quando o tempo parou parei de contar os dias as noites nuvens em fogo em céus sem estrelas as manhãs repetições de si mesmas quando o tempo parou os fantasmas pulsaram uníssonos e enfeitiçados uma mente brilhante um corpo quente um coração gelado quando o tempo parou veloz sobre os caminhos dissipado em assombros de mim se foi um tanto de mim ficou um pouco perdas penas escombros quando o tempo parou senti o peso do silêncio as batidas tensas na cabeceira da cama o sono em fuga os sonhos em chama quando o tempo parou pairei [M.S]
Categoria: Contos, crônicas, poesias & afins
Video-Poema: Nebulosa
Às memórias que as palavras trazem, adicionei imagens que remetem a outras lembranças, construindo algo fora do tempo, ou melhor, anacrônico, em que os tempos se misturam e as histórias e as memórias se perpassam.
Não seria assim, na tecitura da vida, entre tempos e contratempos, aos trancos e barrancos, que vamos tecendo nossas histórias?
E as histórias pessoais, quando as apresentamos, por escrito ou em outras narrativas, carregam sentidos tão íntimos que por vezes se tornam indevassáveis, ao mesmo tempo em que podem se encontrar com os sentidos de outras pessoas!…
“O poema (já dizia o carteiro ao poeta) pertence a quem lê”. Nesse caso, a quem ouve e vê.
[MS]
Música: Força Estranha – tocada por Ricardo Pachá.
Nebulosa
I
Ela tem o mundo
- ela quis o mundo.
Mas tem o mundo nas costas
- a mãe doente e o mundo pesando
mais que unha encravada no dedão do pé.
Eu sei: ela não quis o mundo assim.
Idealizamos algo além do paraíso
E pensamos ter descoberto a fórmula
/ exata
E pensamos alugar uma vida única e
/ sensata
Mais que as cores do arco-íris.
II
... um ateu ... alguém paciente
uma risada
... o corpo estendido, mas retraído
não parecia o que era
não era o que parecia
parecia
perecia
parceria
ar
e
ria
... apenas comoção, lucidez, um trovão
E a noite fria cortante
nebulosa e cortante
constante, contanto...
III
Ela fugia das respostas
E muito mais das perguntas.
Eu, angustiando em alma derretida,
Em alma que nem acreditava existir
Por não ter confiança própria
Por esquecer que existe vida
E que o Sol ainda se põe.
Eu tinha um mundo
Um universo, reverso, inverso
/ ao verso
único
isolado
triste
mas indiferente
e para mim era tudo
e tudo era simples
Eu não queria mais nada
Desconhecia e repudiava
O que me fazia
pensar
Pois tinha tudo - estava certo,
esperto
(esperteza não é inteligência?)
E bastava ser mais um
no meio
sempre aos cantos
apenas mais um.
IV
Ela tem um caminho
Eu também tenho
(e às vezes uso um atalho)
E temos já a desilusão...
Sobre-humano é o esforço
esboço de força
Pincel com tinta azul
Banhada em cera líquida branca
Ou melhor, alva.
E o alvo era calvo nem isso era
era objeto
objetivado
substanciado
substantivado
Próprio, incomum, excludente
sobrevivente
impertinente
não era alvo.
V
Ela tem os pés no chão
E eu a cabeça embaixo do solo
Aterrada por sufocante delírio ‘in vita’
(é estranho como as pessoas resolvem ir
e nem tanto quando vão sem avisar.
Hoje, as estrelas estão mais brilhantes
e um gatinho rola no chão ao luar.
No caminho, as flores sorriem caladas
E os mortos certamente não se levantam)
Sinto uma energia sincera me contemplar;
Nos meus passos nem uma pedra
nem uma gota
Somente algum pássaro cantando
solitário.
[M.S.]
Imagem em destaque: montagem com foto do Google Imagens
Lili
Joaquim começou como quem tira uma casca de ferida do corpo. Essa imagem nada romântica é uma metáfora ordinária, mas bem precisa, porque o corte está aberto e porque o sangue, contido pelas veias, pulsa ao ritmo de um coração incontido, agarra-se à superfície da pele e denuncia a ferida aberta.
Enquanto risca o papel em branco, com demasiada pressão e letras trêmulas, olha para o espelho na parede à frente da mesa e percebe que não é o rei, mas a face – carmesim – que está nua. Não há nenhuma realeza nisso, apenas realismo e perplexidade.
Lili se foi.
O corte que sangra não é esse, ainda que também seja.
Sem dizer palavra Lili se foi. E onde faltam palavras aflui um oco logo abaixo da boca do estômago de Joaquim, um oco que consome as horas, os dias, as noites… consome e produz pensamentos…
Afora iscas lançadas em redes para pescadores perdidos em alto mar, as palavras foram esvaziadas. Lili também se despiu de palavras e ao se refugiar no silêncio e pelo silêncio disse mais do que poderia ou desejava.
Acontece que esvaziar palavras não é o mesmo que esvaziar as gavetas, os armários (ainda que – tal como as iscas-palavras – tenham ficado algumas peças espalhadas pelos cômodos)… Então, Lili se vestiu com a roupagem que mais lhe dava sensação de segurança: uma fantasia de desprendimento.
Há sinais espalhados pela casa, mas não se completam em palavras, porque seguem cruzados e embaralhados, numa convulsão de eus, outros e nós. A palavra que quase chega a ser não chega a ser palavra: é o dito pelo não dito. E o dito pelo não dito cria realidades por vezes alternativas, em que tudo é possível. Antes improváveis, num mundo onde tudo é possível Joaquim e Lili se tornam impossíveis.
(O poeta tinha razão, ainda que não soubesse).
O dito pelo não dito é um terreno pantanoso, porque aparente, porque imagético. No campo das aparências a essência foge à percepção de Joaquim; se esconde nebulosa entre aquilo que é fato e aquilo que é interpretação de fato e aquilo que é somente imaginação.
O silêncio tem tanta força quanto o som. Poderoso, o silêncio pode até causar bem mais ruídos que o barulho mais ensurdecedor. Joaquim sabe a potência do silêncio; ele sente; ele experimenta. Ruidoso, o silêncio pode inclusive perturbar – e perturba – o sono de Joaquim, que passa noites a contar estrelas, deitado na rede da varanda, a mesma rede em que não se cansou de deitar com Lili.
Lili tem dimensão do poder das palavras. Não porque tenha lido – e leu – em algum lugar, mas porque ela sabe a ponto de sentir a concretude e o peso das palavras. E têm poder porque são carregadas de atos; elas são ação. Como ação, mobilizam, embora nem sempre movem e às vezes paralisam. Talvez por compreender a potência das palavras verbalizadas é que Lili se cala.
Para Joaquim, poderosas, as palavras precisam ser verbalizadas, não para potencializar, mas para criar – ou delimitar – possibilidades. Ou, simplesmente, por respeito.
Mas Lili se foi. Levou as palavras. Ficou o silêncio.
Sustentando a impossibilidade de partir de onde supostamente nunca estivera, Lili refuta aquilo que busca porque se assusta quando encontra; e se assusta porque tenta definir paralelos, porque tenta comparar grandezas que não são comparáveis, mas são de igual importância, cada qual com sua medida, cada qual com seu peso – únicas e completas.
Não existe a justa medida porque não é caso de medição, muito menos de justiça. Mas Lili, calculando riscos reais e imaginários, se vê diante de uma equação que acredita sem solução. Essa equação tem um nome: Joaquim.
Indo, Lili se pergunta se algum dia veio e pensa que não se pode terminar o que nunca teve início, por isso, se deixa ir, como se inevitável fosse, legando a Joaquim, além do silêncio das palavras não ditas, alguns recados em post-its na geladeira e nenhum destino ao qual Joaquim possa responder. Lili compreende que o fato é dor, mas não se dá conta que o silenciamento do fato é tortura.
Talvez para Lili seja mais confortável se imaginar moinho de vento do que Don Quixote, pois há sempre a mística de ser dragão-escorpião, com a vantagem de que moinhos seguem seus cursos, indiferentes aos que ousam sonhar e ousam lutar pelo que sonham.
Mas Lili também sonha, por isso não é moinho de vento. A indiferença (disfarçada talvez) é possível que seja apenas um movimento de fuga e autopreservação. Não de, nem contra Joaquim. Do que ele lhe significa, do que ele lhe representa. Mas o que Joaquim representa e significa para Lili? Quem saberia dizer, se nem Lili sabe e, se sabe, não diz?
A rubra face de Joaquim desfalece sem menos, pálida de perguntas sem respostas. As interrogações multiplicam-se ao infinito e, enroscadas entre as prioridades e as conveniências, buscam um esforço de entendimento. Já quase no fim da página, risca novamente o papel: “Entre tanto que sinto, o mais insuportável não é nem a falta, é a sua ausência“…
Joaquim relê tudo que escrevera e, na última frase, balbucia palavra por palavra. Por um instante acha sem sentido e, logo em seguida, verdadeira demais; picota o papel em pedaços minúsculos e atira ao cesto, até porque não era dor só o que Lili deixara ao partir.
Lili se foi, levou as palavras, deixou os sentimentos.
Nesse movimento, que é de paciência e de outras palavras bem-ditas, Joaquim sabe que é preciso se permitir, mas nunca se acostumar, porque se o poeta tinha razão em algo, não haveria de ter razão em tudo…
[M.S.]
Referências & inspirações
- “A falta que ama”, por Carlos Drummond de Andrade
- “Quadrilha”, por Carlos Drummond de Andrade
- “Segredo”, por Carlos Drummond de Andrade
- “Brasil: Construtor de ruínas – Um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro”, por Eliane Brum
Imagem em destaque
Pixabay.com
Até onde…
longe longe longe
aonde o eco se esconde
e a brisa dissipa,
insípida
aonde os olhos não vêem
as mãos se tocam
e as bocas se falam
aonde os lábios se encontram
os ouvidos se encantam
e os corpos se enroscam
aonde as mentes se aquietam
os sorrisos acontecem
e as horas se esquecem
aonde estão os seus braços
- invisíveis laços
que acalentam e aquecem.
Dentro da Noite Veloz (Fragmento)
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda...
(...)
Ferreira Gullar
Na escola dos sonhos
Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi que a vida é mais que ter Aprendi que a sorte depende do que fazemos Que nem sempre o que fazemos depende de sorte Que nem sempre temos sorte. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi a olhar nas coisas mais que as coisas A olhar e a perceber pessoas, processos, histórias Aprendi a construir, mais que objetos, Possibilidades. Na escola dos sonhos em que me criaram O caminhar coletivo – eu aprendi – É opção pelo caminhar solitário Mesmo que não se queira E o sonhar é liberdade e é tristeza. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi que as escolhas são poucas Mas que há sempre uma saída Senão repentina, ao menos vindoura E o quão fugaz é a vida. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi a amar nas pessoas Além do que elas são no momento Suas potencialidades... O ser, o devir, o vir-a-ser. Na escola dos sonhos em que me criaram Na escola dos sonhos em que me criei Na escola dos sonhos que eu criei Há uma vaga, há um querer Esperando você. [M.S]
Imagem em destaque: Pixabay.com
Música de fundo: Thinking Out Loud (Ed Sheeran), por Alenka & Anze
Cantada
Você é mais bonita que uma bola prateada de papel de cigarro Você é mais bonita que uma poça d'água límpida num lugar escondido Você é mais bonita que uma zebra que um filhote de onça que um Boeing 707 em pleno ar Você é mais bonita que um jardim florido em frente ao mar em Ipanema Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás de noite mais bonita que Ursula Andress que o Palácio da Alvorada mais bonita que a alvorada que o mar azul-safira da República Dominicana Olha, você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro em maio e quase tão bonita quanto a Revolução Cubana [Ferreira Gullar]
Imagem em destaque: Pexels
Zangado
Enrolado em um cobertor rasgado ao meio – suficiente, porém, para cobrir todo o seu corpo –, ele dormia um sono profundo no banco da praça. Era um senhor sexagenário que, por analogia e por gracejo, havia recebido dos comerciantes locais e de seus consumidores ordinários o apelido de Zangado: exibia uma volumosa e emaranhada barba de tons grisalhos, uma estatura incomum e uma costumeira carranca; chamava a atenção também por dizer estar sempre acompanhado de um cachorro muito manso e serelepe de longos pelos ruivos e olhos tão azuis quanto o seu, sobre o qual afirmava, aos nossos ouvidos incrédulos, ter acolhido há 30 anos, num dia em que fora visitar pela primeira vez a biblioteca central – a respeito deste encontro, alternava versões e acrescentava variações conforme o ouvinte, ou de acordo com seu humor, a fase da Lua ou a estação do ano, contudo, invariavelmente o relato começava com o cachorro caindo de um caminhão de mudanças e terminava com o animal dentro da biblioteca, em seu colo ou embaixo de seu paletó; desde então – afirmava – nunca se separaram e um dia voltaria com o amigo para sua terra natal, a Espanha, onde dizia ter sido maestro de uma orquestra sinfônica. Como se tornou mendigo, nunca revelara.
Continuar lendo “Zangado”Em que acreditar
O que tens aí em mente - vasta ideia, semente que desabrocha em flor mas que seca ao amor? O que queres agora? - não sabes; vá embora de modo muito discreto como fogo em decreto. O que podes dizer-me - nada - fazer esquecer-me do que já vivi fingindo que morri? Que certeza é essa de simplicidade sem pressa da resolução casual nessa escuridão visual? Por que acreditar que tudo já foi dito que tudo já foi existido só falta ter sentido?... E por que acreditar na inexistência absoluta e em vã disputa que me dói o pensar? E por que, por que... Por que acreditar? [M.S.]









