Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça d'água
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira da República Dominicana
Olha, você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana
[Ferreira Gullar]
Com a crise sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus, sem que houvesse um tempo para qualquer preparativo grande parcela dos profissionais da educação de São Bernardo do Campo se viram afastados do ambiente físico de trabalho, assim como boa parte dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil e do mundo.
Durante todo este período, temos trabalhado em jornadas extenuantes, garantindo presencialmente a efetivação de ações sociais nas escolas e o atendimento administrativo nas secretarias escolares. À distância, garantimos a continuidade das ações educativas e pedagógicas e a manutenção dos vínculos com alunos e famílias.
Literalmente estamos pagando para trabalhar, utilizando nossos próprios recursos materiais, fazendo dívidas para financiar equipamentos, pagando contas de energia elétrica altíssimas, pacotes de dados e, assim, custeando as ações com nossos próprios salários.
Ao mesmo tempo, enfrentamos graves ataques dos governos, como congelamentos salariais e de progressões, ameaças de cortes de salários e, mais recentemente, o anúncio de uma reforma administrativa que acarretará em sérios prejuízos aos trabalhadores e à população usuária dos serviços públicos. Isso sem contar a contínua campanha de difamação contra os servidores públicos, e em especial contra os educadores que trabalham diretamente no atendimento dos alunos.
Os governantes – inclusive Orlando Morando em SBC – não hesitam em tirar direitos dos servidores públicos e contar vantagens do trabalho realizado pelos educadores, mas escondem da população a falta de investimentos em equipamentos e em acesso à internet para profissionais da educação e para os alunos de nossa rede, muitos dos quais excluídos das atividades online.
Da parte dos governantes, sobra demagogia e falta diálogo. Submetidos a jornadas de trabalho insanas e tendo de lidar com novas e demasiadas demandas, diferentes segmentos de educadores solicitaram por vezes reuniões com a SE para esclarecimentos, para organização das ações, para propor encaminhamentos…
Diversos documentos foram produzidos e absolutamente nenhum foi respondido. Os profissionais da educação sequer foram ouvidos nas pesquisas oficiais sobre as possibilidades de retorno das atividades presenciais.
Por essas e outras estamos nos organizando! E todas as frentes de luta são importantes!
Venha debater ideias, construir propostas, refletir juntos sobre as possibilidades de ações, porque é na ação coletiva que nos tornamos sujeitos de nossa própria história 😉
(Música de fundo: Piano – Concerto nº1 em E menor, op.11: II. Romance – Larghetto )
Enrolado em um cobertor rasgado ao meio – suficiente, porém, para cobrir todo o seu corpo –, ele dormia um sono profundo no banco da praça. Era um senhor sexagenário que, por analogia e por gracejo, havia recebido dos comerciantes locais e de seus consumidores ordinários o apelido de Zangado: exibia uma volumosa e emaranhada barba de tons grisalhos, uma estatura incomum e uma costumeira carranca; chamava a atenção também por dizer estar sempre acompanhado de um cachorro muito manso e serelepe de longos pelos ruivos e olhos tão azuis quanto o seu, sobre o qual afirmava, aos nossos ouvidos incrédulos, ter acolhido há 30 anos, num dia em que fora visitar pela primeira vez a biblioteca central – a respeito deste encontro, alternava versões e acrescentava variações conforme o ouvinte, ou de acordo com seu humor, a fase da Lua ou a estação do ano, contudo, invariavelmente o relato começava com o cachorro caindo de um caminhão de mudanças e terminava com o animal dentro da biblioteca, em seu colo ou embaixo de seu paletó; desde então – afirmava – nunca se separaram e um dia voltaria com o amigo para sua terra natal, a Espanha, onde dizia ter sido maestro de uma orquestra sinfônica. Como se tornou mendigo, nunca revelara.
As trabalhadoras e trabalhadores do funcionalismo público têm sido desrespeitados pelo governo de Jair Bolsonaro desde o início de seu mandato. Tiveram direitos tirados, foram chamados de “parasitas”. Agora, dando mais um passo em seu projeto ultraliberal, o governo envia ao Congresso, nesta quinta-feira (3), a proposta de Reforma Administrativa, que facilita a entrega ao setor privado, via Organizações Sociais, de nossas instituições públicas e ataca ainda mais a categoria de servidores e os serviços básicos.
O que tens aí em mente
- vasta ideia, semente
que desabrocha em flor
mas que seca ao amor?
O que queres agora?
- não sabes; vá embora
de modo muito discreto
como fogo em decreto.
O que podes dizer-me
- nada - fazer esquecer-me
do que já vivi
fingindo que morri?
Que certeza é essa
de simplicidade sem pressa
da resolução casual
nessa escuridão visual?
Por que acreditar
que tudo já foi dito
que tudo já foi existido
só falta ter sentido?...
E por que acreditar
na inexistência absoluta
e em vã disputa
que me dói o pensar?
E por que, por que...
Por que acreditar?
[M.S.]
Sonhei que estava dando aula em um período e em outro continuava diretor. Havia passado por um processo de remoção e, pelo sistema, durante um tempo deveria permanecer em um período como diretor na escola em que já atuava e em outro período como professor na escola em que iria assumir a direção.
A escola, de ensino fundamental, era a mesma de sonhos recorrentes que tenho. A mesma escola, com estrutura diferente. É como quando sonho com casas em que moro: sei que é a minha casa, mas nunca é a mesma, criando um clima ao mesmo tempo familiar e estranho.
A sala em que dava aulas pela manhã ficava em um corredor no segundo andar; o corredor, pintado de azul royal, com alguns desenhos, era bem cuidado, assim como a escola como um todo, mas era iluminado apenas com lâmpadas e não possuía nenhum tipo de ventilação, o que dava um aspecto de sufocamento.
A sala era subdividida: tinha uma porta para a entrada de professor e uma porta para entrada dos alunos; a parte que ficava o professor era separada da parte das crianças por um vidro, de modo que ambos não tinham contato direto entre si.
Apesar disso, a relação que conseguia estabelecer com a turma era de equilíbrio, harmonia – a sala era constituída por crianças que foram de diferentes turmas ao longo de minha carreira como professor, e havia um clima bom, um vínculo afetivo que mantinha as relações tranquilas; no entanto, a sensação era de muita angústia por aquela situação.
Eu olhava ao redor, sentia falta da escola em que era diretor. Não é bonita como aquela; tem alguns problemas estruturais de origem, que não se resolvem com intervenções pontuais e que, por isso, persistem, por mais que se façam manutenções periódicas, mas a horizontalidade do prédio, o espaço mais aberto e mais arejado, com iluminação natural faz toda diferença.
No pátio estavam algumas crianças sentadas aguardando o próximo período; entre elas, também crianças conhecidas; crianças que, também, eram de diferentes épocas da escola em que atualmente sou diretor – algumas inclusive recordava pelo nome, e todas tinham idades aproximadas.
Naquela escola estranha, enorme, de andares sustentados por várias colunas que se distribuíam pelo pátio, crianças conhecidas me reconheciam, me chamavam pelo nome, como costumam chamar e como eu gosto que me chamam, assim como costumo chama-las, porque sobretudo somos pessoas e acredito mesmo que é o reconhecimento dessa condição que nos iguala que possibilita o respeito à função social que cada um de nós ocupa no espaço escolar.
Em minha opinião, não há respeito pela “autoridade” sem respeito pela pessoa humana; sem isto, quando muito, há acatamento. E as crianças são também autoridades na função social que exercem dentro da escola, afinal, por mais esforços de compreensão que fazemos (e precisamos fazer) do pensamento delas, ninguém pensa como elas pensam, ninguém compreende e assimila o mundo da maneira única de cada uma delas.
Enfim, estavam lá algumas crianças que, ao me reconhecerem me conferiram por alguns momentos uma sensação de segurança, de conforto, me tiraram um pouco daquela sensação de angústia por estar de alguma forma alijado da minha zona de conforto.
Não são raros os pesquisadores que têm se debruçado sobre a importância dos vínculos afetivos para a aprendizagem e para a manutenção de ambientes saudáveis. E eles têm razão!
Nestes tempos de pandemia temos pensado muito em como manter, aprofundar e até mesmo restabelecer vínculos…
Famílias, crianças e nós, educadores, sentimos falta uns dos outros e a distância, imposta pela necessidade primária da sobrevivência, reforçou, na prática, aquilo que tanto defendemos: que o chão da escola é insubstituível. E, de repente, nos vimos retomados de sentidos…
Encerrado o período, me preparei para retornar à escola que sou diretor; no pátio, conversava com algumas pessoas e sabia que uma delas era a diretora daquela escola, mas sempre confundia algumas professoras com ela e aquilo não tinha sentido algum.
Seria meu subconsciente alertando para o quanto nos distanciamos das pessoas? O quanto elas têm a dizer sobre o nosso fazer gestor e às vezes não as escutamos? Talvez, embora eu costume ouvir bastante… Quem sabe não seria o subconsciente dizendo que não basta escutar, é preciso por reparo naquilo que se escuta?…
Chegando na outra escola, percebo que não é a escola em que sou diretor ainda; nesta, também sou professor; tal como a anterior, também de ensino fundamental, mas diferente da anterior, era um espaço mais arejado, com iluminação natural e a sala da turma não era subdividida.
Sentei na carteira aguardando as crianças, mas começaram entrar suas famílias. O que está acontecendo? Pensei, atônito. Nas outras salas, o mesmo movimento. Então me dei conta e não entendia como poderia ter esquecido: era dia de reunião com pais. Simplesmente não havia preparado nada; absolutamente nada.
Por mais que nos preparemos, nunca estamos preparados; os planejamentos, pensados numa realidade idealizada, por vezes acabam por seguir cursos diversos, e até adversos, mas isso não os torna inúteis, desnecessários, pelo contrário: eles nos dão segurança no caminhar porque nos ajudam a antever onde queremos chegar; o fato de produzi-los nos capacita para, conscientemente, fazer as mudanças de cursos adequadas no meio do próprio curso. Sem eles, caminhamos às cegas. Era o caso naquele momento.
Sensação de vertigem; boca seca, lábios malemolentes… Pedi que aguardassem um pouco, saí em busca de um copo de água e tempo para pensar.
“Quando não se sabe o que falar, se escuta” – pensei. E de novo o tema da escuta reaparece no sonho; novamente suscitando mais reflexões… Sei que não é assim que funciona; sei que é um pensamento reducionista e equivocado porque também para ouvir temos de nos preparar, temos de ter planejado focos de escuta e, assim, temos de nos aguçar para que possamos ter uma escuta verdadeira, atenta. Sem isso, não percebemos os sinais; sem isso, a escuta não se concretiza e tudo não passa de um subterfúgio para ocupar tempos e espaços…
Ademais, até quando se sabe o que precisa ser dito é importante a escuta para que saibamos como dizer, porque na comunicação a forma é tão importante quanto o conteúdo – e a educação é pura comunicação.
Minutos depois, retornei, preparado para dizer a real, apresentar os fatos tais como estavam, reconhecendo lapso e pedindo desculpas, remarcando se possível. Quando não se sabe como dizer algo delicado, dizer de maneira simples e direta, sem rodeios, sem falsas justificativas ou argumentos espalhafatosos me parece a maneira recomendada.
Amparado por uma pessoa que conheço, que foi uma de minhas primeiras gestoras e posteriormente colega de trabalho, voltei para a sala. Ao invés de um copo de água, ela me ofereceu um copo de leite com café frio e sem açúcar, que tomei numa golada só. A sala estava vazia – as famílias não esperaram.
Na vida é assim: por mais que tentamos respeitar os tempos e compreender as razões alheias, nem sempre as pessoas estão dispostas a esperar os nossos tempos ou compreender as nossas razões. E está tudo bem. Ou não, mas o que podemos fazer?
Tal como o café com leite frio e sem açúcar do sonho, na realidade, às vezes, pessoas que gostamos nos trazem situações frias e amargas – nem por isso deixamos de apreciá-las, de gostar delas… nem por isso deixam de ser necessárias em nossas vidas.
É preciso saber compreender cada tempo ao seu tempo, saber que são os dissabores que valorizam os sabores, que a vida é um ciclo e que viver significa nos deparar com inúmeros ciclos que envolvem os ciclos de outras pessoas, e dos quais não temos controle.
Aos poucos, fui acordando e, no entressonho, uma música de Zé Geraldo com sua voz rouca e inigualável ressoava cá dentro, como se lá fora realmente estivesse tocando:
“Esperar é acreditar A vida me ensinou a esperar
Quantas vezes eu quis ter Um jardim pra te dar Quando tinha a terra Faltava a semente Quando tinha semente Vinha a chuva forte E levava tudo embora
E pra complicar Andei por caminhos Tortuosos Foi difícil voltar
Tivemos noites de vendavais E em noites de vendavais O dia demora a chegar E foi assim
‘Inda bem que desses anos todos Guardamos restos de sonhos Rabiscos, pedaços de versos Canteiros do nosso jardim Vem ver
A Primavera floriu Flor de Maio tá tão linda ‘Inda nem é abril Onze horas sem-vergonha Dá por todo lado Beija-flor apaixonado todo dia vem beijar E contar os botões Que ainda tem pra abrir E partir em busca De outras flores Em outros jardins
Já estive com outras flores Em outros jardins Hoje estou aqui Pra te regar Te proteger dos ventos Te cuidar Te servir Pra o que for Os olhos do jardineiro É que abrem o botão da flor
Te servir Pra o que for Os olhos do jardineiro É que abrem o botão da flor Te servir Pra o que for Os olhos do jardineiro É que abrem o botão da flor”
Imagem em destaque: detalhe de “Prometeu” (1762), escultura de Nicolas-Sébastien Adam, no museu do Louvre.
1
Estava eu lá; à espera do instante
da frase perfeita
da ideia perfeita
do momento perfeito.
E isso tudo passou – perfeitamente
sem que eu percebesse...
2
À meia-luz (na penumbra)
quase posso ver seu rosto, seus olhos
e posso sentir sua respiração ofegante
não pelo cansaço (não há motivo)
mas talvez pela ansiedade
ou um desejo intenso, refreado
pelo calor das atenções
e pela supremacia da razão.
3
Ouço vozes
(vindas de não muito longe
e não muito perto)
distorcidas, intercaladas
irônicas frases ao vento
enquanto as bandeiras oscilam
despertando a fúria, a fé e a foice.
[M.S.]