Tenho sucumbido muitas vezes.
Depois, respiro fundo,
levanto,
lavo o rosto,
sigo em frente.
Não é fácil morrer,
mais difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar-se na luz,
sonhar com a lua,
e tragar o mar.
Eu sigo renascendo,
não sei mais para
onde seguir.
Abracei minhas raízes
e me permitir subir.
[Sil de Jesus]
Sil de Jesus – Poetisa, terapeuta e servidora pública.
Gosto da ideia de encontros fortuitos
quando, ao cair da tarde,
o Sol já não arde
quem arde somos nós
- dois sóis
Gosto das circunstâncias inesperadas
inconscientemente desejadas
com a força de um furacão
impelidas pelo desejo
de seu beijo
Gosto de como me toca com seu olhar
quando, lançados ao mar,
navegamos por águas calmas
de nossas almas
- desnudas
Gosto, por fim, de seu sorriso
inferno e paraíso,
porto seguro no escuro,
um tesouro escondido
- meu abrigo.
[M.S]
À noite
Quando vou à cidade
E as ruas estão descongestionadas,
Tudo parece tranquilo:
Nada demais acontece
- o que é breve fenece
o que é febre adormece
o que é surdo amortece
o que é dor o amor esquece
o que é maldição vira prece
o que é pensar arvorece...
Então, o que era egrégio ficou pouco
O que era livre ficou louco...
E os prédios não estão mais derretendo.
[M.S.]
Pequena notinha explicativa: Escrevi estes dias, retomando uma célebre frase de um personagem do filme “O Carteiro e o Poeta”, que o poema pertence a quem lê. É o caso deste poema, escrito sem letras iniciais maiúsculas e sem pontuações para cada leitor seguir sua própria ordem e colocar seu próprio ritmo, sua entonação pessoal e atribuir seus próprios sentidos e significados. Eu mesmo faço várias leituras dele, e cada uma com alguns sentidos diferentes. Abaixo, compartilho a minha preferida 😉
venta
ou você inventa
encontramos os amigos parados
eles nos sorriem como fôssemos velhos
de guerra
é preciso mais que seus sorrisos amarelos
em seus cinismos e em suas sinceridades
a cidade está só e já não podemos
com nossos bolsos
as folhas caem em cabeças ocas
meus votos, meus sentimentos
tudo o que sinto é o gosto amargo
da vitória transformada em fim de tudo
e estamos para o que der e vier
mas nada dá e nada vem
[M.S]
I
Eu preciso abandonar
Este louco projeto de sonhar com você
O sonho nada me diz
E você, então, se foi há tempos.
Aquela luz em torno de seu corpo
Era mera impressão
Aquele brilho em seus olhos
Era reflexos dos meus.
(Ela jamais existiu)
Eu me pergunto: como é que pode
Isso ter acontecido desta maneira?
(Está na hora de vocês agirem como adultas)
Mas tudo o que eu falei
Foram frases sombrias
Mesmo as mais bonitas
Estavam carregadas
Do desejo dos seus lábios
Ao desejo do seu corpo
Nada era o que eu queria
Apenas as desgraças
Nada se repetia
Apenas os sentimentos
E a opacidade das imagens
Que se foram...
II
Eu preciso abandonar o hermetismo
O transcendental pensar metafísico
Preocupar-me com o metal
(O concreto)
Abandonar a ociosidade
Deixar o corpo cansar
Deixar a mente esquecer...
O segredo dos seus olhos
O meu ar de que tudo está tão claro
Como se não estivéssemos à beira do milênio
Nada me dizem...
A sua falseada alegria
O meu cinismo ingênuo
Como se não estivéssemos para nascer
Nada me dizem...
O seu gesto de incompreensão
A minha suposta paciência
Como se não estivéssemos perdidos
Nada me dizem...
Nada me dizem
Mas eu é que estou surdo.
[M.S.]
quando o tempo parou
parei de contar os dias
as noites nuvens em fogo
em céus sem estrelas
as manhãs
repetições de si mesmas
quando o tempo parou
os fantasmas pulsaram
uníssonos e enfeitiçados
uma mente brilhante
um corpo quente
um coração gelado
quando o tempo parou
veloz sobre os caminhos
dissipado em assombros
de mim se foi um tanto
de mim ficou um pouco
perdas penas escombros
quando o tempo parou
senti o peso do silêncio
as batidas tensas
na cabeceira da cama
o sono em fuga
os sonhos em chama
quando o tempo parou
pairei
[M.S]
Às memórias que as palavras trazem, adicionei imagens que remetem a outras lembranças, construindo algo fora do tempo, ou melhor, anacrônico, em que os tempos se misturam e as histórias e as memórias se perpassam.
Não seria assim, na tecitura da vida, entre tempos e contratempos, aos trancos e barrancos, que vamos tecendo nossas histórias?
E as histórias pessoais, quando as apresentamos, por escrito ou em outras narrativas, carregam sentidos tão íntimos que por vezes se tornam indevassáveis, ao mesmo tempo em que podem se encontrar com os sentidos de outras pessoas!…
“O poema (já dizia o carteiro ao poeta) pertence a quem lê”. Nesse caso, a quem ouve e vê.