Embalo

Embala-se no ar
Ao som da nova canção
Sob o áureo luar
Palpitando o coração.

Ao longe o mar
Perfazendo a emoção
Navegar, navegar!...
Perder-se na razão.

Em transe albaroar
Sem qualquer objeção
No cais da mente açodar
Parte-a-parte o coração.

Embala-se na noite
O silêncio suave
Passos d'um coiote
E um cingir de chave...

[M.S.]

Imagem em destaque: Johannes Plenio em Pexels.com

Carta aberta ao Prefeito de SBC, Orlando Morando

Olha aqui, #orlandomorando,

Você sabe da história, assim como grande parte da categoria sabe, de que no funcionalismo existiu uma fissura por muitos anos. Uma fissura alimentada pelo governo anterior, seu adversário; uma fissura criada a partir das diferenças de concepções políticas sobre organização e condução sindical; uma fissura que culminou em uma eleição sindical insana, a qual não falarei agora e que pessoalmente me fez tão mal que tive de me afastar da participação nas ações do sindicato, a qual eu pertenço e sou filiado há 24 anos – e que também afastou muita gente boa da participação nos movimentos e até nas lutas por nossos direitos.

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Independência

Independência da morte
presos na ponte
estamos sem sorte
no alto do monte

Independência da sorte
presos no monte
estamos sem morte
no alto da ponte

Independência do monte
presos na sorte
estamos sem ponte
no alto da morte

Na ponde da morte
do monte sem sorte
na ponte do monte
da sorte sem morte

Independência!
no monte da morte
estamos presos no alto
- a morte sem sorte

[M.S.]

Imagem em destaque extraída de Pixabay

Semântica

Aprendi desde há muito 
a sutileza das palavras;
a intuir nas entrelinhas
gestos e intenções não reveladas;
a compreender o que está sendo dito
naquilo que não está escrito.

Um substantivo mal colocado,
um adjetivo inocentemente à mingua,
um advérbio que escapa pelos dedos,
ou que escorre pela língua,
revelam segredos.

O que não sei pela omissão
completo com a imaginação
- peças se encaixam, se desencaixam
e, como um animal ferido,
mas vivo, prossigo.

Atribuo sentidos ao que leio
desnudo o que percebo
com a emoção
e com a razão
resvalo em medos
desvelo segredos.

[M.S.- Março/ 2023]


Imagem em destaque: Pieter Bruegel

Domingo Deserto

DOMINGO
                    comum, sem gritos ressoantes
aguardo o novo dia
que de tão esperado
já envelheceu

não é noite, não é dia
é tarde
   tarde demais para ficar esperando
   tarde demais para estar distante
                            e fingir-se ao lado
                            e fingir-se desperto
                           e fingir-se tão cheio
quando o coração - incerto - está
                                                     DESERTO.



[M.S]

Há de Ser

(Uma menina sumiu
                                 de sua casa 
                       fugiu
- ninguém mais a viu?)

Enquanto espero a chegada em incerta hora
lembro dos que já foram embora
lembro do que eu antes era
vejo o que sou agora
- lembro de você.

Esta é sim uma sucessão de ideias
e imagens desfiguradas
e sons dissonantes
e gostos deturpados
e impressões casuais.

(Ela só tinha 14 anos
quando se entregou
àquela vida
àquela venda
indiscriminada

E aí, então, você chega e acha normal:
"O mundo é isso agora
como antes fora
e há de ser
- você vai ver..."

E eu, ainda impressionado
sinto-me mesmo culpado
pelo que não fiz
justamente por nada fazer
- me calar, não combater...

"Mas ela diz que gosta dessa vida fácil
tão desconexa mas tanto vício
assim não é tão difícil
melhor passar o dia, esquecer
e não tentar entender".

Ela ainda tinha o brilho nos olhos
a alma insípida
o corpo inodoro
quando se deixou levar
numa noite como essa.

Ela também sonhava
ela sabia sonhar!
agora vive um pesadelo
verdadeiro
- subvida... perdida.

"Mas ela diz que tem joias
tem ouro, tem colares
e que não dorme
porque não sonha
e não sonha porque cresceu".

Apesar de tudo, não consigo compreender)

Porque lhe amo
é que vou estar
aqui tão longe
aqui tão perto
da solidão.

Porque não lhe odeio
é que fica complexo
esquecer você
compreender o porquê
quero lhe ver.

[M.S. - Setembro /1998]

Imagem em destaque: Obra de Suzane Valadon, extraída de 3 Minutos de Arte

Visão da Cidade

Vejo a usina...
Não posso transmitir a imagem dela
Com a avenida ao seu lado
Com as casas ao seu redor
Com as fumaças saindo das chaminés
E acima o céu cinzento.

Santo André, daqui, é tão pequena,
Ainda assim não é tudo...
Esses prédios, esse concreto,
Essa dura realidade
(realidade de concreto!)
Ainda inspira alguma poesia...

Pedaços de mata devastada
Ocupados pelas casas, prédios, ruas,
Como uma ferida
Que jamais vai cicatrizar.
Como uma infecção
Intensa, intensa...

[M.S. - 1995/96]

Imagem em destaque: Flickr.com