Fora do tempo

Sem o susto de cada dia o homem não vive. 
Não pode com a certeza do fim ou de um recomeço sem tréguas, 
Com o imediato silêncio no instante que chega - e passa, 
Com o sopro do vento que traz uma gota de chuva,
Com a maneira certa de falar ou de se portar à mesa... 

Não pode com isso, muito menos com aquilo. 

Com uma fonte de desejo à frente e uma moeda que falta, 
Com o futuro que se esgarça a cada ação planejada 
- como areia que se esvai numa intenção esquecida.

O homem não pode consigo. 
Vê a estreiteza das rochas e insiste no naufrágio, 
Abandona-se à sorte para deleitar-se com a paisagem. 
Quando se dá conta, já foi, sem nunca ter sido. 

[M.S.]

A noite mais longa

Começou por volta das 15h, mas a algum tempo já dava sinais: um certo gelo no ar, um distanciamento entre os elementos naturais, uma forçada indiferença e, antes que desse por mim (que déssemos por nós), na plenitude da tarde a noite mais longa do ano desceu sobre nossas cabeças. Continuar lendo “A noite mais longa”

Noventa e cinco centavos

− Quanto custa?

− Noventa e nove centavos.

Colocou a mão no bolso direito de trás da calça; reparou que estava sem a carteira. Não se preocupou. Com certeza teria caído no banco do carro, como sempre acontecia quando usava aquela calça verde musgo. Enquanto batia as mãos nos bolsos procurando alguma nota perdida, ou moedas do troco da manhã, pensou que não sabia porque ainda usava aquela calça, cuja cor não era das suas preferidas e o pano estava surrado pelo tempo, desbotado de tantas lavagens, ou antes, sabia sim: sentia-se confortável nela, era das poucas que se ajustava bem, não apertava no cós como as demais (e, maior vantagem não existia, podia tirar direto do varal e vesti-la sem se dar ao trabalho de levar ao ferro de passar, o que não era muito de seu costume, pois acreditava que o próprio uso se encarregaria de desamarrotá-las – hipótese em que teimava mesmo que os resultados refutassem a olhos vistos; porém, para seu espírito mais distraído do que prático, isto não era um problema). Sentiu algumas moedas e tirou-as com as pontas dos dedos, uma a uma, transferindo-a para a mão esquerda: dez centavos, cinco centavos, dez centavos, vinte e cinco centavos, outra de vinte e cinco centavos, mais uma de cinco centavos, uma de dez centavos, outra de cinco. Enfiou a mão mais fundo no bolso, apalpou novamente os demais. Era tudo. Entregou as moedas ao balconista.

O balconista era um homem magro e tão alto que era possível jurar que aquele balcão feito quase todo de vidro e com portinholas e tampão de madeira (no qual ele espalhou as moedas depois de as ter virado com um movimento rápido e barulhento semelhante ao de um jogo-de-bafo) fora feito sob medida para ele – os clientes mais baixos chegavam a ter de levantar as pontas dos pés para olhar inteiramente a extremidade do lado de dentro. Os mais comedidos nas gracinhas diziam que da casa de Seu Dedé – assim os poucos próximos chamavam ao balconista – até o estabelecimento costumava-se levar vinte minutos de longa caminhada, mas para o “Pernalta” – como o apelidavam na surdina os menos discretos – bastavam duas pernadas; outros, mais atrevidos e maliciosos, diziam que quando partisse dessa para melhor ao invés de um ataúde iriam descer-lhe os sete palmos dentro do próprio balcão, que paletó de madeira nenhum lhe serviria – e por extensão dessa piada de muito mal gosto e de péssimo agouro, quando saíam de casa pouco antes do almoço para “abrir o apetite”, como se dizia naquele tempo, avisavam as esposas que iriam “molhar o bico na budega do Branca de Neve”. Nada disso escapava ao seu conhecimento, mas ele, ainda que se se importasse (nunca viríamos a saber), jamais esboçara qualquer reação ou protesto.

Metódico, o balconista primeiro separou as moedas pelos valores; depois passou-as a contar, balbuciando os cálculos que fazia mentalmente.

− Está faltando cinco centavos – afirmou com um tom seco na voz, sem levantar os olhos, enquanto cofiava as pontas do bigode.

− Não senhor! Faltam apenas quatro centavos. – respondeu o homem da calça verde musgo.

− Pois sim. Que seja. Você precisa completar. O caixa não pode ficar negativo –, retrucou o balconista, ainda sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça, enquanto pegava a tampa de uma caneta esferográfica que estava sob o balcão e passava a coçar um dos ouvidos.

– Ora, mas o senhor não vai fazer caso de quatro centavos… ou vai? Porque, se fosse o contrário, sabe…

Numa expressão que revelava uma certa contradição em seu humor, e sem dizer uma palavra, o balconista arcou as sobrancelhas grossas e agrisalhadas e em seguida franziu a testa; com um peteleco jogou a tampa da caneta para o lado e, segurando o pacote com uma das mãos junto ao peito e com a outra esticada, levantou e abaixou rapidamente os dedos, por três vezes. Ao observar esta cena, um rapaz levemente estrábico e uma moça pálida, que seguiam na fila de mãos dadas, olharam um para o outro e trocaram risinhos espontâneos, pois a cena lhes remeteu a um filme que haviam assistido no cinema na noite anterior.

A fila crescia e, junto com ela, a impaciência dos que aguardavam. Naqueles breves segundos, os clientes pareciam ter a sensação de que estavam meses à espera de serem atendidos e, a princípio, na forma de cochichos e depois em tons que não deixavam dúvidas do que estavam palestrando, começaram a comentar a situação entre si.

O da calça verde-musgo coçou a nuca e tornou a vasculhar os bolsos. Pensou em pedir que o balconista o aguardasse ir até o carro buscar sua carteira, mas diante do crescente burburinho, desistiu da ideia.

− Vamos, meu filho, o arroz está no fogo… – reclamou quase para si mesma uma senhora de cabelo com meio-coque e trajando um vestido de estampa cujo corte lembrava o de uma cortina de sala-de-estar.

− Ora, ora, deve estar achando que só tem ele para ser atendido. – respondeu o senhor de óculos com aros tão redondos quanto as próprias bochechas, em tom baixinho e esticando o pescoço em direção à senhora do meio-coque, que estava logo à sua frente.

Usando uma camiseta regata branca muito apertada para sua barriga avantajada e que também contrastava com o clima frio, um barbudo que acabara de entrar na fila e mal sabia o que estava acontecendo, decidiu esquentar o tempo e, batendo palmas compassadamente, soltou uma voz forte e grave que inundou o ambiente e teria afogado todos os presentes, se ela fosse a ressaca do mar, cujas ondas quebravam nas areias, para lá do outro lado da rua.

− Como é? Como é que é? É pra hoje ou pra amanhã?!

Com um Walkman preso à cintura e um fone de ouvido que tocava uma música bastante ruidosa, o próximo da fila parecia selecionar, de dentro de uma pochete volumosa e colorida, uma fita para substituir a que estava chegando ao fim. Não que não tenha percebido o que se passava, mas era o único que permanecia numa tranquilidade que beirava a indiferença. Às vezes olhava para um lado, olhava para o outro, olhava para trás, talvez observando o movimento ou à espera da chegada de alguém; às vezes puxava um pouco mais para baixo a aba do boné. Certamente estava ocupado com outros pensamentos.

O que estava em atendimento mais uma vez afundou o quanto pode as duas mãos, como se tentasse entrar com o corpo inteiro dentro dos bolsos da calça. Para seu alívio repentino, sentiu no pequeno bolso um corpo redondo, frio e metálico; ficou feliz, pois era a tábua de salvação que precisava naquele mar de vergonha no qual estava se afogando ao ser atirado aos tubarões pelo homem do vozeirão, que além de tudo tinha jeito de marujo – ao tirar do bolso, constatou que era a medalhinha de Santo Onofre, que naquele dia guardara no bolso, pois sua corrente havia quebrado.

Sem dizer uma palavra, virou as costas e saiu, sob olhares acusadores, deixando para trás o balconista com o pacote nas mãos e os noventa e cinco centavos em cima do balcão.

[M.S. – Julho de 2018]

Duas tribos

Ela era tão sã e séria que as meninas a invejavam, os meninos a temiam e os adultos lhe duvidavam da idade. Não ter uns parafusos a menos lhe fazia uma falta; um pouco de maluquice lhe faria bem…

Mas aquele verão que estava se fechando para os princípios das águas marcianas seria marcado por muitos contrastes, alguns desassossegos e outros contratempos, a começar pela chegada daquela que em segredo apelidamos de “Sombra”, em contraposição da que um dia fora levada às pressas à administração central e jamais retornou, para nós desaparecida desde então pois, quando perguntávamos, nos respondiam simplesmente com um olhar silenciador.

Sei que algo havia se quebrado – sem recuperação se fora, irrecuperável ficara. De sorte que naquele final de estação, quando uma partiu e a outra chegou – uma sem dar tempo de levantar poeiras e outra sem dar-lhes tempos de assentar –, naquele final que prenunciava novos inícios, velhas e novas idades se cruzando em um cubículo que mal cabiam trinta e quatro mesas, dezessete assentos e quase o dobro de pessoas a lhes ocupar, muitas histórias aconteceriam e nenhuma seria contada – a não ser as histórias ocorridas entre frações de segundos e que, não fosse por capricho do destino e da imaginação que as preservaram na memória, teriam passado desapercebidas ou não teriam sido imaginadas.

Pois é sabido por todo mundo, inclusive por aqueles que fingem não saber: nenhuma história tem mais força e nenhuma é mais real que a história inventada, porque esta cabe em qualquer palma da mão, desde a mais áspera até a que nunca tocou no cabo de uma enxada ou de uma vassoura, nem mesmo quando criança, numa de brinquedo, quando brincava…

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2018

Prometo não dizer nunca;
e de prometer jamais me contrariar
- nunca antes, nunca depois, sempre agora...

Um instante preso dentro de uma garrafa
opaca e sem tampa;
Um instante pronto para ser bebido
até a última gota,direto do gargalo
para a garganta.

Prometo escolher só as palavras erradas
- as mais rotas, irregulares e inexatas
Para que todos os sentidos sejam possíveis,

Para que nenhuma palavra
seja sentida, mesmo que linda
e tudo seja incompreensível
e ao mesmo tempo cristalino
como o brilho de uma sinapse
em seu ápice,
no instante em que finda.

Prometo não dizer prometo
e não arrancar da pele a flor,
à flor da pele,
quando exausto,
num silêncio incauto e ao infinito,
soltar um grito em série.

Prometo não dizer mais nada
Prometo não guardar segredo
e ainda (o que à memória agrada)
- prometo não esquecer do medo.

[M.S.]











Vão-se os anéis…

O dia que vem chegando,
As palavras que disse sem pensar,
As consequências inevitáveis,
A impulsividade contagiosa de meus amigos..

Somado a tudo isso: a esperança perdida.
Salvar o homem? Para quê?
Ainda assim, persisto - persistimos.

Encontro rostos conhecidos,
Vozes ressurgem na memória...
Gritos - nesse instante silencioso -
Cerram o sono e a paciência.

É preciso ter coragem ou estar louco
Para saber-se a muito e ser tão pouco.

A manhã se aproxima,
Sabemos que o Sol existirá longamente
E que cada manhã vindoura é um dia a mais
De menos paz, de intensa irracionalidade.

Preso neste mar de papéis
A mente convergindo para a incoerência
E essa lembrança triste e serena, trapaceira.

Vão-se os anéis, os dedos...

[M.S., abril/2000]