Semântica

Aprendi desde há muito 
a sutileza das palavras;
a intuir nas entrelinhas
gestos e intenções não reveladas;
a compreender o que está sendo dito
naquilo que não está escrito.

Um substantivo mal colocado,
um adjetivo inocentemente à mingua,
um advérbio que escapa pelos dedos,
ou que escorre pela língua,
revelam segredos.

O que não sei pela omissão
completo com a imaginação
- peças se encaixam, se desencaixam
e, como um animal ferido,
mas vivo, prossigo.

Atribuo sentidos ao que leio
desnudo o que percebo
com a emoção
e com a razão
resvalo em medos
desvelo segredos.

[M.S.- Março/ 2023]


Imagem em destaque: Pieter Bruegel

Flores e Armas de Fogo

Hoje eu não devo falar de flores nem de armas de fogo
não devo e não posso consentir 
que a cada instante a morte 
abrace um princípio 
e que esse princípio
seja esquecido postumamente
pelos meus camaradas com sonhos imediatistas...

A morte não é a mera morte
- é o puro e ingênuo esquecimento.

De nada vale se lamentar,
é inútil e insensato
Mas é necessário 
pensar e repensar
e mais necessário ainda:
agir - ação consciente
que está sendo deixada de lado...

Não deveria ter dito porque
hoje eu não devo falar de flores nem de armas de fogo.

[M.S.]


Imagem em destaque extraída de Exame.com