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Análise crítica: “Reflexões Sobre o Multiculturalismo na Escola e na Formação Docente, de Canen & Moreira – Parte 2

Ainda que se valendo de categorias questionáveis como pós-modernismo – ideologia especifica do neoliberalismo (CHAUÍ apud FRIGOTTO, 1995: 79), no campo da esquerda –  e de uma suposta superação do conceito marxista de cultura, Canen e Moreira não negam o papel dos conflitos e das relações de poder no seio da sociedade, ao contrário, os realçam, afinal, não pode haver “educação multicultural separada dos contextos das lutas de grupos culturalmente dominados, que buscam modificar, por meio de suas ações, a lógica pela qual, na sociedade, os significados são atribuídos.” Aliás, para eles, “a educação multicultural não é uma concessão, mas sim o resultado de lutas iniciadas no âmbito de movimentos sociais e populares visando a uma participação mais igualitária na vida social e cultural”. Continuar lendo Análise crítica: “Reflexões Sobre o Multiculturalismo na Escola e na Formação Docente, de Canen & Moreira – Parte 2

Análise crítica: “Reflexões Sobre o Multiculturalismo na Escola e na Formação Docente”, de Canen & Moreira – Parte 1

NOTA DA PEDRA LASCADA:  A resenha que seguirá aqui em quatro partes foi escrita em 2005 como um trabalho de análise crítica para a disciplina Formação de Equipe Escolar, do curso de Pedagogia do Centro Universitário Fundação Santo André. Reencontrei-a em meio a arquivos que estava reorganizando e resolvi compartilhar, pois resgata uma polêmica que mantenho com o conceito de pós-modernismo – polêmica esta que inspirou, por ironia proposital, o anacrônico nome deste Blog – Pedra Lascada. Autorizo a reprodução total ou parcial do mesmo para fins não comerciais, desde que devidamente citada a fonte e a autoria. [M.S.] Continuar lendo Análise crítica: “Reflexões Sobre o Multiculturalismo na Escola e na Formação Docente”, de Canen & Moreira – Parte 1

“Os Subterrâneos da liberdade 1: os ásperos tempos”, de Jorge Amado

Nota da Pedra Lascada  Por meio da constituição de personagens marcantes e de uma narrativa fluente – aliás, esta sendo certamente uma das características do autor -, Jorge Amado recria o período histórico denominado Estado Novo. Para ilustrar, em lembrança ao Dia do Trabalhador e ao contexto sindical – mundialmente falando, claro, claro! – não encontro nada mais significativo do que os trechos a seguir. Boa leitura e, se possível, leia o Romance todo!

*

“Lucas aproximou o rosto, Eusébio disse:

– Alto funcionário do Ministério do Trabalho. Sou um dos encarregados da questão sindical. E preciso de gente boa para ajudar. Homens de coragem e decididos, capazes de enfrentar e liquidar os comunistas nos sindicatos. Compreende? Precisamos de dirigentes sindicais, de funcionários do ministério que tomem conta dos sindicatos e façam deles traqnuilas associações de trabalhadores em vez de ninhos de agitação social. Se você quiser vir trabalhar comigo…

– É claro que quero. Um conto de réis, você disse?

– Pra começar, meu caro. E, se você se mostar correto, eu lhe ensino como se pode ganhar muito mais. – Baixava a voz: – Há os institutos dos Industriários, dos Comerciários, a Caixa da Aposentadoria e Pensões… Mamatas, meu velho, cada mamata que é só deixar o leite escorrer…” [p.101].

**

“Trabalhando desde 1930 no ministério, agindo nos sindicatos, Eusébio se tornara um técnico daquilo que chamavam nos meios governamentais a ‘política trabalhista’. Viera a São Paulo com importante missão: devia preparar o terreno para a visita de Vargas, alguns dias depois do golpe, ao centro da oposição ao seu governo. Essa visita devia ser realizada a convite dos trabalhadores e culminar numa grandiosa manifestação ao ditador que pronunciaria então um discurso fixando os rumos da política social do novo regime, a “conciliação de classes”, a harmonia entre o capital e o trabalho. Essa manifestação seria uma advertência aos políticos inimigos do regime, serviria para ampliar a base social do governo, golpearia também a agitação comunista.

Mesmo antes do golpe, Eusébio vivia numa atividade febril, entrevistando-se com personalidades da polícia, com integralistas, com os agentes do ministério no seio dos sindicatos, mantendo ligações com proprietários de fábrica e com os americanos da Ligth. A emissão radiofônica, nessa primeira noite do novo regime, deveria lançar a ideia da manifestação. Falariam aos “representantes” das classes trabalhadoras dando seu apoio ao Estado Novo e convidando Getúlio a visitar São Paulo para receber a prova da sua solidariedade. Lucas falaria pelos comerciários, um ex-empregado de uma fábrica têxtil, espião durante uma greve e atual investigador da polícia, pelos têxteis, agentes ministeriais por outros ramos de indústrias.

Lucas soubera nesses poucos dias torna-se indispensável a Eusébio Lima. Não fora ele quem resolvera a maior dificuldade da manifestação projetada? O temor de Eusébio era que os operários não comparecessem. Com os americanos e com os patrões de diversas empresas acertara já a paralisação dos trabalhos no dia da manifestação , e contava com os integralistas, os investigadores de polícia, os funcionários do ministério para fazer número, para dirigir os aplausos, para gritar: “Viva Getúlio!”. Mas, se os trabalhadores, no inesperado feriado, em vez de irem à manifestação fossem descansar em suas casas? A manifestação pouco significaria, pouco resultado político teria, se os trabalhadores não comparecessem. Foi Lucas quem sugeriu:

– E se a gente fizer a coisa num estádio de futebol, com uma boa partida entre dois clubes populares, após os discursos? Vai encher completamente, todo mundo irá para assistir à partida de futebol…

– Isso é uma ideia-mãe. Um time do Rio, outro de São Paulo. Seu Lucas, você deu com a coisa… – E Eusébio Lima acrescentou, num entusiasmo: – Vou lhe recomendar pessoalmente ao doutor Getúlio. Você vai longe…

Quando finalmente terminou o seu discurso, Lucas o leu em voz alta. Manuela voltara e, sentada numa cadeira, escutava o irmão, uma admirativa ternura no olhar. Quando ele concluiu, ela lhe perguntou:

– Ele é mesmo bom assim, esse Getúlio Vargas? Merece tanto elogio?

– Bom ou ruim eu sei lá… O que sei é que com ele eu vou subir. Agora, Manuela, ele manda sozinho, faz o que quer e o que bem entende, compreende? E Eusébio me prometeu que ia me recomendar a ele pessoalmente… Ou tu pensas que eu vou querer ficar nesse conto e réis por mês no ministério…” [pp. 133, 134]

***

Fonte: Os subterrâneos da liberdade: os ásperos tempos. – São Paulo: Companhia das letras, 2011.

A polêmica em torno de “No Caminho com Maiakovski”

Nota da Pedra Lascada (revisitando velhas polêmicas): O texto seguinte foi integralmente extraído do sítio http://www.jornaldepoesia.jor.br/autoria1.html, e é de autoria de Soares Feitosa. Trata-se da polêmica em torno do poema “No Caminho, com Maiakovski”, o qual muitos atribuem ao próprio poeta russo (hoje em dia não acontece tanto, mas quem o recitando não o tenha atribuído, que atire a primeira bala de goma). Confira!

Por Soares Feitosa


 No caminho com Maiakóvski, que não é de Maiakóvski, mas teria parentesco com Martin Niemöller, um pastor luterano, mas é de Eduardo Alves da Costa.

 A primeira vez que li o belo texto de Eduardo Alves da Costa foi numa gramática da língua portuguesa. Gostei. Muito! Copiei-o imediatamente no Jornal de Poesia. O que se conhece de Internet e livros didáticos é apenas um fragmento, mas tão forte, tão belo e independente que pode ser lido escoteiro como se fora um poema independente que, a rigor, é.

Eis o fragmento de Eduardo Alves da Costa:

 No caminho com Maiakóvski

“[…]

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[…]”

Prometo-lhes publicar o poema inteiro. Minha amiga Maria do Carmo Ferreira, acho que ela o tem. Agora lhes falo de um outro poema, a rigor um trecho de sermão, ou prédica, de um pastor luterano, alemão, da época do nazismo,  Martin Niemöller, ao que parece de 1933 (o poema). Encontrei, via www.google.com, os seguintes textos:

1º) Zuerst kamen sie für die Kommunisten, und ich war nicht Kommunist, und da hab ich nichts gesagt und nichts getan, und dann kamen sie für die Gewerkschaftler, und ich war kein Gewerkschaftler,und sie kamen für die Sozialdemokraten, und sie kamen für die Katholiken, und sie kamen für die Juden, und ich war keiner von denen, und dann kamen sie für mich, und da war keiner mehr, der schreien konnte. 2º) Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar.
3º) Quand ils sont venus chercher les communistes, je n’ai pas bougé : je ne suis pas communiste. Alors, ils sont venus pour les syndicalistes et je n’étais pas syndicaliste; Et ils vinrent pour les Sociaux-Démocrates, et ils vinrent pour les catholiques, et ils vinrent pour les juifs, je n’étais aucun de ceux-là; Quand ils sont venus pour moi, il n’y avait plus personne pour faire le cercueil. 4º) First they came for the Communists, and I didn’t speak up, because I wasn’t a Communist. Then they came for the Jews, and I didn’t speak up, because I wasn’t a Jew. Then they came for the Catholics, and I didn’t speak up, because I was a Protestant. Then they came for me, and by that time there was no one left to speak up for me.

 Não entendo que o belíssimo poema de Eduardo Alves da Costa seja plágio de maneira alguma. Da mesma forma que A raposa e as uvas, de La Fontaine, não é plágio de Fedro, nem este plagia a Esopo. Todos visitam o tema, inclusive eu, em Psi, a Penúltima.

Como é que diz o velho Esclesiastes? Não há nada de novo sob o Sol, coisa assim. Parece que não há mesmo. O importante, certamente, é a recriação, a re-escritura, atualizando o tema ao hic et nunc – ao aqui e agora.

Consta que Brecht também teria visitado o texto de Niemöller. Maiakóvski, não. Morto Maiakóvski em 1930, é até admissível que seja o contrário, Niemöller é que teria visitado o poeta russo. Mas, a rigor, toda a confusão com o nome de Maiakóvski, no poema de Eduardo Alves da Costa, decorreu, ao que parece, do título do poema –  No caminho com Maiakóvski, que é também o título do livro em que foi publicado. Em suma, nem o russo visitou o alemão, nem o alemão teria visitado o russo. E Brecht? Estou procurando. Quem souber, por favor! Há este fragmento que guarda um certo parentesco:

 “Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural
Diante dos acontecimentos de cada dia,
Numa época em que corre o sangue
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
A fim de que nada passe por imutável.”
 

Bastante no rumo, não?

O poeta Eduardo Alves da Costa garante que  Maiakóvski nada tem a ver com o tema, assim noticia a Folha de São Paulo, edição de 20.9.2003, na íntegra:

 “Um Maiakóvski no caminho

Foi resolvida graças à novela das oito uma confusão de 30 anos. Escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, 67, o poema “No Caminho, com Maiakóvski” era (quase) sempre creditado ao russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930).
Em “Mulheres Apaixonadas”, Helena (Christiane Torloni) leu um trecho do poema, dando o crédito correto. Foi o suficiente para reavivar a polêmica -resolvida dois capítulos depois, em que a autoria de Costa foi reafirmada- e, de quebra, fazer surgir uma proposta de reeditar o poema, para aproveitar a exposição no horário nobre.
Livro combinado, a noite de autógrafos será na novela. “Pedi que apresse e me mande até o dia 10. Quero lançar aqui”, diz Manoel Carlos, autor de “Mulheres”. Eduardo Alves da Costa falou à coluna: 

Folha – Você se arrepende de ter posto Maiakóvski no título?
Eduardo Alves da Costa –
De maneira nenhuma! Tanto que vou usar o mesmo título para o livro que sai agora.

Folha – Durante mais de 30 anos acreditaram que o poema era dele. Isso não o incomoda?
Costa –
Era uma enxurrada muito grande. Saiu em jornais com crédito para Maiakóvski. Fizeram até camisetas na época das Diretas-Já. Virou símbolo da luta contra o regime militar.

Folha – Como surgiu o engano?
Costa –
O poema saiu em jornais universitários, nos anos 70. O psicanalista Roberto Freire incluiu em um livro dele e deu crédito ao russo e me colocou como tradutor. Mas já encomendei da França a obra completa do Maiakóvski. Quando alguém me questionar, entrego os cinco volumes e mando achar o poema lá.

“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada” Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa atribuído ao russo Vladimir Maiakóvski.  

Olhai os Lírios do Campo

Publicado em 1938, este é um dos livros cuja leitura, desde os quatorze anos, sempre retomo e nunca me canso, porque parece que sempre encontro algo que eu não tinha visto antes, e o que antes havia visto reveste-se de uma novidade possibilitada pelo olhar apurado no tempo (= eufemismo para envelhecimento do leitor), ou pelo distanciamento da história – esta sim nunca envelhece. Trata-se de um romance sem igual, com personagens de uma humanidade extrema, marcantes, e uma história de encher-nos ora de raiva, ora de comoção. Apesar da ideia de redenção, presentíssima na narrativa, vale cada minuto que passamos percorrendo as entranhas deste livro e mergulhando no mundo de Eugênio e Olívia, cujos caminhos se encontram e desencontram, conforme as opções que vão tomando a partir das realidades com que vão se defrontando. Penso que neste romance Érico Veríssimo contrapõe a ideia de culpa pela idéia de responsabilidade, que é a parcela que cada um carrega a todo momento da vida.

As Vinhas da Ira

As Vinhas da IraO livro representa o confronto entre indivíduo e sociedade, através da epopéia da família Joad, expulsa pela seca dos campos de algodão de Oklahoma, para tentar a sobrevivência como bóias-frias nas plantações de frutas do Vale de Salinas, na Califórnia. Steinbeck retratou a situação do homem moderno diante das dificuldades, a pobreza e a privação em um universo feroz, protagonizado por vítimas da competição e párias sociais. O autor exibe na vida e na arte paradoxos, provocados pela tensão entre instinto e mente, natureza e história, a civilização e seus descontentes. ‘As vinhas da ira’ é a prova de que homens em lugares e situações comuns podem ser tocados pela intenção épica e conduzidos à imortalidade.

Ensaio Sobre a Cegueira

Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma “treva branca” que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.
O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Páginas: 312
Formato: 14.00 x 21.00 cm
Peso: 0.38800 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 25/10/1995
ISBN: 9788571644953
Selo: Companhia das Letras
 

O Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita em Crianças de 0 a 5 anos

Autores: Stela Miller, Suely Amaral Mello
Formato: 11 x 17 cm, 52 páginas
ISBN: 978-85-61379-12-4

A educação infantil pode contribuir para a formação do leitor e produtor de textos? Como fazer isso sem sacrificar o direito das crianças à infância? Como formar as bases orientadoras do processo de aprendizagem da escrita e da leitura considerando a forma específica como as crianças aprendem até os seis anos de idade, ou seja, como formar a necessidade de ler e escrever nas crianças sem “dar aulas” sobre a leitura e a escrita? O texto “O desenvolvimento da linguagem oral e escrita”, de Stela Miller e Suely Amaral Mello, discute essas questões e apresenta exemplos de atividades voltadas para o favorecimento da expressão na criança, um aspecto importante em sua formação, porque, como afirmam as autoras, “A expressão precisa […] ser cultivada ao longo do processo de ensino e de aprendizagem, pois, ao estimular a expressão das crianças, estaremos, ao mesmo tempo, provocando a expressão daquilo que foi aprendido, assimilado, apropriado e criando melhores condições para seu processo de humanização.

Onde encontrar: http://www.proinfantieditora.com.br/produto.php?id=121

Ser estúpido…

De Ethan Hawley, no romance “O Inverno da Nossa Desesperança” (John Steinbeck):

“Às vezes, é bastante divertido a gente mostrar-se estúpido, como as crianças que brincam de estátua e morrem de rir. Às vezes, também, ser-se estúpido quebra a rotina da vida, fazendo com que a gente prossiga num novo ritmo. Quando me sinto perturbardo, entrego-me a alguma brincadeira idiota, para que a minha querida não perceba o que se passa comigo.”

O constrangedor “Cândido”, de Voltaire

Já afirmei, em algum momento, que “Viver para Contar”, de Gabriel García Márquez, foi o primeiro livro que eu tive peso na consciência ao ler, por motivos de foro íntimo que obviamente não publicarei nem sob ameaça da fogueira da Santa (diabólica) Inquisição, ou da nefasta polícia política de José Serra, o Zé Alagão. Já o “Cândido”, de Voltaire, foi responsável por alguns dos episódios mais constrangedores que experimentei ao ler um livro.

À época, andava muito de ônibus e sempre carregava comigo nem que fosse bula de remédio para passar o tempo entre a longa espera dos coletivos e o prolongado tempo da viagem porque, como sabemos, via de regra o trânsito vive congestionado e, além de enlatados e espremidos como sardinhas, vamos menos que à velocidade das galinhas.
 
Ocorreu-me que, numa dessas viagens, coletivo lotado e “Cândido” à mão, e já advertido por um amigo de que seria uma leitura muito interessante, passei às vias de fato. Logo nas primeiras páginas, tive um incontrolável acesso de riso. Esforçava-me por manter senão a etiqueta, ao menos a compostura, mas era inútil tapar a boca, posto que os olhos lacrimejavam de tanto que eu ria, a ponto de as pessoas voltarem-se para mim e cochicharem algo entre elas.
 
Fato semelhante a este, mas menos intenso, se deu certa feita em que eu lia um conto de Carlos Drummond de Andrade, também num ônibus, e carregava material escolar de um guri (quem lê Drummond, conhece a veia irônica e humorística deste autor, e  o conto era justamente acerca de uma situação supostamente vivenciada por ele, em um bonde, ao se oferecer para carregar o material de um escolar).
 
Não sei se hoje eu leria com os mesmos olhos e com a mesma predisposição para a “risotonia aguda gargalhal”* (até porque a ocasião é diferente), ou se outras pessoas teriam reação parecida, mas recomendo sempre este livro, claro! Na apresentação do livro, Nelson Jahr Garcia nós dá bons motivos para ler “Cândido”. Veja:
 

     “Cândido” é uma das obras mais conhecidas de Voltaire.
     O texto contrapõe ingenuidade e esperteza, desprendimento e ganância, caridade e egoísmo, delicadeza e violência, amor e ódio. Tudo isso mesclado com discussões filosóficas sobre causas e efeitos, razão suficiente, ética.
     Como sempre Voltaire expõe suas concepções com fina ironia, sem abandonar o sarcasmo de quando em vez. O romance, em todos e cada um dos seus parágrafos, caracteriza-se como uma sátira às idéias de Leibnitz.
     Leibnitz afirmara, pelo menos assim entendeu Voltaire, que o mundo é o melhor possível, que Deus não poderia ter construído outro e que tudo corria às mil maravilhas.
     Voltaire não podia partilhar dessa mesma visão otimista, suas idéias tinham resultado em prisões e perseguições a tal ponto que, por volta de 1753, já não podia fixar-se, sem risco, em lugar algum da Europa.
     Cândido foi expulso de onde morava, foi preso e torturado, perdeu sua amada, seus melhores amigos; em todos os casos com requintes de crueldade. Mas a cada um desses fatos, meditava sobre como explicar o melhor dos mundos possíveis, sempre com deboche mais ou menos sutil.
     Como é peculiar a todos os seus trabalhos,o filósofo também criticou acidamente os costumes, a cultura, as artes.
     Sobre as relações entre sexos, uma passagem merece ser mencionada:

     “Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor Pangloss que estava dando uma lição de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a senhorita Cunegundes tivesse grande inclinação para as ciências, observou, sem respirar, as repetidas experiências de que foi testemunha; viu com toda a clareza a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sábia, e pensando que bem poderia ela ser a razão suficiente do jovem Cândido, o qual também podia ser a sua.”

     Nem mesmo as falcatruas das manufaturas européias ficaram esquecidas:

     “…levou-o para casa, limpou-o, deu-lhe pão e cerveja, presenteou-o com dois florins, e até quis ensinar-lhe a trabalhar na sua manufatura de tecidos da Pérsia fabricados na Holanda.”

     Sugestiva é a menção sobre a recompensa divina para o mal menor:

     “Tínhamos um imame muito devoto e compassivo, que lhes pregou um belo sermão, persuadindo-os a que não nos matassem.
     — Cortai – disse ele – apenas uma nádega a cada uma dessas damas, e com isso vos regalareis. Se for necessário mais, tereis outro tanto daqui a alguns dias. Deus recompensará tão caridosa ação, e sereis socorridos.”

     Não faltou a referência à relação entre exploradores e explorados, e à hipocrisia dos poderosos.

     “Já estiveste então no Paraguai? – indagou Cândido.
     — É verdade. Servi de fâmulo no colégio de Assunção, e conheço o governo dos Padres como conheço as ruas de Cádiz. É uma coisa admirável esse governo. O reino já tem mais de trezentas léguas de diâmetro; é dividido em trinta províncias. Os padres ali têm tudo, e o povo nada; é a obra prima da razão e da justiça. Quanto a mim, não conheço nada mais divino do que os Padres, que aqui fazem guerra ao rei de Espanha e ao rei de Portugal, e que na Europa confessam esses reis; que aqui matam espanhóis e em Madrid os mandam para o céu: isto me encanta.”

     E com que graça se refere à simplicidade da riqueza e do luxo:

     “Entraram numa casa muito simples, pois a porta era apenas de prata e as salas modestamente revestidas de ouro, mas tudo trabalhado com tanto gosto que nada ficavam a dever aos mais ricos lambris. A antecâmara, na verdade, era incrustada somente de esmeraldas e rubis; mas a harmonia do conjunto compensava de sobra essa extrema simplicidade.”

     O respeitabilíssimo Homero não escapou das farpas:

     “Cândido, ao ver um Homero magnificamente encadernado, elogiou o ilustríssimo quanto ao seu bom gosto.
     — Eis – disse ele – um livro que fazia as delícias do grande Pangloss, o maior filósofo da Alemanha.
     — Pois não faz as minhas – disse friamente Pococurante. – Fizeram-me acreditar outrora que eu sentia prazer em lê-lo; mas essa repetição contínua de combates que todos se assemelham, esses deuses que agem sempre para nada fazer de decisivo, essa Helena que é o motivo da guerra e que mal entra na peça; essa Tróia que cercam e não tomam, tudo isso me causava um mortal aborrecimento. Perguntei a eruditos se eles se aborreciam tanto quanto eu nessa leitura. Os que eram sinceros confessaram-me que o livro lhes tombava das mãos, mas que sempre era preciso tê-lo na biblioteca, como um monumento da Antigüidade, é como essas moedas enferrujadas que não podem circular.”

     Foi nesse romance que Voltaire escreveu uma de suas mais célebres frases. Após ouvir uma breve dissertação sobre o perigo das grandezas, que todos os acontecimentos estavam devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis, que todo o sofrimento de Cândido acabara por reverter em benefícios, Cândido, candidamente, respondeu:

     “— Tudo isso está bem dito… mas devemos cultivar nosso jardim.”

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* Peguei esta expressão (“risotonia aguda gargalhal”) emprestada de um conto chamado “O Servidor Público”, de Pita Neiva, que coincidentemente encontrei agora pouco na internet. É curtinho, mas bem elaborado. Leia você mesmo: http://66.228.120.252/contossurreais/1488832  
 
P.s: entra no sítio Dominio Público e faz o download do “Cândido”.
 
P.s. de novo: sobre o otimismo, leia também o interessante artigo “Esse Nosso Cérebro Otimista”, de autoria do Professor Roberto Lent, em http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bilhoes-de-neuronios/este-nosso-cerebro-otimista