Categoria: Contos, crônicas, poesias & afins
Estrelas – I
O caminho
Nota da Pedra Lascada: Faz tempo que conheço o probleminha a seguir, cuja autoria e origem desconheço. Como janeiro é sempre uma época em que costumo revirar velhos papéis, encontrei-o em meio às bugigangas ordinárias. Reescrevo-o realizando algumas pequenas alterações, que não alteram a essência da questão. Quem sabe você poderia solucioná-lo… [M.S.]
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Um homem, perdido, chega numa estrada que se abre em duas direções. Neste ponto, encontra uma pessoa que conta a ele que uma das estradas o levará a um vilarejo de pessoas boas e sinceras que poderão lhe ajudar a se encontrar; porém, o outro caminho o levará a uma vilarejo de pessoas muito interesseiras e mitomaníacas*, que lhe roubarão dinheiro e lhe arracarão a pele.
Essa pessoa diz que pertence a um dos vilarejos, mas não diz qual, e propõe ao homem um desafio: descobrir, com uma única pergunta, qual é a direção que o levará à sua salvação.
E então, que pergunta o homem deverá fazer para descobrir o caminho que o levará ao vilarejo das pessoas boas?
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* Mitomaníacas são pessoas que mentem compulsivamente.
Fatos
Eu não li as suas poesias. Esperei o ônibus passar Enquanto o tempo foi se Aproximando. Eu não li as suas cartas. Estão em alguma gaveta No subconsciente... (É como se eu nem as tivesse recebido). Eu não li os seus lábios, Que, distantes, exclamavam Qualquer coisa como “cuidado!” Num dia cinzento como Esse. Eu não li o letreiro (Em meu sonho) Anunciando o juízo final - O fim dos tempo da solidão. Eu não li... Mas fiquei com medo da noite, Tive receio das pessoas, Desconfiei dos Fatos... [M.S]
“Tapanacara”
Nota da Pedra Lascada: Abaixo, mais um texto publicado (em 13 de março de 2010) no quase falecido Utili Dulci.
Por Marcelo Siqueira
No Calor Urbano
A bruxa
Nota da Pedra Lascada: O continho a seguir foi escrito em 2007. Encontrei-o perdido entre alguns papéis que estavam a ponto de serem jogados fora. Fiz algumas pequenas alterações, para deixá-lo menos pior. Segue o que foi possível de ser feito – ao som de “Cabeça Dinossauro”, do Titãs. (M.S.)
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Na noite do dia em que plantara baratas supondo que renasceriam, saí para o meio da rua e olhei em direção ao grande prédio verde-água no alto do morro – era a escola em que eu estudaria. As janelas crepitavam em brasa ardente e uma longa e estridente risada ecoou de seu interior.
Meus olhos não entendiam o que estavam vendo e a mente parecia aprisionada em um estupor. Desejei me mover de um salto só para calçada, da calçada para o quintal, do quintal para dentro de casa, de dentro de casa para debaixo do cobertor, que era o lugar mais seguro desde que eu cobrisse bem meus pés para que nenhuma assombração apertasse os meus dedos; mas, antes que eu pudesse levar a cabo o natural instinto de fuga, ela veio do céu como uma rajada de relâmpago, montada em sua vassoura de crina de cavalo e madeira de lei retorcida; deu um rodopio e seus cabelos de lava vulcânica quase tocaram o solo; o ar ao redor ficou mais seco do que a minha garganta e os meus lábios imobilizados.
Parou à minha frente, suspensa; como que montada no próprio diabo, apontou para a escola com o indicador esquerdo curvo e a destra domando as rédeas do louco animal inanimado que cheirava a amoníaco e qualquer outra substância desconhecida. Fitou meus olhos com suas pupilas totalmente esbranquiçadas, como a ler meus pensamentos, a roubar minha alma ou, ainda pior, subtrair-me a paixão pela vida que me sairia mais cara e cujo débito jamais pagaria.
Senti o chão se abrir sob os meus pés e comecei a cair num profundo abismo de gélidas e espessas trevas. À medida que caía, a velocidade se tornava vertiginosa e o ar me golpeava duramente, como se as gotículas de chuva repentinamente principiada fossem minúsculas e afiadíssimas lâminas que retalhavam invisivelmente o meu corpo.
Girando em queda livre, percebi que ela vinha me perseguindo – não a via, mas distinguia claramente em um ponto ainda distante o brilho lânguido de suas mechas vulcânicas que transformavam em vapor as gotas de água e, assim, iam desenhando um luminoso efêmero caminho em espiral.
Em poucos instantes, senti cada vez mais perto o seu hálito selvagem, e não sei como também tinha a certeza de que mais próximo ainda estava o fim da queda.
Foi então que vi um chão de um concreto selado com piche crescendo em minha direção. Meu coração batia como se fosse romper o peito, mas os ossos o oprimiam e essa sensação fazia com que eu sentisse falta de ar.
“A hora!… A hora!” – uma voz longínqua num estranho idioma anunciava o momento derradeiro. O chão estava a segundos de minha face e unhas afiadas eram cravadas em meu ombro, que ardia a cada toque.
Tentei dar um grito, mas não consegui; no súbito instante abri os olhos e senti que Mimi Rousseau, concupiscente, acariciava meus cabelos atrás da nuca, enquanto dizia: “Oh, my little boy, you had a nightmare. It’s time to wake… It’s time to wake”…
Resíduo
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
[Carlos Drummond de Andrade]
Elegia
Leituras, lembranças e esquecimentos
Por Marcelo Siqueira
Talvez nem mesmo ele recorde, mas foi meu irmão Fernando que disse, anos atrás, que eu lia sempre os mesmo livros e, dos mesmos livros, os mesmos capítulos, ou as mesmas histórias, ou os mesmos poemas (algo assim).
Até hoje não sei se ele falou por sarcasmo ou por elogio, mas a verdade é que essa observação não me irritou nem um pouco, muito pelo contrário, fiquei demasiado admirado com seu olhar perspicaz (ainda mais porque, naquela época, achava que eu era meio invisível na família).
Na ocasião não respondi nada, porque era muitíssimo mais turrão para admitir razão nas opiniões alheias (como dizia Allan, indignado e com toda a justeza: “Marcelo, você é chucro!!!”).
Confesso que ainda tenho muito de teimoso, mas os anos de magistério me foram particularmente benéficos, pois o convívio com toda gama de pessoas, adultas e crianças, de tantas opiniões divergentes e convergentes e outras “nem tanto ao céu nem tanto ao mar“, me abriram os horizontes para novos mares, ares e territórios.
Das teimosias que ainda sustento, geralmente estão as que se referem às questões de princípios, porque ainda tenho pra mim – e talvez de forma até dogmática – que os princípios não se negociam.
Mas o meu irmão sabia exatamente o que estava dizendo: eu costumava realmente ler os mesmos livros, os mesmos capítulos, as mesmas histórias, os mesmos contos, os mesmos poemas…
Digo mais: apesar de ter feito algumas leituras variadas ao longo desses anos e constantemente agregar novas leituras ao meu repertório, ainda costumo retornar aos mesmos livros, capítulos, textos!…
E acho que faço isso pelo prazer que me proporcionam; e faço como quem busca manter algo de essencial, de original em minha trajetória de vida, justamente para nunca esquecer das minhas raízes, para não esquecer da impagável dívida social que tenho com aqueles que fizeram e fazem parte direta ou indiretamente da minha vida, da constituição da minha identidade que vai se construindo à medida que continuo vivendo, e convivendo.
Assim, de vez em quando vou colecionando novos livros – geralmente adquiridos em sebos, não só por serem mais baratos, mas porque os livros usados têm todo um encanto que os livros novos não têm: eles passaram por outras mãos, por outras vidas, por outras vistas, por outros olhares! Ler um livro usado é compartilhar com outras pessoas de uma mesma leitura, com novas possibilidades de interpretações, é dialogar com a história contida no livro, e é dialogar com a história do livro, desse objeto impresso folheado, rabiscado, marcado…
Por essas e por outras que, apesar de novos livros, volto às mesmas leituras. E talvez por isso algumas pessoas pensam que eu tenho uma memória daquelas! Pura ilusão…
Minha memória me trai constantemente. Diariamente procuro pelas chaves que acabei de pegar para sair de casa, ou da escola (isso quando não as esqueço trancadas dentro da diretoria, e tenho de reabrir cadeados, portões, portas… e fechar tudo novamente).
Pra mim, o alarme da moto deveria ter um localizador eletrônico, para que eu pudesse facilmente encontrá-lo, por ter esquecido de guardá-lo devidamente (mas daí seria capaz que eu tivesse de ter um localizador para o localizador do alarme…).
Nomes então!… Sinto muito, não é por descaso com as pessoas que conheço, mas levo tempos para decorar um nome, e segundos para esquecê-lo!
O curioso é que para sobrenomes eu não tenho a mesma fraqueza mnemônica: entre tantos outros, lembro até hoje do sobrenome de uma professora da segunda série, que me “ensinou” a fazer os espaçamentos dos parágrafos, utilizando o inusitado recurso didático do cocorote no meu cocoruto – desculpe a aliteração! Eu traduzo: cascudo na cabeça -. O sobrenome dela era Clock.
É um paradoxo, mas apesar de ser péssimo para descrever pessoas, as fisionomias eu guardo que é uma beleza: o problema é que eu encontro uma pessoa conhecida, aí eu olho pra ela, sei que a conheço, não lembro o nome nem lugar, e fico sem graça de perguntar: “Desculpe, de onde nos conhecemos mesmo?”
Vai que ela responde: “Nós trabalhamos na mesma escola por 12 anos – a mesma que eu e você ainda trabalha”!
Claro que estou exagerando, mas do jeito que a coisa tá indo, é sempre um risco, né…
Semana passada, esqueci durante um dia inteiro a senha de um e-mail que acesso diariamente, e incrivelmente só lembrei da senha quando deixei de me preocupar em lembrá-la.
Outra coisa: tem gente que pensa que é lenda quando conto que, uma vez, só fui lembrar que era meu aniversário no final da noite, quando encontrei com meus familiares e eles me deram os parabéns.
Quem não gosta de mim pode até maldosamente insinuar: “Ele é tão chato que ninguém deu os parabéns antes”. Eu não me importo se falarem isso, porque desconhecem o contexto. O importante mesmo é que essa história eu vou usar como álibi se um dia (que nunca vai acontecer, que fique bem claro!) esquecer o aniversário de casamento: “Olha, amor, me perdoa, mas se eu já cheguei até a esquecer do meu aniversário…”
Algumas pessoas brincam (ou advertem): Menino, você é muito novo para esquecer tantas coisas!… Eu também acho, mas esqueço; e só não fico (muito) estarrecido com isso porque o Rubem Alves disse que o esquecimento é saudável, isso ainda porque – também não recordo onde li, mas li! – ao contrário do que pensavam os médicos, cientistas e afins, a função da memória não é guardar, mas sim esquecer, porque se o cérebro guardasse todas as informações as quais somos expostos cotidianamente, entraríamos em pane rapidinho e, no mínimo, ficaríamos loucos.


