagem o corromperam até os ossos e pouco deixou ao verme que primeiro corroeu as entranhas do velho bruxo

Há qualquer coisa de sereno em seu rosto eu vejo não não há a serenidade está estampada sim mas no olhar de quem a atribui à matéria sem vida que um dia foi esse que a morte o apossou antes mesmo que a súbita passagem e o último suspiro Eu o vi há poucos dias fone nos ouvidos chamei-o mas ele não pode escutar atravessou a avenida e em seu semblante não se notava nenhum vestígio da fatalidade apenas a seriedade ou a dissimulação inexplicável que a vida lhe imprimiu Não espere de mim um sorriso a todo instante escutei de seus lábios recitando uma poeta andreense como se fosse ela mesma silabando em seus ouvidos entonação por entonação quando então ele completou não sei de dele mesmo que a proximidade da morte amplia o sentido da vida Todavia não perguntem a inevitável pergunta que assombra os mortos de sobrecasaca os mortos de drummond e o próprio drummond antes que pudessem se fazer tais porque após as palavras cessaram em sua boca quanto mais as razões

Não peçam ao seu biógrafo particular e não autorizado explicações quando insistente e irritantemente proferir sua sentença maior e prestidigitadora marcelo morreu todos choraram menos eu porque todos os crimes deixam de existir no exato instante póstumo em que são cometidos permanecendo apenas seus efeitos suas causas perdem o motivo de ser tão logo se executem Eu o vi em suas duas em suas quatro horas diárias rascunhando cartas que jamais seriam digitadas lendo os mesmos livros com a impaciência de quem resolve passatempos com a impaciência de quem aguarda o tempo passar com a impaciência de quem pragueja contra o tempo que passa e a vida que se esvai quanto mais se vive e a vida que se esvai quanto menos se deseja viver Mas marcelo morreu o culpado não fui eu mas marcelo morreu e todos choraram menos eu repete aquele que descobriu que escrever sobre si mesmo é matar-se a contagotas assim como fez kafka não com a carta ao seu pai mas com todas as suas outras e quanto mais se lê mais suicídio comete e jamais se saberá quem foi kafka canhoto molière joyce ou todos os veríssimos e quem mais quer que sejamos talvez a consciência desse fato fez com que márquez não relesse suas histórias buendía compulsivo refizesse os pingentes e a louca costurasse anos a fio a mortalha de seu pai que era verdadeiramente a mortalha de si mesma enquanto à essa época e em outros tempos marx desencravava os furúnculos de suas nádegas socialistas ao som da nona sinfonia

Agora irmãos vamos dar as mãos não não dêem porque a morte é um elemento de coesão somente nestes míseros momentos o que se verá e ouvirá pelas costas além das piadas é a maldição ao frio ou ao calor excessivos ou à chuva inconveniente ou ao cheiro de clorofórmio ou ao cheiro das flores em coroa que se impregnarão por dias e dias em nossas narinas menos da de marcelo que morreu aos vinte e nove anos de idade e todos calam todos calam todos calam e só Eu canto Eu lembro quando ele chegou tão jovem para nossa idade avançada e no entanto um pouco que seja nos rejuvenesceu com seus velhos sonhos lembramos da metamorfose que o transformou não num bicho mas num animal vago e sonolento lembro da luta interior que ele narrava como uma saga indescritível de suas derrotas insaciáveis agora ei-lo aí sem eira nem beira porém com o destino mais certo do que os nossos incertos fados que temos a cumprir mais certo do que os incertos fardos que temos a carregar e passar adiante

Não não o finjam com o seu caro terno de linho jamais comprado porque esse aí de paletó e gravata camisa e sapato combinando esse aí não é ele senão outro qualquer que nunca será tal como o fora é uma afronta tanto ao que foi como ao que pensávamos e desejávamos ser o herói de antes e o idiota de sempre não o finjam deixem-no verdadeiro e sem afetações pelo menos em sua última hora conosco porque em verdade em verdade vos dizemos ele está nu ao nosso lado como qualquer cadáver esquisito vestido da cabeça aos pés como uma criança sem malícia apenas nos contempla indiferente a nossa indiferença porque marcelo morreu aos vinte e nove anos e todos dormem todos dormem todos dormem menos eu Aos trinta e dois anos ou antes ou depois eu o matei com o amor com que ele se alimentou eu o afoguei numa piscina de sonhos no prato que ele comeu e depois cuspiu esferográficas tantas e nenhuma para mim marcelo morreu e todos choraram ninguém jamais o conhecerá menos eu

.

[M.S., em 14 de novembro de 2007 – 21 de janeiro de 2010]

***

Nota da Pedra Lascada (Agora sim, com o trigésimo quarto ano novo começando): As partes em itálico foram retiradas do poema “Cadáver Esquisito”, de Vinicius Canhoto. A intenção era publicar aqui o poema em referência, uma vez que este (poema?) é, de certa forma, também uma resposta – um tanto quanto zombeteira, admito – ao “Cadáver Esquisito” de Canhoto, em que uma das personagens (indevidamente) levava meu nome; todavia, por motivos de força maior, consideramos imprópria a sua publicação, até mesmo porque, como ressalta Canhoto, não se trata de mim, mas de uma geração que – acrescento – teve seu fim simbólico com o (quem dera também tivesse sido apenas simbólico) falecimento de nosso camarada e sempre amigo Adilson Fornazier (diga-se de passagem, um dos últimos comunistas no PCdoB). Agradeço muito, sem ironias, às sinceras contribuições de Canhoto, cujos benevolentes comentários (“ruim”, “aqui você erra a mão”, “nossa, melhora isso!”, “eita, drummondismo!” e “eita, final melodramático!”) iluminaram a minha cabeça de antanho. Sinto muito por não ter feito as alterações sugeridas – e não as fiz não porque discordasse, mas porque estão longe da minha capacidade no momento, afinal, o escritor é ele e não eu. Quanto ao título, em que pese a fatal sentença proferida por Canhoto de que do jeito que está, com nome e sobrenome, não passa de um “narcisismo barato”, como última palavra de réu julgado e condenado, apoiado em Saramago, segundo o qual “somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades”, declaro-me absolutamente culpado, porque este (poema?) não trata de uma geração, é autobiográfico mesmo, embora algumas pessoas vão encontrar suas vozes e seus pensamentos nele. Enfim, este é o meu Mateus, eu que o embale.

Catador de “Lixo Extraordinário” tem visto negado para os EUA

Da Folha.com, em 02 de fevereiro de 2011:

 

Tião, protagonista do filme “Lixo Extraordinário”, que fala sobre o artista brasileiro Vik Muniz, enfrenta uma barreira grande a seu sonho de chegar a Hollywood: a burocracia da imigração norte-americana.

Brasileiro radicado em Nova York, Vik Muniz, que também vem de família pobre, disse à agência Reuters que o pedido de visto de visitante aos EUA feito por Tião foi recusado, mas que ele ainda tem esperanças de que seja aprovado em tempo para a cerimônia de premiação que acontecerá no final de fevereiro.

“Estamos pensando em ir com Tião”, disse Muniz à Reuters. “Ele é uma pessoa que é fundamental neste filme. Deveria realmente ser ele a receber o Oscar.”

O catador de lixo brasileiro pode dividir o palco do Oscar com gente como Brad Pitt e Johnny Depp no final de fevereiro, depois de estrelar um documentário sobre o poder transformador da arte.

  Rafael Andrade/Folhapress  
Tião, do documentário "Lixo Extraordinário", em assembleia dos catadores de lixo do Jardim Gramacho (RJ)
Tião, do documentário “Lixo Extraordinário”, em assembleia dos catadores de lixo do Jardim Gramacho (RJ)

Em “Lixo Extraordinário”, indicado ao Oscar de melhor documentário, Sebastião Carlos dos Santos e um grupo de outros trabalhadores num enorme aterro sanitário do Rio de Janeiro tornam-se fontes de inspiração do artista plástico Vik Muniz, que lança uma luz sobre uma atividade que a sociedade preferiria ignorar.

Usando fotos ampliadas deles mesmos e do próprio lixo que vasculham todos os dias em busca de objetos recicláveis, Santos e seus colegas ajudam Muniz a criar obras de arte belíssimas que são compradas por colecionadores internacionais por milhares de dólares.

Conhecido por seu apelido, Tião, o catador acaba viajando com Muniz para uma importante casa de leilões em Londres e cede às lágrimas quando uma foto, baseada em sua pose numa banheira descartada, é arrematada por 28 mil libras (45 mil dólares).

“Quando as pessoas me dizem que vou a Hollywood, não parece real”, disse Tião, 32 anos, à Reuters. “Às vezes brinco com Vik – digo que, quando o relógio bater a meia-noite, vou perder meus sapatos e o mundo vai voltar para onde estava. Mas acho que agora não vai mais, acho que o mundo nunca mais será como antes.”

Tião começou a ajudar sua família a catar lixo no aterro de Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), quando tinha apenas 11 anos. Ele conseguiu comprar uma casa com o lucro obtido do leilão de arte.

“Muita gente ainda tem preconceito em relação ao trabalho dos catadores”, disse Tião, acrescentando que são “recicladores”.

“As pessoas veem o lixo como algo insignificante e invisível, e era assim que os catadores de lixo eram vistos também”, afirmou ele, que tornou-se presidente da associação local de catadores de lixo.

“Este filme mostra que somos batalhadores, que sustentamos nossas famílias e fazemos um trabalho honesto.”

Dirigido pela britânica Lucy Walker, “Lixo Extraordinário” (“Waste Land” em inglês) vem sendo descrito como o “Quem Quer Ser um Milionário” dos documentários, mas enfrentará concorrência difícil na categoria de melhor documentário.

Seus quatro rivais incluem outro filme que foca a arte de rua – “Exit Through the Gift Shop”, do artista britânico anti-establishment Banksy.

–  –  –

Extraído de: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/869509-catador-de-lixo-extraordinario-tem-visto-negado-para-os-eua.shtml

Sobre pedras, pessoas e sonhos

(Salvador Dalí)
 
Nota da Pedra Lascada: Claramente inspirado em um texto de Paulo Freire e no título de um livro de Sônia Kramer (“Por Entre as Pedras: Arma e Sonho na Escola”), o texto que segue abaixo foi retirado da apresentação do Projeto Político-Pedagógico de uma escola. Eu sei que alguns vão criticar, dizendo tratar-se de uma visão romântica da educação (o que tem um fundo de verdade), que a escola – principalmente a pública – é feita mais de pesadelos do que de sonhos (o que também não deixa de ser verdade), que o sonho acabou ou nunca existiu, que tudo é um desvario, que a escola é um projeto fracassado ou, antes disso, que é bem eficiente enquanto projeto de reprodução da ideologia burguesa e consequente dominação de classe (o que tem lá seu fundamento)… Enfim, tem ranzinza pra tudo nesse mundo (muitos com uma boa razão para ser)!. Ainda assim, a escola também tem esse lado do sonho, feérico mesmo, por que não? Isso também é importante. Mário Quintana, com toda a sua simplicidade e sabedoria, resumiu essa importância assim: “Sonhar é acordar-de por dentro”. Sem mais palavras, vamos ao texto! (M.S)
–  –  –
 

“Uma Escola é feita de areia, cimento e pedra. Com uma boa pintura, um ajuste aqui e outro ali, um forro, um telhado trocado, um pouco mais de iluminação, mais colorido… A escola até fica bonita. Depois, nas salas de aula a gente coloca carteira, mesa, armário, ventilador, cortinas… Monta uma sala de brinquedos e coloca um monte de brinquedos; faz uma biblioteca, enche de livros, instala computador com acesso à internet e cd com jogos educativos… Se o parque fica pequeno e o terreno é irregular, a gente conserta, troca brinquedo velho por brinquedo novo, acrescenta mais um caminhão de areia, reforça o muro e tapa os buracos… Faz isso, faz aquilo…  E mais isso, e mais aquilo… Mas isso ainda não é uma Escola – é um prédio com equipamentos e certa estrutura!

Uma escola é feita de gente; gente como eu e como você, adulto ou criança… Adulto e criança!… Do choro e do riso de cada um, do sonho e do trabalho de cada um – dos profissionais (todos educadores) que nela atuam como professores, cozinheiros, auxiliares de limpeza, oficiais de escola, diretor, zelador, coordenador, professor de apoio à direção, jovem da turma cidadã, orientador, psicólogo, fonoaudiólogo… Dos pais, das mães, das avós, avôs e tias, tios… Das vizinhas que nem têm filhos na escola, mas ajudam outras famílias trazendo ou buscando as crianças e, de vez em quando, dão uma passadinha por ela, nas festas, ou para saber como as coisas vão indo…

Uma escola não é um amontoado de salas, corredores, pátios, quadras… Não é simplesmente um lugar onde fica um punhado de pessoas aprendendo um punhado de coisas que pensamos ser importante para quando elas – as crianças – crescerem. A escola (digam o que disserem)… Nós somos a escola; e a Escola é, ainda: as relações que estabelecemos uns com os outros; os laços que construímos; os nós que, juntos, desatamos; as nossas vivências construídas e compartilhadas no dia-a-dia…

Cada membro da comunidade escolar faz parte desse grande sonho da humanidade que é a Escola. A escola é isto: a escola é feita de sonhos!”

Lugar-Comum

 

Tudo em minha volta é silêncio que não se encontra. As folhas das árvores, balançando ao vento, contam segredos de outros países – não os ouço porque não os entendo em suas línguas bárbaras ou sutis; em suas e nossas gírias. Vejo as imagens tecidas pelo roçar das folhas nos troncos das árvores – uma visão natural com os sentidos que me foram emprestados. Chega a hora de devolvê-los. Ponho o coração de lado; a sensação é de letargia. Aguardo as cenas de minha vida inteira passarem em retrospectiva. Mas não! Somente o sorriso em seu rosto é o que me vem, e logo em seguida a saudade, que me faz sentir ainda mais humano, e ainda mais melindroso. Sinto-a tão presente que o calor de seu corpo conforta o meu em seus últimos instantes. Uma lágrima sua cai em minha face e rola até o canto da boca. Esse é o nosso último beijo – involuntário e tão sincero que desejara este instante outras mil vezes. Tudo passa. Esvanece. Abro os olhos para a escuridão momentânea. Apuro os sentidos. Levanto. Nada ouço. As folhas sumiram. Permanece o vento silencioso e tão denso  que tenho a impressão de que poderia conter-lhe  entre os punhos, mas os pulsos estão entorpecidos; fraquejam. Do outro lado da rua, o letreiro de neon piscando um “não há vagas” num compasso de uma bailarina ébria e sem par. Estendo os braços para fora da janela. Chuva. Frio. Na calçada logo abaixo passa alguém apressadamente; para. Olha para cima, para mim. E se vai.

Imagem extraída do blog http://escritus-no-silencio.blogspot.com/

O Ataque da informação

Por André Batista Lemos, do Blog Lemos Ideais

Ocorridas no decorrer dos tempos duas grandes guerras mundiais, revoluções político-sociais e tecnológicas . Deparamos, no século XXI, com a era da informação e do conhecimento. A disseminação da telefonia e dos programas virtuais da internet, imbricadas com novas tecnologias, em terreno fértil de integrações entre nações e culturas, sugere, um novo período histórico.
    
     As surpresas não param de ocorrer, as descobertas e invenções se apresentam de forma cada vez mais aceleradas. Fato comemorável não fosse à maneira mercantilizada em que se constrói a sociedade e a baixíssima média mundial de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), juntando-se, ao fato da péssima coordenação da produção, que afeta o mundo para além da contradição da relação capital-trabalho, com problemas climáticos sérios no meio ambiente. Tendo em destaque o sujeito provedor do marasmo social o imperialismo dos EUA.
     
     No âmbito político-social, especula-se uma possível guerra da informação. Um dos fatores é que a mídia convencional, com interesses particulares, está ameaçada com a nova leva de comunicadores e debatedores, via internet, e um exemplo claro é onda dos blogueiros. Mais críticos e inovadores disseminam conceitos e idéias.  A esta ala progressista de debatedores aliam-se aqueles que buscam as informações mais sigilosas, publicam e fazem com que não existam mais segredos geo-políticos e econômicos.
     
     O episódio intrigante do momento é o site Wikileaks criado pelo Australiano Julian Assange, cuja finalidade é a divulgação de documentos confidenciais (leaks=vazamento).  Só dos EUA são 250 mil documentos diplomáticos, de extrema importância como a correspondência, de Uribe, presidente da Colômbia aos EUA, demonstrando, a sua intenção de invadir as fronteiras da Venezuela em 2009.
    
     Este se tornou um dos temas mais discutidos nos últimos dias com a possibilidade de um novo paradigma: o de que nada mais é segredo na diplomacia. Fidel Castro faz o artigo “O Império no Banco dos Réus”, refletindo que o poderio bélico americano está ameaçado frente às informações. De forma ampla e geral, a tecnologia de informação tem forte influência em todos os setores da sociedade e das relações humanas. É notório no mundo do trabalho, no mundo da mídia, dos gêneros, das culturas e das finanças.