À noite
Quando vou à cidade
E as ruas estão descongestionadas,
Tudo parece tranquilo:
Nada demais acontece
- o que é breve fenece
o que é febre adormece
o que é surdo amortece
o que é dor o amor esquece
o que é maldição vira prece
o que é pensar arvorece...
Então, o que era egrégio ficou pouco
O que era livre ficou louco...
E os prédios não estão mais derretendo.
[M.S.]
Tag: Poesia
Subverso

Pequena notinha explicativa: Escrevi estes dias, retomando uma célebre frase de um personagem do filme “O Carteiro e o Poeta”, que o poema pertence a quem lê. É o caso deste poema, escrito sem letras iniciais maiúsculas e sem pontuações para cada leitor seguir sua própria ordem e colocar seu próprio ritmo, sua entonação pessoal e atribuir seus próprios sentidos e significados. Eu mesmo faço várias leituras dele, e cada uma com alguns sentidos diferentes. Abaixo, compartilho a minha preferida 😉
Em algum lugar do século que passou
venta ou você inventa encontramos os amigos parados eles nos sorriem como fôssemos velhos de guerra é preciso mais que seus sorrisos amarelos em seus cinismos e em suas sinceridades a cidade está só e já não podemos com nossos bolsos as folhas caem em cabeças ocas meus votos, meus sentimentos tudo o que sinto é o gosto amargo da vitória transformada em fim de tudo e estamos para o que der e vier mas nada dá e nada vem [M.S]
Vídeo-Poema: Fora do Tempo
Dezembro
I Eu preciso abandonar Este louco projeto de sonhar com você O sonho nada me diz E você, então, se foi há tempos. Aquela luz em torno de seu corpo Era mera impressão Aquele brilho em seus olhos Era reflexos dos meus. (Ela jamais existiu) Eu me pergunto: como é que pode Isso ter acontecido desta maneira? (Está na hora de vocês agirem como adultas) Mas tudo o que eu falei Foram frases sombrias Mesmo as mais bonitas Estavam carregadas Do desejo dos seus lábios Ao desejo do seu corpo Nada era o que eu queria Apenas as desgraças Nada se repetia Apenas os sentimentos E a opacidade das imagens Que se foram... II Eu preciso abandonar o hermetismo O transcendental pensar metafísico Preocupar-me com o metal (O concreto) Abandonar a ociosidade Deixar o corpo cansar Deixar a mente esquecer... O segredo dos seus olhos O meu ar de que tudo está tão claro Como se não estivéssemos à beira do milênio Nada me dizem... A sua falseada alegria O meu cinismo ingênuo Como se não estivéssemos para nascer Nada me dizem... O seu gesto de incompreensão A minha suposta paciência Como se não estivéssemos perdidos Nada me dizem... Nada me dizem Mas eu é que estou surdo. [M.S.]
Quando o tempo parou
quando o tempo parou parei de contar os dias as noites nuvens em fogo em céus sem estrelas as manhãs repetições de si mesmas quando o tempo parou os fantasmas pulsaram uníssonos e enfeitiçados uma mente brilhante um corpo quente um coração gelado quando o tempo parou veloz sobre os caminhos dissipado em assombros de mim se foi um tanto de mim ficou um pouco perdas penas escombros quando o tempo parou senti o peso do silêncio as batidas tensas na cabeceira da cama o sono em fuga os sonhos em chama quando o tempo parou pairei [M.S]
Nebulosa
I
Ela tem o mundo
- ela quis o mundo.
Mas tem o mundo nas costas
- a mãe doente e o mundo pesando
mais que unha encravada no dedão do pé.
Eu sei: ela não quis o mundo assim.
Idealizamos algo além do paraíso
E pensamos ter descoberto a fórmula
/ exata
E pensamos alugar uma vida única e
/ sensata
Mais que as cores do arco-íris.
II
... um ateu ... alguém paciente
uma risada
... o corpo estendido, mas retraído
não parecia o que era
não era o que parecia
parecia
perecia
parceria
ar
e
ria
... apenas comoção, lucidez, um trovão
E a noite fria cortante
nebulosa e cortante
constante, contanto...
III
Ela fugia das respostas
E muito mais das perguntas.
Eu, angustiando em alma derretida,
Em alma que nem acreditava existir
Por não ter confiança própria
Por esquecer que existe vida
E que o Sol ainda se põe.
Eu tinha um mundo
Um universo, reverso, inverso
/ ao verso
único
isolado
triste
mas indiferente
e para mim era tudo
e tudo era simples
Eu não queria mais nada
Desconhecia e repudiava
O que me fazia
pensar
Pois tinha tudo - estava certo,
esperto
(esperteza não é inteligência?)
E bastava ser mais um
no meio
sempre aos cantos
apenas mais um.
IV
Ela tem um caminho
Eu também tenho
(e às vezes uso um atalho)
E temos já a desilusão...
Sobre-humano é o esforço
esboço de força
Pincel com tinta azul
Banhada em cera líquida branca
Ou melhor, alva.
E o alvo era calvo nem isso era
era objeto
objetivado
substanciado
substantivado
Próprio, incomum, excludente
sobrevivente
impertinente
não era alvo.
V
Ela tem os pés no chão
E eu a cabeça embaixo do solo
Aterrada por sufocante delírio ‘in vita’
(é estranho como as pessoas resolvem ir
e nem tanto quando vão sem avisar.
Hoje, as estrelas estão mais brilhantes
e um gatinho rola no chão ao luar.
No caminho, as flores sorriem caladas
E os mortos certamente não se levantam)
Sinto uma energia sincera me contemplar;
Nos meus passos nem uma pedra
nem uma gota
Somente algum pássaro cantando
solitário.
[M.S.]
Imagem em destaque: montagem com foto do Google Imagens
Até onde…
longe longe longe
aonde o eco se esconde
e a brisa dissipa,
insípida
aonde os olhos não vêem
as mãos se tocam
e as bocas se falam
aonde os lábios se encontram
os ouvidos se encantam
e os corpos se enroscam
aonde as mentes se aquietam
os sorrisos acontecem
e as horas se esquecem
aonde estão os seus braços
- invisíveis laços
que acalentam e aquecem.
Dentro da Noite Veloz (Fragmento)
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda...
(...)
Ferreira Gullar
Na escola dos sonhos
Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi que a vida é mais que ter Aprendi que a sorte depende do que fazemos Que nem sempre o que fazemos depende de sorte Que nem sempre temos sorte. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi a olhar nas coisas mais que as coisas A olhar e a perceber pessoas, processos, histórias Aprendi a construir, mais que objetos, Possibilidades. Na escola dos sonhos em que me criaram O caminhar coletivo – eu aprendi – É opção pelo caminhar solitário Mesmo que não se queira E o sonhar é liberdade e é tristeza. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi que as escolhas são poucas Mas que há sempre uma saída Senão repentina, ao menos vindoura E o quão fugaz é a vida. Na escola dos sonhos em que me criaram Aprendi a amar nas pessoas Além do que elas são no momento Suas potencialidades... O ser, o devir, o vir-a-ser. Na escola dos sonhos em que me criaram Na escola dos sonhos em que me criei Na escola dos sonhos que eu criei Há uma vaga, há um querer Esperando você. [M.S]
Imagem em destaque: Pixabay.com
Música de fundo: Thinking Out Loud (Ed Sheeran), por Alenka & Anze









