Lembranças que tive
de vidas que não vivi
e ainda assim tão reais
que posso sentir:
O sabor da fruta
O cheiro da flor;
A terra morna e úmida
sob os pés descalços;
O toque dos raios de Sol
O calor no rosto;
Um beijo, um gosto
– seu gosto.
[M.S.]
Autor: Marcelo Siqueira
Duas tribos
Ela era tão sã e séria que as meninas a invejavam, os meninos a temiam e os adultos lhe duvidavam da idade. Não ter uns parafusos a menos lhe fazia uma falta; um pouco de maluquice lhe faria bem…
Mas aquele verão que estava se fechando para os princípios das águas marcianas seria marcado por muitos contrastes, alguns desassossegos e outros contratempos, a começar pela chegada daquela que em segredo apelidamos de “Sombra”, em contraposição da que um dia fora levada às pressas à administração central e jamais retornou, para nós desaparecida desde então pois, quando perguntávamos, nos respondiam simplesmente com um olhar silenciador.
Sei que algo havia se quebrado – sem recuperação se fora, irrecuperável ficara. De sorte que naquele final de estação, quando uma partiu e a outra chegou – uma sem dar tempo de levantar poeiras e outra sem dar-lhes tempos de assentar –, naquele final que prenunciava novos inícios, velhas e novas idades se cruzando em um cubículo que mal cabiam trinta e quatro mesas, dezessete assentos e quase o dobro de pessoas a lhes ocupar, muitas histórias aconteceriam e nenhuma seria contada – a não ser as histórias ocorridas entre frações de segundos e que, não fosse por capricho do destino e da imaginação que as preservaram na memória, teriam passado desapercebidas ou não teriam sido imaginadas.
Pois é sabido por todo mundo, inclusive por aqueles que fingem não saber: nenhuma história tem mais força e nenhuma é mais real que a história inventada, porque esta cabe em qualquer palma da mão, desde a mais áspera até a que nunca tocou no cabo de uma enxada ou de uma vassoura, nem mesmo quando criança, numa de brinquedo, quando brincava…
Imagens em movimento
palavras plumagens películas breves passaram por mim e eu, em sono, leve arrefeci mole, em pluma, mambembe plantei sonhos sonhei assanhei senhas foram lançadas ao mar e ao nada, nadei [M.S.]
2018
Prometo não dizer nunca;
e de prometer jamais me contrariar
- nunca antes, nunca depois, sempre agora...
Um instante preso dentro de uma garrafa
opaca e sem tampa;
Um instante pronto para ser bebido
até a última gota,direto do gargalo
para a garganta.
Prometo escolher só as palavras erradas
- as mais rotas, irregulares e inexatas
Para que todos os sentidos sejam possíveis,
Para que nenhuma palavra
seja sentida, mesmo que linda
e tudo seja incompreensível
e ao mesmo tempo cristalino
como o brilho de uma sinapse
em seu ápice,
no instante em que finda.
Prometo não dizer prometo
e não arrancar da pele a flor,
à flor da pele,
quando exausto,
num silêncio incauto e ao infinito,
soltar um grito em série.
Prometo não dizer mais nada
Prometo não guardar segredo
e ainda (o que à memória agrada)
- prometo não esquecer do medo.
[M.S.]
Vão-se os anéis…
O dia que vem chegando, As palavras que disse sem pensar, As consequências inevitáveis, A impulsividade contagiosa de meus amigos.. Somado a tudo isso: a esperança perdida. Salvar o homem? Para quê? Ainda assim, persisto - persistimos. Encontro rostos conhecidos, Vozes ressurgem na memória... Gritos - nesse instante silencioso - Cerram o sono e a paciência. É preciso ter coragem ou estar louco Para saber-se a muito e ser tão pouco. A manhã se aproxima, Sabemos que o Sol existirá longamente E que cada manhã vindoura é um dia a mais De menos paz, de intensa irracionalidade. Preso neste mar de papéis A mente convergindo para a incoerência E essa lembrança triste e serena, trapaceira. Vão-se os anéis, os dedos... [M.S., abril/2000]
Colhendo o Dia
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
[Ricardo Reis]
Primavera de mil setecentos e setenta e quatro
No dia em que você me deu bombos tentando me expulsar do seu coração, pensei no quanto a ironia das circunstâncias pode ser planejada e no quanto acontece inconscientemente, sendo apenas parte da mente de quem a interpreta.Então decidi que não mais tentaria. Comeria os bombons como a gorda os comeu sem nem mesmo me dar um pedaço, daria um último beijo e faria o último sexo, como se realmente fossem os últimos atos de uma vida tão valiosa quanto qualquer outra vida, como se eu pudesse premeditar os sentidos e os sentimentos, como se eu fosse o último dos homens e o primeiro dos pais.
Continuar lendo “Colhendo o Dia”Leitura de recesso escolar: “Amor e Capital”, de Mary Gabriel
Gabriel, Mary. Amor e Capital: a saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução; tradução de Alexandre Barbosa de Souza. – Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
Quando comprei esse livro, há uns anos atrás, fui atraído pela ideia de conhecer sobre a vida de Karl Marx para além do político e pensador endeusado ou amaldiçoado de acordo com as lentes e filtros adotados.
Contudo, este não é um livro pura e simples sobre Karl Marx, e sim sobre sua família, sobre a história de um casal e sobretudo sobre as mulheres fortes e combativas que enfrentando barbaramente as adversidades da vida impostas pelo modo de produção e pelas relações sociais predominates no capitalismo fizeram história junto com Marx, mas na historiografia acabam sendo relegadas a segundo plano. Como diz a autora, num prefácio que dispensa maiores apresentações, e que transcrevo parte como um convite à leitura:
“A história da família Marx é tão rica que elucida também o desenvolvimento das ideias de Marx, uma vez que se desenrola sobre o pano de fundo do nascimento do capitalism moderno. O sistema capitalista do século XIX amadurece com as filhas de Marx. Ao final do século, as lutas que elas enfrentaram em nome dos trabalhadores já não pareciam as que o pai lutara em meados do século. As batalhas da época dele davam a impressão de ter sido relativamente amenas. As lutas do tempo de suas filhas se tornaram selvagens (…)
Ao escrever as biografias dos grandes homens de Roma e Atenas antes de sua morte em 120 d.C., Plutarco afirmou que a chave para entender esses homens não estava nas conquistas dos campos de batalha ou en seus triunfos públicos, mas em suas vidas pessoais, em seus personagens, até mesmo um gesto ou uma palavra. Acredito que através da história da família Marx, os leitores poderão entender melhor Marx, da forma como Plutarco sugere. Espero também que os leitores saiam desta leitura com admiração pelas mulheres da vida de Marx, que por causa da sociedade em que foram criadas acabaram assumindo papéis quase sempre secundários. Acredito que a coragem, a força e o brilhantismo dessas mulheres já permaneceram tempo demais na obscuridade. Sem elas não haveria Karl Marx, e sem Karl Marx o mundo não seria como nós o conhecemos”.
Vamos à leitura, pois!
[M.S.]
Policromático
Com teu sorriso o meu rosto cobre passeando seus olhos cor de cobre semeia sonho, sanha, simplicidade magia e feitiço em meio à verdade impulsos de sentimentos pulsantes devoram pensamentos inebriantes sons que voam tontos, livres, leves cem frases soltas ao vento - breves lembram a imagem em vão perdida completam uma palavra - esquecida experiência de ciência inconsciente sempre aquiescente a inquieta mente tons e sobretons ornam a sua face de uma voz outra vez sem disfarce apertando a si mesma num abraço impõe seu caminho em cada passo acordes que tange por onde passo. [M.S.]
O que não se pode explicar…
Quantos abraços precisamos (não mais que dois)
para que fique a saudade de um antes e de um depois inexistidos,
um tanto de quero-mais e de bem-querer contidos
numa vida incontida ainda por viver?
Quantos silêncios seriam precisos para explicar
a preciosa e imprecisa linguagem do olhar,
dos sorrisos compartilhados
em gestos espontâneos, simultâneos,
sincronizados
por encantamentos febris em instantes sutis?
Quantos versos seriam suficientes
para que não mais ou mesmo de repente
explicar o pensamento e ser capaz de ver
o que há por dentro ou não - de um coração
que ao sabor dos ventos se abre
colhendo tempo e tempestade?
[M.S.]
8 Dicas para estimular seu filho em casa
Diário da Inclusão Social (https://diariodainclusaosocial.com) é um blog que recomendo a pais, mães, educadores e todos que queiram saber mais sobre as questões da inclusão em nossa sociedade. A partir de experiências concretas vividas em família e pelos conhecimentos adquiridos destas experiências, de pesquisas e leituras, Talita, Luciene e Maria de Lourdes vão nos apresentando um mundo de possibilidades na educação e convivência com seres humanos com necessidades especiais, de tal maneira que passamos a compreender não como “deficiência”, mas sim como características e singularidades humanas as diferenças no jeito de ser, pensar e conviver de cada ser humano.
Estimular nossos filhos é um processo diário e continuo…. Que faz toda a diferença para a sua qualidade de vida e o para o sucesso de seu desenvolvimento! E este não precisa ser um processo maçante e cansativo, pelo contrário: pode e deve ser muito prazeroso para todos os envolvidos, até porque quanto mais envolvente, mais significativo!
Passo agora a compartilhar com vocês algumas atividades e brincadeiras que eu e o Caique gostamos muito de fazer em casa. Confiram!
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