sob o signo do sonho
nas bordas do firmamento
o chão a chuva a seca
lá fora ou cá dentro
não sei
pobre terra rica
pés descalços, brasis
rubra poeira
pele em brasa
sob o fervo de fevereiro
a gélida sentença
o desengano
impossível a existência
tão leve a criança
- coração paranapanema
mente em curto
curta a vida
curto o tempo
leva para casa leva ela
e tudo que ela leva
e eleva as mãos
mas não
sob o forno a fé
o enfrentamento
o ranger das madeiras
das paredes
o silvo do vento ao cruzar
das frestas
sob o sereno os poros
os porões d'outros verões
o fogo vindouro
entre o café e o algodão
as vacas e os seus frutos
a cana e os moinhos
as mãos moídas os calos
os prantos calados
da obstinação da mãe
da teimosia do pai
da natural tepidez
de substâncias compostas
do barro
da carne
da alma
da tez
dos trinta e seis
o pulsar do filho improvável
possível se fez
[M.S. - Fev./2024]
Tag: Destaque
2024
quanto tempo leva
pra desgrudar da carne
a impressão do tato
o cheiro a dissolver
das narinas
o sal da pele o suor do rosto
o brilho que queima a face
o rubor sem trégua
aquela música sempre a tocar
baixinha que só você ouve
e ninguém conhece
quanto tempo leva
pra levar
da mente o instante
fugidio e permanente
que só você pressente
imerso e impressionante
destacado em multicolores
asas sons sensações sabores
subtraindo o tempo de si mesmo
de sua linha
de sua curva
de seu eixo
quanto de tempo nos leva
o tempo que temos
desgarrando dos olhos
aquilo que não vemos
o tempo que nos dá
o tempo que nos damos
o tempo despedaçado
que desperdiçamos
[M.S. - Jan./2024]
Imagem em destaque: Ligth is Time – Instalação criada com 65 mil relógios)
Eu nunca mais vou dizer…
"Eu nunca mais vou dizer o que realmente sinto"...
Porque, se eu disser, o que vai ser, o que importa
Que sentido objetivo, que razão especial, concreta
O que pende, cai ou então o que flutua no espaço
quando digo o que sinto, quando não vêem o que faço
Porque se não é como queria, sinal dos tempos...
Já que não sou rei nem lei nem preciso ser
(Lutarei por ela
mesmo se for em uma guerrilha)
Nunca direi, porque fará inverno
Fará um inverno-inferno, que queimará
as ilusões fantasiadas pela mídia.
Calarei, até chegar a hora da alegria.
Lutarei por ela
mesmo se for em uma guerrilha.
E por mais que eu chore
O mundo estaria aqui
E mesmo que a tristeza continue
junto com a depressão, meu grito é importante
junto a outros gritos
Gritos de liberdade.
Lutarei por ela, pois esta é minha sina
mesmo se for em uma guerrilha.
[M.T.A – Em algum lugar do século que passou…]
Espelho
um dia qualquer
em uma hora qualquer
ele olha para o caderno
e se vê nele
refletida a sua imagem
espelhados os seus sonhos
ocultos inscritos
discretos distritos
pensamentos que vieram
e apenas ficaram
graças à louca ideia
de materializá-los?
[M.S.]
Continua…
Ali estava o ponto que negara meses a fio e negara, pois lhe fugia a lógica e sem lógica recusava-se a crer. Dizem por aí que as almas sempre retornam para suas casas e que o reconhecimento é quase que imediato.
Reconheci aquela alma em particular e por medo, mantive distância segura, mas a vida, marota vida, fez o seu estranho balé movendo-me na direção do que eu fugi.
Cá estou, entre os suspiros dos amantes, a ânsia dos amanhãs que parecem nunca chegar e o medo dessa tão intensa entrega.
O que eu faço? Ouço um riso inumano no vento. O que eu faço? -Viva, Tânia. Viva!!

Pedaço de ti
"Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus"
[Chico Buarque - Pedaço de Mim]
A nossa despedida começou muito antes de voltar a ser hospitalizada, quando fui visitá-la em casa e, ao dar tchau, me abraçou e confidenciou baixinho ao meu ouvido: “Deixa falar uma coisa só pra você… eu vou morrer“.
Continuar lendo “Pedaço de ti”Por Isso Agora Falo
Falo como poeta Eu sou livre e não sabia Mas essa inconsistência do papel E essa minha língua vermelha, mordida Carne, nervos e sangue - o doce aroma Corte exposto no indicador esquerdo Eu sou poeta e não sabia. Eu sou poeta e não queria Conhecer a louca esperança tonta Que faz a escrita toda torta O vício da rima e o vício da mina Só, mano, é isso aí! Pra sair do contexto Nada do que faço é certo Eu sou o homem no deserto. Falo com o falo À flor da pele o hormônio O palavrão improferível A idade média da razão Eu sou o fruto que sai da terra O ofídio - tal como, frio e paciente Eu sou poeta e não sentia. Não sentia que era isso Essa coisa, esse asco Essa pedra bruta, esse fiasco Esse profundo fundorifício Detalhado na teta e na testa Marca de fuzil alemão Que eu nunca vi. Não, menina, eu não vou fugir Apenas quero me esconder Desse jeito meu (seu) de ser Da fantasia de sua boca na minha De seus lábios carnudos, calientes, Tangendo a fímbria do amanhecer... É que sou poeta e não dizia. Por isso agora falo. . [M.S. / Em algum momento do milênio passado]
Comunicado Urgente
Aos que choram
quando estão sozinhos...
Aos que encontram nas alucinações
as soluções...
Aos que se negam a entender...
Aos que têm correntes
nas pálpebras:
Nada é para sempre
nem o corpo
nem o copo.
[M.S.]
Breve e Nenhuma Semelhança
entre a terra, que é sólida e o céu, que é insólito entre a luz da Eletropaulo e a luz que emana do Sol entre a donzela, que é pura e o boi, que é casto entre a vida, que é incógnita e a morte, desconhecida... [M.S]
Vastidão
Bomba.
Bamba
Bambu.
O frio corta a alma
que tropeça, calma,
sôfrega,
trôpega
Cana-de-açúcar
pinga, garapa,
tinta
ginga, gincana
cultura química
O corpo, veloz,
corta o vento
A navalha corta
o tempo
esgotando-se
cada gota rubra
e espessa
Espera. O dia custa
a chegar
Dia composto em roda
de samba
raíz
Quem diz
que é mais forte
que o infinito
pode até pensar bonito
mas engana-se
Esgana-se
a cada minuto
hora segundo
isso é o que eu lia
e me sentia diminuto
nesse mundo mundo
vasto mundo
Uma rima,
uma solução,
para estar por cima
é aprender a dizer
não
É uma pena!
Como no poema
mais vasto é esse meu
coração.
Imagem em destaque: A Lua, de Tarsila do Amaral









