A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda...
(...)
Ferreira Gullar
Tag: Poesia
Na escola dos sonhos
Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi que a vida é mais que ter Aprendi que a sorte depende do que fazemos Que nem sempre o que fazemos depende de sorte Que nem sempre temos sorte. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi a olhar nas coisas mais que as coisas A olhar e a perceber pessoas, processos, histórias Aprendi a construir, mais que objetos, Possibilidades. Na escola dos sonhos em que me criaram O caminhar coletivo – eu aprendi – É opção pelo caminhar solitário Mesmo que não se queira E o sonhar é liberdade e é tristeza. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi que as escolhas são poucas Mas que há sempre uma saída Senão repentina, ao menos vindoura E o quão fugaz é a vida. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi a amar nas pessoas Além do que elas são no momento Suas potencialidades... O ser, o devir, o vir-a-ser. Na escola dos sonhos em que me criaram Na escola dos sonhos em que me criei Na escola dos sonhos que eu criei Há uma vaga, há um querer Esperando você. [M.S]
Imagem em destaque: Pixabay.com
Música de fundo: Thinking Out Loud (Ed Sheeran), por Alenka & Anze
Cantada
Você é mais bonita que uma bola prateada de papel de cigarro Você é mais bonita que uma poça d'água límpida num lugar escondido Você é mais bonita que uma zebra que um filhote de onça que um Boeing 707 em pleno ar Você é mais bonita que um jardim florido em frente ao mar em Ipanema Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás de noite mais bonita que Ursula Andress que o Palácio da Alvorada mais bonita que a alvorada que o mar azul-safira da República Dominicana Olha, você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro em maio e quase tão bonita quanto a Revolução Cubana [Ferreira Gullar]
Imagem em destaque: Pexels
Em que acreditar
O que tens aí em mente - vasta ideia, semente que desabrocha em flor mas que seca ao amor? O que queres agora? - não sabes; vá embora de modo muito discreto como fogo em decreto. O que podes dizer-me - nada - fazer esquecer-me do que já vivi fingindo que morri? Que certeza é essa de simplicidade sem pressa da resolução casual nessa escuridão visual? Por que acreditar que tudo já foi dito que tudo já foi existido só falta ter sentido?... E por que acreditar na inexistência absoluta e em vã disputa que me dói o pensar? E por que, por que... Por que acreditar? [M.S.]
Três versos para três momentos únicos
1
Estava eu lá; à espera do instante
da frase perfeita
da ideia perfeita
do momento perfeito.
E isso tudo passou – perfeitamente
sem que eu percebesse...
2
À meia-luz (na penumbra)
quase posso ver seu rosto, seus olhos
e posso sentir sua respiração ofegante
não pelo cansaço (não há motivo)
mas talvez pela ansiedade
ou um desejo intenso, refreado
pelo calor das atenções
e pela supremacia da razão.
3
Ouço vozes
(vindas de não muito longe
e não muito perto)
distorcidas, intercaladas
irônicas frases ao vento
enquanto as bandeiras oscilam
despertando a fúria, a fé e a foice.
[M.S.]
Talvez
Tudo em mim se vai Tudo o que é meu E tudo o q'eu poderia ter sido Inclusive o que eu sou. De mim apenas fica Um pouco do que fui E um tanto do que serei (do que, na verdade, penso em ser) Já não tenho medo de me perder Mas 'inda me procuro a cada instante Por isso escrevo como quem joga Palavras ao vento, Conchas ao mar, Areia no deserto... Sou isso mesmo E nem mesmo sei quem sou No espelho me desconheço, As águas não me refletem, O fogo não ilumina Nem tampouco aquece. Sua voz ainda assusta Seu nome tange os signos Mas não encontro eco na memória. Todavia, persiste. Assim, a sua ausência é tão concreta: Às vezes desencontrada Outras, jamais acontecida. Talvez eu explique, Talvez não entenda, Contudo, esta é a minha vida. [M.S.]
Autopsicografia, de Fernando Pessoa
Poética do puro e do profano
I
...Às vezes escolho um beco sem saída
Mas não há sempre becos sem saída
Nem tristeza que perdure
Nem felicidade infinita.
*
"All the bridges that you burn
Come back one day to haunt you".
(Tracy Chapman)
II
Sou o operário das letras
- Imagino-me assim;
Faço com tal:
Fabrico ilusão, sonho e ideal;
Instinto? Revolução.
Sigo esta trilha
e acho que é essa a minha natureza.
*
"Everybody sing we're free, free, free".
(Tracy Chapman)
III
Procurei respostas para algumas situações...
Respostas não encontrei em frases
- encontrei-as em seus atos.
Telefonei: será que ainda alimento esperanças?
Acho que regresso ao passado e talvez seja tarde
Porém não acredito que seja - tudo mudou.
Escrevo como se depusesse em um grande julgamento:
Os versos que fiz para os meus camaradas foram sinceros;
Os versos que fiz para a minha amada foram sinceros.
Sinceros foram os versos que não ousei fazer.
Estou pensando em novas frases com velhas palavras até.
Quando preciso com urgência tudo desaparece.
Meritíssimo, não sou poeta, não sei escrever.
Pode ser que eu tenha transmitido essa imagem,
só isso,
só...
*
"Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência".
(Eduardo Alves da Costa)
IV
Tudo bem, digamos que eu seja realmente poeta.
Brincando de se passar por hermeneuta,
ou astronauta
das palavras
dos sons citados
sem ritmos, dos
fonemas, dos planos
dos filmes dos cinemas...
Pouco (ou nada) importa a esta altura.
V
Mas sou, som sim o poeta
- o poeta do apocalipse, da beira do precipício
fazendo das letras o meu
ofício
e o meu vício.
Sou a coisa podre
remoendo o treco nojento que revira o bagulho escroto
à procura do nauseabundo odor das palavras.
Sou o seu nada
o êxtase da indiferença retorcido ao nunca;
o ser misterioso que ao lhe ver passar ao seu chão
junca.
Sou o poeta
do
fim do milênio.
Vejo as casas que transmitem ideias
serem destruídas,
Vejo as casas que abrigam os mortos
serem destruídas,
Vejo a poeira se erguendo
enquanto o concreto vai caindo.
Tentei. Tanto quanto tive tempo.
Trespassando horas e toneladas.
Tudo: multiplicado pelo vazio absoluto
E, em meio a tanta magnitude,
em meio à gravidade da situação.
ainda posso ver uma criança sorrindo.
Eu sou o poeta e não o profeta.
Tenho o alfa e o ômega - o início e o fim -
não em minhas mãos
mas em minha imaginação.
*
"A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual..."
(Ferreira Gullar)
VI
Epílogo: Os corpos em chamas na noite tranquila...
As cinzas no céu, carregadas pelo vento
para repousar no mar:
Cinzas da poluição fabril
resultada da ganância febril.
*
"You in your fancy
Material world
Create in your image
A supreme god
Your virgin mary
Your holy ghost
Claimed to be purê of heart
Have hands are stained with blood"
(Tracy Chapman)
Palavras
1 – É necessário dizer Preciso dizer-te Esta noite, somente Uma palavra-chave Abrir as portas do mundo E somar cada estrela De todas as constelações E multiplicá-las por cada gotícula De água das nuvens desse inverno... Preciso dizer-te, celeste É o espaço sideral Porta e chave do Universo. Invadir, já, o planeta Da constelação de mesmo nome E alcançar um pedacinho De um sonho e de uma vida E multiplicar, multiplicar Por todas as ansiedades E por todas as esperanças... Preciso dizer-te, Aurora É mais que a luz da manhã; É pura sincronia Dos versos divinos Concretizada (em vão) Pela necessidade De efeitos naturais Para acordar os seres humanos... Estender, pois, a mão Sem luva que derrube Ao escapar, Mas estender a mão nua, Sem segredos a esconder. 2 – Perspectivas Preciso dizer-te Que já estamos sem tempo E há tempos estamos distantes. (Uma palavra em desespero percorre meus pensamentos) Preciso dizer-te Que temos, ainda, alguma chance E as alternativas foram abandonadas. (Uma voz suave alucina minha alma) Preciso dizer-te Que os planos foram queimados E, mesmo assim, lutamos.







