Prometo não dizer nunca;
e de prometer jamais me contrariar
– nunca antes, nunca depois, sempre agora…
Um instante preso dentro de uma garrafa
opaca e sem tampa;
Um instante pronto para ser bebido
até a última gota,direto do gargalo
para a garganta.
Prometo escolher só as palavras erradas
– as mais rotas, irregulares e inexatas
Para que todos os sentidos sejam possíveis,
Para que nenhuma palavra
seja sentida, mesmo que linda
e tudo seja incompreensível
e ao mesmo tempo cristalino
como o brilho de uma sinapse
em seu ápice,
no instante em que finda.
Prometo não dizer prometo
e não arrancar da pele a flor,
à flor da pele,
quando exausto,
num silêncio incauto e ao infinito,
soltar um grito em série.
Prometo não dizer mais nada
Prometo não guardar segredo
e ainda (o que à memória agrada)
– prometo não esquecer do medo.
[M.S.]
Categoria: Contos, crônicas, poesias & afins
Vão-se os anéis…
O dia que vem chegando, As palavras que disse sem pensar, As consequências inevitáveis, A impulsividade contagiosa de meus amigos.. Somado a tudo isso: a esperança perdida. Salvar o homem? Para quê? Ainda assim, persisto - persistimos. Encontro rostos conhecidos, Vozes ressurgem na memória... Gritos - nesse instante silencioso - Cerram o sono e a paciência. É preciso ter coragem ou estar louco Para saber-se a muito e ser tão pouco. A manhã se aproxima, Sabemos que o Sol existirá longamente E que cada manhã vindoura é um dia a mais De menos paz, de intensa irracionalidade. Preso neste mar de papéis A mente convergindo para a incoerência E essa lembrança triste e serena, trapaceira. Vão-se os anéis, os dedos... [M.S., abril/2000]
Colhendo o Dia
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
[Ricardo Reis]
Primavera de mil setecentos e setenta e quatro
No dia em que você me deu bombos tentando me expulsar do seu coração, pensei no quanto a ironia das circunstâncias pode ser planejada e no quanto acontece inconscientemente, sendo apenas parte da mente de quem a interpreta.Então decidi que não mais tentaria. Comeria os bombons como a gorda os comeu sem nem mesmo me dar um pedaço, daria um último beijo e faria o último sexo, como se realmente fossem os últimos atos de uma vida tão valiosa quanto qualquer outra vida, como se eu pudesse premeditar os sentidos e os sentimentos, como se eu fosse o último dos homens e o primeiro dos pais.
Continuar lendo “Colhendo o Dia”Policromático
Com teu sorriso o meu rosto cobre passeando seus olhos cor de cobre semeia sonho, sanha, simplicidade magia e feitiço em meio à verdade impulsos de sentimentos pulsantes devoram pensamentos inebriantes sons que voam tontos, livres, leves cem frases soltas ao vento - breves lembram a imagem em vão perdida completam uma palavra - esquecida experiência de ciência inconsciente sempre aquiescente a inquieta mente tons e sobretons ornam a sua face de uma voz outra vez sem disfarce apertando a si mesma num abraço impõe seu caminho em cada passo acordes que tange por onde passo. [M.S.]
O que não se pode explicar…
Quantos abraços precisamos (não mais que dois)
para que fique a saudade de um antes e de um depois inexistidos,
um tanto de quero-mais e de bem-querer contidos
numa vida incontida ainda por viver?
Quantos silêncios seriam precisos para explicar
a preciosa e imprecisa linguagem do olhar,
dos sorrisos compartilhados
em gestos espontâneos, simultâneos,
sincronizados
por encantamentos febris em instantes sutis?
Quantos versos seriam suficientes
para que não mais ou mesmo de repente
explicar o pensamento e ser capaz de ver
o que há por dentro ou não - de um coração
que ao sabor dos ventos se abre
colhendo tempo e tempestade?
[M.S.]
Estrelas – I
O Discurso da Torre
Eu te falei: meus jogos de palavras são palavras em jogo. Lançadas ao vento, sopram furacões e tempestades sem mortes para contabilizar nem mortos a lamentar o destino perdido, ou encontrado. Sem resultado algum. Eu te falei; você que não quis ouvir. Agora, ouça… Continuar lendo “O Discurso da Torre”
Insatisfações, Esquecimentos & outras firulas
“Somos seres desejantes destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar” – Jacques Lacan
Costumo dizer que podemos ter um dia maravilhoso, com tudo correndo às mil maravilhas (passar naquela faculdade disputadíssima, receber um elogio do chefe rabugento, ganhar um beijo da pessoa amada, ser premiado na mega-sena e, de quebra, quem sabe até ver o Palmeiras ser campeão do mundo!), massssssssssssss… Continuar lendo “Insatisfações, Esquecimentos & outras firulas”
Uma questão na madrugada
Variáveis
Entre aquilo que a gente Deseja que seja E aquilo que acontece, Ou permanece... Entre os sonhos e as sinas; Entre os fatos e os atos E alguns retratos... Entre as posses E as possibilidades; Entre as passagens E as nossas viagens... Entre as quadras, As quadrinhas, A quadrilha do poeta (e etecétera)... Entre as distâncias E lembranças De nada que foi De tudo que não será... Alimentamos - eu em ti, você em mim – um jogo sem fim: Nem não, nem sim. [M.S]








