Sobre a greve, calúnias e necessidade de unidade na ação

Junto com outros colegas da Oposição Unificada faço parte do comando de greve, cuja criação foi proposta pela Oposição Unificada na assembleia do dia 07 de maio.

Infelizmente, na tentativa de desmobilizar os trabalhadores, antecipar de um modo muito sujo um debate de eleição para a direção do sindicato e claramente tentando fragilizar a Oposição Unificada, algumas pessoas, geralmente escondidas atrás de perfis falsos, estão publicando afirmações caluniosas contra a minha pessoa em específico.

Uma dessas calúnias diz respeito ao meu posicionamento em relação à greve dos servidores de São Bernardo do Campo, cuja proposta foi debatida e aprovada na assembleia do dia 07/05.

Assim que tiver um tempo vou publicar a transcrição de minha fala na assembleia (se possível publico o áudio também) para deixar claro que, em nome da Oposição Unificada, durante a assembleia fiz a defesa da greve, mas discordando da forma proposta pela direção, apresentamos ações complementares para a construção de uma grande greve dos servidores.

Chamamos a atenção para o fato de o vídeo publicado pela direção do sindicato mostrar apenas o momento da votação. Apresentado assim de forma fragmentada e sem contexto, induz a uma falsa interpretação do posicionamento da Oposição Unificada – posicionamento este representado pela minha fala.

Acontece que a proposta de construção de greve apresentada pela Oposição Unificada não foi colocada em votação (aprofundaremos o debate crítico sobre isto somente após a campanha salarial).

Portanto, esclarecemos: votamos (e não foram meia dúzia de pessoas, foram muitíssimo mais) contra o encaminhamento proposto pela direção, e não contra a greve em si.

Não seria estranho nós propormos a constituição de um comando de greve e ao mesmo tempo falar contra a realização da greve?

Diante de afirmações estranhas e que não condizem com a minha postura, peço a gentileza aos meus amigos e colegas que:

1. Sempre que lerem comentários que atribuam a mim atitudes não condizentes com as minhas práticas (que sempre foram em defesa dos interesses coletivos dos trabalhadores) duvidem. Desconfiem principalmente quando se trata de perfil falso. Caluniadores geralmente se escondem por trás do anonimato numa tentativa de não serem responsabilizados pelos crimes que cometem.

2. Façam um Print Screen e me repassem para que possamos responder às dúvidas e, em casos de calúnias e difamações, criar materialidade para fazer com que as pessoas que estão propagando calúnias e difamações respondam por seus atos.

3. Calúnia, injúria e difamação são crimes. Por isso, não compartilhem nem curtam posts que façam ataques pessoais e que claramente intencionam depreciar a imagem pessoal e atentar contra a moral e a honra alheia. Divergências de opiniões fazem parte da pluralidade humana; o debate e a crítica são necessários ao processo democrático e contribuem para a evolução dos pensamentos quando expostos de forma honesta e argumentativa, sem ofensas pessoais.

4. Na medida do possível, ajudem a desconstruir as calúnias, contestem, rebatam, coloquem em dúvida afirmações que vocês sabem que não condizem com a minha prática.

6. Por fim, compartilhem este post, para que possamos esclarecer a todos.

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O discurso de ódio, as ofensas pessoais, as injúrias e as calúnias, além de atentar contra a dignidade e a honra alheia, prejudicam a organização dos trabalhadores e só interessam ao governo e àqueles que fazem de tudo pela manutenção de seus egos e privilégios

O momento agora é de unidade na ação. Independente das discordâncias em relação à estratégia de construção da greve (e não em relação à greve) e ainda que nossa proposta foi prejudicada ao não ser colocada em votação, a assembleia é soberana e sua decisão precisa ser respeitada e defendida por todos os trabalhadores – mesmo aqueles que se manifestaram contrários à greve e também aqueles que não foram à assembleia.

 Acatar, defender e construir com o máximo empenho as propostas aprovadas em assembleia é obrigação de todos os trabalhadores e trabalhadoras. Por isso, a Oposição Unificada, mantendo seu posicionamento crítico em relação à direção sindical, contribuirá com a construção e consolidação da greve geral, que deve persistir até que o governo negocie a reposição e o pagamento dos dias parados e acate as reivindicações da campanha salarial.

Perguntas e respostas sobre a greve

Pergunta: 

Vamos as dúvidas…Pessoas que ingressaram na rede agora ou ainda estão no probatório.. se aderir a greve o que pode acontecer?  Outra duvida, ja assinaram o ultimo probatorio mas ainda nao foi publicado, o que acontece?

Resposta: Pode acontecer de ajudar a todos os funcionários saírem vitoriosos na campanha salarial.
***
Qto a eventuais perseguições por parte do governo, vamos exigir da direção do sindicato ações jurídicas concretas para defender e representar todos os trabalhadores, independente de serem filiados ou não. Greve é um direito. E diante do enorme descaso do governo, diria que é um dever.

Servidores de SBC decidem entrar em greve

Conforme decisão da assembleia, entramos em greve a partir da próxima quarta-feira. Este é o resultado da intransigência do governo Marinho em não querer negociar. Neste momento a unidade na organização da luta é essencial para garantir a vitória de todo o funcionalismo, por isso a Oposição Unificada durante a assembleia sugeriu a constituição de um comando de greve, do qual representantes do nosso grupo farão parte. 

Ampliar a unidade somando forças com outras categorias em greve é um caminho que precisamos seguir, por isso há que somarmos forças junto aos professores do estado em greve há mais de 45 dias!

No mesmo sentido, é importante construirmos ações unificadas com servidores públicos da região que também estiveram e/ou estão em luta.

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Veja mais no Blog da Oposição Umificada: 

http://oposicaounificadasbc.blogspot.com.br/?m=0

Com o 38 nas costas

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

[Poema de Natal – Vinicius de Moraes)

 

Me preparando para mais um dia de alegrias, que é o do retorno das crianças à escola, resolvo dormir mais cedo. Acordo de madrugada com um 38 nas costas. Não é fácil, eu sei. Só quem já passou por isso sabe bem como é a sensação. Apesar disso, e diria que até mesmo por ter passado por isso, sou uma pessoa privilegiada.

É que a experiência acumulada com o passar dos anos talvez tenha me dado um tanto de serenidade para encarar até com certo humor as adversidades da vida.

Confesso que no instante em que abri os olhos, antes de qualquer coisa, só consegui pensar em limpar a remela dos olhos; depois, como ocorre com tantas outras pessoas, vi minha história passar num relance, mas não em slowmotion como dizem acontecer, e sim em time-lapse.

Não pensei em deus, porque em deuses não acredito, embora curiosamente eu tenha uma impressionante fé, mas na humanidade – e uso a expressão “impressionante” não como superlativo do meu otimismo, mas como ironia mesmo, porque com tantas desgraças produzidas e reproduzidas pelos seres humanos (produzidas inclusive em nome de suas crenças) admito que tem sido bem mais tentador acreditar em seres criados pela imaginação humana do que nos próprios seres humanos.

Surgiram em minha memória fatos que sequer eu imaginava ter vivido, e muito provavelmente eu tenha inventado a partir da miscigenação de histórias vividas por mim com as histórias vividas por outros, contadas por adultos em algum momento de minha infância:

… Eu menino de dois anos, pés descalços no meio de uma infinita plantação de melancias rechonchudas como a minha barriga era naqueles tempos… Chorando porque queria comer melancia ali mesmo… Meu avô me oferecendo um pedaço de melancia partida numa pedra, com uma terna expressão na face que me fez sorrir e me fez chorar, porque eu não conseguia entender se aquele “agora come a melancia que eu parti…” não seria completado por “… senão eu parto você no chicote”. Não, ele não disse isso, só tive medo que dissesse. E por medo chorei bastante, alternando sorrisos agradecidos a cada naco de melancia que devorava e lambuzando as mangas e a gola da blusa com o doce caldo da fruta misturado com o salgadinho das lágrimas…

… Ainda menino, um pouco mais velho, chorando porque queria andar de carroça para, quem sabe devido a um pródigo espírito aventureiro, fazer o caminho mais longo que levaria até a casa dos avós… E depois chorando porque estava na carroça e minha mãe tinha ido a pé, cortando uma trilha até aquela casa de tábua, meio pau-a-pique, com redes na sala, pregadas no teto, o quintal de terra batida com algumas árvores frutíferas na parte de trás…

O fato é que eu chorava demais, tinha medo de tudo e ao mesmo tempo uma espécie de fascínio pelo sentimento de medo, pelas histórias assustadoras de assombração, fantasmas e coisas do tipo que os adultos contavam às crianças para que elas fossem dormir mais cedo, mas que nem sei se se davam conta de que (pelo menos no meu caso) realmente possuíam o incrível poder de me fazer voar para cima do colchão e ficar quietinho embaixo do cobertor. No entanto acordado. A noite toda.

… O crânio de macaco que um dos tios tinha consigo, e que eu nunca pensei em perguntar se teria sido de algum macaquinho de estimação que ele tivera em tempos idos (talvez um dia pergunte, se é que crânio de macaco existira mesmo; mas a simples lembrança – real ou imaginada – me fez recordar o misto de fascínio e medo que o objeto me despertava, ou teria despertado, já não sei) …

… O bode comendo os fios elétricos expostos de um caminhão…

… Os cachos de uva transformados em imaginários cavalos, bois, vacas, porcos e outros animais do interior (bode não, porque bode comia fios elétricos de caminhão).

… O índio em Embu das Artes, na entrada da casa de dois cômodos em que vivíamos minha família com as famílias de um ou dois tios, e outros tantos primos… O índio querendo tirar fotos – “tira, moça, é baratinho” …  E eu atrás das pernas da minha mãe (ou de alguma tia?) ao mesmo tempo assombrado e encantado com aquela pessoa ser à nossa frente, com os rostos, peito e barrigas pintados…

… O porão da casa da rua A em Santo André (morávamos no porão, não na casa) … O sapo na escada… O colchão que quase pegou fogo inteirinho depois que, por pura arte para ver o resultado, risquei um fósforo em cima dele.

… Os beliscões doídos do Seu Dirceu, que era seu modo de cumprimentar amavelmente as crianças, ao mesmo tempo que dizia: “Ô, meninão, mas já tá um moço feito” … O delicioso cheiro de café torrado e moído em sua casa em um moinho de manivela cuja imagem me aparece como uma nítida fotografia.

… A terrível sensação da areia que eu coloquei um dia na boca, só para sentir o gosto. E gosto não tinha nenhum, mas os grãos entre os dentes e na língua me causaram uma aflição hedionda.

… A minha mãe passando cera no chão de casa. “Que qui é isso, mãe?”. “É cera, menino!”. “É gostoso, mãe?”. “Não é de comer, menino, é de passar no chão.”. “Mãe, não é de comer mesmo?”. “Já disse que não! É de passar no chão…”. “Mas mãe, será que é gostoso? …”. Minha mãe levanta, abre a gaveta da pia, pega uma colher, um pouco de cera: “Toma menino, come aí e deixa eu terminar meu serviço!”. E era gostosa, pelo menos a consistência. O sabor não.

… O dia em que, na primeira série, disse à professora que minha mãe ia conversar com ela para mudar de horário porque eu tomava remédio para dormir à noite e tinha muito sono pela manhã. “É verdade isso, Marcelo?”. “É verdade, profefora” (eu trocava os sons “ss” por “f”, o que me custou muitas confusões, ainda mais porque eu gostava muito daquele refrigerante de limão da Antártica). “Mesmo?”. “É mesmo, profefora, e ela está lá fora me esperando”. “Então vai atrás dela, menino”. E, aos meus sete anos, fui correndo livre leve e solto para casa, sem nunca ter saído sozinho nem na calçada. Em casa, não sei se mais assustada por eu ter voltado sozinho para casa ou porque a professora me deixou sair da sala (e depois de quase ter de fazer respiração boca-a-boca em si mesma para se recuperar do susto), minha mãe decidiu não fazer uso “pedagógico” das temidas Havaianas azuis. “Ah, bonito, hein! Você disse para a professora que não podia ficar na escola porque tinha sono pela manhã?! Pois vai dormir. A manhã toda! E ai de você se levantar dessa cama!!!”.

… Os bonequinhos articulados feitos com o miolo das caixinhas de fósforo, cada um com seu rosto, cada um com seu nome…

… Me veio à lembrança (palavra por palavra, como se eu tivesse lendo de novo) até aquele famigerado texto sobre a despoluição do Rio Sena, que a professora de Geografia da quarta série – ah, dona Lucinda! … – nos fez decorar para a prova, e do qual levei anos de sessão de terapia para conseguir esquecer.

… O barzinho do Seu Ivo, que ficava na esquina e era a parte da frente da casa onde morávamos na Afonso Lopes, com aquele balcão de madeira cheio de doces, o baleiro…. “Seu Ivo, me dá um guaraná?” (Não era guaraná que eu pedia, mas naquela época eu chamava refrigerante de guaraná, porque era mais fácil falar guaraná). “Que guaraná você quer, menino?”. “Quero aquele ali, ó” (apontando para a garrafinha verde em cima do balcão”). E Seu Ivo, como se forçando as vistas para enxergar melhor, com aqueles olhinhos miúdos iguaizinhos o do Mister Magoo: “Não to vendo. Diz o nome que é mais fácil eu achar”. “Eu quero Soda. Soda Limonada Antártica, seu Ivo”. Risos (custei anos para entender o porquê).

… O primeiro dia no magistério. Quinze anos e uma timidez que até hoje tem quem duvida. As perguntas de sempre, feito por todas as professoras: “Porque você resolveu fazer magistério?”. As mesmas respostas, ditas por todas, com uma ou outra pequena variação. E eu, sentado uns três lugares atrás na primeira fileira da esquerda, próximo à porta para sair correndo e sumir no mundo, debruçado sobre a carteira (com a cabeça escondida entre os braços e só os olhos para fora). A princípio aliviado porque as colegas lá da outra ponta começaram a responder primeiro e assim eu poderia ir pensando no que responder, fui ficando cada vez mais angustiado porque não sabia o que falar; decidi falar exatamente o mesmo que todo mundo (“porque eu gosto de crianças”). Então, quando todas as trinta e nove cabeças estavam voltadas em minha direção com seus setenta e oito ouvidos prontos para captar até o som de um clipe caindo no chão e seus setenta e oito olhos me apertando contra a parede, a professora: “Então, Marcelo, porque você resolveu fazer magistério?”. E eu, certo que responderia o mesmo que todas, mas nervoso demais: “Porque as crianças gostam de mim”. A professora levou uns cinco minutos para conseguir conter as gargalhadas das minhas colegas, e as dela.

Perdi minha timidez quase naquele instante que (agora eu entendo) simbolizou uma ruptura necessária à minha aprendizagem, ao meu amadurecimento a à minha sobrevivência. Aquela criança que os médicos recomendaram tragicamente à mãe que levasse “para morrer em casa” não apenas encontrou um caminho para seguir, mas um sentido e um jeito de caminhar.

Acordado de madrugada, e após tantas experiências vividas, finalmente consigo compreender qual a exata sensação de chegar aos trinta e oito anos. Como eu disse lá atrás – ou melhor, como eu disse lá no começo (são duas formas de dizer a mesma coisa ao contrário, mas com igual significado): só quem passou por isso sabe bem como é a sensação…

 

 

 

Corrupção, transporte e direito à cidade – II

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Afirmei, anteriormente, que a corrupção é uma via de múltiplas mãos que, paradoxalmente, caminham no mesmo sentido, que é o de almejar vantagens individuais, sobretudo em prejuízo aos direitos alheios – geralmente contra os direitos da população em geral e da classe trabalhadora.

A conta das jogatinas e negociatas realizadas pelos governos comprometidos com a manutenção do capitalismo é sempre repassada para os trabalhadores e a população em geral pagar, o que é feito por meio de aumento dos juros, aumento dos impostos, aumento de taxas e tarifas, aumento dos preços dos bens de consumo, cortes de direitos trabalhistas, cortes de investimentos nas áreas sociais, demissões, desempregos, terceirizações e outras formas de precarização do trabalho, arrocho salarial…

Exemplos típicos de negociatas são os financiamentos de empresas privadas às campanhas eleitorais.

As empresas de transporte, por exemplo, costumam se destacar nos financiamentos das campanhas para prefeitos. Estes financiamentos, ao final, configuram-se como investimentos, pois uma vez eleitos e empossados, os governantes agem em favor dos empresários que os financiaram, aumentando tarifas e fazendo vistas grossas em relação à péssima qualidade do serviço de transporte oferecido, tudo isso para garantir as altas taxas de lucros dos empresários, enquanto a população é submetida a longos períodos de espera nos pontos de ônibus, trajetos extensos, aos incômodos e aos riscos de acidentes graves gerados por veículos superlotados, e não raramente velhos e em condições precárias de manutenção.

A luta contra o aumento das tarifas, que faz parte de uma luta bem maior e que diz respeito ao direito à cidade, é apenas um entre muitos instrumentos que o povo tem para combater a lógica perversa (imposta pelos governos burgueses, que representam os interesses do capital) de jogar nas costas da população e dos trabalhadores a conta das crises que eles mesmos produzem e, apesar de produzi-las, não abrem mão da maximização de seus lucros e de cada vez maior concentração de riqueza em suas mãos.

Por outro lado, ao combater o aumento das tarifas e ao lutar por transporte público, gratuito e de qualidade para todos, a classe trabalhadora combate diretamente uma das múltiplas vias da corrupção que esconde-se atrás do financiamento privado de empresas de transporte às campanhas eleitorais. É uma luta que confronta diretamente os interesses dos capitalistas e dos políticos da burguesia e, por isso, os governos burgueses não hesitam em reprimir brutalmente os trabalhadores, a juventude e a população que ousa manifestar-se em defesa de seus direitos.

Tal repressão é levada a cabo pelo aparato militar e sustentada pelos meios de comunicação que estão sob o controle da burguesia. Por parte do aparato militar, uso de agentes infiltrados que incitam a violência para justificar a ação da própria polícia, prisões indiscriminadas, espancamentos, torturas físicas e psicológicas, uso de balas de borrachas, agressões físicas e verbais, bombas de gás lacrimogênio e de efeito mutilante… mesmo contra manifestantes que absolutamente nada estão fazendo a não ser exercendo o direito e a obrigação cidadã de expressão e manifestação. Por parte da mídia burguesa, a despeito das imagens e milhares de relatos que a desmente, publicação de informações mentirosas e distorcidas a fim de desmoralizar e desmobilizar a classe trabalhadora.

Embora haja os que, por preconceito, falta de informação ou por deformação ideológica, insistem em reproduzir o discurso do ódio contra os próprios trabalhadores e contra a classe oprimida a qual pertencem (principalmente quando a classe trabalhadora vai às ruas lutar pelos seus direitos) a luta contra o aumento das tarifas e em defesa do transporte público, gratuito e de qualidade para todos é uma luta cidadã, progressista no sentido de buscar benefícios em múltiplos aspectos (econômicos, sociais, ecológicos, biológicos etc) a todos os seres humanos indistintamente.

A garantia de transporte público não é estabelecida pela Constituição Federal apenas por ser um direito; antes disso: é um direito por ser – a mobilidade dos seres humanos – uma necessidade básica, cuja efetivação com qualidade é condição para garantia das condições dignas de vida, de saúde e de trabalho dos seres humanos.

Lutar por transporte público, gratuito e de qualidade para todos é, assim, uma necessidade que se impõe no sentido de garantir melhores condições de vida para a classe trabalhadora, a juventude e a população em geral.

Corrupção, transporte e direito à cidade – Parte I

Fonte: Território Livre
Fonte: Território Livre

A corrupção talvez seja uma via de mão dupla em que transitam em sentidos falsamente opostos e em algum ponto se encontram o  disposto a se corromper e o corruptor.

É muita falta  de clareza desconsiderar que se existem os  políticos que cobram propinas para aprovarem contratos com empresas igualmente existem empresários que pagam propinas para que suas empresas vençam as concorrências –  políticos corrompidos e empresários corruptores   são dois sujeitos que constituem lados de uma mesma moeda,  que é a corrupção (e ambos pertencem à mesma categoria: a dos corruptos).

Penso, contudo, que esta é ainda uma visão muito simplista da situação; uma visão muito em preto e branco. Se misturarmos um pouco o preto com o branco chegaremos a alguns tons – uns cinquenta ou mais (bem mais) de cinza. Digo desde já: a conclusão não será nem um pouco prazerosa.

A verdade é que desconfio que a corrupção nem seja uma via apenas, e sim sinuosos e confusos caminhos nos quais circulam diferentes seres em múltiplas direções, paradoxalmente jamais em sentidos opostos, uma vez que são conduzidos e conduzem-se em um único sentido: o de levar vantagem pessoal em cima de qualquer coisa e sobretudo contra qualquer pessoa. Afinal, na sociedade da meritocracia, que é a sociedade capitalista, ganhar – seja lá o que for, contra quem for e não importando os meios, tampouco importando os méritos – é uma dádiva e uma glória.

Talvez por aí encontramos alguma lógica no comportamento tresloucado de certas pessoas que gritam escandalizadas contra a corrupção alheia, mas nem fazem caso das pequenas e médias corrupções que elas mesmas praticam, como se umas coisas não tivessem nada a ver com as outras: ocupar lugar de idoso no ônibus; furar fila; assinar o ponto sem trabalhar, falsificar carteirinha de estudante; sonegar imposto de renda; emitir notas ficais frias; ultrapassar pela direita ou pelo acostamento, ou em farol vermelho, dirigir embriagado, colocando a vida de outras pessoas em risco, não devolver ao dono o objeto encontrado – “achado não é roubado”…

Talvez indo por esse pensamento possamos também entender a lógica insana dos que se dizem favoráveis à vida e ao mesmo tempo defendem  a pena de morte; que gritam escandalizados perante a violência contra a propriedade material e ao mesmo tempo defendem práticas de torturas, linchamentos, espancamentos, aplaudem a violência policial e institucional – violências, aliás, que também a sofrem em seu dia-a-dia.

Será que por sofrerem tanta violência física, psicológica e simbólica foram perdendo a sensibilidade, a humanidade?

Novamente desconfio que sim, porque se é certo, como se diz popularmente, que a ocasião faz o ladrão, mais certo ainda é que de tanto olhar o torto os olhos e os olhares vão entortando também, ao ponto de tomar como direito o torcido, o retorcido e o distorcido; ao ponto de tomar como certo o errado e não mais o duvidoso, como já é bem perigoso tomar. Aquilo que outro ditado diz – “se você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”, e que os Titãs (quando faziam boa música e ainda não namoravam o conservadorismo) traduziram com um refrão bem explícito: “a televisão me deixou burro, muito burro demais”…

Bons tempos em que o risco maior era apenas tomar o certo pelo duvidoso, porque pelo menos restava o benefício da dúvida, o questionamento: “mas, será que isto que estou ouvindo na televisão, ou lendo no jornal, aconteceu assim mesmo?”. Agora não, certas pessoas reproduzem sandices com um grau absurdo de certeza. E nem percebem que suas certezas são meras reproduções irrefletidas dos meios de comunicação da classe dominante – é possível que nem seja o caso de se perceberem, mas de não se importarem mesmo em fazer papel de papagaio de pirata.

O fato é que na ilusória sociedade do conhecimento inaugurada pela falsa pós-modernidade há opiniões sobre quase tudo, mas conhecimento sobre pouco – e de uma superficialidade delirante.

Mas que diabos tudo isso tem a ver com a questão do transporte? Calma, que chegaremos lá, porque ao menos para pensar não precisamos dispor de R$3,50…

[Continua…]

Patriodiotia do dia

Por Marcelo Siqueira

*

“Se fosse brasileiro não torceria para a Argentina, porque brasileiro que é brasileiro não torce para Argentina”.

É a copa da FIFA revelando o xenófobo escondido em (quase) cada um de nós.

Se fosse brasileiro, torceria para Argentina sim, para a Suíça, para qualquer outro time, inclusive para o Brasil; se fosse brasileiro não torceria para nenhum time, contra todos e até mesmo contra a seleção do Brasil.

Porque ser ou não ser brasileiro não tem absolutamente nada a ver com futebol, nada a ver com concordar ou discordar dos governos da velha e da nova direita que aí estão à frente dos Estados e da “União”, nada a ver com gostar ou não gostar, ou se conformar ou não com as condições em que se encontra o nosso país.

Fala-se em ser brasileiro como quem diz “consciência de classe”…

Mas quem tem consciência de classe sabe que nem o capital nem o trabalho tem fronteira, nacionalidade ou pátria.

Ser brasileiro é tão somente uma condição de ter ou não nascido num território delimitado por uma fronteira denominado Brasil; ou de, por opção, ter adquirido o status de nacionalidade brasileira.

Qualquer discurso que proclame ou exija do outro um “sentimento de nacionalidade” ou de “amor à pátria” nada mais é do que reprodução autoritária do lema da ditadura (“Brasil, ame-o ou deixe-o”) que de forma subliminar a exquerda no poder está alimentando.