Há de Ser

(Uma menina sumiu
                                 de sua casa 
                       fugiu
- ninguém mais a viu?)

Enquanto espero a chegada em incerta hora
lembro dos que já foram embora
lembro do que eu antes era
vejo o que sou agora
- lembro de você.

Esta é sim uma sucessão de ideias
e imagens desfiguradas
e sons dissonantes
e gostos deturpados
e impressões casuais.

(Ela só tinha 14 anos
quando se entregou
àquela vida
àquela venda
indiscriminada

E aí, então, você chega e acha normal:
"O mundo é isso agora
como antes fora
e há de ser
- você vai ver..."

E eu, ainda impressionado
sinto-me mesmo culpado
pelo que não fiz
justamente por nada fazer
- me calar, não combater...

"Mas ela diz que gosta dessa vida fácil
tão desconexa mas tanto vício
assim não é tão difícil
melhor passar o dia, esquecer
e não tentar entender".

Ela ainda tinha o brilho nos olhos
a alma insípida
o corpo inodoro
quando se deixou levar
numa noite como essa.

Ela também sonhava
ela sabia sonhar!
agora vive um pesadelo
verdadeiro
- subvida... perdida.

"Mas ela diz que tem joias
tem ouro, tem colares
e que não dorme
porque não sonha
e não sonha porque cresceu".

Apesar de tudo, não consigo compreender)

Porque lhe amo
é que vou estar
aqui tão longe
aqui tão perto
da solidão.

Porque não lhe odeio
é que fica complexo
esquecer você
compreender o porquê
quero lhe ver.

[M.S. - Setembro /1998]

Imagem em destaque: Obra de Suzane Valadon, extraída de 3 Minutos de Arte

Visão da Cidade

Vejo a usina...
Não posso transmitir a imagem dela
Com a avenida ao seu lado
Com as casas ao seu redor
Com as fumaças saindo das chaminés
E acima o céu cinzento.

Santo André, daqui, é tão pequena,
Ainda assim não é tudo...
Esses prédios, esse concreto,
Essa dura realidade
(realidade de concreto!)
Ainda inspira alguma poesia...

Pedaços de mata devastada
Ocupados pelas casas, prédios, ruas,
Como uma ferida
Que jamais vai cicatrizar.
Como uma infecção
Intensa, intensa...

[M.S. - 1995/96]

Imagem em destaque: Flickr.com

Raízes (Sil de Jesus)

Tenho sucumbido muitas vezes.
Depois, respiro fundo,
levanto,
lavo o rosto,
sigo em frente.
Não é fácil morrer,
mais difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar-se na luz,
sonhar com a lua,
e tragar o mar.

Eu sigo renascendo,
não sei mais para
onde seguir.
Abracei minhas raízes
e me permitir subir.

[Sil de Jesus]

Sil de Jesus – Poetisa, terapeuta e servidora pública.

Abrigo

Gosto da ideia de encontros fortuitos
quando, ao cair da tarde,
o Sol já não arde
quem arde somos nós
- dois sóis

Gosto das circunstâncias inesperadas
inconscientemente desejadas
com a força de um furacão
impelidas pelo desejo
de seu beijo

Gosto de como me toca com seu olhar
quando, lançados ao mar,
navegamos por águas calmas
de nossas almas
- desnudas

Gosto, por fim, de seu sorriso
inferno e paraíso,
porto seguro no escuro,
um tesouro escondido
- meu abrigo.

[M.S]

Video-poema: No calor urbano

À noite
Quando vou à cidade
E as ruas estão descongestionadas,
Tudo parece tranquilo:
Nada demais acontece
- o que é breve fenece
o que é febre adormece
o que é surdo amortece
o que é dor o amor esquece
o que é maldição vira prece
o que é pensar arvorece...

Então, o que era egrégio ficou pouco
O que era livre ficou louco...

E os prédios não estão mais derretendo.

                                                                              [M.S.]

Subverso

Pequena notinha explicativa: Escrevi estes dias, retomando uma célebre frase de um personagem do filme “O Carteiro e o Poeta”, que o poema pertence a quem lê. É o caso deste poema, escrito sem letras iniciais maiúsculas e sem pontuações para cada leitor seguir sua própria ordem e colocar seu próprio ritmo, sua entonação pessoal e atribuir seus próprios sentidos e significados. Eu mesmo faço várias leituras dele, e cada uma com alguns sentidos diferentes. Abaixo, compartilho a minha preferida 😉

Em algum lugar do século que passou

venta
ou você inventa
encontramos os amigos parados
eles nos sorriem como fôssemos velhos 
de guerra
é preciso mais que seus sorrisos amarelos
em seus cinismos e em suas sinceridades

a cidade está só e já não podemos
com nossos bolsos
as folhas caem em cabeças ocas

meus votos, meus sentimentos

tudo o que sinto é o gosto amargo
da vitória transformada em fim de tudo
e estamos para o que der e vier

mas nada dá e nada vem

[M.S]

Dezembro

I

Eu preciso abandonar
Este louco projeto de sonhar com você
O sonho nada me diz
E você, então, se foi há tempos.

Aquela luz em torno de seu corpo
Era mera impressão
Aquele brilho em seus olhos
Era reflexos dos meus.

(Ela jamais existiu)

Eu me pergunto: como é que pode
Isso ter acontecido desta maneira?

(Está na hora de vocês agirem como adultas)

Mas tudo o que eu falei
Foram frases sombrias
Mesmo as mais bonitas
Estavam carregadas

Do desejo dos seus lábios
Ao desejo do seu corpo
Nada era o que eu queria
Apenas as desgraças

Nada se repetia
Apenas os sentimentos
E a opacidade das imagens
Que se foram...

II

Eu preciso abandonar o hermetismo
O transcendental pensar metafísico
Preocupar-me com o metal

(O concreto)

Abandonar a ociosidade
Deixar o corpo cansar
Deixar a mente esquecer...

O segredo dos seus olhos
O meu ar de que tudo está tão claro
Como se não estivéssemos à beira do milênio
Nada me dizem...

A sua falseada alegria
O meu cinismo ingênuo
Como se não estivéssemos para nascer
Nada me dizem...

O seu gesto de incompreensão
A minha suposta paciência
Como se não estivéssemos perdidos
Nada me dizem...

Nada me dizem
Mas eu é que estou surdo.


[M.S.]