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“A Menina Quebrada”, de Eliane Brum

Entre umas pedaladas aqui e outras ali (e dezenas de telefonemas para o banco BMG, que me tornou “cliente” à revelia), minha viagem no recesso e nessas férias será um caminho para dentro do mundo das palavras.

Um reencontro, um reencanto.

Para tanto, escolhi como companheira de jornada ninguém mais, ninguém menos que a jornalista/ escritora Eliane Brum, que se veste de palavras para por a nu os seus pensamentos mais profundos, dos mais variados temas (vida/ morte; política; meio ambiente; direitos humanos; memórias…).

Eliane Brum é uma cronista no sentido mais elevado do termo.

Preocupada e comprometida com a re-humanização dos sujeitos, extrapola a simples narrativa dos fatos e apresenta reflexões que resgatam uma dimensão humana ética, política e estética que nos é roubada cotidianamente pelo modo de produção e de relação capitalista.

Assim, em meio aos fatos e às narrativas dos fatos, Eliane nos presenteia com belíssimas lições apreendidas de suas experiências e leituras, como esta, irrefutável:

“É fácil compreender o desamor. O amor, não. O amor é um enigma”.

“A Menina Quebrada” (livro que escolhi como o primeiro a ser lido) é uma coletânea de colunas publicadas entre 2009 e 2013. Apesar de ser uma obra extensa (+ ou – 430 p.), o estilo envolvente de Eliane nos prende a atenção de tal maneira que nem se vê passar o tempo. Este terminei na semana do recesso mesmo. Tempus fugit.

A coluna que dá nome ao livro o fecha magistralmente. Não ouse a ler em primeiro lugar. Ou ouse. Mas leia !😉

📢💡👀❕

Eliane Brum é colunista do jornal El País e prorietária do site Desacontecimentos. Muitos de seus textos podem ser acessados livremente na internet.

Imagem em destaque: Capa do livro “A menina quebrada” e foto extraída do site El País.

Vitória da Escola Pública: Regulamentação do Fundeb é aprovada com garantia de recurso público para a escola pública

Leia Carta à Sociedade Brasileira da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

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Do site da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Carta à Sociedade Brasileira

Vitória da Escola Pública:

Regulamentação do Fundeb é aprovada com garantia de recurso público para a escola pública

Brasil, 17 de dezembro de 2020.

A Campanha Nacional pelo Direito à Educação – maior, mais ampla e mais plural rede em defesa do direito à educação no Brasil – comemora a aprovação do Projeto de Lei de Regulamentação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação – Fundeb, em votação final na Câmara dos Deputados.

A regulamentação respeitou a demanda da Campanha Nacional pelo Direito à Educação de não permissão de desvios de R$ 15,9 bilhões para o setor privado, respeitando a Constituição Federal de 1988 e a EC 108/2020, do Fundeb, aprovada em agosto deste ano. O texto final fortalece a escola pública e é mais um passo decisivo para a garantia da educação pública, gratuita e de qualidade no país. 

Essa vitória só foi possível porque o Senado Federal ouviu a demanda da Campanha e da comunidade educacional e corrigiu os graves erros da Câmara dos Deputados e respeitou os preceitos constitucionais.

A Campanha Nacional pelo Direito à Educação formulou argumentos técnicos e políticos, coordenando imensa e decisiva mobilização social, em atuação vitoriosa. Foram milhares de interações nas redes sociais nos últimos dias para salvar o Fundeb, com liderança contundente da Rede da Campanha, trabalhando dia e noite, por uma semana seguida, puxando a hashtag #FundebÉPúblico.

Contamos com a atuação imprescindível da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação – Fineduca, através de estudos científicos de primorosa qualidade e de alto nível, elevando o debate técnico. É importantíssimo também reconhecer o trabalho de mobilização e força da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE, que esteve firme em defesa da educação pública e das e dos profissionais da educação. Ambas as organizações integram o Comitê Diretivo da Campanha, um colegiado que atuou amplamente pela aprovação deste texto sem retrocessos.

Por fim, um reconhecimento à Rede da Campanha, de educadoras e educadores presentes em todos os estados e no DF, que foram e sempre são imprescindíveis para as conquistas em prol do direito à educação, cada qual em suas frentes e estratégias respectivas de ação. Foi intenso, fomos juntos, e vencemos mais uma vez.

A Campanha Nacional pelo Direito à Educação reafirma, por fim, seu compromisso em seguir no debate técnico e político para a construção da lei do Sistema Nacional de Educação e para a regulamentação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica e do Custo Aluno-Qualidade.

CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO

Live do Caetano de Natal

Ia escrever algumas coisas que estão cá dentro, batendo, batendo, tocando fundo… Então me perdi no tempo sendo tocado pelas canções de Caetano Veloso em sua live de Natal. Perca-se você também. A gente merece.

“Não tenho nada com isso, nem vem falar
Eu não consigo entender sua lógica
Minha palavra cantada pode espantar
E a seus ouvidos parecer exótica

Mas acontece que eu não posso me deixar
Levar por um papo que já não deu, não deu
Acho que nada restou pra guardar ou lembrar
Do muito ou pouco que houve entre você e eu

Nenhuma força virá me fazer calar
Faço no tempo soar minha sílaba
Canto somente o que pede pra se cantar
Sou o que soa, eu não douro pílula

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito, maior
Com todo o mundo podendo brilhar num cântico
Canto somente o que não pode mais se calar
Noutras palavras sou muito romântico”.

Não fechem nossa escola! A EMEB do Espaço Cidadania precisa de você

Neste final de semana, os educadores e alunos de São Bernardo do Campo foram surpreendidos com a informação de que o governo decidiu extinguir a EMEB do Espaço Cidadania para ceder espaço integral à Secretaria de Saúde.

A EMEB do Espaço Cidadania, que é localizada em região central próxima à Igreja Matriz, atende entre o primeiro e o segundo semestre de 2020 dos períodos da manhã, tarde e noite uma média de 350 jovens e adultos – muitos dos quais trabalhadores que, ao término do serviço, conseguem ter fácil acesso à escola em razão de sua localização central. Seu fechamento obrigará os alunos a escolherem outras escolas ou serem encaminhados à EMEB Maria Adelaide, cuja distância acarretará dificuldades de acesso.

Além de ferir o direito à educação, a decisão de fechamento da escola sem qualquer diálogo com comunidade e equipe escolar é mais uma cena explícita da falta de respeito ao conjunto dos profissionais de educação e da falta de transparência dessa administração. O anúncio tardio, feito em meio ao processo de remoção no último dia de recurso, impossibilitou que educadores prejudicados pela escolha de uma escola a ser extinta pudessem exercer o direito ao recurso.

Leia mais em SOMOS TODOS EDUCADORES

Até onde…

longe longe longe
aonde o eco se esconde
e a brisa dissipa,
                 insípida

aonde os olhos não vêem
as mãos se tocam
e as bocas se falam

aonde os lábios se encontram
os ouvidos se encantam
e os corpos se enroscam

aonde as mentes se aquietam
os sorrisos acontecem
e as horas se esquecem

aonde estão os seus braços
- invisíveis laços
que acalentam e aquecem.

Dentro da Noite Veloz (Fragmento)

A vida muda como a cor dos frutos
         lentamente
         e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
         velozmente
A vida muda como a água em folhas
         o sonho em luz elétrica
         a rosa desembrulha do carbono
         o pássaro, da boca
                      mas
         quando for tempo
E é tempo todo tempo
                      mas
não basta um século para fazer a pétala
          que um só minuto faz
          ou não
                       mas
          a vida muda...
(...)

Ferreira Gullar

Maudie: Sua vida e sua Arte

O filme retrata de forma romantizada a vida sofrida da artista plástica Maud Lewis, que não se rendeu às dificuldades causadas por uma doença congênita que limitava seus movimentos.

Suas obras, com traços simples e belos, são como ferramentas para sobreviver ao ambiente de opressão, discriminação e preconceito em que viveu na infância e na vida adulta, demonstrando uma habilidade emocional surpreendente para conviver e lidar com um marido bruto, com a violência física e patrimonial e com as explorações econômicas de sua arte.

Nunca fez tanto sentido a máxima que diz “Temos a arte para não morrer da verdade”, que é atribuída ao filósofo Nietzsche.

As paisagens são lindas e a trilha sonora maravilhosa (destaque para Dear Dearling, de Mary Margaret O’Hara). É impossível chegar ao final do filme sem um travo na garganta e alguma revolta na alma.

Por alguma razão (por muitas razões!), o retrato que o filme traz de Maud me fez lembrar um poema de Boris Pasternak:

“Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas não deves dissociar
Teu sucesso de teu fracasso.

Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim”.

E você? Depois de assistir ao filme, o que vê da sua “janela”?

*

Em tempo: para aprofundar a reflexão sobre o filme, indico o artigo “Maudie, ou a arte como estratégia de sobrevivência emocional“, de Maria do Carmo Guido (melhor assistir ao filme antes de ler o artigo).

Imagens: Google Imagens e site História da Arte.

Nuestros Amantes

Produção espanhola no catálogo da Netflix, Nuestros Amantes é classificada como comédia, drama, romance, comédia romântica e – curiosamente – como drama romântico.

Um homem e uma mulher se encontram em uma livraria e começam a desenvolver um relacionamento com um desafio: não saber o nome de ambos e nem perguntar diretamente ou pesquisar sobre a vida um do outro. Nada de telefone; nada de internet.

A fotografia é simples e atrativa, bonita mesmo, com closes em personagens bastante expressivos e possíveis.

Com algumas cutucadas em referência à “qualidade” literária do escritor Paulo Coelho, os diálogos são divertidos, engraçados e sensíveis. O tema, delicado; a abordagem, inteligente.

Vale a hora e meia pelo seu roteiro sem grandes sobressaltos, mas nem por isso muito previsível, ou desinteressante. Pelo contrário, no caso desse filme, um pouco de previsibilidade cai bem porque torna a coisa verossímil a ponto de a gente não apenas imaginar onde vai dar, como também torcer para que aconteça e, ainda, num certo momento ficar com raiva por achar que a coisa vai degringolar de vez. Se vai ou não, só assistindo para saber 😉

Na escola dos sonhos

Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi que a vida é mais que ter
Aprendi que a sorte depende do que fazemos
Que nem sempre o que fazemos depende de sorte
Que nem sempre temos sorte.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi a olhar nas coisas mais que as coisas
A olhar e a perceber pessoas, processos, histórias
Aprendi a construir, mais que objetos,
Possibilidades.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
O caminhar coletivo – eu aprendi –
É opção pelo caminhar solitário
Mesmo que não se queira
E o sonhar é liberdade e é tristeza.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi que as escolhas são poucas
Mas que há sempre uma saída
Senão repentina, ao menos vindoura
E o quão fugaz é a vida.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi a amar nas pessoas
Além do que elas são no momento
Suas potencialidades...
O ser, o devir, o vir-a-ser.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Na escola dos sonhos em que me criei
Na escola dos sonhos que eu criei
Há uma vaga, há um querer
Esperando você.

[M.S]

Imagem em destaque: Pixabay.com

Música de fundo: Thinking Out Loud (Ed Sheeran), por Alenka & Anze