Abrigo

Gosto da ideia de encontros fortuitos
quando, ao cair da tarde,
o Sol já não arde
quem arde somos nós
- dois sóis

Gosto das circunstâncias inesperadas
inconscientemente desejadas
com a força de um furacão
impelidas pelo desejo
de seu beijo

Gosto de como me toca com seu olhar
quando, lançados ao mar,
navegamos por águas calmas
de nossas almas
- desnudas

Gosto, por fim, de seu sorriso
inferno e paraíso,
porto seguro no escuro,
um tesouro escondido
- meu abrigo.

[M.S]

Video-poema: No calor urbano

À noite
Quando vou à cidade
E as ruas estão descongestionadas,
Tudo parece tranquilo:
Nada demais acontece
- o que é breve fenece
o que é febre adormece
o que é surdo amortece
o que é dor o amor esquece
o que é maldição vira prece
o que é pensar arvorece...

Então, o que era egrégio ficou pouco
O que era livre ficou louco...

E os prédios não estão mais derretendo.

                                                                              [M.S.]

Subverso

Pequena notinha explicativa: Escrevi estes dias, retomando uma célebre frase de um personagem do filme “O Carteiro e o Poeta”, que o poema pertence a quem lê. É o caso deste poema, escrito sem letras iniciais maiúsculas e sem pontuações para cada leitor seguir sua própria ordem e colocar seu próprio ritmo, sua entonação pessoal e atribuir seus próprios sentidos e significados. Eu mesmo faço várias leituras dele, e cada uma com alguns sentidos diferentes. Abaixo, compartilho a minha preferida 😉

Em algum lugar do século que passou

venta
ou você inventa
encontramos os amigos parados
eles nos sorriem como fôssemos velhos 
de guerra
é preciso mais que seus sorrisos amarelos
em seus cinismos e em suas sinceridades

a cidade está só e já não podemos
com nossos bolsos
as folhas caem em cabeças ocas

meus votos, meus sentimentos

tudo o que sinto é o gosto amargo
da vitória transformada em fim de tudo
e estamos para o que der e vier

mas nada dá e nada vem

[M.S]

Dezembro

I

Eu preciso abandonar
Este louco projeto de sonhar com você
O sonho nada me diz
E você, então, se foi há tempos.

Aquela luz em torno de seu corpo
Era mera impressão
Aquele brilho em seus olhos
Era reflexos dos meus.

(Ela jamais existiu)

Eu me pergunto: como é que pode
Isso ter acontecido desta maneira?

(Está na hora de vocês agirem como adultas)

Mas tudo o que eu falei
Foram frases sombrias
Mesmo as mais bonitas
Estavam carregadas

Do desejo dos seus lábios
Ao desejo do seu corpo
Nada era o que eu queria
Apenas as desgraças

Nada se repetia
Apenas os sentimentos
E a opacidade das imagens
Que se foram...

II

Eu preciso abandonar o hermetismo
O transcendental pensar metafísico
Preocupar-me com o metal

(O concreto)

Abandonar a ociosidade
Deixar o corpo cansar
Deixar a mente esquecer...

O segredo dos seus olhos
O meu ar de que tudo está tão claro
Como se não estivéssemos à beira do milênio
Nada me dizem...

A sua falseada alegria
O meu cinismo ingênuo
Como se não estivéssemos para nascer
Nada me dizem...

O seu gesto de incompreensão
A minha suposta paciência
Como se não estivéssemos perdidos
Nada me dizem...

Nada me dizem
Mas eu é que estou surdo.


[M.S.]

Quando o tempo parou

quando o tempo parou
parei de contar os dias
as noites nuvens em fogo
em céus sem estrelas
as manhãs 
repetições de si mesmas

quando o tempo parou
os fantasmas pulsaram
uníssonos e enfeitiçados
uma mente brilhante
um corpo quente
um coração gelado

quando o tempo parou
veloz sobre os caminhos
dissipado em assombros
de mim se foi um tanto
de mim ficou um pouco
perdas penas escombros

quando o tempo parou
senti o peso do silêncio
as batidas tensas
na cabeceira da cama
o sono em fuga
os sonhos em chama

quando o tempo parou 
pairei

[M.S]


Nebulosa

(Música de fundo: Força Estranha – Instrumental – Ricardo Pachá)
I

Ela tem o mundo
- ela quis o mundo.
Mas tem o mundo nas costas
- a mãe doente e o mundo pesando
mais que unha encravada no dedão do pé.

Eu sei: ela não quis o mundo assim.
Idealizamos algo além do paraíso
E pensamos ter descoberto a fórmula
                                                 / exata
E pensamos alugar uma vida única e
                                            / sensata
Mais que as cores do arco-íris.

II

... um ateu                  ... alguém paciente
                 uma risada
... o corpo estendido, mas retraído
            não parecia o que era
            não era o que parecia
                   parecia
                     perecia
                       parceria
                         ar
                          e
                            ria
... apenas comoção, lucidez, um trovão
E a noite fria cortante
               nebulosa e cortante
constante, contanto...

III

Ela fugia das respostas
E muito mais das perguntas.
Eu, angustiando em alma derretida,
Em alma que nem acreditava existir
Por não ter confiança própria
Por esquecer que existe vida
E que o Sol ainda se põe.

Eu tinha um mundo
Um universo, reverso, inverso
                                 / ao verso
            único
              isolado
               triste
              mas indiferente
              e para mim era tudo
              e tudo era simples
Eu não queria mais nada
Desconhecia e repudiava
O que me fazia
                        pensar
Pois tinha tudo - estava certo,
                                      esperto
(esperteza não é inteligência?)
E bastava ser mais um
                                     no meio
                sempre aos cantos
                apenas mais um.

IV

Ela tem um caminho
Eu também tenho
(e às vezes uso um atalho)
E temos já a desilusão...
Sobre-humano é o esforço
           esboço de força
Pincel com tinta azul
Banhada em cera líquida branca
                   Ou melhor, alva.

E o alvo era calvo nem isso era
                              era objeto
                              objetivado
                              substanciado
                              substantivado
Próprio, incomum, excludente
                               sobrevivente
                                 impertinente
                                  não era alvo.

V

Ela tem os pés no chão
E eu a cabeça embaixo do solo
Aterrada por sufocante delírio ‘in vita’
(é estranho como as pessoas resolvem ir
e nem tanto quando vão sem avisar.
Hoje, as estrelas estão mais brilhantes
e um gatinho rola no chão ao luar.
No caminho, as flores sorriem caladas
E os mortos certamente não se levantam)

Sinto uma energia sincera me contemplar;
Nos meus passos nem uma pedra
                            nem uma gota
Somente algum pássaro cantando
                       solitário.


                                                                        [M.S.]


Imagem em destaque: montagem com foto do Google Imagens

Até onde…

longe longe longe
aonde o eco se esconde
e a brisa dissipa,
                 insípida

aonde os olhos não vêem
as mãos se tocam
e as bocas se falam

aonde os lábios se encontram
os ouvidos se encantam
e os corpos se enroscam

aonde as mentes se aquietam
os sorrisos acontecem
e as horas se esquecem

aonde estão os seus braços
- invisíveis laços
que acalentam e aquecem.