Até onde…

longe longe longe
aonde o eco se esconde
e a brisa dissipa,
                 insípida

aonde os olhos não vêem
as mãos se tocam
e as bocas se falam

aonde os lábios se encontram
os ouvidos se encantam
e os corpos se enroscam

aonde as mentes se aquietam
os sorrisos acontecem
e as horas se esquecem

aonde estão os seus braços
- invisíveis laços
que acalentam e aquecem.

Maudie: Sua vida e sua Arte

O filme retrata de forma romantizada a vida sofrida da artista plástica Maud Lewis, que não se rendeu às dificuldades causadas por uma doença congênita que limitava seus movimentos.

Suas obras, com traços simples e belos, são como ferramentas para sobreviver ao ambiente de opressão, discriminação e preconceito em que viveu na infância e na vida adulta, demonstrando uma habilidade emocional surpreendente para conviver e lidar com um marido bruto, com a violência física e patrimonial e com as explorações econômicas de sua arte.

Nunca fez tanto sentido a máxima que diz “Temos a arte para não morrer da verdade”, que é atribuída ao filósofo Nietzsche.

As paisagens são lindas e a trilha sonora maravilhosa (destaque para Dear Dearling, de Mary Margaret O’Hara). É impossível chegar ao final do filme sem um travo na garganta e alguma revolta na alma.

Por alguma razão (por muitas razões!), o retrato que o filme traz de Maud me fez lembrar um poema de Boris Pasternak:

“Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas não deves dissociar
Teu sucesso de teu fracasso.

Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim”.

E você? Depois de assistir ao filme, o que vê da sua “janela”?

*

Em tempo: para aprofundar a reflexão sobre o filme, indico o artigo “Maudie, ou a arte como estratégia de sobrevivência emocional“, de Maria do Carmo Guido (melhor assistir ao filme antes de ler o artigo).

Imagens: Google Imagens e site História da Arte.

Nuestros Amantes

Produção espanhola no catálogo da Netflix, Nuestros Amantes é classificada como comédia, drama, romance, comédia romântica e – curiosamente – como drama romântico.

Um homem e uma mulher se encontram em uma livraria e começam a desenvolver um relacionamento com um desafio: não saber o nome de ambos e nem perguntar diretamente ou pesquisar sobre a vida um do outro. Nada de telefone; nada de internet.

A fotografia é simples e atrativa, bonita mesmo, com closes em personagens bastante expressivos e possíveis.

Com algumas cutucadas em referência à “qualidade” literária do escritor Paulo Coelho, os diálogos são divertidos, engraçados e sensíveis. O tema, delicado; a abordagem, inteligente.

Vale a hora e meia pelo seu roteiro sem grandes sobressaltos, mas nem por isso muito previsível, ou desinteressante. Pelo contrário, no caso desse filme, um pouco de previsibilidade cai bem porque torna a coisa verossímil a ponto de a gente não apenas imaginar onde vai dar, como também torcer para que aconteça e, ainda, num certo momento ficar com raiva por achar que a coisa vai degringolar de vez. Se vai ou não, só assistindo para saber 😉

Na escola dos sonhos

Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi que a vida é mais que ter
Aprendi que a sorte depende do que fazemos
Que nem sempre o que fazemos depende de sorte
Que nem sempre temos sorte.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi a olhar nas coisas mais que as coisas
A olhar e a perceber pessoas, processos, histórias
Aprendi a construir, mais que objetos,
Possibilidades.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
O caminhar coletivo – eu aprendi –
É opção pelo caminhar solitário
Mesmo que não se queira
E o sonhar é liberdade e é tristeza.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi que as escolhas são poucas
Mas que há sempre uma saída
Senão repentina, ao menos vindoura
E o quão fugaz é a vida.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Aprendi a amar nas pessoas
Além do que elas são no momento
Suas potencialidades...
O ser, o devir, o vir-a-ser.
 
Na escola dos sonhos em que me criaram
Na escola dos sonhos em que me criei
Na escola dos sonhos que eu criei
Há uma vaga, há um querer
Esperando você.

[M.S]

Imagem em destaque: Pixabay.com

Música de fundo: Thinking Out Loud (Ed Sheeran), por Alenka & Anze

Zangado

(Música de fundo: Piano – Concerto nº1 em E menor, op.11: II. Romance – Larghetto )

Enrolado em um cobertor rasgado ao meio – suficiente, porém, para cobrir todo o seu corpo –, ele dormia um sono profundo no banco da praça. Era um senhor sexagenário que, por analogia e por gracejo, havia recebido dos comerciantes locais e de seus consumidores ordinários o apelido de Zangado: exibia uma volumosa e emaranhada barba de tons grisalhos, uma estatura incomum e uma costumeira carranca; chamava a atenção também por dizer estar sempre acompanhado de um cachorro muito manso e serelepe de longos pelos ruivos e olhos tão azuis quanto o seu, sobre o qual afirmava, aos nossos ouvidos incrédulos, ter acolhido há 30 anos,  num dia em que fora visitar pela primeira vez a biblioteca central – a respeito deste encontro, alternava versões e acrescentava variações conforme o ouvinte, ou de acordo com seu humor, a fase da Lua ou a estação do ano, contudo, invariavelmente o relato começava com o cachorro caindo de um caminhão de mudanças e terminava com o animal dentro da biblioteca, em seu colo ou embaixo de seu paletó; desde então – afirmava – nunca se separaram e um dia voltaria com o amigo para sua terra natal, a Espanha, onde dizia ter sido maestro de uma orquestra sinfônica. Como se tornou mendigo, nunca revelara.

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Em que acreditar

O que tens aí em mente
- vasta ideia, semente
que desabrocha em flor
mas que seca ao amor?
 
O que queres agora?
- não sabes; vá embora
de modo muito discreto
como fogo em decreto.
 
O que podes dizer-me
- nada -  fazer esquecer-me
do que já vivi
fingindo que morri?
 
Que certeza é essa
de simplicidade sem pressa
da resolução casual
nessa escuridão visual?
 
Por que acreditar
que tudo já foi dito
que tudo já foi existido
só falta ter sentido?...
 
E por que acreditar
na inexistência absoluta
e em vã disputa
que me dói o pensar?
 
E por que, por que...
Por que acreditar?

[M.S.]

Entre sonhos: reflexões pedagógicas e pessoais

Sonhei que estava dando aula em um período e em outro continuava diretor. Havia passado por um processo de remoção e, pelo sistema, durante um tempo deveria permanecer em um período como diretor na escola em que já atuava e em outro período como professor na escola em que iria assumir a direção.

A escola, de ensino fundamental, era a mesma de sonhos recorrentes que tenho. A mesma escola, com estrutura diferente. É como quando sonho com casas em que moro: sei que é a minha casa, mas nunca é a mesma, criando um clima ao mesmo tempo familiar e estranho.

A sala em que dava aulas pela manhã ficava em um corredor no segundo andar; o corredor, pintado de azul royal, com alguns desenhos, era bem cuidado, assim como a escola como um todo, mas era iluminado apenas com lâmpadas e não possuía nenhum tipo de ventilação, o que dava um aspecto de sufocamento.

A sala era subdividida: tinha uma porta para a entrada de professor e uma porta para entrada dos alunos; a parte que ficava o professor era separada da parte das crianças por um vidro, de modo que ambos não tinham contato direto entre si.

Apesar disso, a relação que conseguia estabelecer com a turma era de equilíbrio, harmonia – a sala era constituída por crianças que foram de diferentes turmas ao longo de minha carreira como professor, e havia um clima bom, um vínculo afetivo que mantinha as relações tranquilas; no entanto, a sensação era de muita angústia por aquela situação.

Eu olhava ao redor, sentia falta da escola em que era diretor. Não é bonita como aquela; tem alguns problemas estruturais de origem, que não se resolvem com intervenções pontuais e que, por isso, persistem, por mais que se façam manutenções periódicas, mas a horizontalidade do prédio, o espaço mais aberto e mais arejado, com iluminação natural faz toda diferença.

No pátio estavam algumas crianças sentadas aguardando o próximo período; entre elas, também crianças conhecidas; crianças que, também, eram de diferentes épocas da escola em que atualmente sou diretor – algumas inclusive recordava pelo nome, e todas tinham idades aproximadas.

Naquela escola estranha, enorme, de andares sustentados por várias colunas que se distribuíam pelo pátio, crianças conhecidas me reconheciam, me chamavam pelo nome, como costumam chamar e como eu gosto que me chamam, assim como costumo chama-las, porque sobretudo somos pessoas e acredito mesmo que é o reconhecimento dessa condição que nos iguala que possibilita o respeito à função social que cada um de nós ocupa no espaço escolar.

Em minha opinião, não há respeito pela “autoridade” sem respeito pela pessoa humana; sem isto, quando muito, há acatamento. E as crianças são também autoridades na função social que exercem dentro da escola, afinal, por mais esforços de compreensão que fazemos (e precisamos fazer) do pensamento delas, ninguém pensa como elas pensam, ninguém compreende e assimila o mundo da maneira única de cada uma delas.

Enfim, estavam lá algumas crianças que, ao me reconhecerem me conferiram por alguns momentos uma sensação de segurança, de conforto, me tiraram um pouco daquela sensação de angústia por estar de alguma forma alijado da minha zona de conforto.

Não são raros os pesquisadores que têm se debruçado sobre a importância dos vínculos afetivos para a aprendizagem e para a manutenção de ambientes saudáveis. E eles têm razão!

Nestes tempos de pandemia temos pensado muito em como manter, aprofundar e até mesmo restabelecer vínculos…

Famílias, crianças e nós, educadores, sentimos falta uns dos outros e a distância, imposta pela necessidade primária da sobrevivência, reforçou, na prática, aquilo que tanto defendemos: que o chão da escola é insubstituível. E, de repente, nos vimos retomados de sentidos…

Encerrado o período, me preparei para retornar à escola que sou diretor; no pátio, conversava com algumas pessoas e sabia que uma delas era a diretora daquela escola, mas sempre confundia algumas professoras com ela e aquilo não tinha sentido algum.

Seria meu subconsciente alertando para o quanto nos distanciamos das pessoas? O quanto elas têm a dizer sobre o nosso fazer gestor e às vezes não as escutamos? Talvez, embora eu costume ouvir bastante… Quem sabe não seria o subconsciente dizendo que não basta escutar, é preciso por reparo naquilo que se escuta?…

Chegando na outra escola, percebo que não é a escola em que sou diretor ainda; nesta, também sou professor; tal como a anterior, também de ensino fundamental, mas diferente da anterior, era um espaço mais arejado, com iluminação natural e a sala da turma não era subdividida.

Sentei na carteira aguardando as crianças, mas começaram entrar suas famílias. O que está acontecendo? Pensei, atônito. Nas outras salas, o mesmo movimento. Então me dei conta e não entendia como poderia ter esquecido: era dia de reunião com pais. Simplesmente não havia preparado nada; absolutamente nada.

Por mais que nos preparemos, nunca estamos preparados; os planejamentos, pensados numa realidade idealizada, por vezes acabam por seguir cursos diversos, e até adversos, mas isso não os torna inúteis, desnecessários, pelo contrário: eles nos dão segurança no caminhar porque nos ajudam a antever onde queremos chegar; o fato de produzi-los nos capacita para, conscientemente, fazer as mudanças de cursos adequadas no meio do próprio curso. Sem eles, caminhamos às cegas. Era o caso naquele momento.

Sensação de vertigem; boca seca, lábios malemolentes… Pedi que aguardassem um pouco, saí em busca de um copo de água e tempo para pensar.

“Quando não se sabe o que falar, se escuta” – pensei. E de novo o tema da escuta reaparece no sonho; novamente suscitando mais reflexões… Sei que não é assim que funciona; sei que é um pensamento reducionista e equivocado porque também para ouvir temos de nos preparar, temos de ter planejado focos de escuta e, assim, temos de nos aguçar para que possamos ter uma escuta verdadeira, atenta. Sem isso, não percebemos os sinais; sem isso, a escuta não se concretiza e tudo não passa de um subterfúgio para ocupar tempos e espaços…

Ademais, até quando se sabe o que precisa ser dito é importante a escuta para que saibamos como dizer, porque na comunicação a forma é tão importante quanto o conteúdo – e a educação é pura comunicação.

Minutos depois, retornei, preparado para dizer a real, apresentar os fatos tais como estavam, reconhecendo lapso e pedindo desculpas, remarcando se possível. Quando não se sabe como dizer algo delicado, dizer de maneira simples e direta, sem rodeios, sem falsas justificativas ou argumentos espalhafatosos me parece a maneira recomendada.

Amparado por uma pessoa que conheço, que foi uma de minhas primeiras gestoras e posteriormente colega de trabalho, voltei para a sala. Ao invés de um copo de água, ela me ofereceu um copo de leite com café frio e sem açúcar, que tomei numa golada só. A sala estava vazia – as famílias não esperaram.

Na vida é assim: por mais que tentamos respeitar os tempos e compreender as razões alheias, nem sempre as pessoas estão dispostas a esperar os nossos tempos ou compreender as nossas razões. E está tudo bem. Ou não, mas o que podemos fazer?

Tal como o café com leite frio e sem açúcar do sonho, na realidade, às vezes, pessoas que gostamos nos trazem situações frias e amargas – nem por isso deixamos de apreciá-las, de gostar delas… nem por isso deixam de ser necessárias em nossas vidas.

É preciso saber compreender cada tempo ao seu tempo, saber que são os dissabores que valorizam os sabores, que a vida é um ciclo e que viver significa nos deparar com inúmeros ciclos que envolvem os ciclos de outras pessoas, e dos quais não temos controle.

Aos poucos, fui acordando e, no entressonho, uma música de Zé Geraldo com sua voz rouca e inigualável ressoava cá dentro, como se lá fora realmente estivesse tocando:

“Esperar é acreditar
A vida me ensinou a esperar

Quantas vezes eu quis ter
Um jardim pra te dar
Quando tinha a terra
Faltava a semente
Quando tinha semente
Vinha a chuva forte
E levava tudo embora

E pra complicar
Andei por caminhos
Tortuosos
Foi difícil voltar

Tivemos noites de vendavais
E em noites de vendavais
O dia demora a chegar
E foi assim

‘Inda bem que desses anos todos
Guardamos restos de sonhos
Rabiscos, pedaços de versos
Canteiros do nosso jardim
Vem ver

A Primavera floriu
Flor de Maio tá tão linda
‘Inda nem é abril
Onze horas sem-vergonha
Dá por todo lado
Beija-flor apaixonado todo dia vem beijar
E contar os botões
Que ainda tem pra abrir
E partir em busca
De outras flores
Em outros jardins

Já estive com outras flores
Em outros jardins
Hoje estou aqui
Pra te regar
Te proteger dos ventos
Te cuidar
Te servir
Pra o que for
Os olhos do jardineiro
É que abrem o botão da flor

Te servir
Pra o que for
Os olhos do jardineiro
É que abrem o botão da flor Te servir
Pra o que for
Os olhos do jardineiro
É que abrem o botão da flor”

Imagem em destaque: detalhe de “Prometeu” (1762), escultura de Nicolas-Sébastien Adam, no museu do Louvre.

Três versos para três momentos únicos

                     1
 
Estava eu lá; à espera do instante
              da frase perfeita
              da ideia perfeita
              do momento perfeito.
E isso tudo passou – perfeitamente
              sem que eu percebesse...
 
                     2
 
À meia-luz (na penumbra)
quase posso ver seu rosto, seus olhos
e posso sentir sua respiração ofegante
não pelo cansaço (não há motivo)
mas talvez pela ansiedade
ou um desejo intenso, refreado
pelo calor das atenções
e pela supremacia da razão.
 
                     3
 
Ouço vozes
(vindas de não muito longe
e não muito perto)
distorcidas, intercaladas
irônicas frases ao vento
enquanto as bandeiras oscilam
despertando a fúria, a fé e a foice.

[M.S.]

Perdida (série da Netflix)

Feriadão prolongado e inesperado aqui em São Bernardo e me senti no dever moral de contribuir com umas dicas para você não sair de casa. Vamos lá!

Alerta: contém spoiler pra caramba!

A primeira temporada da série espanhola “Perdida” estreou esta semana na Netflix. Segundo o Jornal Correio Brasiliense, é “uma surpresa a cada episódio. Série Perdida, na Netflix, é diversão certa para fãs de suspense”.

Com seus onze longos capítulos cheios de obviedades e de personagens estereotipados, a série (espanhola na origem, mas com DNA de dramalhão mexicano) é tão previsível que te faz querer assistir só pra se certificar que aquilo que você acha que vai acontecer, acontecerá realmente. E acontece!

Então não se preocupe com os spoilers aqui, já que a série toda é um spoiler de si mesma – da primeira cena do capítulo 1 à última cena do décimo primeiro capítulo, está tudo tão traçadinho que é possível, em determinados momentos, até reproduzir com certa antecedência algumas falas das personagens.

Fazendo uma parte, essa coisa de se antecipar às falas previsíveis das personagens é bem irritante, eu sei, mas é um vício que admito possuir e é particularmente prazeroso quando se assiste em ambiente compartilhado, especialmente em cinemas, em que a relativa escuridão favorece o pecado sem a identificação do pecador.

Mas voltemos ao objetivo deste texto, que é estragar sua vontade de assistir a série. Ou não…

Se bem que para a geração que cresceu na cultura do Vale a Pena Ver de Novo e das revistas de novelas, spoilers só aumentam o desejo de assistir (se você não faz parte dessa geração, pare por aqui. Vou até pular umas linhas pra te ajudar).

*

*

*

O fato é que a série faz jus ao nome. Está todo mundo perdido: atores, telespectadores e, principalmente, os roteiristas. E o que é fundamental: ninguém se encontra.

Uma das atrizes interpreta uma atriz ruim, que só consegue papéis em seriados por conta do marido mafioso. Já colocou um espelho em frente ao outro? Então… Ela deve ter interpretado a si mesma… Nem é bom falar muito, porque não sei como ela conseguiu o  papel na série.

Brincadeira: tem que ser muito boa para parecer ruim. Ou ser mesmo ruim…

O que todo mundo sabe é que essa coisa de colocar uma série dentro de outra é um recurso para ocupar o tempo. Estou certo ou não?

Mas tem muito mais!

Tem uma defensora pública que faz uso de métodos inusitados para alcançar a justiça, tem personagens que do nada desaparecem do meio da história (devo ter dormido e perdido alguma parte). Tem um guarda-costas que (como naquele famoso filme, com aquele famoso ator, daquela famosa produtora) se envolve afetivamente com a protegida. Tem tiro, porrada e bomba… E sangue, bastante sangue e olho roxo em meio a músicas melosas intercaladas com choros forçados.

Chega a ser fascinante!

A história começa na Espanha e se desenvolve na Colômbia e apesar das claras referências a este país, o enredo e as performances dos atores inevitavelmente vão lhe remeter ao México.  Não se deixe perder por este pequeno incidente geográfico…

Até mesmo porque, considerando critérios adotados pelo General Pazuello, Colômbia e México seriam países vizinhos.

Alerta: Se você ainda está lendo e não quer saber mais, pare por aqui. Agora sim vem spoiler da pesada. Vou pular mais três linhas pra você ter tempo de avaliar se continua lendo.

*

Mentira! Já pulei linhas demais…

A coisa é a seguinte: um casal tem uma filha de 05 anos sequestrada a mando de um casal de mafiosos que tiveram uma filha vendida, quando recém-nascida. Logo se descobre que na verdade eles sequestraram a própria filha que o casal havia adotado ilegalmente.

Maior zona!

A filha biológica, já com 18 anos, descobre que os pais com quem convive a sequestraram quando criança e quer conhecer os pais que ela acredita que são biológicos, sem saber que convive com os pais biológicos já.

Ou pelo menos pensa que são também, porque a esta altura já se sabe que não é bem assim… Afinal, diz o ditado que o diabo mora nos detalhes e, em se tratando de “Perdida”, os detalhes saltam como mãos estapeando os rostos. Inevitável não perceber.

O casal que teve a filha sequestrada (e que a adotou ilegalmente) faz de tudo para reencontrar a menina (já moça). Rola até uma prisão por tráfico de drogas, autoempreendida para que o pai, na penitenciária onde estava o sequestrador, descubra o paradeiro da filha.

Quem nunca? Prison Break já havia dado a linha, e antes dela outros mais. Era só seguir o fio e repetir a dose…

No fim, o pai traficante morre, o pai que teve a filha sequestrada e que foi preso para descobrir seu paradeiro é extraditado para a Espanha, para cumprir a pena lá, e a filha descobre que o homem que a sequestrou para o mafioso é, na verdade, o seu verdadeiro pai, que tinha um romance de juventude com a péssima atriz, esposa do pai mafioso.

A menina fica órfã de um pai e ganha outros dois  – presidiários – e de quebra faz as pazes entre as duas mães.

Tudo acaba maravilhosamente bem, na mais completa desgraça. E o que é pior: tem brecha para a segunda temporada.

Veredicto: aguardando ansiosamente as cenas dos próximos capítulos!

*

PS: Brincadeiras à parte, a atriz que interpreta uma atriz ruim é ninguém menos que Ana María Orozco, da novela colombiana “Betty, a Feia”, vencedora de importantes prêmios  da televisão e do cinema na categoria Melhor Atriz Internacional 😉

                                                                                                                                                         [M.S.]

É Floyd!

É Floyd, Amarildo,
De sua porta à tortura conduzido
Os seus Dias foram encerrados...
Facínoras de Estados militarizados!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Cláudia,
Fuzilada em plena luz do dia
Ao porta-malas presa, desprezada
Por trezentos metros arrastada...

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Christian,
Ilustrando mais uma triste notícia
Anulado o sonho de motorista exímio...
Sorrateiro grupo de extermínio!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Diego,
Combate-se opressões sem dar sossego...
Calaram sua voz, não seu pensamento
Crimes de ódio com espancamento.

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Marisa,
Defender filhos do arbítrio, quem não precisa?
Recusar-se a castigar sua prole por nada...
Bandidos uniformizados lhe mataram à coronhada!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Marielle,
Seguia na luta à flor-da-pele
Com Anderson eliminada cruelmente...
E os bandidos elogiados pelo presidente!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Evaldo,
Ao lado de mulher e filhos, ceifado
Oitenta tiros não foram enganos...
Assassinos fardados e desumanos!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Ágatha,
Do banco da Kombi, recostada
Um certeiro tiro lhe tirou a vida

Não foi acidente, não foi erro!
A bala, supostamente perdida,
Sempre encontra o corpo negro.

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Lucas,
As suas palavras foram poucas
“Esta é minha casa" - te ouviram
E vivo, feliz, nunca mais o viram.

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, João Pedro,
O seu corpo, e você tão cedo!,
Atravessado de balas...
Demônios de fardas e balaclavas!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Miguel,
Deixado sozinho no arranha-céu...
A pergunta não é à toa:
“E se fosse o cachorro da patroa?”

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, George,
Hora dessas a revolta explode
E que o povo preto, o povo pobre,
O povo trabalhador

Cansado do sofrimento e de tanta dor
Tome o poder em suas mãos
E faça uma legítima revolução.

[M.S]