Sobre o silêncio irônico

“A humanidade é desumana,
mas ainda temos chance…”
(Renato Russo)
Há homens que vivem no mar
E homens que vivem do mar
Há homens de todo tipo:
Homens que vivem no campo
E homens que vivem do lixo;
Homens que plantam batatas
E homens que plantam haxixe;
Homens que furtam o processo
E homens que furtam o produto;
Homens que vendem suas forças
E homens que alugam seus corpos;
Homens que compram aos montes
E homens que vendem suas almas;
Uns que vivem dos excessos
Outros que migalham os desperdícios;
Homens que colhem as safras
Para homens que contam as cifras;
Poucos que comem demais
Milhares que comem nem isso;
Homens ébrios de luxúria
E homens bêbados na miséria
Para quem o amargo da cana
Engana o amargo da vida.
 
Há homens que matam e morrem
Há homens que choram a perda;
Há homens tão violentos
Que não percebem que são violados.
 
(Há violência concreta
e há violência simbólica)
 
Há homens bons que são maus
e homens maus que são bons;
Homens que dizem a verdade
e homens que iludem a realidade.
 
Mas os piores dos homens
não são só os que mentem quando falam
– são os que aceitam, e se calam.
                                                              [2005]

Certas pessoas…

Certas pessoas, pelas suas absolutas falta de caráter, não merecem de nós mais do que o silêncio. No entanto, quando – escondidas atrás do anonimato, de pseudônimos ou por detrás dos muros de instituições – as suas ações não apenas são potencialmente danosas às conquistas da coletividade como também tornam-se concretamente criminosas, pois intencionalmente caluniosas, autoritárias e contra os interesses da categoria, o nosso silêncio nos coloca na condição de cúmplices do maucaratismo e dos acintes que estas pessoas, fingindo nos representar e utilizando indevidamente os nossos recursos, criam contra nós mesmos, contra a própria categoria, contra o processo democrático, contra os trabalhadores, contra a educação. Não nos calaremos jamais! Nunca é demais lembrar: há momentos em que silenciar é mentir!

Uma questão na madrugada

 

Não se trata do homem
E seus atos, simplesmente.

Trata-se de uma homogeneidade:
Tempo, vida, esperança...
Da brisa do mar
Do cheiro de peixe
Desse Mediterrâneo
Atlântico ou Pacífico...
Do registro em minha
Memo-identidade
Em meus neurônios fatigados...
Dessa madrugada em casa
Dos espíritos que rondam
O amanhecer...

Não se trata da imagem
Do homem frente ao espelho.

Trata-se de seu reflexo
Perante o mundo:
As coisas naturais
Artificiais e sobrenaturais...
Nomes talhados
Nas árvores, nas rochas
Nos arranha-céus
Emaranhados montanhosos...
A Patagônia tão perto
O Saara tão perto:
A impressão que se tem
Desse silêncio deserto
Desse momento de brilho
Desse instante incerto...

Não se trata da figura
Dos figurinos menos ainda.

Mas sim de sua representação
Da ação que tece e destece
Um novelo que não é de lã
Lá no Ibirapuera
No Amazonas e nessa vila
Humaitá, Guarani ou América...
Das águias, do Progresso
(Que não chega)
Da ordem que se mantém secular....
Da borboleta, esvaída, perder a cor
Do fruto, muito provavelmente,
Volver-se à flor.

Não se trata do homem e seu codinome
Da essência intangível, da eloqüência.

Trata-se do prazer
Da escrita descompromissada
Das horas que se vão
E chegam sem cessar
Da lembrança de um sorriso
E um perfume
Do bem-querer
Da mente tranqüila
Desejando serenamente
Outro anoitecer...

[M.S.]

O Constante Diálogo

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo

e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

[Carlos Drummond de Andrade]