Colhendo o Dia

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
[Ricardo Reis]

Primavera de mil setecentos e setenta e quatro

No dia em que você me deu bombos tentando me expulsar do seu coração, pensei no quanto a ironia das circunstâncias pode ser planejada e no quanto acontece inconscientemente, sendo apenas parte da mente de quem a interpreta.Então decidi que não mais tentaria. Comeria os bombons como a gorda os comeu sem nem mesmo me dar um pedaço, daria um último beijo e faria o último sexo, como se realmente fossem os últimos atos de uma vida tão valiosa quanto qualquer outra vida, como se eu pudesse premeditar os sentidos e os sentimentos, como se eu fosse o último dos homens e o primeiro dos pais.

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Policromático

Com teu sorriso o meu rosto cobre
passeando seus olhos cor de cobre
semeia sonho, sanha, simplicidade
magia e feitiço em meio à verdade
impulsos de sentimentos pulsantes
devoram pensamentos inebriantes

sons que voam tontos, livres, leves
cem frases soltas ao vento - breves
lembram a imagem em vão perdida
completam uma palavra - esquecida
experiência de ciência inconsciente
sempre aquiescente a inquieta mente

tons e sobretons ornam a sua face
de uma voz outra vez sem disfarce
apertando a si mesma num abraço
impõe seu caminho em cada passo
acordes que tange por onde passo.

[M.S.]

 

 

 

 

 

O que não se pode explicar…

Quantos abraços precisamos (não mais que dois) 
para que fique a saudade de um antes e de um depois inexistidos,
um tanto de quero-mais e de bem-querer contidos
numa vida incontida ainda por viver?

Quantos silêncios seriam precisos para explicar
a preciosa e imprecisa linguagem do olhar,
dos sorrisos compartilhados
em gestos espontâneos, simultâneos,
sincronizados
por encantamentos febris em instantes sutis?

Quantos versos seriam suficientes
para que não mais ou mesmo de repente
explicar o pensamento e ser capaz de ver
o que há por dentro ou não - de um coração
que ao sabor dos ventos se abre
colhendo tempo e tempestade?

[M.S.]

O Discurso da Torre

Eu te falei: meus jogos de palavras são palavras em jogo. Lançadas ao vento, sopram furacões e tempestades sem mortes para contabilizar nem mortos a lamentar o destino perdido, ou encontrado. Sem resultado algum. Eu te falei; você que não quis ouvir. Agora, ouça… Continuar lendo “O Discurso da Torre”

Insatisfações, Esquecimentos & outras firulas

“Somos seres desejantes destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar” – Jacques Lacan

Costumo dizer que podemos ter um dia maravilhoso, com tudo correndo às mil maravilhas (passar naquela faculdade disputadíssima, receber um elogio do chefe rabugento, ganhar um beijo da pessoa amada, ser premiado na mega-sena e, de quebra, quem sabe até ver o Palmeiras ser campeão do mundo!), massssssssssssss… Continuar lendo “Insatisfações, Esquecimentos & outras firulas”

Variáveis

Entre aquilo que a gente
Deseja que seja
E aquilo que acontece,
Ou permanece...

Entre os sonhos e as sinas;
Entre os fatos e os atos
E alguns retratos...

Entre as posses
E as possibilidades;
Entre as passagens
E as nossas viagens...

Entre as quadras,
As quadrinhas,
A quadrilha do poeta
(e etecétera)...

Entre as distâncias
E lembranças
De nada que foi
De tudo que não será...

Alimentamos
- eu em ti,
você em mim –
um jogo sem fim:

Nem não, nem sim.

[M.S]

O Proletário e o Sonho

Há um muro de concreto entre o céu e a Terra

Sonhando ser o teto uma saída
O camarada proletário constrói sua astronave
Com sete cores e com sete chaves
Banhado pela luz da Lua e pela Luz do Sol.

Sem perceber, o camarada proletário sonha

E nuvens alvas movem-se sob os seus pés
Mas o proletário já não pode
Abaixar a cabeça e calar-se
Pois dentro dele há um ideal e um grito
Às vezes de dor, às vezes de desespero.

Sonha, camarada proletário,
Sonha, que o futuro virá!

[M.S.]

Louvor do Revolucionário

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

[Bertolt Brecht]