Blog

Perdida (série da Netflix)

Feriadão prolongado e inesperado aqui em São Bernardo e me senti no dever moral de contribuir com umas dicas para você não sair de casa. Vamos lá!

Alerta: contém spoiler pra caramba!

A primeira temporada da série espanhola “Perdida” estreou esta semana na Netflix. Segundo o Jornal Correio Brasiliense, é “uma surpresa a cada episódio. Série Perdida, na Netflix, é diversão certa para fãs de suspense”.

Com seus onze longos capítulos cheios de obviedades e de personagens estereotipados, a série (espanhola na origem, mas com DNA de dramalhão mexicano) é tão previsível que te faz querer assistir só pra se certificar que aquilo que você acha que vai acontecer, acontecerá realmente. E acontece!

Então não se preocupe com os spoilers aqui, já que a série toda é um spoiler de si mesma – da primeira cena do capítulo 1 à última cena do décimo primeiro capítulo, está tudo tão traçadinho que é possível, em determinados momentos, até reproduzir com certa antecedência algumas falas das personagens.

Fazendo uma parte, essa coisa de se antecipar às falas previsíveis das personagens é bem irritante, eu sei, mas é um vício que admito possuir e é particularmente prazeroso quando se assiste em ambiente compartilhado, especialmente em cinemas, em que a relativa escuridão favorece o pecado sem a identificação do pecador.

Mas voltemos ao objetivo deste texto, que é estragar sua vontade de assistir a série. Ou não…

Se bem que para a geração que cresceu na cultura do Vale a Pena Ver de Novo e das revistas de novelas, spoilers só aumentam o desejo de assistir (se você não faz parte dessa geração, pare por aqui. Vou até pular umas linhas pra te ajudar).

*

*

*

O fato é que a série faz jus ao nome. Está todo mundo perdido: atores, telespectadores e, principalmente, os roteiristas. E o que é fundamental: ninguém se encontra.

Uma das atrizes interpreta uma atriz ruim, que só consegue papéis em seriados por conta do marido mafioso. Já colocou um espelho em frente ao outro? Então… Ela deve ter interpretado a si mesma… Nem é bom falar muito, porque não sei como ela conseguiu o  papel na série.

Brincadeira: tem que ser muito boa para parecer ruim. Ou ser mesmo ruim…

O que todo mundo sabe é que essa coisa de colocar uma série dentro de outra é um recurso para ocupar o tempo. Estou certo ou não?

Mas tem muito mais!

Tem uma defensora pública que faz uso de métodos inusitados para alcançar a justiça, tem personagens que do nada desaparecem do meio da história (devo ter dormido e perdido alguma parte). Tem um guarda-costas que (como naquele famoso filme, com aquele famoso ator, daquela famosa produtora) se envolve afetivamente com a protegida. Tem tiro, porrada e bomba… E sangue, bastante sangue e olho roxo em meio a músicas melosas intercaladas com choros forçados.

Chega a ser fascinante!

A história começa na Espanha e se desenvolve na Colômbia e apesar das claras referências a este país, o enredo e as performances dos atores inevitavelmente vão lhe remeter ao México.  Não se deixe perder por este pequeno incidente geográfico…

Até mesmo porque, considerando critérios adotados pelo General Pazuello, Colômbia e México seriam países vizinhos.

Alerta: Se você ainda está lendo e não quer saber mais, pare por aqui. Agora sim vem spoiler da pesada. Vou pular mais três linhas pra você ter tempo de avaliar se continua lendo.

*

Mentira! Já pulei linhas demais…

A coisa é a seguinte: um casal tem uma filha de 05 anos sequestrada a mando de um casal de mafiosos que tiveram uma filha vendida, quando recém-nascida. Logo se descobre que na verdade eles sequestraram a própria filha que o casal havia adotado ilegalmente.

Maior zona!

A filha biológica, já com 18 anos, descobre que os pais com quem convive a sequestraram quando criança e quer conhecer os pais que ela acredita que são biológicos, sem saber que convive com os pais biológicos já.

Ou pelo menos pensa que são também, porque a esta altura já se sabe que não é bem assim… Afinal, diz o ditado que o diabo mora nos detalhes e, em se tratando de “Perdida”, os detalhes saltam como mãos estapeando os rostos. Inevitável não perceber.

O casal que teve a filha sequestrada (e que a adotou ilegalmente) faz de tudo para reencontrar a menina (já moça). Rola até uma prisão por tráfico de drogas, autoempreendida para que o pai, na penitenciária onde estava o sequestrador, descubra o paradeiro da filha.

Quem nunca? Prison Break já havia dado a linha, e antes dela outros mais. Era só seguir o fio e repetir a dose…

No fim, o pai traficante morre, o pai que teve a filha sequestrada e que foi preso para descobrir seu paradeiro é extraditado para a Espanha, para cumprir a pena lá, e a filha descobre que o homem que a sequestrou para o mafioso é, na verdade, o seu verdadeiro pai, que tinha um romance de juventude com a péssima atriz, esposa do pai mafioso.

A menina fica órfã de um pai e ganha outros dois  – presidiários – e de quebra faz as pazes entre as duas mães.

Tudo acaba maravilhosamente bem, na mais completa desgraça. E o que é pior: tem brecha para a segunda temporada.

Veredicto: aguardando ansiosamente as cenas dos próximos capítulos!

*

PS: Brincadeiras à parte, a atriz que interpreta uma atriz ruim é ninguém menos que Ana María Orozco, da novela colombiana “Betty, a Feia”, vencedora de importantes prêmios  da televisão e do cinema na categoria Melhor Atriz Internacional 😉

                                                                                                                                                         [M.S.]

É Floyd!

É Floyd, Amarildo,
De sua porta à tortura conduzido
Os seus Dias foram encerrados...
Facínoras de Estados militarizados!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Cláudia,
Fuzilada em plena luz do dia
Ao porta-malas presa, desprezada
Por trezentos metros arrastada...

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Christian,
Ilustrando mais uma triste notícia
Anulado o sonho de motorista exímio...
Sorrateiro grupo de extermínio!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Diego,
Combate-se opressões sem dar sossego...
Calaram sua voz, não seu pensamento
Crimes de ódio com espancamento.

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Marisa,
Defender filhos do arbítrio, quem não precisa?
Recusar-se a castigar sua prole por nada...
Bandidos uniformizados lhe mataram à coronhada!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Marielle,
Seguia na luta à flor-da-pele
Com Anderson eliminada cruelmente...
E os bandidos elogiados pelo presidente!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Evaldo,
Ao lado de mulher e filhos, ceifado
Oitenta tiros não foram enganos...
Assassinos fardados e desumanos!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Ágatha,
Do banco da Kombi, recostada
Um certeiro tiro lhe tirou a vida

Não foi acidente, não foi erro!
A bala, supostamente perdida,
Sempre encontra o corpo negro.

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Lucas,
As suas palavras foram poucas
“Esta é minha casa" - te ouviram
E vivo, feliz, nunca mais o viram.

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, João Pedro,
O seu corpo, e você tão cedo!,
Atravessado de balas...
Demônios de fardas e balaclavas!

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, Miguel,
Deixado sozinho no arranha-céu...
A pergunta não é à toa:
“E se fosse o cachorro da patroa?”

São milícias, são racistas, são fascistas,
Cães de guarda das ratazanas capitalistas!

É Floyd, George,
Hora dessas a revolta explode
E que o povo preto, o povo pobre,
O povo trabalhador

Cansado do sofrimento e de tanta dor
Tome o poder em suas mãos
E faça uma legítima revolução.

[M.S]

Durante a noite

Dormi cedo. O corpo, amaciado por horas de caminhada a esmo, pedia folga e alguma paz. A mente, entorpecida, por um tempo esqueceu de si, esqueceu de…

Nas profundezas do sono não lembro se sonhei. Sinto que sim e que foram intensos, turbulentos, como têm sido todos os outros, como se acordado estivesse.

Quem sabe por isso mesmo à meia- noite despertei, insone. Demorei a abrir os olhos e por instantes tive a impressão que a escuridão é a ordem natural das coisas.

A luz da Lua entrou pela janela e o mensageiro dos ventos tilintou levemente.

Um sereno frio tocou em meu rosto, entrou pelas narinas e encheu os pulmões de um ar que trazia consigo o cheiro das folhagens verdes das plantas do quintal.

Será que o cheiro das coisas são as coisas? As coisas dissolvidas em doses quânticas, carregadas pelo vento?

Silêncio…

A natureza não responde. As coisas são. Apenas são o que são. Não possuem nomes nem mesmo a ideia de si. Não possuem significados nem lançam enigmas pelos ares. Não buscam sentidos nem sentem.

Às vezes somos quase como as coisas: não fazemos ideia de nada. A diferença é que sentimos, sem saber o porquê…

Fazem semanas que lá fora os dias são menos barulhentos e as noites não se ouvem os cães latindo, os estouros de escapamentos, a música alta vindo do alto do morro, as máquinas da fábrica ao lado, incansáveis nas madrugadas.

O sono deu lugar à sede; a falsa calmaria na mente cedeu à tempestade dos pensamentos: a incompreensão dos fatos, o vazio dos acontecimentos e outro silêncio que grita, distante, estridente e sem explicação.

Grita em silêncio, lançando fragmentos de respostas… Nem tudo é sobre a gente, mesmo sendo.

A Terra, redonda, gira em torno de si mesma e em meio a outros astros gira em torno do Sol, gira, gira, sem noção da solidão do espaço, sem noção, sem espaço…

Era preciso dormir para esquecer. Não de tudo, mas da repentina e constante ausência que faz o Sol quando não brilha; quando, com sua má disfarçada indiferença, não aquece e insiste no inverno; quando, com a ponta de dedos feéricos, pressiona a boca do estômago e põe o coração a bater na arritmia dos passos em uma caminhada forçada.

Era preciso… Mas já se vão as horas, as estrelas, a noite.

Talvez

Tudo em mim se vai
Tudo o que é meu
E tudo o q'eu poderia ter sido
Inclusive o que eu sou.

De mim apenas fica
Um pouco do que fui
E um tanto do que serei
(do que, na verdade, penso em ser)

Já não tenho medo de me perder
Mas 'inda me procuro a cada instante
Por isso escrevo como quem joga
Palavras ao vento,
Conchas ao mar,
Areia no deserto...

Sou isso mesmo
E nem mesmo sei quem sou
No espelho me desconheço,
As águas não me refletem,
O fogo não ilumina
Nem tampouco aquece.

Sua voz ainda assusta
Seu nome tange os signos
Mas não encontro eco na memória.
Todavia, persiste.

Assim, a sua ausência é tão concreta:
Às vezes desencontrada
Outras, jamais acontecida.

Talvez eu explique,
Talvez não entenda,
Contudo, esta é a minha vida.

[M.S.]

Poética do puro e do profano

                     I

...Às vezes escolho um beco sem saída
Mas não há sempre becos sem saída
Nem tristeza que perdure
Nem felicidade infinita.

                    *

"All the bridges that you burn
Come back one day to haunt you".
                  (Tracy Chapman)

                     II

Sou o operário das letras
- Imagino-me assim;
Faço com tal:
Fabrico ilusão, sonho e ideal;
Instinto? Revolução.
Sigo esta trilha
e acho que é essa a minha natureza.

                    *

"Everybody sing we're free, free, free".
                         (Tracy Chapman)

                    III

Procurei respostas para algumas situações...
Respostas não encontrei em frases
- encontrei-as em seus atos.
Telefonei: será que ainda alimento esperanças?
Acho que regresso ao passado e talvez seja tarde
Porém não acredito que seja - tudo mudou.

Escrevo como se depusesse em um grande julgamento:
Os versos que fiz para os meus camaradas foram sinceros;
Os versos que fiz para a minha amada foram sinceros.
Sinceros foram os versos que não ousei fazer.

Estou pensando em novas frases com velhas palavras até.
Quando preciso com urgência tudo desaparece.

Meritíssimo, não sou poeta, não sei escrever.
Pode ser que eu tenha transmitido essa imagem,
                                      só isso,
                                         só...

                    *

"Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência".
                   (Eduardo Alves da Costa)

                    IV

Tudo bem, digamos que eu seja realmente poeta.
Brincando de se passar por hermeneuta,
                         ou astronauta
                          das palavras
                      dos sons citados
                       sem ritmos, dos
                   fonemas, dos planos
             dos filmes dos cinemas...
Pouco (ou nada) importa a esta altura.

                    V

Mas sou, som sim o poeta
- o poeta do apocalipse, da beira do precipício
                       fazendo das letras o meu
                                         ofício
                                 e o meu vício.

Sou a coisa podre
remoendo o treco nojento que revira o bagulho escroto
à procura do nauseabundo odor das palavras.

Sou o seu nada
o êxtase da indiferença retorcido ao nunca;
o ser misterioso que ao lhe ver passar ao seu chão
                                            junca.

                    Sou o poeta
                        do
                    fim do milênio.

Vejo as casas que transmitem ideias
                  serem destruídas,
Vejo as casas que abrigam os mortos
                  serem destruídas,
Vejo a poeira se erguendo
enquanto o concreto vai caindo.

Tentei. Tanto quanto tive tempo.
Trespassando horas e toneladas.
Tudo: multiplicado pelo vazio absoluto

E, em meio a tanta magnitude,
em meio à gravidade da situação.
ainda posso ver uma criança sorrindo.

Eu sou o poeta e não o profeta.
Tenho o alfa e o ômega - o início e o fim -
                         não em minhas mãos
                   mas em minha imaginação.

                    *

"A vida nós a amassamos em sangue
         e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual..."            
                 (Ferreira Gullar)

                    VI

Epílogo: Os corpos em chamas na noite tranquila...
           As cinzas no céu, carregadas pelo vento
                             para repousar no mar:
                         Cinzas da poluição fabril
                     resultada da ganância febril.

                    *

               "You in your fancy
               Material world
               Create in your image
               A supreme god

               Your virgin mary
               Your holy ghost
               Claimed to be purê of heart
               Have hands are stained with blood"
                                  (Tracy Chapman)










Palavras

1 – É necessário dizer

Preciso dizer-te
Esta noite, somente
Uma palavra-chave
Abrir as portas do mundo
E somar cada estrela
De todas as constelações
E multiplicá-las por cada gotícula
De água das nuvens desse inverno...

Preciso dizer-te, celeste
É o espaço sideral
Porta e chave do Universo.
Invadir, já, o planeta
Da constelação de mesmo nome
E alcançar um pedacinho
De um sonho e de uma vida
E multiplicar, multiplicar
Por todas as ansiedades
E por todas as esperanças...

Preciso dizer-te, Aurora
É mais que a luz da manhã;
É pura sincronia
Dos versos divinos
Concretizada (em vão)
Pela necessidade
De efeitos naturais
Para acordar os seres humanos...

Estender, pois, a mão
Sem luva que derrube
Ao escapar,
Mas estender a mão nua,
Sem segredos a esconder.

2 – Perspectivas

Preciso dizer-te
Que já estamos sem tempo
E há tempos estamos distantes.

(Uma palavra em desespero
percorre meus pensamentos)

Preciso dizer-te
Que temos, ainda, alguma chance
E as alternativas foram abandonadas.

(Uma voz suave
alucina minha alma)

Preciso dizer-te
Que os planos foram queimados
E, mesmo assim, lutamos.

E por falar em cesta básica…

Senta que lá vem história…

Era início dos anos 80. Morava ainda em Embu das Artes e, por óbvio, a memória daqueles anos são apenas flashes de episódios recortados.

Eu devia ter uns 3, 4 anos e morava numa casa de dois cômodos com meus pais, meus irmãos, um casal de tios e seus filhos, meus primos.

Não tenho memórias dessa convivência, mas curiosamente recordo de dois episódios específicos…

Continuar lendo “E por falar em cesta básica…”