Por que me tornei professor…

Um fantasma ronda a Europa” … 

Um fantasma ronda a Europa, o Brasil e, especialmente, as primeiras aulas de todos as disciplinas dos cursos de Magistério, dos cursos de Pedagogia, dos cursos de especializações…  Também do início dos cursos de aperfeiçoamentos pedagógicos às primeiras semanas do início na profissão e volta-e-meia quando nos deparamos com novos colegas ou, ainda, nas dinâmicas e nutrições de recepções de equipes ronda o fantasma daquela velha e eterna novidade, que é a pergunta: “Por que me tornei professor?” 

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Vênus

Para Vivi – flor de março, presente de abril

sobre o céu de Marte
brilha o Sol de março
solitário
ventos varrem as colinas
levantam a poeira
vazios de poesia

sobre o chão rubro
fantasmas rasgam fantasias
e seus uivos, tal como lobos
sob Deimos
sob Fobos
são ocos - não os ouço

distante distante e a um passo
de um sonho, de um traço
no planisfério, no espaço
onde o globo sobrevoa
e os olhos nus alcançam
no lado oposto lá está ela

ao calar a noite
ao fechar de março
a estrela da manhã estreia
no outono sua primavera

uns a chamam de Vênus
outros a chamam de deusa
pela sua força vulcânica
pela sua chama ardente
a chamamos simplesmente
                                        amor

[M.S. – Mar/2024]

Imagem em destaque: “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli (1484-1485)

1977

sob o signo do sonho
nas bordas do firmamento
o chão a chuva a seca
lá fora ou cá dentro
      não sei
pobre terra rica
pés descalços, brasis
rubra poeira
pele em brasa

sob o fervo de fevereiro
a gélida sentença
  o desengano
impossível a existência
tão leve a criança
- coração paranapanema
mente em curto
      curta a vida
  curto o tempo
leva para casa leva ela
e tudo que ela leva
      e eleva as mãos

      mas não

sob o forno a fé
o enfrentamento
o ranger das madeiras
    das paredes
o silvo do vento ao cruzar
   das frestas

sob o sereno os poros
os porões d'outros verões
     o fogo vindouro
entre o café e o algodão
as vacas e os seus frutos
a cana e os moinhos
as mãos moídas os calos
   os prantos calados

da obstinação da mãe
da teimosia do pai
da natural tepidez
de substâncias compostas
do barro
  da carne
   da alma
    da tez
dos trinta e seis
o pulsar do filho improvável
possível se fez

[M.S. - Fev./2024]

2024


Imagem em destaque: Ligth is Time – Instalação criada com 65 mil relógios)

Eu nunca mais vou dizer…

"Eu nunca mais vou dizer o que realmente sinto"...

Porque, se eu disser, o que vai ser, o que importa
Que sentido objetivo, que razão especial, concreta
O que pende, cai ou então o que flutua no espaço
quando digo o que sinto, quando não vêem o que faço
Porque se não é como queria, sinal dos tempos...
Já que não sou rei nem lei nem preciso ser

(Lutarei por ela
mesmo se for em uma guerrilha)

Nunca direi, porque fará inverno
Fará um inverno-inferno, que queimará
as ilusões fantasiadas pela mídia.
Calarei, até chegar a hora da alegria.
Lutarei por ela
mesmo se for em uma guerrilha.

E por mais que eu chore
O mundo estaria aqui
E mesmo que a tristeza continue
junto com a depressão, meu grito é importante
junto a outros gritos
Gritos de liberdade.

Lutarei por ela, pois esta é minha sina
mesmo se for em uma guerrilha.

[M.T.A – Em algum lugar do século que passou…]

Pedaço de ti

"Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus"

[Chico Buarque - Pedaço de Mim]

A nossa despedida começou muito antes de voltar a ser hospitalizada, quando fui visitá-la em casa e, ao dar tchau, me abraçou e confidenciou baixinho ao meu ouvido: “Deixa falar uma coisa só pra você… eu vou morrer“.

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“Elas se refugiaram na noite, as palavras”…

Há um grito em cada silêncio, 
Uma pergunta sem resposta,
Um problema sem solução,
Uma equação por resolver.

Somar ou subtrair? Nunca sei.
Nos multiplicamos e nos dividimos
Em fragmentos do que não somos,
Na inconstância de sons e sonhos.

Será que vale a pena acordar?
Um dia, nem que seja por um dia,
Quiçá e aí, então, fugir para o mar.

.

[M.S]

Por Isso Agora Falo

Falo como poeta
Eu sou livre e não sabia
Mas essa inconsistência do papel
E essa minha língua vermelha, mordida
Carne, nervos e sangue - o doce aroma
Corte exposto no indicador esquerdo
Eu sou poeta e não sabia.

Eu sou poeta e não queria
Conhecer a louca esperança tonta
Que faz a escrita toda torta
O vício da rima e o vício da mina
Só, mano, é isso aí! Pra sair do contexto
Nada do que faço é certo
Eu sou o homem no deserto.

Falo com o falo
À flor da pele o hormônio
O palavrão improferível
A idade média da razão
Eu sou o fruto que sai da terra
O ofídio - tal como, frio e paciente
Eu sou poeta e não sentia.

Não sentia que era isso
Essa coisa, esse asco
Essa pedra bruta, esse fiasco
Esse profundo fundorifício
Detalhado na teta e na testa
Marca de fuzil alemão
Que eu nunca vi.

Não, menina, eu não vou fugir
Apenas quero me esconder
Desse jeito meu (seu) de ser
Da fantasia de sua boca na minha
De seus lábios carnudos, calientes,
Tangendo a fímbria do amanhecer...
É que sou poeta e não dizia.

Por isso agora falo.

.

[M.S. / Em algum momento do milênio passado]