Sem o susto de cada dia o homem não vive. Não pode com a certeza do fim ou de um recomeço sem tréguas, Com o imediato silêncio no instante que chega - e passa, Com o sopro do vento que traz uma gota de chuva, Com a maneira certa de falar ou de se portar à mesa... Não pode com isso, muito menos com aquilo. Com uma fonte de desejo à frente e uma moeda que falta, Com o futuro que se esgarça a cada ação planejada - como areia que se esvai numa intenção esquecida. O homem não pode consigo. Vê a estreiteza das rochas e insiste no naufrágio, Abandona-se à sorte para deleitar-se com a paisagem. Quando se dá conta, já foi, sem nunca ter sido. [M.S.]
Tag: Poesia
Memórias de coisas que não aconteceram
Lembranças que tive
de vidas que não vivi
e ainda assim tão reais
que posso sentir:
O sabor da fruta
O cheiro da flor;
A terra morna e úmida
sob os pés descalços;
O toque dos raios de Sol
O calor no rosto;
Um beijo, um gosto
– seu gosto.
[M.S.]
2018
Prometo não dizer nunca;
e de prometer jamais me contrariar
- nunca antes, nunca depois, sempre agora...
Um instante preso dentro de uma garrafa
opaca e sem tampa;
Um instante pronto para ser bebido
até a última gota,direto do gargalo
para a garganta.
Prometo escolher só as palavras erradas
- as mais rotas, irregulares e inexatas
Para que todos os sentidos sejam possíveis,
Para que nenhuma palavra
seja sentida, mesmo que linda
e tudo seja incompreensível
e ao mesmo tempo cristalino
como o brilho de uma sinapse
em seu ápice,
no instante em que finda.
Prometo não dizer prometo
e não arrancar da pele a flor,
à flor da pele,
quando exausto,
num silêncio incauto e ao infinito,
soltar um grito em série.
Prometo não dizer mais nada
Prometo não guardar segredo
e ainda (o que à memória agrada)
- prometo não esquecer do medo.
[M.S.]
Vão-se os anéis…
O dia que vem chegando, As palavras que disse sem pensar, As consequências inevitáveis, A impulsividade contagiosa de meus amigos.. Somado a tudo isso: a esperança perdida. Salvar o homem? Para quê? Ainda assim, persisto - persistimos. Encontro rostos conhecidos, Vozes ressurgem na memória... Gritos - nesse instante silencioso - Cerram o sono e a paciência. É preciso ter coragem ou estar louco Para saber-se a muito e ser tão pouco. A manhã se aproxima, Sabemos que o Sol existirá longamente E que cada manhã vindoura é um dia a mais De menos paz, de intensa irracionalidade. Preso neste mar de papéis A mente convergindo para a incoerência E essa lembrança triste e serena, trapaceira. Vão-se os anéis, os dedos... [M.S., abril/2000]
O que não se pode explicar…
Quantos abraços precisamos (não mais que dois)
para que fique a saudade de um antes e de um depois inexistidos,
um tanto de quero-mais e de bem-querer contidos
numa vida incontida ainda por viver?
Quantos silêncios seriam precisos para explicar
a preciosa e imprecisa linguagem do olhar,
dos sorrisos compartilhados
em gestos espontâneos, simultâneos,
sincronizados
por encantamentos febris em instantes sutis?
Quantos versos seriam suficientes
para que não mais ou mesmo de repente
explicar o pensamento e ser capaz de ver
o que há por dentro ou não - de um coração
que ao sabor dos ventos se abre
colhendo tempo e tempestade?
[M.S.]
MIUDEZAS DE PENSAR * Tiny little things of thinking
Ana de Lourdes escreve com uma sensibilidade única, ousando neologismos e figuras de linguagens penetrantes. Em suas escritas é difícil saber o que é real ou imaginário, tudo se sintetiza numa harmonia ao mesmo tempo simples – pela linguagem coloquial e envolvente – e complexa – pela força das metáforas construídas como alicerces poderosos de um edifício que toca as nuvens do céu. Convido-os a conhecerem seu blog: https://anadelourdes.wordpress.com
Escondo o mundo nos músculos do peito... Enrolados neste barulho, somos sons intermináveis! ruidosos, porque vitrais se quebram, Ou é esse mundo de vidro que balança demais. Alimento a fé com miudezas... Espanta-me as preces decoradas! Decorei, porque não acredito, ou acreditando juntei memórias? Engravido de fluidos que viram gente, e de versos enfileirados que nunca pedi... Possuo dons porque mereço, ou por não merecer me tornei quem não sou? Seguro a paciência num fio sem limites, admirando caminhos que jamais se encontraram.... Encontro, porque espichar deixa sobras, ou porque estirada me alcanço do outro lado? Espreito o que é meu, desejo o que não sinto falta. Maravilhas de pequenas criações... Inventadas porque sou “querente”, ou porque pensamento é descoberta de sonhador. Ana de Lourdes Teixeira - Março,2017
Estrelas – I
O Discurso da Torre
Eu te falei: meus jogos de palavras são palavras em jogo. Lançadas ao vento, sopram furacões e tempestades sem mortes para contabilizar nem mortos a lamentar o destino perdido, ou encontrado. Sem resultado algum. Eu te falei; você que não quis ouvir. Agora, ouça… Continuar lendo “O Discurso da Torre”
Uma questão na madrugada
Variáveis
Entre aquilo que a gente Deseja que seja E aquilo que acontece, Ou permanece... Entre os sonhos e as sinas; Entre os fatos e os atos E alguns retratos... Entre as posses E as possibilidades; Entre as passagens E as nossas viagens... Entre as quadras, As quadrinhas, A quadrilha do poeta (e etecétera)... Entre as distâncias E lembranças De nada que foi De tudo que não será... Alimentamos - eu em ti, você em mim – um jogo sem fim: Nem não, nem sim. [M.S]




Escondo o mundo nos músculos do peito...
Enrolados neste barulho, somos sons intermináveis!
ruidosos, porque vitrais se quebram,
Ou é esse mundo de vidro que balança demais.
Alimento a fé com miudezas...
Espanta-me as preces decoradas!
Decorei, porque não acredito,
ou acreditando juntei memórias?
Engravido de fluidos que viram gente,
e de versos enfileirados que nunca pedi...
Possuo dons porque mereço,
ou por não merecer me tornei quem não sou?
Seguro a paciência num fio sem limites,
admirando caminhos que jamais se encontraram....
Encontro, porque espichar deixa sobras,
ou porque estirada me alcanço do outro lado?
Espreito o que é meu, desejo o que não sinto falta.
Maravilhas de pequenas criações...
Inventadas porque sou “querente”,
ou porque pensamento é descoberta de sonhador.



