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Corrupção, transporte e direito à cidade – Parte I

Fonte: Território Livre
Fonte: Território Livre

A corrupção talvez seja uma via de mão dupla em que transitam em sentidos falsamente opostos e em algum ponto se encontram o  disposto a se corromper e o corruptor.

É muita falta  de clareza desconsiderar que se existem os  políticos que cobram propinas para aprovarem contratos com empresas igualmente existem empresários que pagam propinas para que suas empresas vençam as concorrências –  políticos corrompidos e empresários corruptores   são dois sujeitos que constituem lados de uma mesma moeda,  que é a corrupção (e ambos pertencem à mesma categoria: a dos corruptos).

Penso, contudo, que esta é ainda uma visão muito simplista da situação; uma visão muito em preto e branco. Se misturarmos um pouco o preto com o branco chegaremos a alguns tons – uns cinquenta ou mais (bem mais) de cinza. Digo desde já: a conclusão não será nem um pouco prazerosa.

A verdade é que desconfio que a corrupção nem seja uma via apenas, e sim sinuosos e confusos caminhos nos quais circulam diferentes seres em múltiplas direções, paradoxalmente jamais em sentidos opostos, uma vez que são conduzidos e conduzem-se em um único sentido: o de levar vantagem pessoal em cima de qualquer coisa e sobretudo contra qualquer pessoa. Afinal, na sociedade da meritocracia, que é a sociedade capitalista, ganhar – seja lá o que for, contra quem for e não importando os meios, tampouco importando os méritos – é uma dádiva e uma glória.

Talvez por aí encontramos alguma lógica no comportamento tresloucado de certas pessoas que gritam escandalizadas contra a corrupção alheia, mas nem fazem caso das pequenas e médias corrupções que elas mesmas praticam, como se umas coisas não tivessem nada a ver com as outras: ocupar lugar de idoso no ônibus; furar fila; assinar o ponto sem trabalhar, falsificar carteirinha de estudante; sonegar imposto de renda; emitir notas ficais frias; ultrapassar pela direita ou pelo acostamento, ou em farol vermelho, dirigir embriagado, colocando a vida de outras pessoas em risco, não devolver ao dono o objeto encontrado – “achado não é roubado”…

Talvez indo por esse pensamento possamos também entender a lógica insana dos que se dizem favoráveis à vida e ao mesmo tempo defendem  a pena de morte; que gritam escandalizados perante a violência contra a propriedade material e ao mesmo tempo defendem práticas de torturas, linchamentos, espancamentos, aplaudem a violência policial e institucional – violências, aliás, que também a sofrem em seu dia-a-dia.

Será que por sofrerem tanta violência física, psicológica e simbólica foram perdendo a sensibilidade, a humanidade?

Novamente desconfio que sim, porque se é certo, como se diz popularmente, que a ocasião faz o ladrão, mais certo ainda é que de tanto olhar o torto os olhos e os olhares vão entortando também, ao ponto de tomar como direito o torcido, o retorcido e o distorcido; ao ponto de tomar como certo o errado e não mais o duvidoso, como já é bem perigoso tomar. Aquilo que outro ditado diz – “se você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”, e que os Titãs (quando faziam boa música e ainda não namoravam o conservadorismo) traduziram com um refrão bem explícito: “a televisão me deixou burro, muito burro demais”…

Bons tempos em que o risco maior era apenas tomar o certo pelo duvidoso, porque pelo menos restava o benefício da dúvida, o questionamento: “mas, será que isto que estou ouvindo na televisão, ou lendo no jornal, aconteceu assim mesmo?”. Agora não, certas pessoas reproduzem sandices com um grau absurdo de certeza. E nem percebem que suas certezas são meras reproduções irrefletidas dos meios de comunicação da classe dominante – é possível que nem seja o caso de se perceberem, mas de não se importarem mesmo em fazer papel de papagaio de pirata.

O fato é que na ilusória sociedade do conhecimento inaugurada pela falsa pós-modernidade há opiniões sobre quase tudo, mas conhecimento sobre pouco – e de uma superficialidade delirante.

Mas que diabos tudo isso tem a ver com a questão do transporte? Calma, que chegaremos lá, porque ao menos para pensar não precisamos dispor de R$3,50…

[Continua…]

Caverna da Pedra Lascada, janeiro de 2015

Junho em Janeiro: mal iniciamos o ano e os ataques aos direitos dos trabalhadores e da população em geral levam a novas mobilizações. Greves em indústrias automobilísticas no ABC ocasionadas por demissões em massa e manifestações contra o aumento das tarifas de transporte indicam que 2015 será o ano da luta popular. Afinal, as políticas da velha e da nova direita começam a mostrar a cara mal acabara o processo eleitoral, aproximando ainda mais o petismo do tucanato no quesito política econômica e social: cortes de direitos trabalhistas, atrasos em pagamentos de salários de servidores públicos no ABC e no Distrito Federal, além de outras localidades, novos impostos sendo anunciados, atrasos nos pagamentos de bolsas de estudos Brasil adentro, políticas econômicas recessivas, com aumento de juros, cortes de verbas nas áreas sociais, predominantemente na Educação (ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, o governo Dilma declara o Brasil “pátria educadora”), repressão violenta e indiscriminada, no dia 09 de janeiro, da polícia política do governador tucano Alckmin para impossibilitar a continuidade da manifestação contra o aumento das tarifas de transporte imposto pelo petismo e pelo tucanato e seus aliados da nova,  da velha direita e da “exquerda” governista e capitulada. Diga-se de passagem, manifestação esta que contou com mais de 20 mil pessoas, enquanto a mídia burguesa – papagaio de pirata dos governos de plantão – repete (negando o que seus próprios olhos vêem) que haviam menos de 2 mil pessoas… Vergonha alheia é pouco. O fato é que esta foi uma das maiores manifestações populares nos últimos anos – talvez maior até do que todas as manifestações ocorridas em junho de 2013. É por isso que declaramos que junho começou em janeiro. 2015 promete!!! 

Dia do Professor: Vitória, ainda que tardia!

Do Blog Fórum da Educação SBC

http://forumdaeducacaosbc.blogspot.com.br/2014/11/dia-do-professor-vitoria-ainda-que.html

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O site do Sindserv SBC anuncia que em 2015 todos os trabalhadores da educação terão o direito a fruir o dia do professor.  Para um governo que queria obrigar os auxiliares em educação a trabalharem o dia inteiro no dia 24 de outubro e depois cedeu para apenas meio período (mal aproveitado, só pra não dar o braço a torcer), negou aos demais trabalhadores da educação o direito a comemorar o dia do professor… e agora anunciar que em 2015 todos os trabalhadores da educação fruirão o Dia do Professor… é um avanço!
E esta conquista é fruto da luta de todos, e de cada um dos mais de 2200 educadores que assinaram o abaixo-assinado em defesa da comemoração do Dia do Professor por todos os trabalhadores em educação!
É importante lembrar que a iniciativa do abaixo-assinado foi exclusivamente dos trabalhadores organizados de forma autônoma, ao tempo que a direção do sindicato anunciava a derrota da categoria com a recusa sistemática do governo em reconhecer como educadores todos que trabalham na educação.
A luta está só no começo, e a organização independente e autônoma dos trabalhadores, inclusive para pressionar as ações da direção sindical, demonstrou que os educadores juntos podem mais, muito mais! A conquista deste dia tem um significado simbólico fundamental, pois representa o reconhecimento de uma identidade coletiva, que é ao mesmo tempo o princípio de básico que o conjunto dos profissionais da educação de SBC reitera há anos: o papel inerentemente educativo de todos os que atuam na educação, independente de sua função ou cargo.
Somente os trabalhadores organizados e unidos poderão vencer a burocracia e o autoritarismo governamental e sindical.
NENHUM TRABALHADOR FORA! NENHUM DIREITO A MENOS!
SOMOS TODOS EDUCADORES!

Informe sobre o abaixo-assinado, convite e reflexão

Do blog Fórum da Educação SBC

 

Colegas educadores do quadro do magistério, da EOT, das equipes de apoio educativo, administrativo e operacional.

Na segunda-feira, 20 de outubro, protocolamos no Gabinete do prefeito abaixo-assinado com 2209 assinaturas em apoio às nossas reivindicações e, no mesmo dia, novos abaixo-assinados nos foram encaminhados, representando uma ação coletiva autônoma, livre e amplamente expressiva dos anseios do conjunto dos trabalhadores da educação.

Nesta quarta-feira entramos em contato com o Gabinete do Prefeito para saber notícias sobre o abaixo-assinado entregue no início da semana. Fomos informados de que o Gabinete encaminhou para a Secretaria de Administração, que por sua vez encaminhou para a Secretaria de Educação, que até o momento não se pronunciou a respeito do abaixo-assinado.

Ainda que as ações governistas (incluindo a imposição do novo estatuto) exponham até agora resistências do governo em reconhecer como educadores todos os trabalhadores da educação pública municipal, persistimos na luta e acreditamos na possibilidade de o governo, por meio da Secretaria de Educação, fazer um gesto simbólico, mas não menos importante, em direção a este reconhecimento, atendendo a reivindicação contida no abaixo-assinado.

A luta pelo ponto facultativo para todos no dia 24 simboliza a defesa de um princípio essencial para a qualidade do processo educativo, que é o reconhecimento das professoras e dos professores enquanto sujeitos centrais desse processo e o reconhecimento de todos os demais profissionais como co-responsáveis pela educação das crianças, jovens e adultos. Em síntese, significa dizer que SOMOS TODOS EDUCADORES.

Esta luta sustenta-se em princípios éticos sólidos e coerentes, preconizados e amparados legalmente em resoluções, pareceres e diretrizes legais estabelecidas pelo governo federal por meio do Ministério da Educação (confira em: http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=866&id=12896&option=com_content&view=article).

São estes princípios e estas diretrizes que nortearam o projeto de estatuto dos profissionais da educação elaborado coletivamente pelos trabalhadores da educação pública municipal de SBC em mais de três anos de intensas e democráticas discussões.

Continuamos no aguardo de uma resposta que demonstre, por parte do governo, avanço na compreensão e no reconhecimento do papel educativo de todos os trabalhadores da educação e no reconhecimento da importância do professor, possibilitando que todos possamos comemorar a Profissão das Profissões.

Reforçamos a convocação para o ato do dia 24 de outubro aprovado em assembleia dos trabalhadores e convocado pelo sindicato.

Parabenizamos professores e funcionários pelo Dia do Professor e pelo dia do Funcionário Público. Somos nós, trabalhadoras e trabalhadores da educação, os principais responsáveis pela educação pública de cada vez mais qualidade para as crianças, jovens, adultos e famílias de nosso município.

Por fim, na forma de um poema, encerramos com uma reflexão e um convite à ação coletiva:

 

“Sozinhos, sozinhos

Nunca estamos

Ainda que pareça

E ainda que esmoreçam

Alguns planos

 

Há sempre alguém ao lado

Que talvez não enxergamos

 

Na soma de nós dois

(Muito antes e depois)

Na soma de todos nós

Desatamos os nós

E nos multiplicamos

 

Semeamos as sementes

Mas colhemos não somente

Aquilo que plantamos

 

É preciso persistência

Unidade e resistência

Para superar os espinhos

Mas sozinhos, sozinhos

Nunca estamos

 

Com princípios e valores

Na luta nos completamos

Somos todos educadores

Educamos as nossas dores

Construindo os nossos sonhos.

Ponto Facultativo para todos: adesão surpreendente!

Do Blog Fórum da Educação SBC
A adesão ao abaixo-assinado que reivindica o ponto facultativo do dia 24 para todos os trabalhadores da educação  está sendo um sucesso! Os emails com as cópias digitalizadas não páram de chegar e está dando um trabalhão organizar e conferir tudo (rs). Isso é muito bom, pois indica que estamos em sintonia!
Pretendemos protocolar os abaixo-assinados no paço nesta segunda-feira, 20 de outubro, ao meio dia (12h). Convidamos a todos que puderem comparecer para participar da entrega.
As cópias originais podem ser entregues hoje a noite, 17 de outubro, durante a assembleia convocada pelo sindserv. A partir das 18h30 estaremos lá para participar e recolher os abaixo-assinados. É importante que todos participem também!
As escolas que ainda não encaminharam podem encaminhar cópias digitalizadas até as 9h da próxima segunda-feira.  Pedimos que repassem este email e, caso ainda não o fizeram, passem o abaixo-assinado para discussão e livre adesão de todos (pessoal do apoio, professoras, membros da gestão etc).
O direito à manifestação de pensamento e a fazer requerimentos individuais e coletivos (como  no caso de abaixo-assinados) é um direito previsto no estatuto dos funcionários públicos de nosso município, no novo estatuto da educação e, acima de tudo, é um direito previsto na Constituição Federal. Não deixe de exercer o seu direito.
Afinal,
SOMOS TODOS EDUCADORES!!!
Um abraço e até mais na assembleia!
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Fonte: http://forumdaeducacaosbc.blogspot.com.br/2014/10/ponto-facultativo-para-todos-adesao.html

Em defesa da comemoração do Dia do Professor por todos

Do blog Fórum da Educação SBC

 

O abaixo-assinado é uma ação coletiva independente de sindicato e não partidária, iniciada por cerca de 200 profissionais da educação dos mais diversos quadros de trabalhadores da educação.

É em nome desse coletivo que encaminhamos em anexo abaixo-assinado reivindicando que todos @s trabalhador@s da educação pública municipal de SBC possam fruir o ponto facultativo do dia 24 e, assim, comemorar também o Dia do Professor. Lembrando que em ocasiões semelhantes possibilitou-se que não apenas profissionais do quadro do magistério fruissem e comemorassem essa data tão importante.

É necessário refletir sobre esta questão à luz dos princípios fundantes dos Projetos Políticos-Pedagógicos das escolas em que atuamos. São estes princípios que continuam norteando nossas ações e que sustentam nossos argumentos em defesa do ponto facultativo do dia 24 para todos que trabalham na educação.

A gradativa implementação do novo estatuto da educação, aprovado pelo governo municipal apesar da ampla resistência d@s trabalhador@s da educação, tem revelado cada vez mais os retrocessos e prejuízos anteriormente denunciados, (…)

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LEIA MAIS EM: http://forumdaeducacaosbc.blogspot.com.br/2014/10/em-defesa-da-comemoracao-do-dia-do.html

Manifesto em defesa de Fábio Hideki Harano

Caverna da Pedra lascada, julho de 2014

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Fonte: http://liberdadeparahideki.org/

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Fábio Hideki Harano foi preso em São Paulo, no dia 23/06/2014, após participar da manifestação “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”. Voltando para casa ao final do ato, Hideki foi detido por agentes à paisana do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) e revistado na presença de várias pessoas. As testemunhas declararam não haver nenhum objeto ilegal em seus pertences naquele momento. Apesar disso, ele é acusado do crime inafiançável de portar um artefato explosivo. Atualmente, ele cumpre prisão preventiva na Penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, localizada na cidade de Tremembé – SP, acusado por quatro artigos do Código Penal – entre eles associação criminosa – e um artigo do Estatuto do Desarmamento.

Padre Júlio Lancelotti acompanhou o momento da revista policial de perto e declara que entre os pertences de Hideki não havia nada que pudesse ser confundido com objeto explosivo. Para ele, que é do Centro de Defesa dos Direitos Humanos “Padre Ezequiel Ramin” e da Arquidiocese de São Paulo, esta é uma acusação baseada em flagrante forjado. Em declaração à imprensa, o DEIC afirma que esta foi a primeira ação da operação “black bloc”, que busca identificar as lideranças do que a polícia nomeia como “organização criminosa”.

Diante da insatisfação popular e instabilidade política, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo optou por táticas de terror: o sufocamento das manifestações com presença ostensiva da tropa de choque e a “punição exemplar”, que desta vez recaiu sobre Fábio Hideki, estudante, trabalhador e manifestante pacífico.

Hideki, preocupado com as causas sociais, participa de protestos há vários anos. Nestas ocasiões opta por carregar cartazes e dialogar com as pessoas. Ele frequentemente dá entrevistas nas quais informa seu nome e ocupação, jamais escondendo sua identidade. Chama a atenção também por seu porte físico e por usar um capacete branco de motoqueiro, uma máscara de gás e portar vinagre, itens que adotou a partir do momento em que a repressão policial se tornou regra.

A prisão de Fábio marca mais um passo na escalada da criminalização dos movimentos sociais e populares no estado de São Paulo, constituindo uma ameaça aos direitos individuais e coletivos de livre expressão. Esta prisão é um ataque a todos os movimentos sociais. Ao prender arbitrariamente um ativista idôneo e conhecido por todos, pretende-se espalhar o medo entre as pessoas que lutam por justiça social. Não toleraremos este ataque. Lutar não é crime. Seguiremos em luta.

 

Liberdade para Hideki!
Rede de solidariedade a Fábio Hideki Harano

Assine o abaixo-assinado pela libertação de Fábio Hideki em: 

http://liberdadeparahideki.org/abaixo-assinado-pela-libertacao-imediata-de-fabio-hideki-harano/

 

 

Pictografias mensais: junho de 2014.

Caverna da Pedra Lascada, junho de 2014.

 

família

“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz” (Ferreira Gullar – Corpo a corpo com a linguagem).

 

Após umas merecidas férias, o Blog da Pedra Lascada vai retornando as suas atividades, inaugurando uma nova fase na dolorosa ação de pensar e na ainda mais dolorosa e ousada ação de tornar público o que pensamos.

Dizer o que pensa é expor e se expor. É arriscar-se ao diálogo, porque quem diz também ouve (quando não sofre ameaças, ou agressões mesmo).

Tempos difíceis estes em que os fascistas começaram a sair dos seus armários, fedendo à naftalina e bola de sebo, patrocinados pelos governos de plantão – explicitamente patrocinados pelos da velha direita e não menos diretamente pelos da nova direita encastelados no governo federal, e que insistem em tentar confundir os desavisados, reivindicando para si a – falsa – alcunha de esquerda.

Fazer dos pensamentos reflexões e das reflexões movimento é uma tarefa árdua e, como referia-se Paulo Freire em relação ao mundo, “difícil, urgente e necessária”. É uma tarefa que exige ação coletiva e pluralidade de reflexões – não dizemos pluralidade de opiniões porque, em tempos de redes sociais, todo mundo ficou vorazmente opiniático, mas de uma superficialidade nenhum pouco inédita! E ai de quem questionar publicamente o opiniático, este ardoroso estandarte do senso-comum! É cutucar e ouvir: “Respeitem a minha opinião”! Como se dissesse, meramente: “é questão de gosto, e gosto não se discute”.

Pois bem! Respeitamos sim a opinião de todo mundo e de cada um. E nos reservamos o direito de também ter opiniões mas, mais do que opiniões, desejamos construir reflexões, porque “achar que…” não é “saber que…” – e de uma coisa temos certeza: sabemos tão pouco que precisamos pensar sobre o que achamos que sabemos para então não ter apenas opinião sobre, mas ter conhecimento sobre. Sobre o que pensamos, sobre o que fazemos, sobre o que pensamos a respeito do que fazemos, sobre o que fazemos a respeito do que pensamos…

Lembrando novamente Paulo Freire: “a prática de pensar a prática é a melhor maneira de pensar certo”.

E pensar a prática é pensar a realidade, sobre a realidade, sobre os temas do cotidiano, sobre as questões conjunturais. Tarefa que requer muitas cabeças e muitos pensamentos…

Assim vamos agregando ao Blog Pedra Lascada novas ideias, novas vozes, novos seres pensantes que, embora possam ter pontos-de-vista diferentes, compartilham concepções e princípios afins.

Coragem! Apenas começamos…

 

Para comemorar a Copa, a PM de São Paulo lança bombas contra a população

Por Leonardo Sakamoto

02/07/2014

Fonte: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/07/02/para-comemorar-a-copa-a-pm-de-sao-paulo-lanca-bombas-contra-a-populacao/

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A polícia de São Paulo está aproveitando a Copa do Mundo para fazer tudo o que não faria caso estivesse sendo monitorada pela mídia e pela sociedade civil.

OK, a bem da verdade, ela faria tudo isso mesmo assim. Mas, talvez, não estaria tão à vontade quanto agora. E as repercussões de arbitrariedades iriam mais longe.

Enfim, apesar de junho já ter passado, estamos ainda nas folias de São João. E a polícia, como boa representante das tradições, trouxe as bombas.

Na noite desta terça (1), policiais lançaram bombas e dispararam balas de borracha contra pessoas que participavam de um ato/debate na praça Roosevelt, no centro da capital, sobre o direito à liberdade de expressão e pela libertação do estudante Fábio Hideki Harano e do professor Rafael Marques Lusvarghi. Ambos haviam sido presos durante um ato contra gastos da Copa e acusados de associação criminosa, incitação à violência, resistência à prisão, desacato à autoridade e porte de artefato explosivo. A polícia, contudo, não apresentou provas consistentes que embasassem as acusações até agora e a imediata soltura têm sido exigida por ativistas e defensores dos direitos humanos. A prisão também foi criticada por organizações internacionais, como a Human Rights Watch.

Como por aqui o ônus da prova é da inocência e não da culpa e mesmo quando ele é apresentado, prende-se ou lincha-se, essa situação triste infelizmente não é uma novidade.

A PM, que não contava com identificação em todas as suas fardas, revistou e anotou nomes de pessoas que participaram do ato, detiveram e agrediram advogados que estavam dando apoio ao ato e integrantes do Movimento Passe Livre, usaram de violência contra os presentes e impediram jornalistas de gravar parte da ação policial, usando para isso, de acordo com relatos dos colegas, gás de pimenta – entre outras tantas homenagens ao regime democrático.

Horas mais tarde, na madrugada desta quarta (2), a Polícia Militar disparou uma bomba de efeito moral na Vila Madalena para tentar dispersar os torcedores que transformaram as noites do bairro em balada durante a Copa. Entendo as dificuldades vividas pelos moradores e trabalhadores da região com os festejos que estão reunindo dezenas de milhares de pessoas sem que haja estrutura para recebê-los. Mas, definitivamente, não é com bomba de efeito moral que isso se resolve.

A polícia tem que ser mais fria que o cidadão em qualquer circunstância. Se a sua missão for garantir a segurança de todos, ela deveria cumprir isso evitando confrontos. Engolindo mais sapos se for necessário, afinal ela não está em guerra com a sua própria gente. Muito menos em uma competição para ver quem tem mais poder. Porque isso já deveria ser claro: não é ela, mas o povo.

E, para isso, a polícia tem que estar preparada, principalmente psicologicamente. Mas não está.

Não, policiais não são monstros alterados por radiação após testes nucleares em um atol francês no Pacífico. Não é da natureza das pessoas que decidem vestir farda (por opção ou falta dela) tornarem-se violentos. Elas aprendem. Através das ordens questionáveis que recebem de gestores públicos, no cotidiano da instituição a que pertencem (e sua herança mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter o status quo.

Investido de poder para cumprir essa missão, o policial aprende a não ser contrariado ou atacado. Sentiu-se desautorizado em um ato. Manda bomba. Viu rojões sendo jogados em sua direção. Manda bomba. Foi hostilizado por dependentes químicos? Manda bomba.

O problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma revisão sobre o papel e os métodos da polícia em nossa sociedade. Setores da polícia estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não cumpram as regras. Outra parte sabe que a mesma sociedade está pouco se lixando para eles e suas famílias, pagando salários ridículos e cobrando para que se sacrifiquem em nome da “ordem”.

Parte da população apoia esse tipo de comportamento policial. Gosta de se enganar e acha que se sente mais segura com o Estado agindo dessa forma. Essas pessoas são seguidoras da doutrina: “se você apanhou da polícia, é porque alguma culpa tem”.

E se não se importam com inocentes que apanham ou são mandados para a cadeia, imagine então com quem é culpado. Para eles, é pena de morte e depois derrubar a casa e salgar o terreno onde a pessoa nasceu, além de esterilizar a mãe para que não gere outro meliante.

Enfim, mais do que um país sem memória e sem Justiça, temos diante de nós um Brasil conivente com a violência como principal instrumento de ação policial.

Não raro, quando critico ações policiais, páginas que defendem a corporação me prometem sessões de tortura e outros afagos. Não conseguem separar uma crítica à forma com a qual a polícia age e a necessidade de existir uma polícia treinada, capacitada e bem remunerada para fazer frente às demandas da sociedade.

Eu estou torcendo para que as imagens da praça Roosevelt e da Vila Madalena corram o mundo. Como disse um amigo, quem sabe se tornando a PM mais conhecida internacionalmente pela parte negativa de seus feitos, não faz com que ela seja repensada.

Em tempo: Tudo o que aconteceu entre terça e quarta é culpa dos malditos fãs desse teatro de pão e circo esportivo que distrai as massas e faz com que esqueçam de sua capacidade de mobilização, criando um vácuo de consciência e aprofundando a alienação com a ajuda dos interesses de corporações transnacionais, no sentido de nos transformar em gado ruminante, satisfeitos com migalhas que caem da mesa do banquete do grande capital global para o qual não fomos convidados?

Putz… (suspiro). Menos, por favor. Detesto essa mania de querer encontrar culpados onde eles não estão. Entendo a frustração de quem se dedica a uma causa importante. Mas esse tipo de discurso, que aparece aqui e ali no desespero, acaba por transferir a responsabilidade para longe do poder público.

Nos últimos 13 anos, trabalhei contra a escravidão contemporânea praticamente todos os dias. E mesmo diante da inação coletiva frente a uma das mais violentas formas de exploração do ser humano, nunca abri a boca para reclamar que havia gente gozando de seu tempo para outra coisa quando poderia estar ajudando. Não é assim que se convence o outro de nada.

Nem sempre as pessoas podem ou querem estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Afinal, elas perdem entes queridos, ficam doentes, tem problemas pessoais. Ou simplesmente estavam assistindo a um jogo.

Tenho lido reclamações na rede e visto discussões fratricidas que não contribuem em nada para o reestabelecimento da dignidade perdida. Pelo contrário, só ajudam quem não tem interesse em garantir direitos.

O que me leva a reforçar algo sempre esquecido: muitas causas são válidas e não apenas as que tomamos para nós mesmos.