À noite
Quando vou à cidade
E as ruas estão descongestionadas,
Tudo parece tranquilo:
Nada demais acontece
- o que é breve fenece
o que é febre adormece
o que é surdo amortece
o que é dor o amor esquece
o que é maldição vira prece
o que é pensar arvorece...
Então, o que era egrégio ficou pouco
O que era livre ficou louco...
E os prédios não estão mais derretendo.
[M.S.]
Autor: Marcelo Siqueira
Subverso

Pequena notinha explicativa: Escrevi estes dias, retomando uma célebre frase de um personagem do filme “O Carteiro e o Poeta”, que o poema pertence a quem lê. É o caso deste poema, escrito sem letras iniciais maiúsculas e sem pontuações para cada leitor seguir sua própria ordem e colocar seu próprio ritmo, sua entonação pessoal e atribuir seus próprios sentidos e significados. Eu mesmo faço várias leituras dele, e cada uma com alguns sentidos diferentes. Abaixo, compartilho a minha preferida 😉
Vídeo-Poema: Fora do Tempo
Dezembro
I Eu preciso abandonar Este louco projeto de sonhar com você O sonho nada me diz E você, então, se foi há tempos. Aquela luz em torno de seu corpo Era mera impressão Aquele brilho em seus olhos Era reflexos dos meus. (Ela jamais existiu) Eu me pergunto: como é que pode Isso ter acontecido desta maneira? (Está na hora de vocês agirem como adultas) Mas tudo o que eu falei Foram frases sombrias Mesmo as mais bonitas Estavam carregadas Do desejo dos seus lábios Ao desejo do seu corpo Nada era o que eu queria Apenas as desgraças Nada se repetia Apenas os sentimentos E a opacidade das imagens Que se foram... II Eu preciso abandonar o hermetismo O transcendental pensar metafísico Preocupar-me com o metal (O concreto) Abandonar a ociosidade Deixar o corpo cansar Deixar a mente esquecer... O segredo dos seus olhos O meu ar de que tudo está tão claro Como se não estivéssemos à beira do milênio Nada me dizem... A sua falseada alegria O meu cinismo ingênuo Como se não estivéssemos para nascer Nada me dizem... O seu gesto de incompreensão A minha suposta paciência Como se não estivéssemos perdidos Nada me dizem... Nada me dizem Mas eu é que estou surdo. [M.S.]
Quando o tempo parou
quando o tempo parou parei de contar os dias as noites nuvens em fogo em céus sem estrelas as manhãs repetições de si mesmas quando o tempo parou os fantasmas pulsaram uníssonos e enfeitiçados uma mente brilhante um corpo quente um coração gelado quando o tempo parou veloz sobre os caminhos dissipado em assombros de mim se foi um tanto de mim ficou um pouco perdas penas escombros quando o tempo parou senti o peso do silêncio as batidas tensas na cabeceira da cama o sono em fuga os sonhos em chama quando o tempo parou pairei [M.S]
Video-Poema: Nebulosa
Às memórias que as palavras trazem, adicionei imagens que remetem a outras lembranças, construindo algo fora do tempo, ou melhor, anacrônico, em que os tempos se misturam e as histórias e as memórias se perpassam.
Não seria assim, na tecitura da vida, entre tempos e contratempos, aos trancos e barrancos, que vamos tecendo nossas histórias?
E as histórias pessoais, quando as apresentamos, por escrito ou em outras narrativas, carregam sentidos tão íntimos que por vezes se tornam indevassáveis, ao mesmo tempo em que podem se encontrar com os sentidos de outras pessoas!…
“O poema (já dizia o carteiro ao poeta) pertence a quem lê”. Nesse caso, a quem ouve e vê.
[MS]
Música: Força Estranha – tocada por Ricardo Pachá.
Nebulosa
I
Ela tem o mundo
- ela quis o mundo.
Mas tem o mundo nas costas
- a mãe doente e o mundo pesando
mais que unha encravada no dedão do pé.
Eu sei: ela não quis o mundo assim.
Idealizamos algo além do paraíso
E pensamos ter descoberto a fórmula
/ exata
E pensamos alugar uma vida única e
/ sensata
Mais que as cores do arco-íris.
II
... um ateu ... alguém paciente
uma risada
... o corpo estendido, mas retraído
não parecia o que era
não era o que parecia
parecia
perecia
parceria
ar
e
ria
... apenas comoção, lucidez, um trovão
E a noite fria cortante
nebulosa e cortante
constante, contanto...
III
Ela fugia das respostas
E muito mais das perguntas.
Eu, angustiando em alma derretida,
Em alma que nem acreditava existir
Por não ter confiança própria
Por esquecer que existe vida
E que o Sol ainda se põe.
Eu tinha um mundo
Um universo, reverso, inverso
/ ao verso
único
isolado
triste
mas indiferente
e para mim era tudo
e tudo era simples
Eu não queria mais nada
Desconhecia e repudiava
O que me fazia
pensar
Pois tinha tudo - estava certo,
esperto
(esperteza não é inteligência?)
E bastava ser mais um
no meio
sempre aos cantos
apenas mais um.
IV
Ela tem um caminho
Eu também tenho
(e às vezes uso um atalho)
E temos já a desilusão...
Sobre-humano é o esforço
esboço de força
Pincel com tinta azul
Banhada em cera líquida branca
Ou melhor, alva.
E o alvo era calvo nem isso era
era objeto
objetivado
substanciado
substantivado
Próprio, incomum, excludente
sobrevivente
impertinente
não era alvo.
V
Ela tem os pés no chão
E eu a cabeça embaixo do solo
Aterrada por sufocante delírio ‘in vita’
(é estranho como as pessoas resolvem ir
e nem tanto quando vão sem avisar.
Hoje, as estrelas estão mais brilhantes
e um gatinho rola no chão ao luar.
No caminho, as flores sorriem caladas
E os mortos certamente não se levantam)
Sinto uma energia sincera me contemplar;
Nos meus passos nem uma pedra
nem uma gota
Somente algum pássaro cantando
solitário.
[M.S.]
Imagem em destaque: montagem com foto do Google Imagens
Lili
Joaquim começou como quem tira uma casca de ferida do corpo. Essa imagem nada romântica é uma metáfora ordinária, mas bem precisa, porque o corte está aberto e porque o sangue, contido pelas veias, pulsa ao ritmo de um coração incontido, agarra-se à superfície da pele e denuncia a ferida aberta.
Enquanto risca o papel em branco, com demasiada pressão e letras trêmulas, olha para o espelho na parede à frente da mesa e percebe que não é o rei, mas a face – carmesim – que está nua. Não há nenhuma realeza nisso, apenas realismo e perplexidade.
Lili se foi.
O corte que sangra não é esse, ainda que também seja.
Sem dizer palavra Lili se foi. E onde faltam palavras aflui um oco logo abaixo da boca do estômago de Joaquim, um oco que consome as horas, os dias, as noites… consome e produz pensamentos…
Afora iscas lançadas em redes para pescadores perdidos em alto mar, as palavras foram esvaziadas. Lili também se despiu de palavras e ao se refugiar no silêncio e pelo silêncio disse mais do que poderia ou desejava.
Acontece que esvaziar palavras não é o mesmo que esvaziar as gavetas, os armários (ainda que – tal como as iscas-palavras – tenham ficado algumas peças espalhadas pelos cômodos)… Então, Lili se vestiu com a roupagem que mais lhe dava sensação de segurança: uma fantasia de desprendimento.
Há sinais espalhados pela casa, mas não se completam em palavras, porque seguem cruzados e embaralhados, numa convulsão de eus, outros e nós. A palavra que quase chega a ser não chega a ser palavra: é o dito pelo não dito. E o dito pelo não dito cria realidades por vezes alternativas, em que tudo é possível. Antes improváveis, num mundo onde tudo é possível Joaquim e Lili se tornam impossíveis.
(O poeta tinha razão, ainda que não soubesse).
O dito pelo não dito é um terreno pantanoso, porque aparente, porque imagético. No campo das aparências a essência foge à percepção de Joaquim; se esconde nebulosa entre aquilo que é fato e aquilo que é interpretação de fato e aquilo que é somente imaginação.
O silêncio tem tanta força quanto o som. Poderoso, o silêncio pode até causar bem mais ruídos que o barulho mais ensurdecedor. Joaquim sabe a potência do silêncio; ele sente; ele experimenta. Ruidoso, o silêncio pode inclusive perturbar – e perturba – o sono de Joaquim, que passa noites a contar estrelas, deitado na rede da varanda, a mesma rede em que não se cansou de deitar com Lili.
Lili tem dimensão do poder das palavras. Não porque tenha lido – e leu – em algum lugar, mas porque ela sabe a ponto de sentir a concretude e o peso das palavras. E têm poder porque são carregadas de atos; elas são ação. Como ação, mobilizam, embora nem sempre movem e às vezes paralisam. Talvez por compreender a potência das palavras verbalizadas é que Lili se cala.
Para Joaquim, poderosas, as palavras precisam ser verbalizadas, não para potencializar, mas para criar – ou delimitar – possibilidades. Ou, simplesmente, por respeito.
Mas Lili se foi. Levou as palavras. Ficou o silêncio.
Sustentando a impossibilidade de partir de onde supostamente nunca estivera, Lili refuta aquilo que busca porque se assusta quando encontra; e se assusta porque tenta definir paralelos, porque tenta comparar grandezas que não são comparáveis, mas são de igual importância, cada qual com sua medida, cada qual com seu peso – únicas e completas.
Não existe a justa medida porque não é caso de medição, muito menos de justiça. Mas Lili, calculando riscos reais e imaginários, se vê diante de uma equação que acredita sem solução. Essa equação tem um nome: Joaquim.
Indo, Lili se pergunta se algum dia veio e pensa que não se pode terminar o que nunca teve início, por isso, se deixa ir, como se inevitável fosse, legando a Joaquim, além do silêncio das palavras não ditas, alguns recados em post-its na geladeira e nenhum destino ao qual Joaquim possa responder. Lili compreende que o fato é dor, mas não se dá conta que o silenciamento do fato é tortura.
Talvez para Lili seja mais confortável se imaginar moinho de vento do que Don Quixote, pois há sempre a mística de ser dragão-escorpião, com a vantagem de que moinhos seguem seus cursos, indiferentes aos que ousam sonhar e ousam lutar pelo que sonham.
Mas Lili também sonha, por isso não é moinho de vento. A indiferença (disfarçada talvez) é possível que seja apenas um movimento de fuga e autopreservação. Não de, nem contra Joaquim. Do que ele lhe significa, do que ele lhe representa. Mas o que Joaquim representa e significa para Lili? Quem saberia dizer, se nem Lili sabe e, se sabe, não diz?
A rubra face de Joaquim desfalece sem menos, pálida de perguntas sem respostas. As interrogações multiplicam-se ao infinito e, enroscadas entre as prioridades e as conveniências, buscam um esforço de entendimento. Já quase no fim da página, risca novamente o papel: “Entre tanto que sinto, o mais insuportável não é nem a falta, é a sua ausência“…
Joaquim relê tudo que escrevera e, na última frase, balbucia palavra por palavra. Por um instante acha sem sentido e, logo em seguida, verdadeira demais; picota o papel em pedaços minúsculos e atira ao cesto, até porque não era dor só o que Lili deixara ao partir.
Lili se foi, levou as palavras, deixou os sentimentos.
Nesse movimento, que é de paciência e de outras palavras bem-ditas, Joaquim sabe que é preciso se permitir, mas nunca se acostumar, porque se o poeta tinha razão em algo, não haveria de ter razão em tudo…
[M.S.]
Referências & inspirações
- “A falta que ama”, por Carlos Drummond de Andrade
- “Quadrilha”, por Carlos Drummond de Andrade
- “Segredo”, por Carlos Drummond de Andrade
- “Brasil: Construtor de ruínas – Um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro”, por Eliane Brum
Imagem em destaque
Pixabay.com
“A Menina Quebrada”, de Eliane Brum
Entre umas pedaladas aqui e outras ali (e dezenas de telefonemas para o banco BMG, que me tornou “cliente” à revelia), minha viagem no recesso e nessas férias será um caminho para dentro do mundo das palavras.
Um reencontro, um reencanto.
Para tanto, escolhi como companheira de jornada ninguém mais, ninguém menos que a jornalista/ escritora Eliane Brum, que se veste de palavras para por a nu os seus pensamentos mais profundos, dos mais variados temas (vida/ morte; política; meio ambiente; direitos humanos; memórias…).
Eliane Brum é uma cronista no sentido mais elevado do termo.
Preocupada e comprometida com a re-humanização dos sujeitos, extrapola a simples narrativa dos fatos e apresenta reflexões que resgatam uma dimensão humana ética, política e estética que nos é roubada cotidianamente pelo modo de produção e de relação capitalista.
Assim, em meio aos fatos e às narrativas dos fatos, Eliane nos presenteia com belíssimas lições apreendidas de suas experiências e leituras, como esta, irrefutável:
“É fácil compreender o desamor. O amor, não. O amor é um enigma”.
“A Menina Quebrada” (livro que escolhi como o primeiro a ser lido) é uma coletânea de colunas publicadas entre 2009 e 2013. Apesar de ser uma obra extensa (+ ou – 430 p.), o estilo envolvente de Eliane nos prende a atenção de tal maneira que nem se vê passar o tempo. Este terminei na semana do recesso mesmo. Tempus fugit.
A coluna que dá nome ao livro o fecha magistralmente. Não ouse a ler em primeiro lugar. Ou ouse. Mas leia !![]()
📢💡👀❕
Eliane Brum é colunista do jornal El País e prorietária do site Desacontecimentos. Muitos de seus textos podem ser acessados livremente na internet.
Imagem em destaque: Capa do livro “A menina quebrada” e foto extraída do site El País.
Live do Caetano de Natal
Ia escrever algumas coisas que estão cá dentro, batendo, batendo, tocando fundo… Então me perdi no tempo sendo tocado pelas canções de Caetano Veloso em sua live de Natal. Perca-se você também. A gente merece.
“Não tenho nada com isso, nem vem falar
Eu não consigo entender sua lógica
Minha palavra cantada pode espantar
E a seus ouvidos parecer exótica
Mas acontece que eu não posso me deixar
Levar por um papo que já não deu, não deu
Acho que nada restou pra guardar ou lembrar
Do muito ou pouco que houve entre você e eu
Nenhuma força virá me fazer calar
Faço no tempo soar minha sílaba
Canto somente o que pede pra se cantar
Sou o que soa, eu não douro pílula
Tudo o que eu quero é um acorde perfeito, maior
Com todo o mundo podendo brilhar num cântico
Canto somente o que não pode mais se calar
Noutras palavras sou muito romântico”.









