Variáveis

Entre aquilo que a gente
Deseja que seja
E aquilo que acontece,
Ou permanece...

Entre os sonhos e as sinas;
Entre os fatos e os atos
E alguns retratos...

Entre as posses
E as possibilidades;
Entre as passagens
E as nossas viagens...

Entre as quadras,
As quadrinhas,
A quadrilha do poeta
(e etecétera)...

Entre as distâncias
E lembranças
De nada que foi
De tudo que não será...

Alimentamos
- eu em ti,
você em mim –
um jogo sem fim:

Nem não, nem sim.

[M.S]

O Proletário e o Sonho

Há um muro de concreto entre o céu e a Terra

Sonhando ser o teto uma saída
O camarada proletário constrói sua astronave
Com sete cores e com sete chaves
Banhado pela luz da Lua e pela Luz do Sol.

Sem perceber, o camarada proletário sonha

E nuvens alvas movem-se sob os seus pés
Mas o proletário já não pode
Abaixar a cabeça e calar-se
Pois dentro dele há um ideal e um grito
Às vezes de dor, às vezes de desespero.

Sonha, camarada proletário,
Sonha, que o futuro virá!

[M.S.]

Louvor do Revolucionário

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

[Bertolt Brecht]