O Operário Em Construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– “Convençam-no” do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

            (Vinicius de Moraes)

Ensaios sobre financiamento público e Educação Infantil (7)

Emenda Constitucional nº01, (17 de outubro de 1969)

A Emenda Constitucional nº01/1969, a rigor, substitui a CF de 1967 e, coerente a esta, originalmente omite-se (porém não completamente) com relação à vinculação de recursos para o financiamento da educação. Em seu Artigo 15, Parágrafo 3º, alínea F, por exemplo, ao tratar da intervenção, este tipo de punição é prevista para o município “que não tiver havido aplicado, no ensino primário, em cada ano, de vinte por cento, pelo menos, da receita tributária municipal”.

Já no período de abertura política, em 1983 a vinculação de recursos é retomada, estabelecendo-se a obrigação da União aplicar “nunca menos que treze por cento, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, na manutenção e desenvolvimento do ensino”.

Ensaios sobre financiamento público e Educação Infantil (6)

Constituição da República Federativa do Brasil (24 de janeiro de 1967)

 No âmbito do discurso, afirma Kramer (2001, p. 122), o “Estado começava a manifestar sua preocupação com o caráter educativo das ações” direcionadas às crianças de 0 a 6 anos; a pré-escola era tratada, no entanto, como essencial para o sucesso da escola de “primeiro grau”.

No campo da educação, o período de ditadura militar no Brasil é marcado, de um lado, por um intenso viés privatista, e, de outro lado, pela criação de programas educacionais compensatórios e assistencialistas destinados à população de baixa renda (“Cada sistema de ensino terá, obrigatoriamente, serviços de assistência educacional que assegurem aos alunos necessitados condições de eficiência escolar” – Artigo 169, § 2º).

Assim, a Constituição de 1967, apesar de prever a obrigatoriedade e gratuidade (nos estabelecimentos oficiais) do ensino dos sete aos quatorze anos, privilegiava, nas fases posteriores ao então primeiro grau, o financiamento público do ensino privado, sob o regime de concessão de bolsas de estudo “aos que provarem falta ou insuficiência de recursos”. Como se vê, o financiamento estudantil típicos do FIES e do PROUNI não é uma invenção da moderna democracia brasileira.

No que diz respeito ao estabelecimento de mecanismos de financiamento da educação, isto é, aos critérios de aplicação de recursos, novamente a vinculação de recursos para o financiamento é suprimida da Carta Magna, corroborando com as afirmações de Guimarães (2008, p.45), segundo o qual, “historicamente, desde 1934, tivemos constituições que consignaram percentuais específicos e obrigatórios para a aplicação em educação e outras em que tais vinculações foram suprimidas (…)”.

Caverna da Pedra Lascada, Outubro de 2010

Nunca fomos de ficar em cima do muro e, embora sejamos críticos à atual política econômica, herança da onda neoliberal iniciada no Brasil por Collor, aprofundada por FHC e mantida, em essência, pelo governo Lula, não somos adeptos do “quanto pior melhor”.

Os 16 anos de PSDB em São Paulo representou, por um lado, o avanço do crime organizado e, por outro, a falência da educação e da saúde pública sob o domínio do projeto demotucano; representou o avanço das ondas neoconservadoras, fascistas, que atribuem aos pobres e aos migrantes a culpa pelo desemprego, pelo crescimento da criminalidade e pelo fracasso da educação pública.

José Serra, quando candidato a prefeito de São Paulo, assinou um documento comprometendo-se a cumprir o mandato até o final; eleito prefeito, abandonou o mandato para concorrer a governador e, eleito governador, abandonou o mandato para concorrer a presidente.

Obviamente, seu projeto não é de governo, e seu compromisso não é com as causas sociais: seu projeto é de poder – e para alcançar poder, demonstrou ser capaz de qualquer coisa, da invenção de mentiras à criação de uma rede de boatarias e difamações, até a utilização da igreja e perseguição aos que possam representar obstáculo ao seu projeto de poder.

Embora não se enrubesça ao hipocritamente acusar sua oponente, Dilma Roussef, de representar um perigo à democracia e à liberdade de expressão, é fato que os métodos de José Serra e seus aliados, inclusive a grande mídia, são os que configuram a prática do autoritarismo, da falta de diáologo, da censura à liberdade de expressão e manifestação; é assim que assistimos e vivenciamos, nas administrações demotucanas – municipais, estaduais e inclusive federal, à época de FHC- a difusão dos preconceitos e do ódio entre as classes, a repressão policial aos movimentos sociais e às manifestações dos trabalhadores.

Em São Paulo, a tática demotucana de contenção aos avanços dos direitos sociais e ao progresso econômicos dos trabalhadores acarretou, não raras vezes, lamentáveis cenas como os tiroteios entre membros da polícia civil e policiais militares, colocando em risco a vida de centenas de pessoas.As bárbaras cenas – recorrentes nestes 16 anos de governo demotucano em São Paulo – de repressão aos professores da rede pública de São Paulo, alvos de tiros de borracha, cacetadas e bombas de efeito moral, tratados assim como bandidos, também demonstram a aversão à democracia e a intolerância típica da coligação demotucana.

De um lado, criminalização dos movimentos sociais e das legítimas manifestações dos trabalhadores; de outro, a conivência com os crimes de colarinho branco através do impedimento de criação de CPIs e a ineficiência no combate – caracterizando até mesmo tolerância – ao crime organizado.

Por isso, no segundo turno, este blog apóia a candidatura de Dilma Roussef, por se contrapor à de Jossé Serra, este que é representante do que há de pior no cenário político, econômico, social, cultural e educacional brasileiro.

“A eleição de Serra será um desastre para o debate político na América Latina, significará o avanço ainda maior das privatizações, como vimos na atuação da bancada do PSDB/DEM no debate sobre o pré-sal, e uma repressão sem tréguas aos movimentos sociais, além de abrir espaço para o fundamentalismo religioso carregado de ódio e preconceito”. (Ivan Valente – Deputado Estadual PSOL/SP, reeleito).

“Reconhecemos em Dilma Rousseff a candidatura mais qualificada e entendemos como injunção deste momento, em que oficialmente o confronto se abre, a clara definição da nossa preferência. Nada inventamos: é da praxe da mídia mais desenvolvida do mundo tomar partido na ocasião certa, sem implicar postura ideológica ou partidária. Nunca deixamos, dentro da nossa visão, de apontar as falhas do governo Lula. Na política ambiental. Na política econômica, no que diz respeito, entre outros aspectos, aos juros manobrados pelo Banco Central. Na política social, que poderia ter sido bem mais ousada” (Mino Carta, em Editorial da Revista Carta Capital, justificando o apoio desta Revista à candidatura de Dilma Roussef).

Ensaios Sobre Financiamento Público e Educação Infantil (5)

Constituição dos Estados Unidos do Brasil (18 de setembro de 1946)

A Constituição de 1946 marca o fim do Estado Novo e, por conseguinte, o retorno ao regime democrático, garantindo a liberdade de pensamento, de manifestação política e restabelecendo o pluripartidarismo.

No quesito educacional, a Constituição de 46 restabelece a gratuidade do ensino, sem a obrigação (ao menos no corpo da lei) do pagamento de taxas e contribuições e retoma o mecanismo da vinculação dos recursos, ao estabelecer que “Anualmente, a União aplicará nunca menos de dez por cento, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino” (Art. 169).

Num período dominado pelo efervescente confronto entre “privatistas e publicistas”, é a iniciativa privada quem, segundo Kramer (op. cit.) continua dando os rumos da educação.

A Constituição de 1946, embora represente um avanço em relação à anterior, inclusive restabelecendo o mecanismo da vinculação de recursos para a educação (Artigo 169), estabelece a obrigatoriedade e gratuidade (nos estabelecimentos oficias) do ensino primário, mas define como gratuito o ensino secundário somente aos que comprovadamente não puderem pagar por ele.

Sendo o que atualmente poderíamos considerar como um indício da política de progressiva transferência de responsabilidade às esferas municipais (o que eclodiria, a partir da década de 1990, em movimentos de municipalizações generalizadas do ensino – fundamental), adotada historicamente – e via de regra – pelos consecutivos governos federais, o restabelecimento do mecanismo do financiamento, apresentou uma alteração em relação à Constituição de 1934:

        “Art 169 – Anualmente, a União aplicará nunca menos de dez por cento, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino”.

Os sofrimentos do jovem Wilhelm

Por Vinicius Canhoto

Caro Werther, inquieta-me o coração receber tuas aflições por meio das cartas que chegam às minhas mãos, cada vez mais trêmulas, a cada chegada do carteiro. Sofro por ti, por mim, por nós ao ler nas tuas palavras que a cada dia morres mais um pouco. No entanto, por mais que me fales em tirar-te a própria vida, é justamente a vida que te tiras dela.

Meu amigo, embora os livros de História digam que a Idade dos Metais ficou na pré-História, te digo que ainda estamos na pré-História e que a Idade dos Metais ainda segue. Vivemos a Idade do Ouro de Tolo, ou melhor, a Idade do Ouro dos Tolos e, por isso, artistas em nosso convívio perecem. Nesta Idade, na nossa idade, os sonhos logo se vão.

Vejo-te sonhando, despertando, nascendo, morrendo e ressuscitando, mas não sei até quando.

Amo-te mais por saber que estás amando, que aprendeste a amar, que descobriste o maior drama dos nossos dias: o amor; e que descobriste, também, o mal do nosso século: a solidão.

Teus sofrimentos, tuas angústias, teus anseios, teus desejos, teus ideais, tua Carlota, provam-me tua face humana entre a desumanidade da humanidade.

Perdoe-me a liberdade de dizer “tua” Carlota ainda que esta não te pertença. Todavia, pertencerá alguém a alguém? Estou pendente a crer, como tu, que ninguém é de ninguém. E, de vez em quando, encontro-me dizendo que pertenço tão pouco a mim mesmo.

Sinto que estás a meio passo: a meio passo do começo ou a meio passo do fim. Mas não é disso que se trata o amor? E a vida? Este espetáculo hediondo em que há circo, mas falta pão. Sinto que tu queres tirar a vida que a vida tiras de ti.

Como teu amigo, meu amigo, não me cabe julgar tuas atitudes, apenas buscar compreender tuas razões (embora cada vez mais não encontre razões no amor) para quando estiveres caminhando não caminhes sozinho, para quando estiveres caminhando não caminhes em silêncio; porque teu caminho é tua solidão; porque teu caminho é tua salvação; porque teu caminho é o que te manténs vivo; e apenas cabe-me estar ao teu lado.

Em Weimar o final de tarde de outono deve ser tão belo e triste quanto o daqui.  

***

Nota da Pedra Lascada (escrita na entrada da caverna, sob a luz da lua): Assaltamos este belo e trágico conto do blog do escritor Vinicius Canhoto. Quem quiser conferir diretamente, acesse http://infernoriscadoagiz.wordpress.com, que encontrará mais contos, tão bons quanto este.

A Infanticida Maria Farrar

Maria Farrar, nascida em Abril,

menor, sem sinais particulares, raquítica, orfã,

sem qualquer condenação anterior, ao que se julga,

é acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma:

Conta ela que já no segundo mês

em casa de uma mulher, num sótão,

tentou expulsá-lo com duas injecções

dolorosas, como se calcula, mas não saiu.

*

Não se indignem por favor,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Assegura contudo, ter pago de imediato

o estipulado, ter continuado a apertar a cintura,

ter também tomado aguardente com pimenta moída,

o que apenas serviu de forte purgante.

O corpo estava inchado e sentia também

dores frequentes quando lavava os pratos.

Estava ainda em idade de crescer, segundo ela própria dizia.

Rezou à Virgem Maria com muita fé.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

As orações, ao que parece, não serviram de nada.

Pedia-se demasiado. Quando já estava mais cheia

sentia vertigens durante a missa. Suava muito.

E também suava de medo, com frequência, diante do altar.

Mas fez segredo sobre o seu estado

até ser surpreendida pelo nascimento.

Isto resultou, pois ninguém pensava

que ela, tão pouco atraente, pudesse ser presa de tentação.

*

E também a vós, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Nesse dia, diz, bem cedinho,

estando a limpar as escadas, sentiu como que umas unhas

a arranhar-lhe o ventre. A dor

sacudia-a, mas conseguiu manter-se calada.

Todo o dia, enquanto estendia a roupa que lavou,

pensou e tornou a pensar, até se dar conta,

de coração apertado, que tinha mesmo que parir.

Só tarde subiu para o quarto.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Quando estava deitada, vieram chamá-la;

tinha nevado e teve que varrer.

O trabalho durou até às onze. Foi um dia bem longo

Só pela madrugada pôde parir em paz.

Conta ela que pariu um filho.

O filho era igual aos outros filhos.

Mas ela não era como as outras, embora…

Não há motivo para brincadeiras.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Assim, pois, deixemo-la contar

o que sucedeu com este filho

(diz ela que não quer esconder nada)

para que se veja como somos.

Diz que ficou pouco tempo na cama

angustiada e sózinha;

sem saber o que aconteceria a seguir

obrigou-se a conter com esforço os gritos.

*

A vós também, peço que não se indignem

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Como o quarto também estava gelado,

segundo diz, arrastou-se com as últimas forças

até à latrina e ali

(quando, já não se recorda) pariu

sem ruído até ao amanhecer.

Estava, diz ela, muito perturbada nesse momento,

já meio entumescida, mal podia segurar o menino

prestes a cair na latrina dos criados.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Então, quando ía da retrete para o quarto

– antes, diz ela, não aconteceu nada – a criança

começou a gritar. Isso afligiu-a tanto

que se pôs a bater-lhe com os dois punhos,

cega sem parar até a criança ficar quieta.

Então, levou o morto

consigo para a cama durante o resto da noite

e pela manhã escondeu-o na lavandaria.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Maria Farrar, nascida em Abril,

falecida na prisão de Meissen,

mãe solteira, condenada,

quer mostrar-vos os crimes de todo o ser humano.

Vós que paris sem complicações em lençóis lavados

e chamais “bendito” ao vosso ventre prenhe,

não condeneis estas infames fraquezas

porque, se o pecado foi grave, o sofrimento também foi grande.

*

Por isso peço que não se indignem

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

                                                   (Bertolt Brecht)

Repulsa ao sexo

Este é o penúltimo texto escrito pela psicanalista antes de ser demitida do jornal O Estado de S. Paulo. Porém, trata de um tema mais atual do que nunca: o aborto

Vinicius Canhoto

Por Maria Rita Kehl 15 de outubro de 2010 às 11:14h 

Entre os três candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células–tronco.

Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.

Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.

O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CCNBB, o Ministro Paulo Vannucci precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.

O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século XVII.

A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isto. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.

A ambigüidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause…), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o Papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.

Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que agüentar as conseqüências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

Da carta aos banqueiros à carta às parteiras

Por Vinicius Canhoto*

“A violência que existe contra todas as meninas e mulheres”

Renato Russo IN: Clarisse

 

Será que eu sou medieval? Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova Idade Média. Na mídia da novidade média

Cazuza IN: Medieval

 

            As últimas querelas e calúnias políticas me obrigaram, por decepção e angústia, a sair do silêncio de leitor e recorrer ao barulhento trabalho de autor. A carta pública assinada ontem pela candidata Dilma Roussef em que se compromete a não interferir pessoalmente, enquanto membro do executivo, nas questões religiosas e aborto, me lembrou a carta “ao povo brasileiro” assinada por Lula às vésperas da eleição de 2002. Em ambos episódios, essas cartas vieram para atenuar o temor criado pela mídia e pelos adversários políticos diretos. Ambas as cartas foram recados conservadores que, apesar de todo floreio e estilo de escrita, poderiam se resumir à simples expressão: “Nada vai ser mudado”. Daí surge a pergunta: o que motiva ambas as cartas e o que as difere?

            A primeira carta foi um compromisso que Lula assumiu de não alterar as regras e a forma de fazer economia na época. Por conta disso, muitos (inclusive eu) a chamam de “carta aos banqueiros”, pois o temor de uma “radicalização” na política econômica vinha sendo alimentado tanto pela imprensa partidária (em todos os sentidos da palavra), quanto pelo bloco PSDB/PFL. Nesta carta, Lula, por conta do contexto criado, vestiu a capa (ou será cartola?) do conservadorismo econômico para evitar a terceira derrota na eleição.

            A segunda carta, por mais irônico que pareça, é ainda mais conservadora e regressiva. Ao modo da primeira, esta carta diz: “Nada vai ser mudado”. Porém o que motiva e difere esta segunda carta da primeira é a religião e o aborto. O tema nivelou a campanha por baixo. Pouco importa quem privatizou mais, quem privatizou menos, quem desenvolveu mais o país, quem desenvolveu menos, quem melhorou educação, saúde, quem criou programas sociais ou qualquer outro tema mais abrangente. Esta campanha está sendo pautada pela calúnia, pela difamação, por aquilo que ficou famoso por Goebbels: “Invente uma mentira, repita-a mil vezes e ela se torna verdade”. Para desmentir uma invenção da Mônica Serra de que a candidata do PT “é a favor de matar criancinhas”, Dilma Roussef se viu levada a escrever aquilo que eu chamo de “carta às parteiras” para não dizer “carta às aborteiras”. Isso para tentar estancar a rede de boataria pela internet, pelos altares, pelos palcos, pelos púlpitos, pelos panfletos, pelo boca-a-boca de que a candidata é a favor de “matar criancinhas”.

Campanha subterrânea e anônima endossada pela imprensa partidária e tudo mais. E o pior que isso é tanto de um lado, quanto de outro. Da ala “dilmista” também surgem (em menor escala) histórias de abortos assumidos e não assumidos publicamente do lado tucano.

            O que move esta questão e a segunda carta, para mim, é pior que a primeira. Se a primeira mandava um recado nas entrelinhas: “OK, a farra financeira continua!”; esta segunda diz: “OK, sigamos com chás, comprimidos, e agulhas de tricô”. Pois demagogia a parte, como todos sabem (e se não sabem deveriam saber) quem tem dinheiro faz aborto em clínicas clandestinas, porém seguras, sem o menor risco para a mulher. E quem recorre aos outros expedientes? Mulheres pobres que não têm (e aqui não vamos entrar nos méritos, para isso recomendo o texto da Maria Rita Kehl, intitulado Repulsa ao Sexo, também publicado nesta seção) condições de assumir uma gravidez e se aventurarem em processos desesperados de interrupção de gravidez que muitas vezes resultam em mortalidade feminina. Particularmente, sou a favor de qualquer liberdade individual e descriminalização de atos referente ao próprio corpo. Isso vale para a mulher que quer abortar, para indivíduo que quer se drogar, para o suicida. Estas questões não deveriam passar pelo crivo do Estado. As religiões podem até debater esta questão, porém cabe a cada um, de acordo com seu critério, seja ele religioso, econômico, cultural, decidir o que é melhor para si. E no contexto de campanha, este tema vir à tona revela apenas o empobrecimento e o vale-tudo que se tornou o debate político atual.

            Para não dizer que não falei em literatura deixo como tema leitura o poema A infanticida Maria Farrar, do Brecht, que passei anos a fio procurando depois que eu o ouvi no teatro; para conhecê-lo, visite a seção Literários, deste Blog.

*Vinicius Canhoto é escritor e publica o Blog Inferno Riscado a Giz, dedicado à literatura.

Mulher de Serra abortou, diz aluna.

Relutei até o momento em postar qualquer texto referente ao cínico debate sobre o aborto, tema usado como forma de enfraquecer a candidatura de Dilma Roussef. Mas deixou de ser cínico pra ser hipocrisia elevado à máxima potência, pois o casal 45, que acusa Dilma de defender o aborto (é uma pena que Dilma não bancou o debate!!!) está sendo agora acusado por uma ex-aluna de Monica Serra de ter feito aborto. Os textos a seguir foram extraídos do sítio do jornalista Paulo Henrique Amorim (http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/10/16/mulher-de-serra-abortou-diz-aluna-ele-passou-trator-por-cima-da-mulher/):

A coreógrafa Sheila Ribeiro contou que sua professora Monica Serra, mulher do José Serra, contou a alunas que fez um aborto quando o casal morava no Chile.

José Serra introduziu a calhordice do aborto nesta campanha – na opinião de Ciro Gomes.

Não era nenhuma novidade, porque, segundo o mesmo Ciro, Serra é capaz de passar com um trator por cima da cabeça da mãe, se for necessário.

Era necessário: ser Presidente a qualquer custo.

E foi o que ele fez, agora, ao levantar a bandeira do aborto: passou com o trator por cima da própria mulher.

Monica Serra parece ter concordado.

Ela foi à Baixada Fluminense, no Rio, pedir para não votar na Dilma, porque ela defenderia a morte de criancinhas num aborto.

A Dilma atacou Serra no debate da Band por causa disso, mas o Serra não defendeu a mulher.

Agora, se entende por que.

O Conversa Afiada por vários dias se recusou a publicar a reportagem da publicação Correio do Brasil, por não conseguir confirmá-la.

Ontem à noite, o Conversa Afiada recebeu cópia de uma troca de e-mails em que a aluna de Monica Serra, Sheila Ribeiro, explicava a um jornalista que queria entrevistá-la por que  fez a denuncia:
 

Gente, é MUITO SIMPLES

 Vi do sofá o debate dos presidenciáveis.

Me surpreendi pq nem sabia de polêmica nenhuma sobre aborto (não estava acompanhando).

Postei minha reflexão no FB baseada nas minhas experiências e no meu susto.

Desde então, acham que

1- sou do PSDB: “armação contra a Dilma”;

2-  sou do PT: “boato contra o Serra”.

 Não tem “boato”, teve um RELATO.

 Eu não estou fazendo campanha de ninguém e muito menos ganhei $$ pra ser uma cidadã comum e colocar uma opinião indignada no FB. Voto na Dilma, pq prefiro um Brasil feliz com auto-estima e o Serra, para mim, representa um retrocesso espiritual.

 O que ninguém vê, é que pode existir no Brasil, uma simples cidadã, que não é ligada à ninguém e que exerce a cidadania emitindo suas opiniões e experiências.

 Como na França, na Argentina, as pessoas FALAM… o Brasil não vive na repressão.

 Quando uma pessoa é um personagem público, como a Mônica Serra,  ela REPRESENTA muitas coisas, inclusive posição ética. Me assustei com o debate. Se eu visse o Nelson Mandela na TV, sendo racista.. me assustaria e escreveria igual.

 Essa é a política cidadã que quero participar em meu país.

 Agora, eu preciso continuar a viver minha vida.

Dei uma entrevista ao “correio do brasil” onde falo da minha postagem no FB e o que eu tinha a dizer, já está muito bem escrito lá.

 Um abraço,
Leia, a seguir, o que publicou o Correio do Brasil”:

Sábado, 16 de Outubro de 2010


 Ano XI – Número 3941

“Monica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor”, afirma ex-aluna da mulher de presidenciável 

13/10/2010 12:39,  Por Redação, do Rio de Janeiro e São Paulo

 O desempenho do presidenciável tucano, José Serra, no debate do último domingo pela TV Bandeirantes, foi a gota d’água para uma eleitora brasileira. O silêncio do candidato diante da reclamação formulada pela adversária, Dilma Rousseff (PT) – de que fora acusada pela mulher dele, a ex-bailarina e psicoterapeuta Sylvia Monica Allende Serra, de “matar criancinhas” –, causou indignação em Sheila Canevacci Ribeiro, a ponto de levá-la até sua página em uma rede social, onde escreveu um desabafo que tende a abalar o argumento do postulante ao Palácio do Planalto acerca do tema que divide o país, no segundo turno das eleições. A coreógrafa Sheila Ribeiro relata, em um depoimento emocionado, que a ex-professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Monica Serra relatou às alunas da turma de 1992, em sala de aula, que foi levada a fazer um aborto “no quarto mês de gravidez”.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, na noite desta segunda-feira, Sheila deixa claro que não era partidária de Dilma ou de Serra no primeiro turno: “Votei no Plínio (de Arruda Sampaio)”, declara. Da mesma forma, esclarece ser apenas uma eleitora, com cidadania brasileira e canadense, que repudiou o ambiente de hipocrisia conduzido pelo candidato da aliança de direita, ao criminalizar um procedimento cirúrgico a que milhões de brasileiras são levadas a realizar em algum momento da vida. Sheila, durante a entrevista, lembra que no Canadá este é um serviço prestado em clínicas e hospitais do Estado, como forma de evitar a morte das mulheres que precisam recorrer à medida “drástica e contundente”, como fez questão de frisar.

No texto, intitulado “Respeitemos a dor de Mônica Serra”, Sheila Ribeiro repete a pergunta de Dilma, que ficou sem resposta:

– Se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Leia o texto, na íntegra:

“Respeitemos a dor de Mônica Serra

“Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

“Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem (domingo), fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

“Achei impressionante que o candidato Serra evita tocar no assunto da descriminalização do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor.

“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de quatro meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o Estado.

“Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

“Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido seja eleito presidente?

“Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito à dor calada de Mônica Serra,

“VOTO DILMA”, registra, em letras maiúsculas, no texto publicado em sua página no Facebook, nesta segunda-feira, às 10h24.

Reflexão

Diante da imediata repercussão de suas palavras, Sheila acrescentou em sua página um comentário no qual afirma ser favorável “à privacidade das pessoas”.

“Inclusive da minha. Quando uma pessoa é um personagem público, ela representa muitas coisas. Escrevi uma reflexão, depois de assistir a um debate televisivo onde a figura simbólica de Mõnica Serra surgiu. Ali uma incongruência: a pessoa que lutou na ditadura e que foi vítima de repressão como mulher (com evento trágico naquele caso, pois que nem sempre o aborto é trágico quando é legalizado e normalizado) versus a mulher que luta contra a descriminalização do aborto com as frases clássicas do “estão matando as criancinhas”. Quem a Mônica Serra estaria escolhendo ser enquanto pessoa simbólica? Se é que tem escolha – foi minha pergunta.

“Muitas pessoas públicas servem-se de suas histórias como bandeiras pelos direitos humanos ou, ainda, ficam quietas quando não querem usá-las. Por isso escrevi ‘respeitemos a dor’. Para mim é: respeitemos que muita gente já lutou pra que o voto existisse e que para que cada um pudesse votar, inclusive nulo; muita monica-serra-pessoa já sofreu no Brasil e em outros países na repressão para que outras mulheres pudessem escolher o que fazer com seus corpos e muitas monicas-serras simbólicas já impediram que o aborto fosse descriminalizado.

“Muitas pessoas já foram lapidadas em praça pública por adultério e muitas outras lutaram pra que a sexualidade de cada um seja algo de direito. A minha questão é: uma pessoa que é lapidada em praça pública não faz campanha pela lapidação, então respeitemos sua dor, algo está errado. Se uma pessoa pública conta em público que foi lapidada, que foi vítima, que foi torturada, que sofreu, por motivos de repressão, esse assunto deve ser respeitadíssimo.

“Vinte por cento da população fazem abortos e esses 20% tem o direito absoluto de ter sua privacidade, no entanto quando decidem mostrar-se publicamente não entendo que estes assimilem-se ao repressor”, acrescentou a ex-aluna de Monica Serra, que teria relatado a experiência, traumática, às alunas da turma de 1992.

Exílio e ditadura

Sheila diz ainda, em seu depoimento, que “muitas pessoas querem ‘explicações” para o fato de ela declarar, publicamente, o que a ex-professora disse às suas alunas na Unicamp.

“Eu sou apenas uma pessoa, uma mulher, uma cidadã que viu um debate e que se assustou, se indignou e colocou seu ponto de vista na internet. Ao ver Dilma dizendo que Mônica falou algo sobre ‘matar criancinhas’, duvidei.

“Duvidei porque fui sua aluna e compartilhei do que ela contou, publicamente (que havia feito um aborto), em sala de aula. Eu me disse que uma pessoa que divide sua dor sobre o aborto, sobre o exílio e sobre a ditadura, não diria nunca uma atrocidade dessas, mesmo sendo da oposição. Essa afirmação de ‘criancinhas assassinadas’ é do nível do ‘comunista come criancinha’. A Mônica Serra é mais classe do que isso (e, aliás, gosto muito dela, apesar do Serra não ser meu candidato).

“Por isso, deixei claro o meu posicionamento que o aborto não pode ser considerado um crime – como não é na Itália, na França e em outros países. Nesse sentido não quero ser usada como uma ‘denunciadora de um ‘delito’. Ao contrário, estou relembrando na internet, aos meus amigos de FB (Facebook), que o aborto é uma questão complexa que envolve a todos e que, como nos países decentes, não pode ser considerado um crime – mas deve ser enfrentado como assunto de saúde.

“O Brasil tem muitos assuntos a serem tratados, vamos tratá-los com o carinho e com a delicadeza que merece.

“Agora volto ao meu trabalho”, conclui Sheila o seu relato na página da rede social.

Sem resposta

Diante da afirmativa da ex-aluna de Sylvia Monica Serra, o Correio do Brasil procurou pelo candidato, no Twitter, às 23h57:

“@joseserra_ Sr. candidato Serra. Recebemos a informação de que Dnª Monica Serra teria feito um aborto. O sr. tem como repercutir isso?”

Da mesma forma, foi encaminhado um e-mail à assessoria de imprensa e, posteriormente, um contato telefônico com o comitê de Serra, em São Paulo. Até o fechamento desta matéria, às 1239h desta quarta-feira, porém, não houve qualquer resposta à pergunta. O candidato, a exemplo do debate com a candidata petista, novamente optou pelo silêncio.